Elo
3 Capítulo 3.
Notas iniciais
A chuva caía fina do lado de fora, chocando-se contra a parede de pedra do castelo, provocando um ruído agradável ao tocar o chão, assim como um familiar e aconchegante cheiro de terra molhada, o vento deslocava-se calmamente, chacoalhando algumas árvores, a temperatura estava amena, algo com o que eu já havia me acostumado e sabia que seria uma das coisas de que eu sentiria falta. Abri meus olhos lentamente, com certa dificuldade, além da claridade da manhã que não auxiliava em nada, meus olhos estavam marejados devido a uma longa noite de choro, eu ainda vestia os restos de meu vestido, meus cabelos eram um completo emaranhado de nós, completamente desregulados, minha cama nem mesmo havia sido feita, eu apenas me aconchegara em meio aos travesseiros e lençóis de seda e me permitir encarar as minhas possibilidades.
Revirei-me inquieta na cama, minha cabeça girava incessante, eu estava tão confusa, nem mesmo sabia o que fazer que tipo de atitudes tomar, fora enganada por Dmitrei e agora teria que aguentar as consequências de suas atitudes. Tentava em vão controlar-me ou pelo menos dormir por mais alguns minutos, sabia que o dia seria bastante longo, a viagem cansativa, e minhas atitudes requisitariam o Maximo de mim, mas fui impedida por leves e discretas batidas na porta, levantei cuidadosamente a cabeça, enquanto Siobhan adentrava o cômodo com uma jarra com água quente em mãos e várias toalhas em outra.
–Precisará se arrumar, alteza. – ela disse sorrindo fracamente, tentando em vão fazer com que eu me sentisse melhor.
Joguei-me novamente entre as almofadas, ignorando tudo que ela havia dito, eu não queria levantar, nem ao menos tinha forcas para isso, não queria olhar Dmitrei, não queria abandonar essa fortaleza que chamo de lar, afinal, isso era tudo que restara de meus pais, eu nunca havia ultrapassado esses muros, como agora poderia dar um passo tão grande quanto esse, havia também Arthur, meu noivo, provavelmente tratava-se de um principezinho inconsequente e arrogante, que utilizava de seus direitos ao trono para conseguir o que queria, assim como sabia que ele já deveria ter corrompido metade das mocas de seu reino. Coloquei as mãos sob a testa, sentindo Siobhan tocando meu pé, fazendo com que eu o puxasse de suas mãos, ela sempre fazia isso quando eu era apenas uma menininha, ela com toda certeza havia notado que eu não estava bem.
–Precisas ser forte, não o deixe perceber que não conseguirá encarar tudo isso, eu conheço a minha pequena. – ela falou sorrindo, mostrando aquelas tão familiares covinhas em suas bochechas rosadas.
Eu apenas assenti, sem dizer nenhuma palavra, levantei-me cuidadosamente da cama, desfazendo-me de meus vestidos e passando água em meu corpo, enquanto notava que Siobhan separava um lindo vestido para o encontro com meu noivo.
–Que tal este? – ela perguntou mostrando-me um lindo vestido de seda, claro. – É tão delicado... – ela falou admirada, como uma simples serva, ela jamais poderia comprar algo semelhante.
–Ele se incomodaria se eu aparecesse usando calcas. – perguntei irônica enquanto passava a toalha embebida em água quente sob meu corpo, limpando-o, ela revirou os olhos.
–Por certo, Alteza. – falou enquanto colocava o vestido sob minha cama e separava sapatos.
Assim que terminei, sequei-me com as toalhas felpudas separadas por Siobhan e sentei-me sob a cadeira, onde ela começou a pentear meus cabelos, prendendo uma parte dele, deixando que o restante pendesse pelas minhas costas como cascatas de cachos. Auxiliou-me com o espartilho, algo que tornava o ato de respirar impossível, eu o considerava a mais cruel arma de tortura inventada, passando o vestido pelos meus ombros, o abotoando em seguida, calcei meus sapatos, possuíam um discreto salto, algo digno de uma princesa.
Fitei-me no espelho, tantas pulseiras e colares, assim como todas aquelas roupas, isso não era eu, tinha vontade de tirar tudo aquilo fora, libertar-me, mas não queria acabar com o trabalho árduo de Siobhan. Cai sob a cama levando as mãos ao rosto, sentindo as lágrimas caindo, brotando de meus olhos, ela assistia toda a cena admirada, sabia que La assim como eu, não desejava a minha partida.
–Está na hora... – ela falou em um sussurro arrancando-me de meus devaneios.
Eu assenti e lancei meus olhos sob meu antigo quarto mais uma vez, alisei minha cama, senti meu perfume sob a cocha, eu nunca mais voltaria deitar sob eles, ou admirar a vista de minha janela, nunca mais ouviria o vento soprar pela manhã, ou até mesmo aproveitar o cheiro doce quando a terra tornava-se molhada. Siobhan pôs a mão em meus ombros e me conduziu, sob meus protestos para fora. Passei uma última vez pelo corredor, sabia que não voltaria a ver aquelas pinturas, sabia que não sentiria o cheiro de mofo proveniente das tapeçarias que decoravam as paredes, aquele não era mais o meu lar. Tomei meu desjejum obrigada por Siobhan, mesmo sentindo como se minha garganta naquele momento estivesse fechada, sufocando-me.
Dmitrei já me aguardava sorridente do lado de fora, assim como uma suntuosa carruagem, com detalhes em ouro, ele com toda certeza queria impressionar alguém, eu nem mesmo o cumprimentei, segui para a mesma, mas não sem antes abraçar carinhosamente Siobhan, sentiria falta de seu colo, de seu carinho.
–Eu a amo como minha mãe. – falei enterrando meu rosto em seu ombro.
–E você é a minha menininha... – ela falou alisando meus cabelos podia sentir a impaciência de Dmitrei, o que apenas aumentou minha raiva. – prometa que vai ser forte?
–Sempre... – eu falei com as lágrimas me dominando. – Nada irá me atingir. – falei decidida.
Segui em direção à carruagem, subindo seus degraus pesadamente, mostrando todo o meu protesto, Dmitrei segui na mesma direção, tagarelando como sempre.
–Fico feliz que vossa alteza tenha decidido partir mais cedo, assim acompanhará os planos de vosso casamento. – ele falou.
–Estás feliz? – perguntei empregando certa dúvida.
–Sim... – ele falou sorridente. – Minha felicidade está inabalável.
–Ótimo... Então sei que não se incomodará de fazer seu percurso a cavalo. – falei fechando a porta da carruagem o deixando do lado de fora, ele provavelmente estava me amaldiçoando naquele momento, era uma longa caminhada, eu faria com esta fosse a mais desconfortável de todas.
Fale com o autor