Ellohen - A Origem do Mal

4 Capítulo 3 - O Cerimonial de Boas Vindas


Os três se arrumaram bem a tempo de não serem chamados atenção por estarem atrasando a cerimônia, pois a presença de todos era essencial, não poderiam começar mesmo que estivesse faltando apenas um que fosse. Cléo estava muito bela com um vestido curto e preto, cabelos soltos e uma cara de poucos amigos. Comparada a ela, Hytanör e Ellos pareciam dois menores abandonados.

— Não riam, ou mato vocês! – disse Cléo, parecendo contrariada com a situação.

Foi o bastante para Hytanör e Ellos se entreolharem e soltarem pequenas risadas de provocação.

— Vamos! Estamos perdendo tempo. – disse a menina enraivecida, enquanto se dirigia para o corredor, logo seguida de seus amigos.

O corredor estava abarrotado com filas desordenadas seguindo para o grande salão nobre principal. Era possível ouvir alguns jovens reclamando por não terem roupas adequadas para a festa. A mesma escada em espiral levava ao sétimo e último andar, além dos três andares vistos anteriormente parecia haver mais quatro andares ocultos acima deles. A subida era vagarosa, e pelas janelas podia-se ver o quanto o tempo lá fora estava tenebroso, parecia ter mudado de uma hora para outra. A chuva apertara e as descargas de raios pela região pareciam dizer que os selünes estavam contrariados com alguma coisa ou por algum motivo. O sétimo andar era um grande hall, haviam muitas estátuas de selünes antigos esculpidos à mão por artesãos habilidosos, talvez tão habilidosos quanto seu avô Adonis — pensou Hytanör. Uma imensa porta dupla feita de metal e de uma espessura de 30 cm estava entreaberta, como se estivesse convidando a todos a entrarem.

O que se viu ao passarem pela porta foi um grande salão repleto de assentos aconchegantes formando um semicírculo em torno de um espaço que seria um palco, um espaço para palestras, apresentações, ou o que fosse. Haviam algumas pessoas ali, sentadas em cadeiras especiais que mais pareciam tronos agraciados de pedras preciosas e detalhes suntuosos. Agnis Nortilus estava sentado ao lado esquerdo do trono principal, que parecia estar em um patamar mais alto. Haviam outros homens e mulheres muito bem vestidos sentados em seus respectivos tronos, alguns utilizam faixas amarelo-dourado no braço esquerdo. Agnis era um deles.

— Parece que vão começar. – cochichou Ellos antes de sentarem juntos à terceira fileira.

O local havia sido todo tomado pelos novos alunos que haviam chegado de todos os reinos de Vandar. Havia um anel superior bem acima das cadeiras onde Hytanör e seus amigos se encontravam. Era uma extensão dos assentos, vide o grande número de alunos ali presentes.

— Vejam! O que será aquilo? – apontou Hytanör para um instrumento no meio do pátio que mais parecia um grande cálice de aproximadamente uns 90 centímetros, era todo de ouro e podia-se ver frases escritas nele com uma linguagem até então desconhecida para ele.

— Não faço a mínima ideia. – disse Cléo ajeitando-se na cadeira extremamente confortável, parecendo muito intrigada com o objeto.

Agnis levantou-se e diante de todos estalou os dedos, apagando todas as tochas e lamparinas que iluminavam o local. Agora tudo estava muito escuro, mas ainda assim, a claridade da lua e dos trovões do lado de fora dava uma visão muito clara do palco. Os murmúrios e cochichos que seguiam por todo salão cessou-se. Agnis no instante seguinte transformou o teto do grande salão nobre em um céu estrelado como há muito tempo não se via, parecia que o céu estava tão próximo como a palma da mão estavam de seus corpos. As estrelas sobrevoavam por entre os alunos e rodeavam o local como se estivessem à procura de algo ou apenas se mostrando.

