Em Busca de Teu Perdão

8 Capítulo 8 - Si me tenías


Notas iniciais
Acompanha o capítulo a canção Si Me Tenías - Edith Márquez Link ~> https://www.youtube.com/watch?v=Wq3uZrIdeIQ

***

Maria se irritou com a petulância de Esteban de responder daquela maneira a Eduardo. Ele não tinha esse direito. Eduardo ficou sem graça, mas tentou apaziguar a situação.

_ Esteban, é só uma dança.

_ Ora você... – Esteban começou a frase com a clara intenção de ofender a Eduardo.

_ Por favor, Esteban! Não há razão para que você constranja meu convidado, Eduardo não disse nada demais. – Maria o repreendeu irritada.

_ Perdão por constranger seu convidado, mas nós somos recém casados, Maria. E Eduardo há de convir que não é de bom tom que você dance com todos os homens do salão como se fosse uma jovem cortejável. Agora você é uma senhora.

_ Por favor, Esteban, que formalismo. – Disse Eduardo sorrindo – Ninguém nesse salão vai se escandalizar que sua esposa dance com um amigo numa recepção em sua própria casa na presença de seu marido.

_ É claro que não vai! – Maria respondeu altiva. – Com licença, Esteban, vou dançar com Eduardo.

Esteban mordeu o lábio exasperado por sentir que, mas uma vez, Maria lhe impingia uma humilhação. E frente a Eduardo, justo frente a ele! Dissimulou sua irritação com um sorriso cínico, aos quais ele já estava habituando a dar e assentiu com a cabeça. Afastou-se e pegou uma bebida sorrindo aos convidados que passavam por ele. Quando olhou para um canto da sala e viu Ana Rosa conversando com Alfredo e com Beatriz, uma amiga dela foi tomado por uma ideia perversa. E se eu pago a Maria com a mesma moeda? Olhou para Maria que dançava sorridente com Eduardo, sem importar-se em como ele havia se sentido com a negativa dela e começou a caminhar firme até onde estava Ana Rosa.

_ Boa noite, amigos! Ainda não os havia cumprimentado.

Alfredo franziu o cenho. E olhou a Esteban irritado. Ainda não havia superado o pouco caso que Esteban fizera da amizade dos dois quando se comprometeu com Ana Rosa mesmo sabendo que os dois, não só tinham um compromisso, como que ele também era completamente apaixonada pela moça e enfrentava as negativas de seu pai para levar adiante aquela relação.

_ Alfredo. – Disse Esteban sorrindo e estendendo a mão. – Há quanto tempo não nos vemos.

_ Sim, muito... – Alfredo respondeu ao cumprimento sem entusiasmo.

_ Beatriz. – Estendeu a mão direita ao que a jovem atendeu ao galanteio dando lhe a mão e sorrindo enquanto a beijava sobre a luva branca que cobria parte de seu braço.

_ Ana Rosa! – se voltou para a ex noiva com um sorriso.

_ Como vai, Esteban? E a vida de casado? – Ela indagou aparentando não guardar mágoas.

_ Vai bem, muito bem como vocês podem ver. – respondeu Esteban tentando sustentar uma conversa antes de executar o que havia planejado.

_ Sim. Você está ótimo! Se nota que o casamento te fez bem, Esteban. – observou Beatriz.

_ Claro! – respondeu Esteban sorrindo. – Ana Rosa, você seria tão amável de me conceder a honra de uma dança?

Ana Rosa olhou para Alfredo indecisa. Ele não alterou sua expressão. Do outro lado da sala, seu pai conversava com outros figurões da política sem dar atenção ao que se passava no restante do recinto. Ana Rosa era uma pessoa com muito pouca personalidade. Todos conheciam sua natureza volúvel e como era fácil manipulá-la. Ainda mais Esteban que havia estado comprometido com ela durante alguns meses.

_ Tudo bem. – Ela respondeu aceitando o braço que Esteban lhe oferecia.

Quando se aproximaram do meio do salão, Maria se deu conta dos movimentos de Esteban. Pôde imaginar cada um dos passos que ele havia dado desde o momento em que ela aceitou dançar com Eduardo. Eduardo sorria, alheio ao clima que se produzia entre o casal pela presença dele e de Ana Rosa.

_ Eu nunca pude te dizer como fiquei feliz por saber do aparecimento do seu avô e de como a vida acabou te recompensando por ser uma jovem tão maravilhosa.

_ Obrigada!

