Elvenore: A Revolução Das Marés
29 Capítulo 27
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Eu sentia meu corpo inundado de suor, minha garganta parecia em chamas. Os lençóis que me envolviam estavam ensopados e a mobília do quarto estava destruída, pedaços de cabides, gavetas e madeira estavam jogados pelo chão. O espelho estava estilhaçado em milhares de pedaços, assim como as janelas. Tudo ao meu redor se assemelhava a uma zona de guerra.
Havia acado de acorda de um pesadelo onde via meu pai sendo torturado por dias e mais dias pelo rei Evander. Draiko tinha marcas de chicote nas costas, arranhados no rosto, os dois olhos roxos, sua boca sangrava como uma cachoeira e suas canelas estavam destroçadas, forçando-o a ficar pendurado pelos punhos nas algemas de metal.
— Kyanite! — Eu podia escutar alguém me chamar do outro lado da porta.
Não conseguia me desvencilhar da imagem do meu pai chorando e pedindo para morrer, revirando meu estômago como se estivesse dentro de um navio em uma noite tempestuosa. Soluçava como nunca antes, tento dificuldades de respirar.
O poder em minhas mãos tilintava, cintilando em um azul opaco.
— Para… — Choraminguei, fungando — Faz parar…
Ainda podia ver meu pai, cheio de hematomas, cortes e pedaços de músculos dilacerados. Mesmo fechando os olhos eu podia vê-lo sendo torturado e eu não podia fazer absolutamente nada. Grito até sentir os meus pulmões arderem, um som tão sombrio e sobrenatural que parecia o rugido de um animal selvagem.
Minha pele esfriava, até meu poder tinha medo do meu pesadelo.
— Kyanite! — Urravam meu nome, socando a porta, mas minha visão estava sendo ocupada pela imagem terrível do meu pai.
— Para…
Eu não tinha mais forças para lutar contra mim mesma. Me encolho na cama, puxando meus joelhos para o meu peito, fechando os olhos e afundando eu rosto em minhas pernas. As lágrimas rolavam como esferas cristalinas em uma mesa de mármore, sem parar. Podia ainda ouvir os suspiros fracos de dor toda vez que o chicote acertava as costas em carne viva de meu pai.
— Kyan! — De novo me chamava, mas dessa vez escuto a porta ser arrombada — Céus…
Me encolho ainda mais, procurando todo e qualquer tipo de sensação de conforto.
— Kyan… — Um chamado fraco, quase um sussurro — Foi… Foi um pesadelo.
Era Draven, poderia reconhecer sua voz a milhares de quilômetros de distância. Escuto cacos de vidro e pedaços de madeira se moldarem e quebrarem ainda mais a cada passo que ele dava para perto da minha cama.
Não era seguro para ele… Eu não era segura…
— Pare! — Pedi, levantando o rosto — Fique longe.
— Do que está falando? — Ele perguntou, me encarando com seus olhos prateados quase que felinos.
— E-Eu posso machucar você — Solucei, enxugando precariamente as minhas lágrimas.
— Acho que consigo lidar com uma garota que acabou de descobrir seus poderes sereianos — Ele me fuzilou com o olhar, tomando mais cuidado quando se aproximou dos estilhaços de espelho.
— Como…?
— Acha que não sei o que se passa na cabeça da minha irmã? — Sinto uma pontada de dor no peito. Seria medo? — Vi suas mãos brilharem quando estava na sala e Valir me disse o que aconteceu quando acordou. É normal — Ele tenta sorri, mas falha miseravelmente, porém consigo ver seus caninos, prateado como os seus olhos e mais afiados que as lâminas que carregava em seu boldrié — Aconteceu comigo também.
Ele chega até a cama e se senta na minha frente.
— Apesar de não controlar o tipo de energia que está contida em você — Explicou, seus olhos pareciam mais serenos — Maren também tem poderes. Controla, ou melhor, consegue moldar a água.
— Ela é… Uma sereia?
— Híbrida — Sua voz é calma e concisa, como uma canção de ninar sendo cantada por um homem sério e rígido — Meio humana e meio sereia.
Tremo de frio, mal conseguindo engolir a minha própria saliva de tanto que minha garganta foi danificada no meio do pesadelo e no transe onírico depois de acordar.
— V-Você disse que também tem poderes… — Comentei, tentando prestar atenção em qualquer coisa menos na memória de meu pai sendo torturado.
