Em Busca Da Felicidade.
10 No fim das contas.
Notas iniciais
POV. Susana.
Fazia horas que eu não saía do quarto, mal pregara os olhos durante a noite, não sentira um pingo de fome para descer e tomar café da manhã, almoçar ou jantar. Eu sequer abrira as cortinas das janelas. Eu precisava de Caspian, mas sabia que ele na cidade trabalhando.
Oh, Aslam, como isso foi acontecer?
Por que as vezes ser da realeza exige sacrifícios tão grandes? Será possível que tudo e todos estão tentando impedir que Caspian e eu sejamos felizes? Ah, o que eu não daria para ser como Lúcia... Desimpedida, feliz e não precisar se encontrar com seu amor às escondidas senão ele corria o risco de morrer...
Lúcia, você tem tanta sorte, amiga!
Pedro me contou que Edmundo pediu Lúcia em casamento. Fiquei feliz por eles, mas com uma certa pontinha de inveja. Será que um dia eu poderia casar com quem eu amo?
Casamento... Nunca perdoarei meu pai se ele me obrigar a casar com Rabadash. Pedro tentou de todas as formas persuadi-lo, mas papai está decidido. Eu também estou.
Não caso.
Não caso.
Não caso!
-Entre. — murmurei para a batida na porta, secando as lágrimas. Não me dei ao trabalho de levantar ou sequer olhar para quem quer que estivesse entrando. A porta se fechou e a pessoa hesitou, olhando-me, até que quebrou o silêncio.
-Susana, será que podemos conversar? — meu pai. Suspirei e sentei, abraçando os joelhos. Meu pai caminhou, sentando na beira da cama. Segundos de silêncio. — Querida, sabe que eu só quero o seu bem... — começou.
-E o meu bem inclui casamento forçado?
-Susana, eu não a submeteria a isso se não fosse realmente necessário, você sabe disso...
-Eu não vou casar com aquele imbecil nem para salvar a minha vida... — falei com uma calma assombrosa. Papai arregalou os olhos.
-Que vocabulário é esse, Susana?! Não se xingar um príncipe, muito menos ele sendo nosso convidado.
-Nosso não, ele é seu convidado, não meu. — corrigi. — Fora isso, vai me dizer que ele não é um imbecil? — desafiei.
-Tudo bem, ele é um imbecil, mas nem por isso deve-se chamá-lo assim.
Rolei os olhos, seguiram-se alguns segundos de silêncio até meu pai continuar.
-Sei que isso está sendo difícil para você e, acredite, está sendo para mim também, mas, às vezes, temos que fazer sacrifícios em prol de um bem maior que, nesse caso, significa a paz para o nosso reino.
-Nunca foi preciso um casamento para manter a paz, meu pai. — continuei firme.
-Agora é preciso. Principalmente depois de Pedro rejeitar a irmã de Rabadash e você, como todos, sabe que essa rejeição causou as ultimas batalhas desses meses contra a Calormânia. Só peço que pense, Susana, em todas as vidas que vai salvar evitando uma guerra.
-Há outros meios de evitar uma guerra. — retruquei. — Eu não caso.
O rei suspirou.
-Eu sei que sua sensatez vai fazê-la decidir pela escolha certa. — ele levantou e saiu deixando-me sozinha.
Não, eu não caso.
[…]
Resolvi sair daquele quarto. Dentro daquelas paredes parecia ecoar a palavra “casamento”. Eu precisava de ar puro. Tomei um banho, vesti um vestido azul, sandálias pretas, espirrei perfume no pescoço e saí, rumo aos jornais.
Sentia o vento frio da noite balançarem meus cabelos e a saia do vestido enquanto andava sozinha por entre as flores sob o céu exuberantemente estrelado, mas sem lua. Respirei profundamente, fechando os olhos e deixando a manete vazia, espantando todos os fantasmas que me assombravam. Logo pude sentir meu coração protestar. Eu estou com muitas saudades de Caspian... Mal posso esperar para ele voltar ao castelo. Só ele é capaz de me fazer esquecer esse maldito assunto chamado casamento.
-Está uma bela noite, não é mesmo?
-O que faz aqui? — perguntei seca e áspera.
-Você veio admirar a noite, eu vim admirar minha futura esposa. — Rabadash me dirigiu um sorriso cínico.
-Não ouse me chamar assim de novo. — falei entredentes, apontando para ele. — Eu não sei se você é surdo, mas eu disse em alto e bom som que NÃO... CASO... COM... VOCÊ!!