— Sejam bem vindos novamente meus jovens! Esta cerimônia é realizada a cada ano para os novos alunos, dando a vocês uma pequena dimensão do mundo em que vivem e tenho certeza que pouco conhecem. Assim como tenho a certeza de que o conhecimento superficial de Sant Sovhen que alguns têm aqui de nada lhes servirão se não entenderem e conhecerem a história de ellohen. – revelou o grande conselheiro Agnis Nortilus enquanto caminhava para o centro do salão nobre junto ao instrumento dourado, o grande cálice. E ele continuou falando enquanto as estrelas que pareciam seguir seus gestos. – Como é de conhecimento público, há mais de cem anos houve o que chamamos hoje de "A Guerra Santa", que resultou no Cataclisma que hoje serve como um marco em nosso calendário elloheño. Tudo se iniciou quando um exército de mellows formado sob a liderança de um até então desconhecido, chamado Alannes Kamar – um arauto de Marak Damvra. Com as forças ínfimas devido à fonte inesgotável de Marak Damvra – o Lorde das Batalhas Infindáveis e Trevas Obscurecidas. – Alannes era invencível em busca de seu objetivo primordial, encontrar as Tábulas do Destino, artefato capaz de trazer o caos para os mundos, até mesmo para os selünes. Seria o fim dos selünes e o fim da era de paz em ellohen caso este artefato caísse em mãos erradas, como as de Marak Damvra. Se não fosse por uma selüne ter descoberto o plano malígno e impedido que acontecesse, talvez não estivéssemos tendo esta conversa agora. – disse Agnis enquanto dava olhares sorrateiros para os alunos como se estivesse apreciando o momento de silêncio, uma tensão nítida que pairava no ar. E então ele continuou. – Há exatos 157 anos atrás a guerra entre selünes e humanos que se arrastava há mais de 20 anos teve seu apogeu quando a selüne Alürenn, Senhora da Paz Eterna e das Constelações Infinitas confrontou Marak Damvra enviando seus mais poderosos cavaleiros. A deusa enviou à Ellohen seus sete príncipes hierofantes, eram seres divinos em peles mortais.

— Mas porque a deusa Alürenn não entrou na guerra pessoalmente e acabou com o inimigo Alannes? – interrompeu um jovem na primeira fila, para a surpresa geral dos alunos. Hytanör não conseguiu ver quem havia perguntado, mas tinha certeza de que nunca tinha ouvido aquela voz antes.

— Porque, meu jovem, os deuses fizeram um pacto de nunca interferirem diretamente no destino de ellohen e por isso não poderiam fazê-lo de forma alguma. – disse Agnis surpreso pela interrupção. – Se algum deles fizessem-no seriam severamente punidos à vagar por ellohen como mortais pela eternidade. De acordo com os limites estabelecidos por Ella nas próprias Tábulas do Destino. Agora, continuando. – fez-se uma pausa e então retomou seu raciocínio. – Nem mesmo os selünes sabiam onde estavam as Tabulas do Destino, escondidas há séculos pelas Ottellas – oráculas de antigas eras – para que nenhum selüne pudesse pôr as mãos em tão poderoso artefato. Tais artefatos nas mãos dos selünes poderiam criar discórdias. Os sete hierofantes reuniram forças em todos os reinos possíveis das regiões de Sul de Vandar e da Costa de Cruzgh. A batalha ocorreu nos Campos Carmos onde muitas mortes ocorreram e Alannes mesmo com as forças provindas de seu deus Damvra não conseguiu obter êxito em seus objetivos e pereceu junto com os sete guerreiros de Alürenn. Os hierofantes deram suas vidas pela existência plena de ellohen e sua deusa como recompensa transformou-os em espíritos remanescentes, poderosos espíritos que guardam agora a grande árvore que nascera lá pela vontade de Alürenn, a grande árvore anciã Ni'ya. Após isso os Campos Carmos tornou-se um terreno fértil e repleto de árvores sagradas e animais belíssimos, é um templo aberto de Alürenn.

— Mas o que aconteceu com as Tábulas e o selüne Damvra? – exclamou uma voz ao fundo que Hytanör não soube distinguir quem era, dessa vez não era o mesmo garoto, na verdade parecia ser uma voz mais feminina.