Maria respondeu seca, atenta à movimentação de Esteban que dançava com Ana Rosa. Esteban fazia questão de que Maria o visse. Dizia anedotas para conseguir que Ana Rosa sorrisse e ela soltava altas gargalhadas. Por mais que dissimulasse, não podia evitar estar atento à mão de Eduardo nas costas de Maria e em como ela segurava sua mão. Ele podia notar como Maria disfrutava contato com o almofadinha, sentia-se perdendo-a. Mas não queria mais mostrar-se humilhado e frágil frente à Maria, por isso resolveu devolver-lhe o agravo dançando com Ana Rosa.

Os músicos pararam de tocar e Maria se afastou de Eduardo.

_ Você não quer dançar mais? – indagou Eduardo

_ Não, perdoe-me, Eduardo, estou muito cansada. Com licença.

Maria saiu da sala tentando disfarçar o incômodo que lhe provocava ver Esteban dançando com Ana Rosa. Não era possível que ainda o amasse, que ele ainda tivesse o poder de provocar ciúmes nela. Não queria evidenciar seu desconforto, por isso se retirou. No corredor que saía da sala, havia uma sacada. Maria parou ali, atravessou as cortinas que davam para a sacada da janela e ficou olhando para o jardim iluminado pela luz da lua enquanto pensava. Ali, naquela sala, estavam todos os envolvidos em sua história e no destino que ela tivera. Foi acometida pela tristeza que carregava dessa história e levou a mão ao peito, sobrecarregada.

Si me tenías porque cruzaste la frontera de otro cuerpo

Porque saltaste así al abismo de otros brazos

Si me tenías

Cada mañana en el reflejo de mis sueños

Si me querías, porque cambiaste nuestro amor por un antojo

Y desnudaste tu pudor ante otros ojos

Si me tenías porque perdiste el equilibrio

Y te alejaste de mi vida

Flashback On

Rio de Janeiro 1868

Maria abriu a porta e se surpreendeu com a visita de Alfredo. Havia conhecido Alfredo há pouco tempo, mas ele lhe havia causado muito boa impressão e não foi difícil começar uma amizade com ele. Naquela tarde, ele veio saber notícias de Sofia. Segundo lhe disse, estava passando perto de sua casa e não pôde deixar de entrar a cumprimentá-las.

_ Sente-se senhor Alfredo. Mamãe vai gostar de saber que o senhor veio vê-la.

_ Ela está bem? – indagou Alfredo preocupado

_ Nada bem. – Maria baixou os olhos. – Está muito difícil. Agora ela está dormindo, por isso não vou chamá-la para cumprimentar ao senhor.

_ Não é necessário, não vou demorar.

_ O senhor aceita um café, um refresco? Dona Úrsula está no quarto de costura, mas eu posso preparar para o senhor.

_ Não, Maria. – Ele disse suspirando. – Tudo que eu quero é uma boa conversa. Sei que você é a pessoa certa.

_ O senhor está triste? – Maria indagou preocupada.

_ Cada um de nós carrega suas próprias tristezas, você já sabe. – Alfredo divagou.

_ Já sei... – Maria concordou entendendo bem de que tristezas lhe falava o amigo.

_ Você não me importa que eu venha de vez em quando te visitar e conversar com você, ou sim?

_ Claro que não. Dividimos a mesma traição, não é mesmo? – Maria foi direto ao ponto.

_ Ana Rosa é uma jovem volúvel, mas eu sei que no fundo ela é uma boa mulher, não é uma má pessoa, alguém que faz o mal aos outros deliberadamente.

A Alfredo lhe fazia bem falar de suas dores de amor com Maria porque sabia que ela lhe entendia bem. Ela tinha passado por praticamente o mesmo e estavam envolvidos no mesmo imbróglio amoroso. Maria era a pessoa que mais podia entender-lhe no mundo.

_ Então, para o senhor, Esteban é o mentor de tudo? – Maria perguntou um pouco empedernida. Apesar de conservar algumas ilusões já tinha ideia da verdade dos fatos.

_ Esteban é o homem que o Barão de Vasconcelos considera ideal para Ana Rosa. Nunca aprovou nossa relação, nunca permitiu que Ana Rosa e eu nos comprometêssemos. E à Esteban... A Esteban que eu considerava meu amigo ofereceu 30 contos de réis como dote de Ana Rosa.

