Intrusos

O dia seguinte correu tranquilamente, eu e Draven treinamos com adagas dessa vez, porém, para a alegria dele, lutei contra seus soldados. Sentia falta da adrenalina da luta, de como eu sou ágil quando preciso, confiava em meu corpo, ele sabia o que fazer, afinal eu tinha sido treinada para isso a minha vida inteira. A vida no castelo da Alta Corte infelizmente havia enfraquecido a minha musculatura, eu servia como um enfeite, um símbolo de força e beleza para que Evander me usasse em seus acordos, por isso, no fim da tarde, eu estava exausta que mal me aguentava em pé.

Minhas pernas ardiam e estava ofegante, com suor acumulado por todo o meu corpo, mas eu me sentia bem, feliz. Depois de engolir quase um litro de água, eu me viro para um dos homens de Draven e falo:

— Precisa ter mais base — Instruí, observando o jovem soldado ter dificuldade para respirar — Se quiser desviar sem cair de cara no chão como fez, seus joelhos precisam estar dobrados, assim terá equilíbrio.

— Sim, princesa — Ele se curvou, fazendo-me revirar os olhos.

— É Kyanite — Resmunguei, oferecendo-o minha garrafa — Não gosto dessas formalidades.

— Vá com calma, Kyan — Maren gritou, descendo as escadas até a arena, com um sorriso contido no rosto — Esses homens também são meus. Não pode cansá-los tanto assim.

— Me desculpa, Maren, mas Draven me disse que poderia treinar com eles…

Ela balança a cabeça, me dando sua mão para levantar.

— É culpa do seu irmão eles serem tão molengas — Maren observa a arena, procurando Draven — Os treinos dele não são tão pesados quanto os seus.

— Apenas sou piedoso — A voz de Draven é grave e diplomática, havia um certo tom de alegria em seus olhares — Diferente de duas fêmeas que eu conheço…

Bufo, revirando os olhos para a indireta.

— O treinamento élfico é mais pesado do que os de seus homens, Draven — Retruquei, aproximando-me dele — Somos ótimas armas, apesar de toda a pacificidade.

— E eu nunca vou entender o motivo — Maren cruza os braços, desapontada — Se eu tivesse elfos na minha legião, seríamos imbatíveis.

— Não temos contato com Elfdale, Maren. Ciana quer mantê-los longes de tudo isso.

— Bem, eu estou aqui — Ofereci, com um sorriso sincero no rosto — Posso ajudar na sua legião, Maren.

— Kyan… — Draven tenta falar, mas se cala, respirando fundo antes de continuar — Maren é insuportável fora do batalhão, tem certeza que quer conhecer a real face dela?

— Estou aqui para ajudar, não é? — Os dois assentem — Então me deixe ajudar.

A mulher de cabelos brancos olha para o meu irmão e depois para mim.

— Começamos cedo — Falou, entregando-me o broche que estava preso em sua armadura — Passe no meu quarto às quatro da manhã e te emprestarei um uniforme.

— Ótimo!

— E ensinará meus homens como foi treinada — Um sorriso malicioso surge em seus lábios — Quero ver se eles sobrevivem…

Gargalhamos, andando unidos até o salão central da fortaleza da Rainha dos Mares. Estava perto da hora do jantar, o único momento do dia que todos nós comemos juntos. Minha mãe estava na mesa, junto com sua conselheira, Alfen. Alfen é uma mulher alta, de cabelos de um tom quase que dourado, caindo como cascatas cacheadas por seu manto castanho, ela é a mensageira e escrivã de Ciana e também sua melhor amiga. Seus olhos são tão claros que poderiam ser considerados brancos.

Ao lado de Skander, que descobrir ser o líder do batalhão marítimo de Acqua, estava Endora, com seus cabelos azuis-escuros presos em uma trança firme. Seus olhos são azuis, mas não do tom de seu cabelo, mas sim da cor do céu na primavera. Ela é uma amazona, cuidava da segurança do povo e comandava um exército de mulheres que protegiam não só a população, mas a principal entrada de Acqua: o Estreito de Pérola.

— Boa noite — Falei, enxugando com a manga de minha camisa o suor que ainda escorria pelo meu rosto.

— Olá, Kya — Minha mãe sorrio, me chamando com seus dedos para perto de onde estava — Se lembra de Alfen?

— Claro — Afirmei com a cabeça — Algum sinal de Evander?

— Nada, por enquanto — A voz de Alfen é melódica, quase mágica.

