Elsien

1 Prólogo


Notas iniciais
Livro, de autoria minha

Os corpos pendiam na forca sem vida e eu não conseguia desviar o olhar, assim como o resto da vila que assistia sem se pronunciar. Os guardas reais haviam me colocado de frente para que pudesse ver seus rostos e lhe dizer adeus. Eu me contorci e tentei me soltar de todas as formas em vão. Ninguém se atreveu a ir contra o julgamento, meus pais eram traidores que queriam o fim do reinado vermelho. Gritei até não conseguir mais, meu corpo doía coberto de hematomas e minha garganta queimava. Já não conseguia chorar mais e minhas maçãs do rosto estavam dormentes.

A forca ficava ao lado da igreja, na praça central onde todos pudessem ver os horrores. Um chute na barriga me fez olhar para baixo e tremer. Eles falavam comigo, grosseiros, puxaram meu cabelo para que olhasse em seus olhos. Demorei até discernir as palavras.

- Cria de traidores, você possui algum parente infeliz que o acolha? — gritou o soldado mais alto dando-me um soco antes que pudesse responder.

Ainda sem voz fiz sinal que não com a cabeça, quatro guardas estavam ao meu redor e um deles reportou a informação ao capitão. Ouvi risos de alguns e trocaram palavras em murmúrios entre si. O porta voz pediu a atenção da pequena vila que assistia em silêncio. A chuva começava a cair e o céu estava cinza, como se uma tempestade nos aguardasse.

- Camponeses! Esta cria de traidor não possui parentes — disse com voz energética como se divertisse — portanto ele tem duas opções. Caso um de vocês possua 5 moedas de ouro poderá "adotá-lo", caso contrário ele será levado por nós e passará a pertencer ao tirano.

Os habitantes de Hover Field trocaram palavras e um tumulto se iniciou. Poucas famílias possuíam 1 moeda de ouro, 5 então...A cidade passava por um período difícil de muita miséria e fome, antes chamada de a cidade das flores, agora era cinza e decadente. Ao menos foi o que eles me contaram.

- Mas, lembrem-se que é filho de traidores! — gritou o porta voz animado.

- Levante-se coisa! Vá até o lado dele e olhe para a multidão — disse o soldado que me chutara — talvez assim algum louco tenha pena de você – o soldado tinha uma expressão dura e olhos escuros.

Fiquei de pé e cambaleei até ficar ao lado do porta voz, um homem alto e magro com cara de roedor. Pessoas que assistiam em volta da praça começavam a me chamar de "cria de traidor" e mandaram que me levassem embora. Apesar do medo e da dor olhei-as nos olhos e começaram a se aquietar. Em seguida encarei o homem que me vendia, ele me fuzilou com ódio e eu sustentei meu olhar determinado, sabia o que me aguardava e preferia ser morto. Ninguém na vila me adotaria e não queria ser escravo dos homens que mataram meus pais.

Senti o golpe nas costas e por fim estava no chão, como um cão indefeso apanharia até a morte. A dor trespassava meu corpo, de um lado ao outro de forma cruel. O impacto me fazia tremer e gemia, até ficar sem ar. Acho que lágrimas escorreram de meus olhos, o tempo já não fazia sentido, não passava, era torturante.

Ao longe ouvi uma voz alta gritar.

- Pare! Por favor, pare!

Ele gritou algumas vezes até que cessassem os chutes, atordoado só percebi que passos se aproximavam do porta voz quando já estava quase a sua frente. Botas estranhas pararam em frente ao homem, o barulho de moedas.O soldado estava confuso e furioso.

- Estúpido, sabe que isso é uma cria de traidor? Ele tem um olhar intragável, será um problema de certa!

Ele se virou para onde eu jazia, tinha um passo leve e roupas acinzentadas.

- Vejo apenas uma criança, um menino, senhor — ele caminhou devagar em minha direção.

Quis me levantar, mas meu corpo queimava de dor, acho que emiti um ruído quando tentou puxar meu braço e ele parou. Os guardas ao redor se afastaram receosos quando ele se agachou ao meu lado, senti seu manto em minhas costas, era quente e macio, aveludado. Virou-me com cuidado para cima e passou a mão pelos meus braços e pernas, não me lembrava dele, nunca tinha visto alguém com aquelas feições.

- Parece que não há nada quebrado — ele sussurrou — vamos embora? Irei carregá-lo.