Maria se levantou trancando os dentes. Como Esteban podia ser tão miserável? Roubar a namorada do amigo e ainda por cima por dinheiro. Os olhos se encheram de lágrimas, não pôde evitar.

_ Eu ainda tinha algumas ilusões, Alfredo...

_ Que tipo de ilusões? – Indagou o jovem surpreso.

_ Que Esteban tivesse se apaixonado por Ana Rosa, por isso me deixou.

_ Tenho certeza que ele não a ama.

_ Você vê? Você vê? – Maria alterou o tom se virando para Alfredo – Isso faz dele muito mais canalha, Alfredo! Ele me trocou por um dote! Por um dote e uma posição social!

_ Eu sinto muito que você tenha tido que passar por isso, Maria. Você não merecia. – Lamentou Alfredo.

_ Você também não merecia que jogassem assim com sua vida. Algum dia os responsáveis vão pagar por essa injustiça! Algum dia!

***

Flashback Off

Rio de Janeiro 1870

Maria se aproximou do parapeito tentando recuperar-se da tristeza que aquelas lembranças lhe provocavam. Esteban não a merecia, nunca a havia merecido, por que ela se sentia assim? Por que ele ainda conseguia magoá-la, por que suas atitudes ainda a atingiam? Por quê? Por quê não podia simplesmente esquecê-lo? Poderia fazê-lo mantendo-o atado a seu lado por vingança?

Ya no te extraño cuando canto tu canción

No me hace falta tu deseo aqui en mi cama

Quisiera verte una vez más, para decirte que un “todavía”

No tiene caso, si me tenías

Quando Esteban se deu conta que Maria não estava na sala sentiu todo seu corpo gelar. Sentiu-se mal por haver dançado com Ana Rosa para atingí-la. Sua intenção não era magoar a Maria, mas acabava sempre fazendo-o. Se eu não entender que estou permanentemente em dívida com ela, não vou recuperar seu amor, pensou refletindo sobre o que fizera naquela sala. Devo suportar suas humilhações, seus mistérios e toda a amargura que ela possa ter porque fui eu, eu mesmo quem os provoquei, concluiu.

Ao fim da dança deixou na sala Ana Rosa e Beatriz com quem estava conversando, Alfredo se afastara da conversa, não suportava a presença de Esteban e resolveu procurar Maria. Andou por toda a sala tentando adivinhar onde ela estaria, não queria perguntar e que todos, sobretudo Eduardo, se dessem conta de que entre eles havia algo diferente. Jamais lhe daria o gosto de perceber que seu casamento com Maria não era em condições normais porque sabia que, à primeira oportunidade, ele tentaria conquistar Maria. Eduardo não se ligava às convenções sociais, todos sabiam que ele tinha fama de uma alma livre e muito fiel nos afetos, não aos contratos sociais.

Ao passar pela cortina da sacada sentiu não só o perfume de Maria, mas uma energia especial. Era o aroma de sua esposa, era sua presença, não havia dúvidas. Se aproximou lentamente dela por trás e tocou levemente seu ombro. Maria se virou surpreendida pela presença de Esteban e ele a viu naquele momento sem defesas, com os olhos cheios de lágrimas e de sinceridade.

Muy buena suerte

Yo te deseo un paraíso de mentiras

Un universo con estrellas que no brillan

Yo te quería

Y me obligaste a renunciar a la mitad de mi alegría

Os dois se olharam sem palavras por muitos minutos ou uma fração de segundos. O tempo se deteve naquele olhar sincero, naquele raro momento de sinceridade que entre eles não acontecia há mais de dois anos. Esteban acariciou seu rosto, enxugou suas lágrimas e disse terno:

_ Não chore, minha Maria.

Lentamente aproximou seu rosto do dela. Maria se deu conta que ele ia beijá-la e não teve intenção de resistir. Estava fragilizada, tomada por uma necessidade dele, uma saudade, algo difícil de explicar. O coração dos dois disparou com a intensa dose de adrenalina que a proximidade um do outro lhes provocava. Não era só um sentimento, era uma sensação física, quase um vício, era a ação do amor sobre o corpo.

Quando suas bocas se encontraram ele a comprimiu entre seus braços como que para evitar que ela fugisse dele. Maria correspondeu também ao abraço e se deixou levar pelo beijo do marido ao que se entregou cheia de paixão. Na noite anterior haviam se beijado, mas naquela noite era diferente. Sentiam uma impaciência, tanto desejo! Esteban saboreava cada canto de sua boca enquanto a acariciava incansavelmente com as mãos fazendo-a perder-se em seus braços, no seu calor, no abrigo de suas mãos grandes ajustadas ao corpo dela. Lentamente foram diminuindo a intensidade do beijo sem se afastar muito. Ficaram próximos se olhando ofegante.

