Ellosyn e o exército de Zurck
4 Revelação
Notas iniciais
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Mila abriu seus olhos lentamente, a claridão impregnou sua turva visão, mas pôde distinguir o barulho da cachoeira que a cada segundo ficava mais nítido, esfregou seus olhos para ter uma melhor visão de onde estava.
Percebeu que estava em uma caverna, ao longe viu a entrada coberta por água, uma caverna secreta, atrás de uma cachoeira.
–Ela acordou!- sua atenção foi para a mulher a sua frente.
De repente, mais três pessoas entraram em seu campo de visão, fazendo uma roda em sua volta, Mila se encolheu ao ver os olhares sob ela.
– Asmard fer te, anc’ar sör.... – um frio percorreu em sua espinha ao ouvir a mulher pronunciar aquelas palavras, lembrou-se de ter ouvido palavras semelhantes na noite anterior, antes de apagar completamente.
Noite anterior, sua mente reconectava- se ao que tinha acontecido, levantou-se meio tonta, mas logo se recompôs, Branca e Barwell logo vieram a sua mente.
–Aonde pensa que vais? – sentiu mãos a puxando, virou-se abruptamente, não sabia quem eram eles, nunca havia os vistos, mas naquele momento, não era a hora certa de perguntar tal coisa, queria votar para casa, apenas isso, ver se seus tios estavam bem.
–Me solte.- disse ríspida, o homem a fitou por alguns segundos.
–Se eu te soltar, irás se comportar? – Mila estudou-o mais atentamente, percebeu que era diferente das pessoas que estava acostumada a ver, seus olhos eram âmbar, iguais aos dela, mas eram mais intensos, mais vivos, seus cabelos eram curtos, sua franja cobria pouca parte de seus olhos, sua pele era tão branca quanto a neve, e pôde perceber também, a cicatriz embaixo de seu olho direito, era apenas um risco, mas que estava lá, fazendo parte de sua característica.
Seus olhos percorreram pela pequena caverna, havia mais dois homens e uma mulher.
–Quem são vocês?- perguntou com tal curiosidade, algo a dizia que eles não eram daquelas terras.
–Me chamo Brumer, esse é Tirth.- apontou para o homem que segurava uma grande espada em sua mão, se não fosse pelos cabelos loiros que desciam até seus ombros, poderia jurar que eram irmãos, seus traços eram robustos e sua barba por fazer dava um ar majestoso. – Avrey e Aredhel. – Avrey também havia um grande porte físico, mas ele era o menor de todos, seus cabelos castanhos batiam até seus ombros, parecia que sua altura não o incomodava, um verdadeiro guerreiro, Aredhel era graciosa, mesmo usando roupa de guerra, uma calça de couro preta, acompanhada por uma armadura da mesma cor, com detalhes dourados, não deixava seu ar feminino passar por despercebido, seus cabelos alaranjados eram de um liso sobrenatural, seus olhos também eram âmbar e seus traços eram delicados.
Brumer ainda a segurava pelo braço.
–Me solte...
–Não irei te deixar ir...- Mila tentou de várias formas se soltar, mas fora em vão.
–Preciso voltar, meus tios...- sentiu suas lágrimas brotarem, mas reprimiu-as, ela mal os conhecia, não iria se dar ao luxo de chorar em suas frentes.
–Não há como voltar...- disse Brumer o mais calmo possível. – o fogo consumiu as terras de Winsgord, Mila paralisou ao ouvir aquelas palavras, não acreditava nelas, mesmo que ele dissesse repetidas vezes, ela teria que confirmar com seus próprios olhos.
–Não irei para Winsgord.- disse pensando em sua casa próximo as colinas.
– Foi o primeiro lugar que o fogo atacou... — Aredhel se pronunciou pela primeira vez, se referindo a sua casa.
–C-como você...
–Eu sinto muito..- disse ela, Aredhel deu um passo para frente, mas Brumer negou com a cabeça, dizendo-lhe para voltar ao seu lugar, cabisbaixa Aredhel assentiu e voltou-se par aonde estava, naquele momento, apenas queria que sua amiga se lembrasse dela, mas sabia o quanto impossível seria.
Mila não conseguiu conter mais as lágrimas que reprimia, imagens de Barwell invadiam sua mente, todos os momentos em que esteve com ele, nas caças, os treinos de espada que ele insistia , Branca o repreendendo por ser tão duro com ela quando errava algum golpe imprevisto, eram coisas poucas, detalhes pequenos, mas que com certeza lembraria de cada um.