— Damvra por sua interferência direta no destino de ellohen, por ter mandado um arauto e concedido poderes extraordinários, e por sua tentativa de se apossar das Tabulas do Destino com fins obscuros e sem o consentimento dos outros selünes, foi expulso de Avanthör e trancafiado em uma prisão onde nenhum mortal seria capaz de chegar, mais precisamente em Tármitos. E Alürenn foi absolvida, apesar de não ter interferido diretamente. Ela defendeu os interesses de Avanthör e lutou pela humanidade, todos os selünes reconheceram a lealdade e compaixão de Alürenn e o quanto Marak poderia prejudicá-los caso conseguisse cumprir seus objetivos. E acreditem, ele esteve muito próximo disso. Já as Tábulas do Destino nunca foram encontradas de fato, crê-se que Alannes chegou a tê-la em mãos, mas não teve tempo de utilizá-la como queria e agora elas repousam em paz sob a proteção de Alürenn. Mas vocês devem estar se perguntando o que realmente de fato isso tem a ver com o propósito de estarem aqui hoje no ateneu, o primeiro dia de suas novas vidas. – disse Agnis, e realmente Hytanör e outros pareciam agora estarem se perguntando isso.

— Bem, estamos na primeira parte do castelo e por trás destes muros existem sete moradas onde vocês irão residir durante o ano letivo. São locais onde irão conviver e aprender com outros colegas. Creio que vocês já devam ter associado o que estou dizendo, ou estou sendo rápido demais? Bom, demos os nomes dos setes príncipes hierofantes às moradas, e isso foi requisitado pela própria deusa Alürenn, fizemos exatamente como nos pediu. – fez um silêncio estarrecedor no grande salão. – Sim, é como vocês estão pensando, ou acho que pensam. Esta ilha nos foi dada de presente por Alürenn, e igualmente protegida por ela. Os sete hierofantes que salvaram ellohen há 157 anos atrás, estudaram aqui e hoje são de imenso orgulho para todos nós. Alürenn percebeu a trama de Marak Damvra e teve tempo de construir o primeiro ateneu, onde seus hierofantes poderiam receber o treinamento necessário para lutar por ellohen. Inicialmente o ateneu se encontrava em outra região de Vandar, mas com o fim da batalha nos Campos Carmos em Cruzgh, Alürenn transformou um grande pedaço do território em uma ilha flutuante, que é onde vocês estão hoje. Os campos carmos se tornaram um grande patrimônio do ateneu e é a prova viva de que Alürenn está conosco e zela por nós. Os campos são proibidos para qualquer aluno, e sagrado demais para mortais como nós sujarmos seu gramado límpido, por isso não percam tempo tentando encontrar ou adentrar o campo, já vi muitos alunos serem expulsos ou desaparecerem tentando. Já sobre outros ateneus, alguns sentem muita inveja de nós por isso, por termos uma selüne que nos apóia e constantemente nos saúda. Enquanto que outros ateneus, como o de Illéus de Sandre'Mor teve seu selüne esfacelado e hoje em dia estão em decadência. Sim, meus jovens, o patrono de Sandre-Mor era Marak Damvra. Por isso nos odeiam tanto. – fez-se um silêncio maior ainda, se é que isso é possível. Todos estavam ou muito eufóricos ou muito abalados, as informações eram demasiadamente reveladoras e assustadoras. Hytanör parecia intrigado com a história e cada vez mais sentia-se inclinado a ir mais a fundo nas histórias, aquilo deixava-o empolgado.

— Meus jovens, vocês também devem estar se perguntando o que seria este instrumento que está diante de vocês, não é? – revelou Agnis enquanto punha sua mão dentro do cálice dourado. – Este artefato nos fora presenteado por nossa deusa, chama-se Narish. Ele possui a Flama Selüne, capaz de ler as emoções e os pensamentos de vocês sem machucá-los. Esperamos assim, decidir em qual morada vocês irão ficar. As moradas foram um pedido da própria Alürenn para que a própria pudesse escolher o destino de seus alunos. Os motivos e critérios que ela usa para seleção tem relação direta com as habilidades de cada um. Vocês poderão notar que algumas casas, por exemplo, possuem os mais habilidosos com manipulação do amital. E assim, outras casas são primadas por outras habilidades. Com o tempo vocês irão entender melhor.

Neste instante, o cálice explodiu em chamas esverdeadas iluminando todo o local, fagulhas saltaram para todos os lados, algumas chegando bem próximo dos alunos.

