Elo
10 Capítulo 10.
Notas iniciais
O vento vagava de maneira preguiçosa por entre as árvores, fazendo balançar algumas folhas secas, provocando um ruído agradável e reconfortante, fazia me lembrar de meu lar, de todas as vezes em que fugia para treinar, cavalgar e almejava, livre, poder ouvir aquele ruído para todo sempre, a temperatura amena parecia invadir todo o local, assim como a leve chuva que agora parecia cair sobre nós de maneira completamente discreta, tudo conspirava para mais uma agradável noite de inverno inglesa, tudo, exceto o fato de que falhara, exceto o fato de que não fora forte o bastante para protegê-la, exceto o fato de que eu quase permiti que ele a violentasse, exceto o fato de que não fora rápido o suficiente para impedir que nesse momento ela lutasse por sua vida, eu a carregava fraca em meus braços, ela tremia, completamente entregue a febre, tremendo e chorando, ela estava aflita, ela temia não consegui e eu nunca pensara vê-la daquela maneira, o que apenas aumentou meu ódio. Eu corria desesperado por entre as árvores, esforçando-me para não machucá-la ainda mais, enquanto mantinha sua cabeça mais próxima de meu peito.
–Não pare, pare, por favor, pare... – ela delirava, agarrando com forca minha camisa, permitindo que lágrimas rolassem por suas bochechas rosadas pela febre.
–Não Kate, tudo bem, tudo bem, eu estou aqui... – falei apertando-a ainda mais, sentindo suas palavras dilacerarem meu peito, fazendo com que eu me odiasse por não ter sido mais ágil.
–Dói, dói tanto... – ela se contorcia, lutando para conter a dor, a dor e seus gritos, mantendo seus olhos cerrados e seus lábios comprimidos, tentando fazer com que seus lábios não falhassem com ela e revelassem o quão intensa era sua dor.
–Kate tudo bem, tudo bem, eu vou proteger você, não vou permitir que nada lhe aconteça, não mais. – falei beijando com cuidado sua cabeça e a envolvendo ainda mais com minha capa, temendo que a recente chuva agravasse ainda mais seu frágil estado de saúde.
–Faca parar... – ela implorava, revelando em sua voz todo seu pavor.
–Eu vou, eu prometo, vou fazer parar. – eu falava, tomado pela culpa.
Logo pude avistar as luzes cada vez mais próximas, indicando que logo estaríamos de volta e que eu poderia em fim cumprir a minha promessa, eu faria aquilo parar. Apressei ainda mais, se possível meu passo, enquanto meu coração batia pesado e incessantemente em meu peito.
–Ela precisa de ajuda. – falei assim que avistei as primeiras mulheres, sentadas em volta de uma fogueira, com suas crianças em seu colo e rezando, pedindo para seus deuses que nada ocorresse a Kate.
–Rápido. – gritava Lower logo atrás, ordenando para que alguém nos ajudasse.
Uma das mulheres se levantou rapidamente e me conduziu para o interior de uma tenda, onde rapidamente coloquei Kate delirante sob as almofadas, envolvendo sua mão, tentando lhe passar forca, enquanto a senhora saia em busca de toalhas e água morna.
–Kate vai ficar tudo bem. – eu falava, enquanto ela se retorcia e chorava.
Aquela cena partia meu coração, odiava vê-la daquela maneira, desde o momento em qu a conheci nunca pensei presenciar algo do tipo, não daquela maneira, como ela, que se mostrara forte a ponto de lutar com um grupo de ciganos, poderia agora parecer tão assustada?
–Arthur, Arthur, por favor, me ajude, por favor. – ela falava, acariciei seus cabelos enquanto colocava um pano úmido sob sua testa.
–Vou ajudar. – eu falava, para mim era difícil admitir, principalmente por que estava noivo, mas eu nutria sentimentos por ela, sentimentos fortes, tão fortes a ponto de desistir de meu trono.
Mesmo em meio a tudo aquilo, não pude deixar de perceber a ironia, desistir de meu trono, o que diria meu pai, o soberano de Avalon, Uther Pendragon? Se ao menos passasse por sua cabeça que seu único filho e herdeiro abandonaria tudo por uma camponesa, ele com toda certeza não aprovaria, assim como todo soberano que se encontrasse em semelhante posição, mas eu desistiria de tudo, eu abandonaria tudo por ela, e se ela não pudesse assumir o trono ao meu lado esse tornar minha noiva, então eu não almejava tanto assim governar.
Logo a moca estava de volta, com várias toalhas, ela pediu para que eu me retirasse, mas de maneira alguma queria deixá-la daquela maneira e não pude conter o vermelho que tomou conta de minha face, quando ela começou a limpar o corte no abdômen de Kate.
Se possível Kate se contorceu ainda mais apertando minha mão, chorando de maneira completamente alucinada.
–Tudo bem, tudo bem. – eu falava.
–Arthur me perdoe, me perdoe, eu não devia ter fugido o que devem está dizendo agora, como deve estar sua reputação, se descobrirem que sua noiva fugiu? – ela delirava. – O que será de meu povo?
–O que? – fora tudo que consegui exclamar, o que ela estava dizendo? Seu povo?
A senhora terminou de limpar os ferimentos de Kate, enquanto envolvia seu abdômen com ataduras. Aquilo me pegara desprevenido, o que Kate sabia sobre mim? Quem era ela?
Assim que descobri que havia ficado noivo, por meio de um casamento arranjado, fugi com a ajuda de meu fiel criado, passei dias cavalgando, tentando fugir dos soldados que meu pai enviara e agora minha cabeça lutava para acreditar que minha noiva tomara as mesmas atitudes.
–Kate? – eu chamei seu nome, enquanto agora, envolta por lençóis, ela já se encontrava mais calma. – Isso não importa agora. – apertei ainda mais sua mão. – Você é minha vida.
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