Notas iniciais
A madrugada já ia alta quando o som de cavalos despertou a boa gente de Punyburg. Lorde Lewis entrou apressado nos limites da cidade.
E encontraram Lady Gretel de pé forçada a acordar por um sonho ruim. E Lewis não trazia notícias melhores que seu sonho:
–Fagin nos chama para um conselho! Ele suspeita de algo muito sério, temos que ir.
–Não me demoro, vá à frente que eu o alcanço no caminho.
Ele sorriu ao ver a Lady em roupas de dormir, mas se controlou, pois sabia que não era a melhor hora para piadas e foi até seu cavalo tomando o caminho rumo às Araucárias Arcanas sozinho.
Só lordes podiam entrar naquele terreno sagrado.
Gretel se arrumou depressa, mas não conseguiu alcançá-lo. Ela e Lorde Irálem chegaram simultaneamente, todos se cumprimentaram respeitosamente e entraram no pentagrama, aparentemente todos muito curiosos para saber do que se tratava esse conselho tão tarde.
Daring tapou a boca para bocejar, o local estava quieto e parecia muito sombrio:
–Que fique claro – começou Fagin – que não quero criar alarde... Mas o povo de minha cidade relatou varias aparições de um vulto na floresta, e é bem provável que seja um espião.
O menino sonolento esbugalhou os olhos:
–Pois em Wolf Hills também tem acontecido isso... Mandei alguns homens vasculharem as colinas e a floresta em torno da cidade.
–E então – perguntou Irálem – acharão algo?
–Nem rastros dele...
E o recém lorde tentou se mostrar tranqüilo... Com uma expressão serena, sugeriu:
–Deveríamos nos precaver igualmente e vigiar o entorno de nossas cidades.
Todos se calaram com suas próprias teorias sendo formuladas mentalmente, a falta de decisão incomodou Fagin:
–Se for um espião Sonsoc é sinal de que nos atacarão em breve.
–Mas é cedo demais para tomarmos essa ameaça por concreta...
Daring disse não querendo precipitá-los, Lewis olhou o jovem e completou:
–Tem razão, não sabemos nada alem de que é um vulto perambulando entre as árvores pelo que vocês contaram.
Ele se referia à Fagin e Daring. Um vento gelado soprou, folhas foram arrastadas Irálem passou a mão pelo cabelo e colocou o pensamento de todos para fora:
–Mas até termos certeza pode ser tarde, temos que tentar verificar isso logo.
Todos entraram em acordo com ele e por segurança todas as cidades iriam tomar suas precauções.
A idéia de voltar sozinha pela floresta escura fez Gretel se arrepiar. Visivelmente abalada não tinha dito nenhuma palavra durante a reunião.
Quando todos se preparavam para partir ela se aproximou de Lewis:
–Gostaria de companhia na volta?
Ele sorriu e respondeu subindo na montaria:
–Seria ótimo, ainda mais a de alguém tão ilustre!
Ela montou em sua égua e lentamente seguiram o rumo para suas cidades.
Lorde Lewis gentilmente puxou um assunto leve para deixar o clima melhor:
–Vi que não está muito bem... O que a incomoda?
–A floresta... – ela espiou pelo canto dos olhos as árvores ao lado da estrada – de dia é um bom lugar para se estar, mas á noite não é tão amistosa assim...
Ele engoliu secamente, mesmo com todo o seu tamanho avantajado era um homem supersticioso:
–Tem medo dos seres da noite?
–Só de fantasmas... E esse vulto que não deixa rastros me deixou de cabelo em pé...
Uma coruja piou ao longe, a respiração deles se acelerou, o cavalo de Lewis bufou:
–Talvez – ele sussurrou sem perceber – não seja nada...
–Talvez...
–Talvez!
Repetiu uma voz estridente poucos metros atrás deles. Os dois pegos de surpresa saltaram nas selas, Gretel deu uma guinada com a montaria e Lewis fez o mesmo.
Lá estava uma criatura decadente, toda esfarrapada... Seu rosto era deformado por queimaduras e seus olhos brilhavam amarelos no escuro. Era um velho e curvado bruxo.
Ele vivia em Foxburg e carregava uma cesta com ervas e cogumelos culinários:
–Vão logo jovens lordes... Às três da manhã se aproximam e as almas não esperarão que cheguem até suas casas!
O mau agouro do velho causou o efeito esperado e com a voz seria Lewis ralhou:
–Não nos pregue essas peças senhor! Quase nos mata de susto!!!
O velho calmamente respondeu:
–Pois se só a voz de um bruxo os assusta, enlouquecerão ao ver a primeira assombração...
Sem vontade (ou coragem) de continuar a discutir com ele os dois puseram suas montarias à galope até que viram as luzes dos postes amarados.
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