— Não tenham medo. O fogo é inofensivo para vocês. – disse Agnis passando a mão pelo fogo, provando a todos que o que falava era verdade. – Agora, para que a cerimônia seja completada vocês devem, um por um, vir até aqui e pôr a mão na labareda e marcar seu destino, deixar que o Narish escolha a morada de vocês. Vocês receberão um tecido especial, algo parecido com uma faixa, que indicará em qual morada ficará. Este item damos o nome de Badhan, guardem e cuidem bem dele, pois ele é a identificação de vocês e a prova de que são membros de Sant Sovhen. Quem se habilita em ser o primeiro? Ou a primeira? – Um sorriso agora estava estampado no rosto do velho conselheiro.

Um sentimento de apreensão pairou no ar, parecia que ninguém ousaria ser o primeiro, apesar das palavras tranquilizantes de Agnis. Uns se entreolhavam e diziam coisas como "não quero ser o primeiro" e "eu não vou pôr a mão no fogo por nada sem antes alguém testar". Até que uma jovem se levantou na primeira fileira, ela estava receosa, mas sua coragem era tão grande que ignorava qualquer tipo de amedrontamento. Hytanör a conhecia, era uma das estudantes da academia de Andher. Era ruiva e tinha algumas sarnas no rosto, parecia ser um pouco baixinha, mas tinha olhos verdes penetrantes, parecia ser do tipo de garota que é dura na queda.

— Ora, quem diria. Uma menina dando um exemplo de coragem aos garotos. – disse Agnis claramente provocando os garotos. E funcionou, porque muitos levantaram-se após Agnis provocá-los e andaram em direção ao cálice formando uma imensa fila agora.

— Muito bem minha jovem, ponha sua mão sem medo dentro do cálice e feche-a como se estivesse segurando um familiar seu prestes a cair de um precipício. – aconselhou Agnis à garota e assim ela fez. A labareda aumentou e umas fagulhas inofensivas voaram, mas a menina não pareceu sentir dor, ou qualquer outro sintoma. Após alguns segundos ela retirou a mão de dentro do cálice e junto a ela estava o badhan, que parecia um pano como os que Agnis e os outros usavam no braço esquerdo, só que era azul – um azul claro – e tinha o número "2" de cor preta ao meio junto de um símbolo que, inicialmente, não se pôde identificar o que era. Era a segunda morada ao qual a garota ruiva agora pertencia. A garota pulou de alegria, soltou alguns urros de alegria. Parecia ter sido escolhida para sua morada preferida embora fosse novata e soubesse tanto quanto Hytanör sobre as moradas, pelo menos aparentemente.

— Muito bem, minha jovem, agora vá para o seu lugar e mais tarde quando todos tiverem suas moradas definidas, irei lhes explicar sobre como elas funcionam por aqui.

A fila andou rápido, os alunos se dirigiam ao local e retiravam do fogo verde reluzente a faixa com o número da morada. Alguns ficavam felizes com a escolha, ou nem tanto, e outros assim como Hytanör ficavam indiferentes, pois eram apenas números.

Ellos ficou com a segunda morada, enquanto que Cléo ficou com a primeira. Pareciam felizes com as escolhas, de algum jeito sabiam muitas coisas sobre Sant Sovhen e as Moradas do Destino que Hytanör nem sequer sonhava em saber. Sentia-se um peixe fora d'água. Hytanör pensou que caso não tirasse nem a 1ª e nem a 2ª morada estaria "sozinho", provavelmente afastariam-no de seus amigos, e isso já era ruim demais. Conforme a fila diminuía e o grande cálice dourado se aproximava a tensão tomava conta de Hytanör, não sabia para onde poderia ser mandado, mas de alguma forma tinha a impressão de que seu desejo não seria atendido pelo Narish.

Hytanör reparou por um instante que Lorihenne estava tirando a sua sorte, por pouco, Hytanör nem notaria que ela já havia passado pelo cálice. Com a aglomeração de jovens à sua frente não conseguiu ver para qual morada Lorihenne havia sido escolhida. A vontade era de ir até ela saber qual morada ela estaria, mas ele se conteve, até porque sua vez já estava chegando.