— Sangue — Ele me envolve com um dos cobertores — Grande parte das pessoas que tem sangue sereiano correndo em suas veias conseguem manipular algum tipo de líquido. Água. Sangue. Metais no estado líquido — Apesar do caos no meu quarto, ele permanecia inabalado — Sereias puro sangue tem mais vantagens quando se trata de poderes. Podem falar com os animais marinhos, controlar marés, entre outras coisas, mas precisam de muitos anos de prática.
— Quantos anos de prática? — Conversar com ele era tão natural…
— Décadas — Pigarreou, passando a mão pelo cabelo — Nós, mestiços, por outro lado só precisamos ser inciados com algum tipo de emoção mais forte e aprender a lidar com o nosso estado emocional para manipular o nosso poder.
— Você… Pode me treinar?
Ele sorri, genuinamente.
— Nossa mãe queria conversar sobre isso com você durante o jantar — Ele se levantou, limpando com suas botas um caminho até o banheiro — Essa parte está intacta. Pode tomar um banho e… — Ele pegou um vestido solto de um tom de marfim, balançando-o e se certificando que não havia nenhum vestígio da destruição do meu quarto — E usar isso aqui.
— Obrigada — Murmurei, levantando-me com cuidado.
— Tem uma hora até o jantar — Seu olhar acompanhou meus movimentos — Tome um banho quente e relaxe. O pesadelo parecia horrível…
Meu coração para de bater por um longo segundo.
— É… — Peguei o vestido, encarando meus pés — Horrível.
Ele se cala, despedindo-se com um aceno. Estava sozinha, algo que sempre gostei tanto, mas agora eu odiava.
Caminhando pelos corredores eu podia ouvir o som da música folclórica e animada, risadas e brindes. Parecia mais uma festa do que apenas um jantar. Quando ultrapasso duas grandes portas de madeira, me deparo com uma reunião colorida e cheia de vida. Pessoas comemoravam alguma coisa, um aniversário talvez…
Ando pela multidão na esperança de ninguém perceber que eu estava ali, desviando toda vez que alguém se aproximava e encarando o chão quando fazia contato visual quando algum convidado me encarava. O que eu não esperava era os cheiros, uma sinfonia de raças que me deixava confusa toda vez que dava um passo. Havia drowns, humanos, magos e muito mais, todos vivendo juntos, festejando a companhia um do outro, diferente de Elvenero, onde cada criatura tinha seu lugar no mundo.
— Elfa… — Alguém sibilou, uma voz grave e tenebrosa. Um drow de quase dois metros de altura.
Engulo em seco, tentando andar para trás, mas sinto minhas costas se chocarem contra um corpo duro como árvore. Outro drow…
— Lixo élfico! — Ele esbrajevou, me empurrando no chão com brutalidade — Desperdício de sangue mágico!
— Eu… — Reviro os olhos, era óbvio que essas criaturas odiavam o meu cheiro. Elfos e Drows são seres de mesma origem, mas opostos — Não preciso ficar ouvindo isso.
Me levanto, limpando a sujeira do vestido.
— Se acha realmente superior, criatura? — Eu sentia o nojo escorrer pela boca do mais alto — E ainda é uma fêmea elfa!
Ele cospe perto do meu sapato, soltando uma gargalhada sombria logo em seguida. Seu companheiro, um drow de pele tão pálida e transparente que podia ver suas veias roxas, agarra meu punho com força, me puxando para si.
— Essa é imaculada, Nyhie — Parecia orgulhos, mas eu me sentia nauseada.
Machos drows são territoriais e pelo que minha mãe disse sobre Barba Negra, brutamontes do pior tipo. Giro meu braço, me desvencilhando de seu toque e acerto um chute em sua barriga. O mais baixo urra e cai de joelhos no chão.
— Bador! — Nyhie arregala os olhos, rosnando logo em seguida — Sua vadia!
Nyhie avança para cima de mim, esperando acertar minha cara com tudo, mas desvio com maestria de seu soco, parando atrás dele. Porém antes que eu pudesse chutá-lo para que se junte ao seu companheiro, uma sombra passa pela minha frente tão rápido que mal tive tempo de piscar e o drow mais alto estava no chão.
— Não toquem nela, ou mato vocês — Era a voz de Draven, ele pisava na mão de Bador e estava inclinado, com seu rosto a poucos centímetros de Nyhie — Estão me ouvindo, seus vermes?
Seu maxilar estava tão contraído que acho que seria capaz de um dente trincar.
— S-Sim, meu príncipe — Bador xingou alto quando Draven o libertou.
— O que acham que estão fazendo, bando de idiotas? — Maren esbravejou, fazendo os músicos da festa se calarem — É assim que tratam a sua princesa.