O forasteiro, lembrei, ele raramente vinha à cidade, morava numa vila longe, próxima ao rio e da floresta. Queria assentir, mas já não tinha forças e sentia muito frio. Colocou parte do tecido sobre meus olhos e me embrulhou com o resto, suas mão passaram gentilmente por baixo de meu joelho e costas e ele me suspendeu como se fosse uma almofada.

- Você viu mais do que deveria, descanse — disse no meu ouvido enquanto caminhava suave.

Os guardas lhe fizeram algumas ameaças antes de o liberarem, um breve resumo sobre sua iminente estupidez em me adotar e todas as consequências.

Minha cabeça repousou no peito do estranho, ouvi alguns mumúrios enquanto atravessávamos a multidão. Não eram palavras doces, apesar de não conseguir discernir muito bem suas falas. A cidade reprovava a atitude e deixava isso bem claro na hostilidade de seu tom. O estranho não se incomodou e continuoucaminhando firmemente, somente mexeu sua mão para me esconder mais dentro do manto em que me enrolara.

Ele adormecera antes de eu alcançar a carroça que estava no outro extremo da multidão. Aos poucos ela se dispersou, mas alguns permaneceram e sustentaram olhares pouco amigáveis. Certifiquei-me de aconchegar ele em meio ao feno e a mercadoria. Dessa forma caso algum habitante da região quisesse atirar pedras ele estaria protegido. O manto era grosso e aqueceria seu corpo até que pudesse trocar suas roupas. Puxei o lençol e cobri a carroça amarrando o tecido nas beiradas. Assim que estava seguro pulei para cima e fiz a égua trotar num ritmo médio, não demorou muito para que saíssemos da cidade.

Para evitar problemas, peguei a trilha mais longa até a casa de Haina, nas montanhas. Chegamos ao anoitecer e ela me esperava do lado de fora com Hip, seu leal cão de guarda. Velho e quase cego, mas seus ouvidos continuavam afiados e anunciou minha chegada com um longo latido antes mesmo de passar pelo portão. Num galope acelerado veio até onde eu estava e acompanhou a carroça até eu parar dentro do celeiro. Encharcado pela chuva, o cão se balançou espirrando água na dona que estava protegida pela varanda da casa e que se aproximava com passos alegres.

- Esse cachorro velho ainda é muito esperto, veja só! — gritou Haina satisfeita, os olhos brilhantes.

Removi rapidamente os arreios de Lua Crescente e me dirigi à carroça — Preciso de ajuda Haina, pode esquentar um pouco d'água?

O tom de minha voz provavelmente revelou meu nervosismo e fez com que a espressão dela ficasse mais séria. Ela não fez perguntas, apenas pegou um balde e levou para dentro de casa, Hip ficou ao meu lado, atento. O menino havia ficado imóvel em meio ao feno, estava molhado da chuva e frio, mais parecia um boneco. Encostei receoso o ouvido no seu peito, seu coração batia lento e baixinho. Chamei Hip e juntos entramos na casa. Ela me esperava com alguns panos e um balde com água morna.

- Saab! Você sai para comprar materiais e volta com uma criança? Vai entender. Mas, que ideia de Gerico, saiu por aí para arrumar dinheiro e volta com problemas — ela tentou brincar, mas estava claramente nervosa etratou de tirar a blusa do menino. Assustada com os arranhões do jovem ela pegou toalhas molhadas e limpamos todos os ferimentos -Pobrezinho — ela disse ao ver os hematomas dos chutes e socos que o garoto levara — tenho um pouco de creme medicinal de quando Hildor caiu do telhado, espero que funcione...

Agora ele estava a salvo, ou pelo menos, era o que eu queria que ele pensasse. Estava preocupado com a reação de Haina antes, mas agora parecia não se importar de estar ajudando. Gentilmente pegou algumas roupas antigas de seu filho e ajudou-me a vestir o garoto.

Limpo e aquecido o levei até o quarto e o coloquei na cama, já estava um pouco mais quente e a cor voltava a sua face antes pálida exceto pelas maçãs surradas. Tirei meu robe e coloquei uma muda de roupa seca, Haina entrou com um pouco de caldo.

- Temo que pegue uma gripe, está tão machucado e fraco. Aqui tem galinha e legumes, vamos tentar fazê-lo comer um pouco. Onde você o achou? Parece que não come nada há dias!