A vez de Hytanör chegara e agora estava diante do cálice sagrado, respirou fundo e sem hesitar pôs sua mão dentro do fogo verde incandescente e uma pequena explosão ocorreu, como se jogassem um pedaço de carvão em uma labareda prestes a se apagar. Os olhos de Hytanör – por alguns segundos – ficaram dourados, como as de um felino, exatamente como na luta com Lukka em Andher. Foi tão rápido que ninguém que estava presente no salão nobre pareceu notar, nem mesmo Agnis ou mesmo a Millöra Akórdia, que aliás, pareceu cumprimentá-lo como se o conhecesse ou tivesse ouvido falar nele. Ao menos ninguém ficou estupefato com a mudança da cor dos olhos do menino. Hytanör também, é claro, não percebeu apenas sentiu um estranho calafrio, algo que não lhe preocupou, pois poderia muito bem ser confundido com o nervosismo. No fundo do cálice a faixa se formou e quando retirada a mão por completo, Hytanör pôde ver, era nitidamente um número "7". Era o que temia, agora estava só em uma morada que não conhecia ninguém.

— Não se preocupe, você está em uma boa morada. – Uma voz ecoou na mente de Hytanör. Ele olhou ao redor e ao que tudo indicava recebia esta mensagem de Akórdia, pois a mesma estava olhando fixamente para ele e sorrindo. Agora de perto, Hytanör pôde notar o quão bonita Akórdia era, seus olhos eram penetrantes e realçava ainda mais sua beleza. Embora sua beleza lhe desse um ar de inofensiva, Hytanör sentia o oposto pela seriedade em seu olhar, algo muito extraordinário para alguém que é a responsável máxima pela instituição Sant Sovhen.

Hytanör voltou-se para seu assento e se afundou na cadeira com um peso de uma tonelada nas costas. Seus amigos tentaram lhe confortar em vão.

A fila estava terminando quando pôde ver Lukka voltando todo feliz e passando por ele com um olhar de desdenho, e atrás dele iam seus fiéis escudeiros, os comparsas sem cérebros. Lukka estava com a faixa azul já amarrada em seu braço direito, e nela estava número "6" estampado. Pelo menos não caíra na mesma morada de Lukka, seria demais para Hytanör suportar.

— Não se preocupe amigo, estaremos em moradas diferentes, mas continuaremos nos vendo, nós três não vamos perder a amizade. – disse Ellos.

— Eu sei, não estou preocupado com isso. – disse Hytanör contrariado, tentando disfarçar sua insatisfação com a situação.

— É verdade, nós ainda ficaremos pertos um do outro e não em continentes separados. – disse Cléo, parecendo também um pouco contrariada.

— Pessoal não se preocupem, eu sei me virar. Olhem. – disse Hytanör tentando tirar o foco da atenção sobre ele. – Akórdia vai falar.

Todos viraram e o murmúrio que tomava conta do local silenciou, todos agora estavam prestando a atenção em Akórdia, a Millöra Regente de Sant Sovhen. Suas roupas eram belíssimas, como um grande vestido branco com símbolos e ornamentos em azul claro e dourado. Seus cabelos quase que dourados, em alguns momentos, soltos, estavam caídos sobre os ombros agora. Seus olhos verdes cristalinos repousavam por todos os alunos que nela depositavam toda a atenção.

— Saudações elloheñas meus jovens alunos. É com muito prazer que os saúdo com a benção de Alürenn e entrego o destino às mãos de Ella, a grande mãe de todos os selünes. Desejo a vocês um bom ano letivo e espero que se comportem, senão terei de puxar as orelhas de alguns aqui. Mas para explicar melhor algumas das mais importantes regras de Sant Sovhen, os acólitos irão distribuir umas folhas com algumas das regras mais importantes e que vocês sempre devem se lembrar para que possamos viver em harmonia.

Hytanör recebeu a folha em mãos do acólito que dizia:

MANUAL DE REGRAS DOS ALUNOS

Reg.#1 – Nenhum membro de Sant Sovhen pode desafiar/brigar (ou qualquer outro tipo de agressão física) outro membro. A não ser que seja marcado um duelo entre os dois com a aprovação do Corpo Docente e em última instância do Principado de Sant Sovhen. Neste caso, as regras do duelo serão ditadas pelo Corpo Docente ou Principado.

