Em Busca Da Sobrevivência
19 O Último Beijo
Notas iniciais
Aquelas palavras não faziam sentido para Nayara; era loucura demais para ela entender. A garota já não conseguia pensar em alguma coisa aceitável para ser dita, e, de qualquer forma, não fazia sentido responder nada. Por isso, apenas continuou estática retribuindo o olhar cruel de Morgana, sentindo seu corpo tremer sem parar.
– Você é louca. – Comentou Nayara. – Isso um dia irá te matar. Sua loucura é mortal.
– Esse é seu melhor argumento? – Caçoou a moça mais velha, ignorando o insulto. – Achei que suas últimas palavras seriam melhores...
– Você nunca vai...
– Nunc deliquium.
A voz de Morgana soou calma e lentamente, penetrando o corpo de Nayara como o feitiço devia fazer. A garota não teve tempo de reagir contra tudo isso, seu corpo estava fraco e ela não podia controlá-lo. E, antes que a sala ficasse em um breu total, pode-se ouvir o som do corpo de Nayara caindo, completamente imóvel e duro.
– Espero que aproveite seus últimos momentos... Estando inconsciente. – Morgana quebrou o silêncio com um sorriso no rosto, completando a frase com uma breve e fraca risada nasal. – Adeus.
[...]
– CUIDADO! – Gritou Gabriel.
Como um estrondo, o Cérbero que corria em direção de Júlio passou a ir mais rápido, como se estivesse ouvindo o aviso de Gabriel. De alguma forma, a criatura mitológica ainda conseguia entender o que os meninos conversavam, e sabia muito bem que se atacasse enquanto um deles estivesse esperando, acabaria por perder a batalha. No entanto, isso não o impediu de atacar, apenas fez com que ele mudasse de rota.
Júlio foi pego desprevenido. Apesar de não ter sido grave, o animal conseguiu marcar sua pele com as garras que saiam de suas patas peludas.
– E-eu irei ficar bem. – Júlio sorriu. – Vá logo e salve Nayara.
– Você tem certeza? – Retrucou inseguro do comando que fora lhe dado.
Gabriel olhou para seu amigo segurando o ferimento com um dos braços, sorrindo confiantemente para si. E mesmo que estivesse extremamente aflito diante a toda a situação, resolveu seguir o “concelho” que fora lhe dado e correu em direção à mansão.
[...]
– Não consigo acreditar nisso... Isso só pode ser uma brincadeira. – Thalia repetia inacessivelmente, quase pirando.
– Ei, você quer parar de falar isso? Começou a irritar depois da vigésima vez. Ficaria agradecida se você fizesse-o. – Bruna falou em meio de um suspiro exausto.
– Eu estou tentando... Mas não dá certo! Sabe, esse não é o momento para se ficar... Grávida. – Continuou em murmúrios desesperados. – Você viu o caos que está lá fora, e agora terei de me preocupara com um filho! Não pode ser verdade, eu não consigo acreditar nisso!
– Chega! – Interrompeu Lucas. – Vamos esquentar as coisas por aqui.
– O que quer dizer com isso? – Perguntou Maria, entrando na conversa.
– Simples; Bruna está ligada à Gabriel, graças a um feitiço de ligamento que você, acidentalmente, fez durante um treinamento. Agora, o único jeito de revertê-lo e se salvar, é uma dúvida. Pois ninguém sabe qual é o feitiço que possa fazê-lo.
– O quê?! Deve ter algo no livro do Gabriel, não é possível... – Bruna se levantou em um pulo, correndo até o livro. Ela até tentou, mas suas mãos trêmulas denunciavam o medo de sua situação atual.
– Enquanto você procura por isso, eu procurarei os outros, numa dessas, eles estão precisando de alguma ajuda. – Anunciou Maria.
[...]
– Nayara... – Gabriel resmungou baixo ao entrar na mansão. – Droga! – Disse logo após avistar o corpo da menina, jogado, como se estivesse sendo ignorado há horas.
O garoto correu para tentar ajudá-la, mas algo o impediu de continuar. A barreira criada por Morgana. Sua voz murmurou nervosamente um feitiço:
– Obice vobiscum sum nolo malum hoc location.
– Ora, ora, então o amante realmente veio salvar sua amada! – A voz de Morgana ecoou por toda a entrada da mansão, fazendo os olhos de Gabriel desviaram para a escadaria, onde avistou a própria descendo as escadas. Por fim, continuou: – Parece que as coisas ficarão interessantes!
[...]
Júlio descarregou sua arma tentando atingir o seu oponente mitológico, mas, infelizmente, nenhuma delas conseguiu matá-lo.
– Droga...! – Exclamou Júlio ao perceber o ferimento sangrando em sua perna. A verdade é que, até tê-lo visto agora, nem sequer o sentia. Porém, agora que sabia dele, a dor estava realmente intensa. – Dói tanto... – Grunhiu com dificuldades, se esforçando do jeito que podia para conseguir andar, mas nunca tendo êxito.