— Não tivemos nenhuma movimentação marinha — Skander se pronunciou, apoiando-se na mesa ao meu lado — Meus homens que estão em Guenivere disseram que o castelo está em silêncio. Não foram nem coletar impostos.

— Isso não é uma boa notícia — Maren bufou, sentando-se na cadeira ao lado de Alfen.

— O povo continua no escuro, rainha — Endora falou, entregando a minha mãe um pergaminho — Leia quando tiver tempo, majestade. É apenas uma reclamação dos fazendeiros ao norte.

— Há algo errado, mãe? — Draven indagou quando Ciana desenrolou o pergaminho.

— Nada que não possamos resolver — Ela sorriu para nós, confiante — A colheita foi fraca, só isso. Pediram ajuda — Ciana respira fundo — Pode ir até lá, meu filho?

Draven assente, determinado.

— Partirei assim que o sol raiar.

— Eu vou com você, senhor — Endora sugeriu, pegando seu copo e bebendo todo o vinho em questão de segundos.

Ciana para palmas, encerrando os assuntos do dia.

— Vamos jantar?

Ninguém negou ou se opôs às ordens da Rainha dos Mares, afinal, estávamos famintos.

✵ ✵ ♔ ✵ ✵

Andava pelo castelo sozinha, em silêncio, observando a luz das velas presas aos candelabros e tochas dançarem com o vento. Ali, naquela fortaleza, rodeada por soldados, onde se dava para sentir o cheiro de esforço e disciplina, eu me sentia estranhamente em casa. Nada ali se assemelhava com o castelo da Alta Corte, o chão não era de mármore polido, e sim de pedra, com algumas elevações e irregularidades. As paredes não eram decoradas com quadros e vidrais, e sim com algumas finas janelas e as tochas. Não havia criados, apenas pessoas que trabalhavam para minha mãe, pessoas que tinham uma vida fora do castelo.

Parei ao lado de uma sacada e ousei me colocar no vento ameno das noites de Acqua. Podia ver a aldeia, cheia de luzes e cores, vibrando debaixo da lua. Havia uma alegria que permeava cada rua, esquina e praça, um sentimento de pertencimento e esperança que inundava cada ser vivo que morava ali. Se Rasdir estivesse aqui, sem sombra de dúvida, seria a égua mais feliz do mundo.

Nicholas diria que o povo vivia em abundância e… Meu coração aperta. Nicholas tinha sido um ótimo companheiro durante a minha vida no castelo da Alta Corte, me ensinou tudo o que eu sei sobre os piratas e todas as civilizações ao redor dos oceanos que cerceavam Elvenore. Ele me ajudou imensamente com as normas de etiqueta da realeza, já que sua mãe, a rainha Evangeline, não tinha muita paciência comigo. “Será que ele também sabia do plano de Evander de me usar como arma e vantagem contra minha própria mãe?”, indaguei mentalmente.

Seria impossível. Nicholas é gentil demais para compactuar com tais atos, é por isso que não será escolhido para governar Elvenore, seu coração é grande demais para um posto tão corrupto. Eu queria ao menos ter dado um adeus para ele, Nicholas sempre foi compreensivo comigo e mesmo sabendo da minha linhagem, meio elfa e meio sereias, ele nunca exigiu nada de mim… Falou para seu pai para minha segurança e se não fosse por ele, não teria pesquisado mais afundo sobre o povo sereiano.

— Princesa — Um homem de armadura me chama — A rainha e o príncipe te chamaram para o Estreito de Pérola.

Franzo o cenho, confusa.

— Está tudo bem, soldado? — Perguntei, aproximando-me dele.

— Temos um intruso no Estreita, princesa — Sua mão aponta a direção da saída, me guiando até os estábulos — Deve ser o mensageiro real, mas eu não sei dizer. Tive ordens apenas de te levar ao Estreito!

Engulo em seco, adentrando o estábulo, onde os cavalos pareciam alertas.

— Eu levarei a princesa, homem — A voz de Skander acalma os animais, mas me estressa profundamente.

— Sim, senhor Valir — O soldado se curvou.

— Suba — Skander ordenou, virando seu cavalo para facilitar a minha subida.

Cruzo os braços e arqueio a sobrancelha.

— Não há nenhum cavalo disponível, soldado? — Indaguei, raiva era o som principal na minha voz.