Rabadash assentiu calmamente.
-Eu já esperava por essa reação. — disse. — Eu posso saber ao menos por que tem tanta aversão em se casar comigo? — por um momento seu olhar dolorido me fitou.
-Eu não o amo. — falei convicta.
-Bem que eu desconfiava que Vossa Alteza amava outro homem... Na verdade – seu olhar dolorido deu lugar a um ar arrogante e ao mesmo tempo raivoso. — Eu tenho certeza que ama, e também tenho certeza de quem é. — me lançou um sorriso torto cheio de maldade. Parei assustada, olhando-o desesperada e tentando descobrir como ele sabia disso.
-Do que você está falando? — fiz-me de desentendida, mas ao mesmo tempo um medo tomou conta de todo meu ser e Rabadash percebeu isso o que lhe deu certa satisfação.
-Eu sei de tudo, Susana. — deu de ombros.
-De tudo o que? — minha voz, embora firma, estava levemente embargada e meus olhos cheios de lágrimas de medo.
-Ora, do que mais seria? — ele sorriu. — Sei de seu romance com o general, Susana...
Foi como um choque, mas mantive a compostura.
-Não sei do que você está falando.
-Sabe, sabe sim. Eu descobri que você anda de namorico com ele, não adianta negar.
-Mais uma coisa que você é incapaz de provar. — provoquei.
-Vai dizer que estou mentindo? Susana, por favor, não teste minha inteligência... Nem minha paciência.
-Onde você quer chegar? — as lágrimas de medo transbordaram contrastando com o queixo trincado de raiva. Ele sorriu abertamente e começou a andar, desenhando círculos a minha volta enquanto eu permaneci parada sentindo as lágrimas banhando minha face.
-Aposto como o Rei Franco não vai gostar de descobrir seu caso com o general...
-Nós não temos um “caso”. — interrompi irritada pelo jeito que Rabadash tratava minha relação com Caspian, como leviandade.
-Namoro, que seja! Mas enfim... Imagine só, Susana, se seu pai descobrir sobre o romance secreto de vocês? Ele não vai gostar nada, nada, muito menos vocês terem escondido isso dele... Provavelmente o general seria expulso do castelo, iria parar nas masmorras, isso se não for para a forca! — seu tom era de lamento, lamento falos. — Já pensou se alguém conta ao Rei Franco sobre vocês dois?!
-Você não faria isso, faria? — minha voz continuava embargada. Ele parou, olhando-me nos olhos or alguns segundos com um sorrisinho nos lábios.
-Eu devia... Mas não vou, porém tem uma condição.
Engoli.
-Qual?
-Aceite se casar comigo. — disse calmamente. Senti uma pontada em meu peito o que fez mais lágrimas descerem e eu quase não podia conter o choro. Um soluço escapou.
-Por que está fazendo isso? — perguntei calmamente.
-Desde que eu vi Caspian pela primeira vez, de cara não nos demos bem, eu não sabia por que, mas agora eu sei. Nós dois temos o mesmo desejo... Você.
Sorri desafiadoramente.
-Caspian é diferente, ele me ama. — dei ênfase a ultima palavra. — Ao contrário de você que só quer se casar comigo porque o desafiei, por que quer provar que é homem e que mulher nenhuma pode enfrentá-lo... Você não quer ficar por baixo.
-Em parte você tem razão, mas confesso que a desejo desde a primeira vez que a vi. — ele sorriu de lado. — Caspian não é homem para você, Susana... Eu posso fazer você muito mais feliz do que ele poderia pensar em fazer. — falou baixinho tentando tocar-me mais uma vez, ele olhava-me nos olhos. Afastei sua mão de mim encarando-o com um sorriso desafiador.
-Você não poderia, Rabadash, sabe por que? — ele esperou que eu continuasse. — Por que Caspian já faz e homem algum nesse mundo seria capaz de me fazer tão feliz quanto ele faz... Muito menos você. — cuspi as palavras, ferindo o ego de Rabadash. Ameacei sair, porém ele segurou meu braço firmemente.
-Só não esqueça que é comigo que você vai casar. — falou firme. — Você vai dizer ao seu pai que aceita casar ou eu conto tudo que sei ao Rei Franco... Você, Susana, disse que não se casaria comigo nem para salvar a sua própria vida, eu fiquei ofendido com isso, mas no fim das contas não será a sua vida... Será a de Caspian.
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