O trabalho foi duro, mas rendeu bem e na mesma noite o campo vazio já estava arado e fertilizado. Agora teriam de dar tempo para que a terra absorvesse os nutrientes, depois viria o trabalho para semear.

Lanios se esforçava em aprender os serviços que recebia. E sendo um escravo de luxo e de bom comportamento acompanhava sua dona em todas as funções de lady.

E as funções não eram poucas, fazia parte dos trabalhos dele organizar os estoques de comida, ajudar com as plantações, resolver rixas quando Gretel não estava, ouvir as queixas do povo e algumas vezes chegou a servir como mensageiro levando mensagens sigilosas até os Lordes.

Em pouco tempo a população, estranhamente, se apegou à ele, que era visto como um representante da Lady. Lanios se mostrava contente em ajudar o povo, mas a humilhação de ter sido vendido como gado ainda abalava seu peito.

Ele era bem tratado por todos, era respeitado e obedecido. Acima da autoridade de Lanios só estavam Lady Gretel e os Deuses.

Os moradores se mostravam curiosos pelos costumes Sonsocs dele, sempre fazendo perguntas as quais ele sempre respondia sorrindo. Nunca em sua vida tinha recebido tanta atenção, eles o ouviam e o estimavam, mesmo sendo escravo.

Não demorou e varias propostas de compra apareceram e todas foram recusadas por Lady Gretel.

Uma possibilidade terrível rondava o povo Ossi... Uma nova investida do inimigo e dessa vez mais programada e intensa. Mal terminaram os reparos em Foxburg, começou o treinamento de novos guerreiros, estariam novamente prontos para qualquer ataque.

E mesmo que fosse apenas uma possibilidade, não poderiam se arriscar a serem pegos de calça curta e se isso acontecesse não teriam como fugir.

A convivência entre dona e mercadoria era marcada por momentos de paz e de enfrentamento, com a Lady mais fria do que nunca.

Só uma pessoa via o escravo como intruso em Punyburg, Dináh, e não se esforçava em esconder sua opinião, pondo Lanios em todo tipo de tarefa penosa quando a Lady não estava por perto.

Quando Gretel ficou sabendo do abuso de sua mãe já haviam passado um mês e alguns dias desde o festival. Se não fosse por Bodicéia, que era sua vizinha e presenciava as cenas dos maus tratos, talvez Lady Gretel só ficasse sabendo tarde demais:

–Mi Lady, eu vejo seu escravo penando em serviços sem sentido quase todas as tardes, quando a senhora sai para caçar – iniciou a guerreira – Vejo-o varrendo todo o redor de sua casa e repassar varias vezes os serviço à mando de sua mãe, trazer baldes e baldes de água só para jogá-la fora, mudar a lenha de lugar e recolocá-la no mesmo lugar e todo o tipo de maluquice que sua mãe inventa – e com ar agourento acrescentou – nunca o vi reclamar, mas não demora e ele estoura e passa a lâmina no pescoço da velha!

Indignada Gretel correu para sua casa sem olhar para trás e quando chegou encontrou Lanios carregando uma saca de milho:

–Deixe esse saco no chão!

Confuso ele encostou a carga na parede mais próxima:

–Tire a camisa.

–O que está acontecendo? Foi algo que eu...

–Tire logo – ela o interrompeu, e quando ele obedeceu, ela apalpou seu abdome e braços examinando-o – como suspeitei, falta carne pra preencher a pele que tem, emagreceu pouco, porém bruscamente...

Perplexo ele a encarou:

–E não me contou o que estava passando, me diga porquê escondeu isso?

–Você... – relutou ele com os olhos brilhando – você iria discutir com sua mãe, provavelmente iria puni-la...

Com um sorriso de descrença ela tentou digerir aquelas palavras de pura resignação:

–Sei... Não queria causar discórdia em minha casa, mesmo que isso te custasse todas as forças...

Envergonhado ele evitou olhá-la nos olhos:

–Pois se assim é, vou apenas falar com Dináh para que aprenda sua lição – nas feições dele apareceram um traço de contentamento- mas, que você aprenda a sua também, nunca se sacrifique pelos outros se não tiver certeza de que eles fariam o mesmo por você.

–Não posso... Minha religião me ensina que mesmo que a pessoa não retribua ou aceite minha ajuda não devo desistir de tentar ajudá-la como puder...

Ela riu, e pondo a camiseta nas mãos dele disse:

–Se vista. Vamos para casa antes que você tente me reconverter pra Monocrença.