- Seus pais foram enforcados hoje... acusados de traição — sussurrei temendo que ouvisse – Estava passando pela praça quando vi a cena.

O olhar de Haina se entristeceu, ela fez sinal para que levantasse o rosto dele. O acordou gentilmente passando a mão em seus cabelos e orelhas. Ele tomou a sopa vagarosamente, mastigava com dificuldade por conta de suas bochechas inchadas. Parecia que ela sabia que estava ficando cansado, mandou-o dormir e descansar. Apoiei sua cabeça no travesseiro de penas e acompanhei-a até a sala.

A velha Haina encheu meu copo de vinho e riu bem humorada. Estavamos sentados em sua sala enquanto ele dormia no quarto. Como sempre não fizera muitas perguntas, mesmo ficando preocupada com o bem estar dele. Temia a reação de medo dos cidadãos, não era uma situação comum um filho de traidor não ser levado pelos soldados.

- Desculpe-me Haina, agi impulsivamente, não conte a ninguém que ele está aqui. Pode te trazer problemas...

- Direi que partiste antes do anoitecer, achei estranho, mas não questiono meus hóspedes. Aliais poucas pessoas visitam uma velha, uma boa companhia é sempre bem vinda!

Ela deu um longo gole e seu olhar escureceu.

- Imagino que o pequenino deve estar sendo torturado há alguns dias. Devem ter tentado tirar informações de seus pais – ela olhou para o líquido escuro na taça, os olhos em sombras de pesar — caso eu esteja certa é filho de um casal que trabalhava no moinho e morava de favor numa casa no campo. O dono deve estar apavorado, provavelmente já queimou todos os pertences da família.

A casa de Haina era pequena, mas sempre me recebia com alegria. Ainda mais depois que Hildor, seu filho mais velho mudou-se para a cidade. No momento me preocupava em não colocá-la em perigo, e em como lidaria com o garoto que dormia no quarto ao lado. Suspirei sem perceber, chamando a atenção dela, sua feição era carinhosa.

— Diga-me, Saab, você já cuidou de alguma criança? – ela tinha um sorriso acolhedor. Os longos fios louros eram trocados por brancos e algumas rugas apareciam em sua testa.

Eu balancei negativamente a cabeça desanimado.

— Não faço a mínima ideia de como proceder... sabe-se lá o que eu tinha na cabeça quando o peguei...

Não podia deixar que o matassem, ou que se tornasse escravo de quem matou seus pais. Ou podia? Olhos tão rebeldes, como os dos guerreiros do sol, mas tão pequeno. "Você era menor, e mais debilitado" minha consciência lembrou, orfão, não sabia como era ter mãe ou pai. Tudo se resumia a sobreviver com meu irmão mais velho, ele podia lembrar um pouco de nossos pais, mas eu possuía apenas quatro invernos quando faleceram por conta da peste.

Ela observava meu rosto, sentou-se do outro lado da mesa com um sorriso.

— Qualquer coisa é melhor que nada Saab, e você tem um coração nobre. Tenho certeza de que esse jovem está em boas mãos.

— Quem dera ter essa confiança! – ri e bebi mais um longo gole.

Tomamos a garrafa juntos e Haina contou-me sobre a última estação, como a colheita fora difícil, mas algumas maçãs lhe renderam um bom sustento. A chuva que destruiu parte da plantação quebrou um pouco o telhado e Hildor consertou numa de suas visitas.

Após conversarmos muito o sono e cansaço nos alcançou, ela se recolheu, aproveitei para guardar meus pertences e verificar como estava Lua Crescente. A égua robusta estava deitada no pequeno estábulo e parecia confortável sobre o feno, coloquei mais água em seu cocho e acariciei seu focinho. Por fim, após limpar a sela e os arreios me dirigi ao quarto, com cuidado abri a porta, não queria acordá-lo.

Atormentado por um pesadelo seus pés tremiam e lágrimas escorriam por suas bochechas inchadas. Com cuidado deitei-me no colchão ao lado, pousei de leve minhas mãos em sua cabeça e sussurrei uma música bem baixinho até que se entregasse à noite estrelada.

"Que Adália o proteja" Sussurrei e adormeci.