— E-Eu… — Ele olha para Skander e depois para mim — Princesa…

— Não seja infantil, Kyanite — Valir rosnou, segurando o meu braço e me puxando para cima do cavalo, com as minhas costas contra a área do peitoral de sua armadura — Não temos tempo para isso.

— Skander! — Guinchei, tentando me afastar de seu toque.

Entretanto, antes que eu pudesse ao menos me ajeitar na sela, seus braços seguram as rédeas do animal com força, me prendendo em seu enlace. Ele acelerou sem mais nem menos, a força inicial, me fez chocar contra o seu peito, irritando-me profundamente. Não queria falar com Skander, muito menos olhar para ele.

— Ei! — Rosnei, me ajustando ao acento.

Skander grunhi, curvando-se e acelerando ainda mais. Podia sentir o calor sensual de sua pele mesmo usando uma armadura pesada. Não podia negar que essas roupas favoreciam mais suas feições do que os trajes de mercador, parecia ainda mais másculo e feroz. Balanço a cabeça, no que eu estava pensando?

— Não é comum estrangeiros usarem o Estreito para entrar em Acqua — Skander parecia furioso, sua voz é grave e quase parecia um rugido.

Adentramos uma mata leve, de árvores de troncos finos e copas brancas, uma paisagem quase que sobrenatural, mas íamos tão rápido que mal fui capaz de assimilar a natureza ao meu redor.

— É o mensageiro? — Perguntei, me acostumando aos poucos com a raiva palpável que nos abraçava desconfortavelmente.

— Eu… — Ele pigarreia, aproximando sua boca do meu ouvido — Não sabemos.

Era bom ter ele perto de mim, seu calor é reconfortante, mas não conseguia esquecer o nosso beijo, muito menos o que ele fez com Dominic… Mesmo ferido como estava, Skander poderia ter matado o príncipe se eu não tivesse interrompido, quando queria, Valir sabia ser intimidador, não é a toa que faz parte do íntimo círculo de Ciana.

— Eu preciso falar com você — Sua voz é fraca, um suspiro no meio da noite — Depois disso tudo, combinado?

— Skander… — Tentei protestar, mas ele me interrompe.

— Por favor, deixa eu me explicar — Seu hálito quente e fresco toca a pele nua do meu pescoço, fazendo um calafrio percorrer a minha espinha — Não suporto a ideia de você me odiar…

— Deveria ter pensado nisso antes de invadir o meu quarto…

— Eu não tive outra escolha — Ele grunhiu, pude escutar o couro das rédeas reclamarem — Se voltasse para Guenivere… Precisava ter você no meu navio e depois do incidente com as sereias rebeldes, Evander nunca permitiria que eu chegasse perto de você novamente…

Calo-me enquanto avançamos até o Estreito de Pérola, podia ver algumas luzes, sinalizando que havia pessoas ali. O mar entrava calmamente pelo estreito, possibilitando que a lua refletisse em suas águas e iluminasse ainda mais o local. Desço do cavalo rapidamente, precisava ficar longe de Skander, mesmo que corpo reclamando disso.

— Mãe? — Chamei, passando por alguns soldados até chegar no centro do círculo que se formava — Draven?

— Kyan — Meu irmão me chamou, ele estava no meio de três pessoas encapuzadas ajoelhadas.

Os capuzes cobriam o seu rosto, impossibilitando-me de ver quem eram. Havia um nó enorme em minha garganta, que engoli precariamente ao ver meu irmão segurando duas espadas perto dos pescoços de duas pessoas que estavam ali. Seus mantos estavam sujos e meio rasgados nas pontas, mostrando que quem quer que seja, haviam passado por maus bocados.

— Quem são? — Perguntei baixinho, virando-me para a minha mãe, seu olhar estava fixo nos forasteiros e mais pareciam queimar de raiva.

Antes que ela pudesse me responder, o capuz da criatura mais à esquerda cai sutilmente pela sua cabeça, revelando longos e volumosos cabelos ruivos como o fogo. Suas madeixas, que eu infelizmente reconhecia, estava bagunçadas, cheias de nó e mato. Suspiro, balançando a cabeça.

Eu sabia exatamente quem era aquela mulher e ao olhar para Skander, ele parecia mais surpreso do que eu, diria que estava espantado ao ver o fantasma de seu passado.

— Olá, garanhão — A ruiva falou, com sua voz densa e sensual, não parecia nem um pouco abalada com as armas apontadas para ela.

— Era o que me faltada — Vociferei, revirando os olhos.

Notas finais
Espero que tenha gostado! Te vejo no próximo capítulo.