Elysium
2 Capítulo II - A Ex- Prostituta
Notas iniciais
O senhor Fuller era um homem que gostava de se gabar sobre sua pesquisa e do quanto ela foi útil para o programa dos guerreiros nefilim. Além disso, ele tinha um fraco por mulheres bonitas, algo muito vantajoso para Angie, que flertava com certa agressividade para a surpresa do solitário homem de meia idade.
A conversa dos dois estava sendo gravada pelo colar de safira falso da loira. Ivan conseguiu usar um pouco de alquimia, misturado com os princípios do eletro magnetismo para criar um gravador disfarçado de colar e que tinha a capacidade de salvar a conversa no computador que eles tinham em casa, para o caso do objeto ser destruído. Angie não se importava muito com as engenhocas do seu parceiro, mas tinha que admitir que ele era um visionário, apesar da sua falta de empatia.
Ela não precisou de muito para convencer o homem parrudo de levá-la para a casa dele. Lá, Angie teria acesso a pesquisa do acadêmico e poderia coletar mais informações sobre o projeto do exército que poderia dizimar os nefilins que iriam para a guerra. O homem estava tão bêbado e desesperado, que aceitou a proposta de imediato.
Os dois saíram de braços dados do salão e a jovem olhou para Ivan, que conversava de forma íntima com um rapaz um pouco mais velho do que ela. Ao conseguir sua atenção, ele acenou com a cabeça indicando que logo iria atrás dela.
Angie saiu do prédio dourado após pegar seu chapéu e sobretudo. Sentiu o ar da noite em seu rosto e se deparou com uma avenida larga, de prédios antigos e altos construídos com tijolos. O vapor tornando a visão mais turva era algo normal. De noite era mais difícil de enxergar o que se tinha na sua frente por causa disso. Charretes guiadas pelo esqueleto cavalos androides era algo comum na capital de Elysium, assim como alguns carros movidos a magia, algo que apenas feiticeiros poderiam ter.Contudo, ela sabia que logo haveria algum avanço tecnológico que também permitiria os humanos de dirigirem seus próprios carros.
O casal caminhou por algumas quadras até ouvir uma voz grave atrás de si:
— Senhor Fuller, se afaste dessa moça agora! Ela é uma abominação com intenções assassinas!
Ao olhar para trás, Angie se deparou com três policiais vestidos com seus sobretudos azuis e distintivos dourados nas suas roupas, todos apontavam suas armas para a loira. O senhor Fuller olhou para a garota. Ele não parecia estar com medo ou enojado, apenas curioso.
Os olhos azuis de Angie ficaram mais escuros e suas pupilas dilataram. Em sua testa, um círculo de cor lilás se formou, e a partir dele, desenhos em espiral cobriam sua testa e parte de baixo dos seus olhos, formando um desenho semelhante ao de uma máscara. Senhor Fuller caiu de joelhos no chão, surpreso com o que acabara de ver: em anos de estudo nunca imaginou que teria a honra de testemunhar algo tão grandioso!
Os policiais permaneceram contidos, esperando que ela desse o primeiro passo, o que não aconteceu.Um deles mirou em direção da garota e atirou, porém Angie, agiu mais rápido e antes que o policial apertasse o gatilho ela falou sem tirar os olhos do cano de onde a bala sairia:
— Pulverize.
Dito isso, a bala parou antes de acertá-la e pulverizou. Angie aproveitou a situação para dar um chute circular no policial que atirou e desarmá-lo. Os outros dois tentaram imobilizá-la, mas a garota foi mais rápida e socou um deles. Em seguida,o empurrou na direção do outro policial e saiu correndo com a arma que roubara na mão e derrubando seu chapéu azul.
Senhor Fuller, ainda desnorteado com o que acabara de ver, se levantou do chão e saiu correndo atrás de Angie. Era possível ouvir seus gritos pedindo para a garota voltar, alegando que tinha algumas perguntas para ela.
⤱
Angie correu o mais rápido que pode. Agradeceu por ter colocado um par de botas confortável por baixo do vestido, porém, ainda se sentia incomodada com a saia longa da peça de roupa. Já tinha se livrado do chapéu e do sobretudo, mas ainda não era o bastante. Por isso, para se mover com maior facilidade, retirou sua saia longa, expondo um short azul que colocara por baixo da roupa. Em seguida, jogou a peça antes de virar uma esquina que dava em uma viela.