_ Perdão, Maria, perdão por ter dançado com Ana Rosa, é que eu fiquei louco de ciúmes. Eu não quero te magoar...

Maria se afastou e olhou-o incrédula pelo que havia acabado de acontecer.

_ Não há razão para que tenhamos essa conversa, Esteban.

Maria disse isso tentando se recompor. Não podia tê-lo beijado daquela maneira, precisava manter-se firme. Afastou-se dele e voltou a apoiar-se no parapeito da sacada ficando de costas para Esteban.

Ya no te extraño cuando canto tu canción

No me hace falta tu deseo aqui en mi cama

Quisiera verte una vez más, para decirte que un “todavía”

No tiene caso, si me tenías

Un día entenderás que fue un error cambiar la realidad por fantasias

_ Então, você não está magoada porque eu dancei com Ana Rosa? – indagou Esteban baixinho.

_ De nenhuma maneira. No nosso casamento não há espaço para esse tipo de sentimentos. – Maria procurou manter-se firme.

Esteban se aproximou dela por trás, tentando-a com a proximidade de seus corpos.

_ Eu sim morri de ciúmes quando te vi dançando com Eduardo.

Esteban disse isso próximo ao ouvido dela perturbando-a ao sentir a respiração dele sobre sua pele.

_ Eu não... – ela mentiu quase sem conseguir falar pela sensação de desejo que ele lhe provocava.

Esteban a segurou pelos ombros fazendo com que ela ficasse de frente para ele.

_ Você tem certeza que não sentiu nada? – ele perguntou quase num sussurro.

_ Nada! – Murmurou Maria quase com os olhos fechados.

Ela já sentia o calor dele sobre ela. O olhar de desejo que ele tinha para com seus olhos, sua boca. Ela também ardia de desejo por ele, estava trêmula.

_ Isso só me faz confirmar algo que eu sempre soube. – disse Esteban instigando-a.

_ O quê? – ela abriu os olhos e olhou-o curiosa

_ Que você é muito mais forte do que eu.

Novamente a tomou em seus braços e beijou-a sem nenhuma resistência dela. Era maravilhosa aquela sensação, maravilhoso sentir seu corpo, seus lábios, seu gosto, seu aroma e sua entrega.

_ Eu quero te fazer minha. – sussurrou enquanto a beijava e a enchia de carícias.

_ Estamos no meio de uma festa, esqueceu? – indagou Maria correspondendo aos seus beijos e carícias.

_ Tudo que eu quero é você. Tudo o que me importa é você.

_ Não há sentido. – Maria fazia um grande esforço em recusar a proposta dele em meio àquelas carícias – Não estamos para isso...

_ Tem certeza?

Indagou Esteban beijando-a no pescoço e em cada vestígio de pele que o vestido proporcionava provocando arrepios e uma descarga de desejo no corpo de Maria que gritava e ansiava por Esteban.

_ Absoluta. – Negou Maria ofegante sem se soltar de Esteban.

Suas palavras diziam uma coisa, mas seu corpo dizia outra, Esteban sentia claramente como o corpo da mulher que amava vibrava e reagia à suas carícias apaixonadas. Sentia seu tremor, a sua entrega, a paixão com a qual ela também o beijava, sua respiração agitada. Sabia que ela também havia sentido ciúmes quando ele dançou com Ana Rosa, ainda que tivesse negado e, agora, sabia que ela queria fazer amor com ele tanto quanto ele com ela, mesmo que dizia que não. Parou de beijá-la lentamente sem interromper o momento de paixão que dividiam e olhou-a sedutor tentando fazer com que o amor fosse maior do que todas as mágoas e dúvidas que havia entre eles.

_ Vem comigo, Maria. Venha para o quarto comigo?

_ Esteban, temos convidados na sala, não podemos.

Os convidados ela usava como desculpa, estava louca para dizer sim, mas não podia, não podia entregar-se a Esteban, não queria. Ahhhh como queria voltar a ser dele...

_ Esqueça, meu amor! Esqueça tudo, pense só na magia desse momento. Vem comigo? Diga sim!

Esteban lançou suas últimas cartas de sedução e com seu corpo também tomado pelo desejo esperava aflito a resposta de Maria.

***