Brumer a soltou fazendo com que ela caísse no chão, nunca havia lidado com a morte de frente, e lá estava ela, a atacara quando menos esperava, até alguns dias atrás, caçava com seu tio sempre com um belo sorriso no rosto, e agora ele partira.
Mila apertou os olhos afastando as lágrimas que insistiam em cair, engoliu o choro, talvez se não tivesse ido para Winsgord, eles ainda estariam aqui.
A dor que sentia era imensa, o que ela mais queria era ficar sozinha naquele momento, mas a curiosidade para com aquelas pessoas era tamanha, levantou-se a fim de olhá-los melhor.
Eles perceberam sua curiosidade, se entreolharam, a fim de organizar a resposta para sua duvida.
–Algo me diz que não pertencem a estas terras, o que fazem por aqui? – disse tentando normalizar sua voz.
–Somos Druryens, responsáveis pela guarda de Elderyn...- disse Tirth.
Mila lembrou-se das histórias que sua tia contava, histórias de criaturas que possuíam uma ligação interminável com a natureza, criaturas que se pareciam humanos, mas imortais, criaturas que possuíam o sol em seus olhos, apresentando a cor âmbar neles, aquilo era um pacto entre eles e a natureza, equilibrando assim, as quatro estações do ano.
–Druryens...- repetiu mais para si do que para eles, recuou um pouco a fim de se proteger-se. – São druryens...- ela não tinha dúvidas daquilo, eram iguais de acordo com as lendas.
Tirth assentiu.
– De onde são?
–Asmort.- Brumer era o mais próximo dela.
– O que druryens fazem em terras humanas?- Grardor eram terras em que apenas homens viviam, sabia da existência de criaturas imortais, há muito tempo foi uma das terras de todos, mas fora exclusivamente tomada pelo rei Triman na época da Batalha da Ascensão, expulsando e massacrando aqueles que não possuíam a humanidade em suas veias.
–Acho que você não entendeu...- disse Trith.
–Te tiramos de lá antes da chegada de Zurck, o fogo inapagável, era apenas o começo...- a cada palavra que falavam Mila ficava mais confusa.
–Mila, você é o nosso destino, a causa de estarmos aqui é por você...- ela os fitou sem saber o que fazer, eles se entreolharam receosos.
–Você não se lembra de nós?- perguntou Avrey próximo a ela.- Somos seus guardiões Elderyn...
–Ela foi enfeitiçada! É obvio que não se lembra! – disse Tirth alterado.
–Calma Tirth...- começou Aradhel.- Calma...- ela virou-se para Mila, uma Mila assustada, nunca pode imaginá-la daquele jeito, fraca e indefesa, mas lá estava ela, a espera de uma resposta plausível para tudo aquilo.
–Somos Druryens...- começou novamente.
–Isso eu já sei...- interrompeu Mila.
–Todos nós, inclusive você...- Mila abriu sua boca para falar mas foi interrompida por Aredhel.- Vivíamos em uma era de paz, todos os quatro reinos, Iorg, o reino dos elfos, Zarwen, o reino dos magos, Zhahastard, o reino dos Druryens e Selvra o reino dos humanos, mas antes dessa paz consolidar, houve uma grande guerra entre esses reinos, pois todos tinham a intenção de ser o reino supremo de Asmort, depois que essa guerra acabou os reis perceberam o que haviam feito e assinaram um tratado de paz entre eles, prometendo assim respeitar as fronteiras de cada um, e a diferença de raças entre eles...Mas o medo se alastrou em Selvra, pois eram raças inferiores a nossas, então eles se aliaram a Zurck, um general que fora exilado junto com seu exercito para as terras de Morder. – Mila não sabia o por que Aredhel contava aquela história já conhecida por ela, sua tia sempre contava de histórias que haviam acontecido milhares de anos atrás e aquela, era uma delas.
–A terra seca? – Mila falou pela primeira vez, Aredhel sorriu.
–Sim, a terra seca, a terra que nenhuma criatura é capaz de pisar, Zurck era um mago, um dos conselheiros do rei Triman, o rei dos humanos,sua ambição era tanta que fora capaz de convencer o rei a travar uma batalha sangrenta para a ascensão de seu próprio reino...
–Zurck foi um fator importante para a batalha da Ascensão...- disse Brumer.