Os dois drows se entreolham, chocados, o que me faz sorrir maliciosamente. Maren fica do meu lado, fuzilando os machos com o olhar.
— Perdoe-nos, princesa — Falaram em uníssono, curvando-se precariamente.
Olho para Draven, na esperança de ele me dizer o que devia fazer, mas ele estica sua mão na minha direção, tomando a minha com cuidado. Sem mais nem menos, Draven me leva pela multidão que agora abria espaço para passarmos. Deixando Nyhie e Bador para trás, caminhamos até uma comprida mesa cheia de comidas diversas e bebidas de todas as cores, o suficiente para todos os presentes.
— Minha filha perdida — Ciana nos saudou, levantando-se de sua cadeira na ponta da mesa — Meu filho querido. Todos reunidos aqui.
Aplausos ecoam durante a nossa caminhada até a nossa mãe, apenas cessando quando nos sentamos, Draven a sua esquerda e eu a sua direita.
— Hoje celebraremos a união da minha família — Ela sorriu para mim, uma guerreira e uma líder, deve ser por isso que meu pai de apaixonou por Ciana — Agora temos tudo o que precisamos para nos preparar para as futuras investidas do rei Evander. Juntos somos um!
— Viva a Rainha dos Mares — Eles gritaram e bateram palmas enquanto o meu coração afundava dentro do meu peito.
Draven levanta uma taça para mim, incentivando-me a comemorar, mas meu coração estava triste e partido. Era estranho estar ali, perto da mãe que eu sempre quis ter, mas que deveria estar morta. Ciana estava viva e saudável, sorrindo de orelha a orelha com a presença de seus dois filhos na sua frente.
Todos ao nosso redor vibravam e arguiam as suas taças, porém o máximo que consigo fazer é sorrir desajeitadamente.
— Se estivesse tão infeliz sentada à mesa, deveria ter ficado com os dois drows lá atrás — Maren comenta, sentando-se ao meu lado.
— Está tão óbvio? — Desviei o olhar dos convidados e encarei os olhos amendoados dela.
— Fora o sorriso amarelo que acabou de dar, seus olhos estão de um tom amarelo mostarda escuro — Ela beberica do vinho em sua taça — Desconfortável?
Fecho os olhos e respiro fundo.
— Está começando a ficar ridículo — Murmurei, cansada — Estou a anos tentando aprender a controlá-los, mas nenhum sucesso…
— Bem, com isso não posso te ajudar — Direta, com suas feições indescritíveis — Sangue élfico não corre em minhas veias.
Provo a bebida na minha frente, um licor cor-de-rosa, doce como mel.
— Draven me disse que…
— Os meus poderes — Ela me corta, revirando os olhos — Por mais que eu queria ajudar, princesa, não tenho tempo livre na minha semana para treinar você.
— Eu… — Tento me justificar, mas Maren não estava com paciência para me ouvir.
— Desde que o idiota acéfalo do Skander te sequestrou em alto-mar, nossas barreiras marinhas e terrestres estão sendo vigiadas dia e noite — Pigarreou, apontando discretamente para a minha mãe — Não vai demorar até recebermos algum aviso do rei Evander.
Suspiro, Evander deve estar furioso.
— Acha que ele fará algo impensável? — Me viro para ele, observando seu cabelo branco balançar com a leve brisa do local — Algo perigoso.
— Ele está sem sua melhor vantagem, sem você — Explicou, sentando preguiçosamente na cadeira — Imagino que será muito mais cuidadoso agora, mas não será piedoso. Devemos receber algum, mensageiro por esses dias…
— Nossas barreiras são vigiadas e muito bem guardadas por nossos melhores guardas — Draven entrou na conversa, caminhando até nós — Ele não é louco de entrar em nosso território novamente, não depois do massacre de três anos atrás… Quando seu pai foi, bem, morto.
— A rainha mandou todo o exército em direção aos navios de Evander quando o gatilho foi puxado… Quase não escaparam — Maren continuou, sua voz é baixa e raivosa, sibilante como uma cobra — Voltaram para Elvenore com dois navios de guerra… Deveriam ter voltado com nenhum.
Draven revirou os olhos, cruzando os braços.
— Eles escaparam pelo Estreito de Pérola, a parte de Acqua resguardada por sereias, Maren — Ele alertou, voltando seu olhar para mim — Elas não estavam armadas o suficiente para derrubar dois navios…
— Devíamos ter sido mais rápidos e… — Meu irmão não a deixa terminar.