A garota se escondeu atrás do lixo, despistando o senhor Fuller, que continuou correndo com a respiração ofegante pela avenida. A loira, ainda com as marcas no rosto, deu um um suspiro de alívio e não conteve uma pequena risada, que logo foi interrompida por uma mão acariciando sua coxa:
— Tá rindo do que, nefilim? — disse seu assediador.
Seu corpo entrou em estado de alerta ao se deparar com um rapaz com cerca de vinte anos e cabelos azuis sentado ao seu lado. Ela logo reconheceu que o homem era um feiticeiro por causa dos olhos prateados e a energia mágica que emanava do corpo dele. Nefilins tinham uma alta sensibilidade para reconhecer a energia de outros seres, mas não era por isso que o governo de Elysium temia tanto a sua espécie a ponto de confina-los em favelas.
O feiticeiro se aproximou mais de Angie e com sua mão direita criou um feixe de luz da mesma cor dos seus cabelos que fez a arma que a garota segurava desaparecer. Depois, ele colocou uma mão na sua coxa e outra no pulso direito dela. Aquele homem não tinha boas intenções, e ela sabia disso. Seus olhos pousaram na escada de incêndio logo acima da cabeça dele e uma ideia surgiu na sua mente:
— Caia na cabeça dele — sussurrou a garota sem tirar os olhos da escada.
Como um passe de mágica, a escada obedeceu as ordens de Angie e acertou o feiticeiro, que a soltou. A jovem se levantou e fez a menção de fugir, mas seus pés não foram capazes de se mover por causa das correntes nos seus pés, conjuradas pelo feiticeiro.
Quando seu rosto virou em direção ao homem, os olhos da jovem não apresentavam pupilas e permaneciam opacos. O feiticeiro logo entendeu o que Angie fazia e fechou os seus olhos, mas já era tarde demais.
Angie quebrou as correntes que prendiam seus pés e conjurou algumas para prender o feiticeiro de cabelo azul, que respondeu o ataque lançando um feitiço que derretia metais. Como contra ataque, a loira cuspiu uma bola de fogo na direção do seu adversário que se desviou com um salto e lançou um feitiço com o ar que a fez cair:
— Fui tolo demais por não ter observado seu rosto direito — comentou o feiticeiro ao se desviar das novas correntes conjuradas pela nefilim caída no chão — Assim eu teria visto suas marcas de portadora da Arcana. Você possui as habilidades do Louco, estou certo?
Sim, ele estava certo, mas Angie não iria responder aquele homem presunçoso e assediador. Ainda se levantando, ela olhou para sua pulseira com um pingente de crucifixo e a encostou nos seus lábios. Um feixe de luz dourado envolveu o pingente que se transformou em uma espada com uma pedra de rubi no cabo e a frase "Misericórdia é melhor que justiça" cravada na lâmina.
Aproveitou a distração do feiticeiro e correu na sua direção cravando a espada no seu ombro. O homem de cabelos azuis deu um grito de dor e caiu no chão. Angie se aproximou e fez um corte na mão direita dele, um dos principais centros de realização de feitiços.
Ela tinha uma expressão dura e feroz no seu rosto. Colocou um dos seus pés no estômago do seu oponente e pisou nele com força. Assim que viu a impotência do feiticeiro derrotado, ela confirmou os motivos do governo de Elysium ter tanto medo dos nefilins.
Era porque sua espécie não deveria existir, mas mesmo assim, conseguiu sobreviver apesar de todas as tentativas de destruí-los.
O forte instinto de sobrevivência era o que dava forças para um nefilim lutar. E quando lutavam, era como se o desejo por justiça dos anjos corresse em suas veias.
E isso os tornava invencíveis.
Olhou mais uma vez para o feiticeiro debaixo dos seus pés e empunhou sua espada antes de dizer:
— Quais são suas últimas palavras?
— Eu nunca imaginei que um dia testemunharia alguém empunhando a Misericórdia — disse uma voz atrás de Angie, a interrompendo.
A nefilim se virou em direção a voz que vinha da entrada do beco. Logo reconheceu o rapaz de pele clara e cabelos castanhos com quem seu parceiro havia conversado na festa:
— O que foi? Meu parceiro caído no chão manipulou as câmeras da região, não se preocupe que seu segredo está a salvo — disse Demetrius em um falso tom de preocupação — Pode continuar o que estava fazendo, não se incomode comigo e com meu convidado.
Naquele momento, Angie viu que Demetrius segurava uma corrente. Ele a puxou com força revelando Ivan com os pulsos e pescoço acorrentados.
Fale com o autor