–Esse tratado de paz, durou longos cem anos...- começou Avrey.- mas quando os humanos se aliaram a Zurck, um massacre tomou conta de toda Asmort...
– Os druryens venceram a guerra...- Mila falou lembrando-se do que sua tia havia lhe dito. – o rei Ardor reinou durante a era harkiana.- eles se entreolharam esperançosos, ela sabia da historia, agora, apenas tinha que lembrar.
– Guerreamos até nossas últimas forças...- disse Tirith.- Os druryens não tinham um exercito de grande número, mas tinham a união e estratégias...
–E-eu não estou entendo, o que isso tem haver comigo?
–O poder do governo foi dado para o rei de Zahastard, ou seja, toda riqueza...
–Todas as terras..- disse Aradhel.
– E toda a magia...- concluiu Brumer.
– Quando rei soube que o reino de Zarwen aliou-se a Zurck, sabia que em questão de tempo a Era de Hark acabaria, Ardor não tinha herdeiros, não apenas seu reino mas todo seu legado estaria em perigo....- a doce voz de Aradhel adentrava em seus ouvidos.- Mas ele tinha uma irmã, que era fiel a ele e a Zahastard...
–Uma feiticeira poderosa, que permitiu ser enfeitiçada para que o futuro de Zhahastard pudesse viver a era harkiana novamente, ela prometeu voltar para proteger o que era seu por direito... — eles pensavam que ela era a feiticeira, aquilo era impossível.
– Disse para seus amigos a levarem para o vilarejo mais afastado o possível das terras nórdicas, e apagar toda a sua memória, pois ninguém poderia descobrir seu paradeiro e o que ela era, trocou seus olhos druryanos por olhos humanos,mas parece, que eles nunca perderam o brilho.- Tirth disse serenamente.
–Isso não faz sentido, Branca, Barwell...- quanto mais pensava naquilo, mais confusa ficava, lembranças invadiam sua mente, tudo o que havia vivido, os momentos em que passara com sua sua tia, os treinos que Barwell lhe dera, sua primeira dança, seu primeiro beijo...Tudo passava em sua cabeça, a dor começou a se espalhar pela mesma, apertou suas têmporas, tentando amenizar a dor, fechou os olhos tentando diminuí-la, mas sem sucesso, o grito involuntário que saiu de sua boca inundou a pequena caverna.
–Não! Sua memória esta se organizando, ela precisa de tempo.- disse Brumer.
–Ela está sangrando!- reconheceu a voz preocupada de Aradhel.
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“Não te treinei para nada Mila...Lembre-se, tudo o que fazemos tem um propósito...” “Até que a última folha de outono caia, até que o sol nasça e se ponha todas às vezes e que o inverno cubra toda Grardor...Eu te amarei minha pequena” ...
As palavras de seu tio latejavam em sua mente, mordeu seus lábios contraindo o grito que tentava escapar de sua boca.
– As lembranças que eu tenho...- disse entre arfadas de ar.
–São feitiços, vocês nos obrigou a encher sua mente de lembranças de uma simples garota, pegamos a de uma mortal e colocamos em você, te levamos para o mais longe possível, como você pediu..- Tirth pronunciou, Mila estava confusa demais para tentar raciocinar suas palavras.
–Barweel e Branca foram bons conosco, eles sempre acreditaram que um dia a Era de Hark voltaria para aquelas terras, aceitaram cuidar de você enquanto estava sob feitiço.
Mila ficou em silencio, ainda pensando em Barwell e Branca, ela não era quem pensava ser, por mais que tentasse, não fazia sentido.
– Precisamos de você Elderyn...Asmort precisa de você...
Ela levantou o olhar e viu Aredhel em sua frente, sua cabeça estava latejando, tinha acabado de descobrir que toda sua vida era uma grande farsa, e que a vida que ela tinha não existia em sua mente, por mais que tentasse, por mais que quisesse acreditar naquelas palavras ditas por eles, ela não conseguia se lembrar de nada e isso a estava frustrando...Mas por mais que não lembrasse, seu coração falava alto por ela, sentia que eles eram confiáveis, sentia que com eles...Estava segura, era algo até surreal de sentir por pessoas que nunca havia visto.
Ela tinha um desejo de protegê-los e sentia que eles tinham o mesmo instinto por ela, como se fosse um elo, um elo difícil de ser quebrado.
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