— Estávamos despreparado, Maren, não sabíamos que Evander viria atrás de sangue — Sibilou, fechando a mão em um punho bem fechado — Isso é o nosso passado, não há necessidade de trazer isso à tona, principalmente com a minha irmã aqui.
Me viro para ele e falo:
— Se ficarei aqui, preciso saber como ajudá-los — Nossos olhares se encontram e eu podia ver um tom sombrio em suas íris, uma tristeza pesada — Ajudar você e nossa mãe.
Um silêncio tocável se instala entre nós, mas não desisto de me impor.
— Eu… — Sabia muito bem que se eu continuasse a falar a verdade escaparia pelos meus lábios, mas eu precisava colocar tudo para fora antes de explodir — Eu sempre achei que minha mãe estava morta e quando meu pai morreu eu me senti devastadoramente sozinha… Agora eu tenho você e Ciana, uma família que nunca pensei que teria… — Vejo o olhar de Draven acalmar, não parecia tão rígido — Eu quero ajudar.
Draven respira fundo, contraindo o maxilar.
— Não vai ajudar em nada se não controlar o seu poder — Ciana fala, na ponta da mesa, nos encarando com seu olhar guerreiro e dominante — Draven a treinará.
— Como quiser, mãe — Meu irmão disso, curvando-se na direção de Ciana — Seu treino é amanhã. Sete da manhã — Ele olha para mim sobre seu ombro, antes de ir embora da comemoração — Não se atrase.
Ele partiu em silêncio, desviando dos convidados e sumindo na multidão.
— Não ligue para ele, Kyan — Minha mãe sorriu — Divirta-se. Essa festa é para você.
✵ ✵ ♔ ✵ ✵
Na manhã seguinte o treino com Draven começou cedo na arena de treino do centro do palacete de nossa mãe. Achei que ele pegaria leve comigo, mas assim que pisei no asfalto eu vi seus olhos perigosos fixados em mim.
— Lembre-se de quando sentiu seu poder pela primeira emoção — Ele ordenou, andando em círculos ao meu redor — Foi a raiva que o libertou?
— Eu… — Respiro fundo, arrumando a postura — Foi com Skander. Estava irritada. Decepcionada.
— Estar irritada não é o suficiente — Draven resmungou, sério — Preciso de uma emoção mais forte!
— Bem, eu tinha sido sequestrada — Fuzilei-o com o olhar — Não é bom o suficiente?
Um sorriso fino surge em seus lábios.
— Vamos ver — Ele parou de andar, assumindo uma postura militar — O que te deixa com raiva?
— Muitas coisas — Deixei escapar, sentindo uma montanha de memórias inundar a minha mente — As mentiras de Evander e o canalha de seu filho. Skander…
— O capitão Valir é um ótimo agente irritante — Não sabia que meu irmão sabia sorrir.
— Ouvi o meu nome! — Escuto a voz grossa de Skander ser levada pelo vento.
Reviro os olhos, observando-o desfilar pela arena.
— Ninguém te chamou aqui — Soprei, esperando ele sair pela outra porta.
Eu estava errada.
— Irrite ela — Meu irmão disse, apontando para mim.
— O que?! — Skander e eu guinchamos em uníssono
— Não são surdos — Draven se sentou em um banquinho que trouxe para o treino — Vamos! Não tenho o dia todo.
Um grunhido escapou de meus lábios a medida que me virei para encarar o capitão Valir. Seu cabelo castanho claro estava preso por completo pela primeira vez desde que eu o conheci. Usava uma armadura mais leve do que a de Draven e mais clara também, deixando-o com um ar autoritário que nunca pensei que veria.
— Gosta do que vê? — Perguntou, cruzando os braços, desviando o peso de seu corpo para o outro pé.
— Presunçoso — Sibilei, sentindo o frio ardente percorrer as minhas veias como um sopro, devagar e sutil — Achei que não precisaria olhar para a sua cara quando chegasse aqui.
— O que há, princesa? — Sua voz é irritante, queria socá-lo, mas sinto que seria severamente reprimida pelo meu irmão — Não me diga que está magoada por eu ter te trazido para a sua família? Ou está brava comigo por eu ter te tirado da cama do seu amante?
Sinto minha boca pender e meu coração queimar de ódio.
— Em primeiro lugar, minha vida amorosa não é da sua conta — Rosnei sentindo a raiva correr pelo meu sangue como um rio correr pelo seu curso — Segundo, eu estava na cama de Dominic, pois minhas canelas, caso não saiba, estavam destroçadas e eu precisava descansar e ser bem cuidada para evitar maiores danos já que você, capitão Valir, me enfiou na cova daquelas sereias e esqueceu de me avisar que eram mortíferas!