No dia seguinte acordei e o garoto já não estava mais ao meu lado, preocupado que tivesse saído para ir a cidade, troquei de roupa e corri para a sala. Fui tomado por um estranho alívio quando o vi sentado à mesa. Olhava sem graça para mim e pareceu tentar dizer algo. Havia pães no balcão e um pouco de manteiga, coloquei na mesa, "deve estar com fome" pensei.

- Coma um pouco — disse fazendo um gesto na direção dele.

Receoso, deu uma mordida, depois outra, e acabou comendo o pão todo.

- Melhor! Os pães de Haina são muito gostosos — disse tentando deixá-lo confortável — Er... Como estão seus hematomas, alguma parte do seu corpo dói?

Ele se encolheu com a pergunta, provavelmente não sabia que havia limpado seus ferimentos quando estava fraco. Os fios pretos tampavam seus olhos acinzentados e suas bochechas que ainda estavam inchadas. Devia ter uns dez invernos, e parecia um pouco desnutrido.

- Senhor... – a voz amarga e triste — Porque me salvaste? Pretende fazer algo comigo?

Diante daquelas palavras, senti-me desconcertado. Pensava que o venderia ou faria algo absurdo como fazê-lo de escravo? Abaixei a cabeça e olhei para os lados sem saber como explicar. Quando parei para notar em meio ao desespero de seus olhos ainda havia um leve brilho de esperança. Levei o chá à boca e com um longo gole terminei pousando a pequena xícara na mesa, sendo observado timidamente pelo miúdo.

- De verdade garoto não sei... Talvez... O olhar que você lançou sobre as pessoas da cidade? É, queimava como o sol, ousado e terrivelmente corajoso. Tão indomável como os guerreiros de minha terra, eu simplesmente não quis deixá-lo lá... Quanto ao que irei fazer com você. Você escolhe o que deseja fazer.

Ele pareceu aliviar-se, não fosse pelo barulho de coisas caindo no quarto teria ficado mais relaxado. Haina estava acordando e capengou até a sala com o cabelo todo em pé, um sorriso maroto nos lábios.

- Ora essa, achei que você e o jovenzinho já haviam partido a essa altura! — soluçou sonolenta.

- Partido? — os olhos deles, opacos de dor me encararam relutantes.

- Sim, voltarei para minha cidade, longe daqui — ele parecia inseguro, eu imaginava seus medos — Você vêm comigo?

O pequeno acenou que sim, provavelmente se perguntava o que seria de sua vida de agora em diante. Peguei na bolsa o dinheiro para pagar a Haina, ela estava sentada a mesa perdida em seus pensamentos com um sorriso na face que possuía um ar zombateiro. Coloquei as moedas à sua frente, ela suspirou.

- Já disse que não precisa disso — reclamou — gosto de ter companhia nessa casa velha.

Ela encarou o menino e sussurrou docemente.

- Qual seu nome jovenzinho? Você me lembra meu filho! Pode voltar quando quiser para me visitar, e traga esse velho com você. Gosto muito de visitas!

O menino não a respondeu, mas sorriu-lhe tímido. Deixei-os a sós e comecei a preparar a carroça para a viagem, busquei minhas roupas no quarto juntou com mais umas mudas que Haina separou para o garoto. Coloquei na caçamba, amarrei o feno melhor, havia se soltado um pouco com o peso do pequenino, ajeitei os materiais. Tudo estava em ordem depois que busquei meu manto e as roupas dele no varal. Haina o trouxera para a varanda, aparentemente dera outro casaco à ele, cada vez mais devia à sua bondade.

- Eu não sei como agradecer...

- Eu sei! Faça-me o favor e leve essas maçãs com vocês, já não aguenta mais ver tantas. Essa macieira enlouqueceu! — ela jogou uma bolsa de uns dois quilos na minha direção.

Como podia ser tão energética?

- Bom, muito obrigado! De verdade — fiz uma breve reverência — Vamos garoto?

Ele assentiu e me acompanhou, seus passos eram vacilantes, parecia mancar um pouco. Diminui o ritmo para que me acompanhasse e o ajudei a subir na carroça. Ela penteara seus cabelos, as maçãs do rosto dele estavam levemente roxas, mas seus olhos acinzentados pareciam um pouco menos desconfortáveis. Nós despedimos de Haina e Hip nos acompanhou até o portão aos saltos.

- Você ainda não me disse seu nome, não quero ficar te chamando de garoto...

- Axel — ele disse com tristeza — e qual é o seu?

- Yusaf.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.