Ele tentou se mexer mais algumas vezes antes que o gigantesco cão pulasse em cima de si, esmagando sua cabeça contra o chão. As patas do cão giraram o garoto de um lado para o outro, como se fosse um brinquedo inanimado, parando-o só após o desespero nos olhos de Júlio se tornar a única coisa que podia ser vista. O animal e o garoto se entreolharam por alguns segundos que carregavam horas, o tempo suficiente para que Júlio pudesse assistir sua vida inteira escorrer nos profundos olhos do Cérbero.
– Não me mate... Por favor... – Soluçou. – Estou disposto a qualquer coisa, eu acho...
Em meio à dor e desespero, Júlio pode ver o animal perder o brilho dos olhos. Aqueles olhos profundos e grandes que antes refletiam a vida do garoto machucado transformaram-se em apenas um buraco profundo com o semblante de um peixe morto. O líquido quente esguichou sobre o corpo de Júlio, manchando toda a roupa e os arredores com um vermelho pútrido e amarronzado saído do animal.
– Acho que isso é mais útil. – Maria sorriu friamente, revelando sua picareta ensanguentada e desmontando do animal.
A grande criatura deu seu último suspiro inconscientemente e seu corpo caiu para o lado, completamente sem vida.
– Onde arranjou isso?! – Interrogou Júlio, ofegante e agradecido.
– Ora, naquela casa onde vocês ficam! Há um depósito escondido no porão, quando estava vindo para cá, acabei por encontrá-lo. – A garota olhou mais uma vez para Júlio, mantendo um sorriso notável em seu rosto.
– Ah... Ei! Por que está olhando assim para mim? Você sempre foi assim, tão sorridente? – Mais uma vez, interrogou a garota.
– Bem, só posso dizer que você terá uma ótima notícia. – Ela olhou para frente. – Vamos logo, Gabriel pode estar precisando de ajuda.
[...]
O feitiço de Gabriel surtiu o efeito desejado, e a barreira escorreu até que não restasse mais nada.
– Então, chegou a hora? – Gabriel a encarou.
– Sim. Não é irônico? Você ter de morrer logo após ter salvo sua amada. – Morgana deu um sorriso amarelado.
– Essa sempre foi minha missão; Eu deveria garantir a segurança de Nayara. Agora, eu cumpri minha missão. – Embora assustado, manteve um tom firme e confiante.
Morgana movimentou suas mãos, jogando Gabriel para longe.
– Dro-droga! – Exclamou ofegante e dolorido.
Nayara levantou-se devagar, sem poder enxergar o que estava acontecendo. Estava desnorteada após seu desmaio, e a única coisa que conseguiu ouvir foi o berro de Gabriel:
– Cuidado!
Morgana tinha seu braço coberto por chamas escuras e mirava-o para a cabeça de Nayara. Antecedendo o golpe inevitável, a bruxa brincou com um sorriso cruel em seus lábios:
– Não se preocupe querido, isso é só um feitiço simples. Eu não morrerei só com esse foguinho.
A flama flutuante correu pelo céu em câmera lenta; Nayara não conseguia assimilar tudo aquilo. Quando viu toda aquela luz se aproximar de si, a única coisa que conseguiu fazer foi fechar os olhos e esperar.
– NÃO! – A voz de Gabriel ecoou pelo salão, sendo a única coisa que Nayara pode ouvir.
A garota rapidamente abriu seus olhos, percebendo que não fora realmente carbonizada. No entanto, quando raciocinou o que havia acontecido, pensou o quão bom seria ter ela mesmo recebido o ataque.
– Morgana, você irá se arrepender! – Suas lágrimas escorriam vagarosamente, enquanto Nayara corria em direção ao corpo caído no chão, sem força nenhuma para se mexer, mais ainda sim, respirando.
Tudo voltou a ficar embaçado graças as lágrimas que teimavam em rolar por suas bochechas. O bruxo continuava vivo no chão, entretanto, a morte dele era inevitável.
– Por que você fez isso? – Nayara perguntou com sua voz chorosa, esforçando-se para disfarçá-la.
– Eu tinha que fazê-lo... Essa era minha mis-missão. – Grunhiu de dor por um segundo, e então continuou: – Minha missão sempre foi te proteger, custe o que custar... – Parou por mais um segundos, fechando os olhos e abrindo-os em seguida. – Nayara, sorria para mim mais uma vez, e após isso, destrua-a! – Gritou buscando o ar.
– T-tudo bem. – Gaguejo com um sorriso trêmulo em sua boca. Seu corpo desceu até o garoto carbonizado, depositando um beijo terno e rápido. Aquele era, definitivamente, o primeiro beijo do casal, sem um ou outro ser forçado; Ele foi puro e doce, sem nenhuma intensão a mais. E, infelizmente, o momento durou pouco, pois o primeiro beijo também foi o último. – Eu gostaria de poder fazer mais por você...
– Eu te amo. – Gabriel disse, sem som nenhum. No entanto, não foi uma frase que precisava ser ouvida para ser entendida. Aquele era o final para eles, e suas últimas palavras seriam entendidas mesmo que os dois sequer estivessem se vendo. Seus olhos se fecharam devagar e, finalmente, ele teve paz. O bruxo estava morto.
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