Vejo seus olhos se arregalarem, mas algo chamava mais a minha atenção: minhas mãos sendo cobertas pela massa amorfa e cintilante que era o meu poder. O frio se tornara suportável, um carinho incessante nos meus dedos. Ao mover minhas mãos, o poder se movimenta em conjunto, em uma dança vagarosa e bela.
— Isso! — Draven comemorou, levantando-se.
— De nada — Um sorriso malicioso e idioticamente sensual surge nos lábios de Skander, que se preparava para sair da arena.
— Eu vou matar ele — Esbravejei, observando-o sair.
— Deixaremos isso para depois — Draven tinha uma de suas mãos apoiadas eu seu queixo, acariciando sua barba inexistente — Consegue mover o poder?
Me viro para ele, unindo meus dedos e formando um círculo com as minhas mãos. A energia se acumula no espaço, maciça porém nem um pouco pesada. Draven me instrui a atingir um dos vasos dispostos na arena, mas permaneço sentindo o poder.
— É frio, mas não machuca — Soprei, encarando minhas mãos — Não tem massa nem forma.
— É uma espécie de energia — Ele murmurou, aproximando-se de mim. Podia sentir seus olhos analisando cada pedaço da minha pele — Vem de dentro de você. Seus olhos estão da cor dos meus, pratas… Assim como seu poder.
— É normal? — Indaguei, espalhando a energia, fazendo-a formar um anel que me rodeava como um abraço materno.
— Como eu disse antes, híbridos controlam líquidos… — Draven apoiou suas mãos em sua cintura, havia surpresa em seu olhar, mas não parecia satisfeito — Isso é energia pura…Eu nunca vi nada parecido.
— Parece preocupado — Pigarrei, cerrando os punhos.
Meu poder se esvai com o vento, desaparecendo aos poucos.
— Só estou pensativo. Faça de novo… Reúna suas emoções e invoque os seus poderes.
— Mas…
— Apenas faça o que eu pedi — Ordenou, interrompendo-me.
Respiro fundo e fecho os olhos. Lembro do pesadelo, a frustração que era me sentir presa enquanto meu pai sofria nas mãos de Evander, do sentimento de coração partido toda vez que o chicote açoitava suas costas sem nenhuma misericórdia, o padrão da pele dilacerada, os vergões vermelhos e ensanguentados o mesmo… o mesmo padrão que eu vi nas costas de Dominic, que em sua pele de mármore eram linhas distorcidas mais claras, pálidas.
Dominc…
Sinto uma pontada de dor percorrer o meu corpo. Como eu pude me entregar a ele daquela forma? Ele mentiu, me enganou… Sabia de tudo o que tinha acontecido e me deixou no escuro. Me beijou como se seu corpo dependesse daquilo, como se sentisse algo por mim, mas estava me enganando…
A energia envolve minhas mãos, me dando forças para controlar as lágrimas que se acumulavam em meus olhos.
— Vem de você, não tem como negar isso — Draven disse, franzindo o cenho — Acerte o vaso.
Afirmo positivamente com a cabeça e ergo o braço, mirando na cerâmica malfeita e desgastada. Penso em atingir o objeto, mas a massa amorfa permanecia parada em minha mão, rodeando meus dedos em sua dança lenta e cintilante. Mesmo tentando movimentar a magia, ela continuava parada, grudada a mim.
— É inútil… — Murmurei, esticando bem as palmas e deixando a energia fluir até desaparecer.
— É falta de prática — Draven insistiu.
— Patético — Revirei os olhos, sentando no chão — Quando não quis destruí o meu quarto inteiro e os barris de Skander e agora que tinha a intenção de acertar aquele vaso, nada acontece.
— Precisa treinar e é por isso que nossa mãe me escolheu para essa tarefa — Ele ergue sua mão em minha direção — Sabe lutar?
Sorrio de lado, fazia muito tempo que não lutava.
— Acha que não sei? — Indaguei, levantando-me com sua ajuda.
— Pesa menos do que um graveto, não a vi comer desde que chegou e está com olheiras em seus olhos maiores que o orgulho de Skander — Um sorriso galanteador surgiu em seus lábios quando me entregou uma espada de lâmina fina e tamanho médio — Preciso continuar?
— Está duvidando das minhas capacidades, irmãozinho? — Arqueie a sobrancelha, Draven não sabia com que estava lidando.
— Não está óbvio?
— Você vai se arrepender — Alertei, erguendo a espada para perto do meu rosto.
— Duvido.
Ele se arrependeu amargamente.
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