Ele foi levado até a casa de Gretel, que já estava pronta esperando-o ansiosa, o gosto de uma vingança lenta e dolorosa em sua boca.

Lanios entrou e foi puxado até o sofá, ela lentamente desfez os nós que atavam as mãos dele:

–Se se comportar bem poderá ficar solto, mas se te mete a esperto será punido da melhor forma possível.

–Tem punição pior que essa?

Ele levantou os braços para mostrar as cordas que ainda estavam presas aos seus pulsos:

–Existem muitas.

–Existe algo pior que ser escravo?

Esse era um desafio direto para ela, e sustentando o olhar dele, sombriamente ela respondeu:

–Existe a traição, a morte, a perda, a indiferença... Existem centenas de coisas piores que a escravidão!

Ela terminou de desatar os nós. Os pulsos dele estavam esfolados, sangue coagulado se amontoava ao redor das feridas.

Dináh que assistia a cena de longe em silêncio se levantou para oferecer ajuda:

–Posso cuidar dessas feridas.

Com um maneio negativo da cabeça Gretel a impediu:

–Dele cuido eu – e se dirigindo a ele – venha.

Ele a seguiu até o quarto, como estava de noite um lampião estava aceso sobre o criado mudo:

–Gretel! –era Dináh quem chamava da porta – não acha atrevimento demais levar um homem que não conhece ao seu quarto?

A moça foi até a porta e em quanto a fechava respondeu:

–Não.

A mãe dela ainda bateu e a chamou varias vezes:

–Pegue umas moedas mãe e vá ao bar tomar algo forte!

Houve algumas objeções, até que vencida, a velha mãe Dináh se rendesse e fosse tomar algo fora de casa:

–Sente-se na cama, vou arranjar algo para melhorar a dor.

A cama macia era um convite tentador para que ele descansasse o corpo que tanto tinha sofrido em dois dias, ele se sentia triturado e as suplicas dos prisioneiros que não tiveram a mesma sorte que ele ecoavam em sua cabeça.

Nunca iria esquecer a visão de tantas mortes à sangue frio:

–Esse bálsamo vai curar os machucados e evitar que apodreçam.

O bálsamo tinha cheiro de eucalipto e estava concentrado em uma pasta dentro de uma lata com tampa:

–Pode arder um pouco...

Ela aplicou com cuidado nos ferimentos, com movimentos circulares procurando não irritar a carne exposta:

–Não arde tanto assim.

–Varia de pessoa para pessoa... – ela suspirou, e perguntou – o que você tem feito nesses últimos catorze anos?

Em poucos minutos ela já terminará de aplicar o medicamento e se sentava a frente dele num banco:

–Quando fiz dezoito anos a Superiora me arrumou um emprego como contador.

–Então tem vivido bem?

–Infelizmente não... Os negócios vão bem, mas o orfanato exige uma quantia enorme pelo tempo que estive lá... E parece que todo dia tem um número a mais, uma despesa não paga,uma caridade pra realizar... Estou sempre trabalhando e nunca sobra nada, mas às vezes quando consigo juntar algum dinheiro compro roupas novas, saio para comer fora...

Ela balançou a cabeça sinalizando que prestava atenção:

–E você? Pelo jeito se deu muito bem! Agora você é uma nobre!

–Isso é graças ao meu irmão Tássio, ele sim era nobre... Poderia ter se tornado um Duque na corte do Rei-Mago Érico, mas o coração dele é defeituoso, infelizmente... E tem piorado.

O silêncio tomou conta do quarto por alguns segundos, Lanios olhou os pulsos e tentou puxar assunto:

–Até que não arde muito.

–Acho que você já disse isso...

Ela se levantou e guardou o bálsamo na gaveta do criado mudo:

–Gretel – ele a chamou e esperou que ela se virasse – como você veio parar em Punyburg? De São Tito até aqui é uma longa caminhada e você nunca tinha saído do orfanato antes.

Ela suspirou longamente, as cenas voltaram em sua mente, quadro a quadro. E voltando para a cadeira ela respondeu:

–Sai de meu quarto, mais morta do que viva... Fui para o jardim e subi no muro me apoiando na árvore velha que ficava colada com ele e me joguei para o outro lado...

–Mas o muro do orfanato tem quase quatro metros!

Gretel levantou a blusa até um pouco abaixo da linha dos seios e do lado das suas costelas esquerdas estavam uma serie de três cicatrizes largas com um intervalo igual entre elas:

– Quando disse me joguei, foi porque me joguei sobre a cerca de estacas de ferro que rodeia a horta do orfanato.

–Você podia ter morrido...

–Era isso que eu queria, mas nem as estacas nem a queda me mataram, quando vi que podia me desprender, forcei meu peso e minha pele cedeu, depois disso corri até a parte Sonsoc da floresta Foxwood... Corri e sangrei a noite toda até que desmaiei sobre as Araucárias Arcanas.

Lanios engoliu à seco e receoso acrescentou:

–Deve ter doído muito...

–A dor não foi o pior...

Ela abaixou a blusa, ele ficou tentando imaginar a resposta para o que ia perguntar:

–O que foi pior?

–Acredite em mim ou não... Foram os fantasmas da floresta...

–Fantasmas...?

–Não sei se foi por estar quase morta, mas eu vi... Eram muitos, fantasmas ou o que quer que fossem, eram vultos brancos, alguns pretos, mas todos não tinham rosto e vagavam lentamente pela sombra. E acredito que existam coisas ainda mais atormentadoras no fundo daquela floresta à noite...

A Gretel que ele viu ali sentada fez com que ele se lembrasse da menina que havia conhecido... Ele e Ane eram seus únicos amigos, era desconfiada e assustadiça, mas com eles mostrava um lado brincalhão e sensível, mas esse tempo já era um passado distante:

–Eu acho que fantasmas podem existir e que você não estava tendo alucinações.

–Tenho medo deles até hoje... Mas não me fizeram nada...

Curioso ele pediu que ela continuasse a contar o que tinha-lhe acontecido:

–Quando acordei estava no lombo do cavalo do então Lorde Tássio, aquela manhã iria acontecer um conselho, ele foi o primeiro a chegar... Ele me levou até a casa da bruxa.

O relógio de pendulo da sala bateu as horas e Gretel prosseguiu lentamente:

–Ela fez o que podia e ele me levou para sua casa. Fui adotada por ele e sua mãe. Ele é quem eu considero um verdadeiro familiar.

–E ele fez de você uma Lady!

–Quando melhorei agradeci a hospitalidade dele com trabalho, mas ele viu algo mais em mim e me treinou para sucedê-lo, ele me ensinou tudo o que pôde.

Ele esfregou a pomada para que esquentasse seus pulsos, com um olhar mimoso perguntou:

–E o seu título? O que ele quer dizer?

–Ruína dos Tolos, herdei-o de Tássio, ele era impiedoso com aqueles que fingiam ser ignorantes e é uma homenagem à um livro muito antigo onde um garoto ganha o título de “Ruína dos Lobos”.

Ela se levantou e abriu a porta, sua mãe encabulada saiu dali rapidamente, com certeza estava ouvindo por trás da porta:

–Esse é um dos defeitos de Dináh – ela balançou a cabeça negativamente – você dormira no sofá até que eu faça um quarto de criado para você... Venha...

A conversa terminaria num outro dia, Lanios ganhou uma coberta peluda.

Mal ele se deitou chorou por aqueles que tinham morrido no palco aquele dia, o cansaço fez com que ele desmaiasse.