Reg.#2 – Nenhum membro de uma morada pode entrar/freqüentar outra morada sem o consentimento de pelo menos um membro da morada em questão. E sendo essa(s) pessoa(s) responsável(eis) pela estadia do convidado e por qualquer problema que o convidado venha a causar.

Reg.#3 – Os horários devem ser respeitados e de forma alguma transgredidos por membros sem uma prévia autorização.

Reg.#4 – É expressamente proibido ultrapassar os limites de Sant Sovhen, seja por quaisquer motivos. Os limites de Sant Sovhen são feitos para a proteção dos alunos e o mesmo se tornaria extremamente impraticável se algum desses vier a desrespeitar esta regra.

Reg.#5 – A hierarquia em Sant Sovhen é e deve ser respeitada por todos. Não serão tolerados desaforos ou qualquer tipo de desrespeito para com seus superiores.

Todas as regras acima são passíveis de advertência, punição ou até mesmo expulsão do quadro do Corpo Docente.

Akórdia Nephalla

Millöra Regente de Sant Sovhen

Todos leram calmamente seus manuais, alguns demoraram um pouco mais que os outros, pois era nítido o clima de tensão. Todos tinham que andar na linha, senão, poderiam ser expulsos na primeira semana.

— Antes de vocês irem para suas moradas, gostaria de apresentar-lhes alguns dos membros que fazem parte do Corpo Docente, que fatalmente farão parte do dia-a-dia de vocês. – revelou Akórdia aproximando-se da bancada onde estavam sentadas alguns dos membros do Corpo Docente. – Gostaria de apresentar-lhes o Reitor do Corpo Docente, Analeus Camaro. É o encarregado por todo o departamento de ensino. Caso tenham, algum problema ou dúvida relacionado às aulas, vocês devem se dirigir a ele. – sorriu Akórdia enquanto virava-se para um homem baixinho de meia idade que se levantava enquanto assentia com a cabeça para Akórdia. Ele era meio calvo e parecia estar um pouco acima do peso, apesar de um manto cobri-lo do pescoço aos pés, um manto que não serviria muito bem em Hytanör. Tinha uma boa fisionomia, parecia ser uma boa pessoa.

— Sim, minha senhora. O que eu puder fazer para ajudá-los e preservá-los. – consentiu Analeus sorridente, agora voltando-se para seu assento.

— E ao seu lado, a professora Daminiana Flortes. Uma das professoras mais antigas de Sant Sovhen... – Daminiana pareceu não gostar muito deste comentário, pois logo fez um olhar de desaprovação para Akórdia por debaixo dos seus pequenos óculos. E ela era uma senhora mesmo, aparentava estar perto dos 60 anos, mas seus olhos profundos davam a impressão de que sua idade era o que menos importava, seus conhecimentos eram tão grandes que a idade passava a ser um mero detalhe. – Quero dizer, a que está há mais tempo conosco. – disse Akórdia parecendo um pouco sem graça com a situação, arrancando algumas risadas do fundo do salão nobre. Hytanör quase teve certeza de que era Lukka. – Bem, ela será professora de vocês nas matérias de Cosmologia de Ellohen e Iniciação aos Segredos do Amital. São matérias muito importantes para o futuro de vocês, espero que aprendam o máximo que puderem. Daminiana assentiu com a cabeça como reverência para os alunos, aparentava ser uma mulher conservadora e severa, mas por estar tanto tempo em Sant Sovhen não poderia ser uma má pessoa. Era assim que todos pensavam.

— Agnis Nortilus vocês já conhecem, então vamos para o professor de Técnicas de Combate. – e então um homem alto de pele morena levantou-se no meio da bancada. O homem era forte e tinha uma cicatriz no rosto, próximo ao olho esquerdo, o que indicava que já participara de inúmeras batalhas e incontáveis aventuras. – Conheçam o ex-capitão das forças de Crisalis e agora professor de todos os níveis das matérias de Combates e Comandante das Forças de Sant Sovhen, Sthavar Garonde. É uma grande honra ter um grande homem ensinando aos futuros heróis de ellohen. O homem apenas olhos para todos e voltou a sua atenção para Akórdia.

— Será uma honra ensinar aqui, millöra. – revelou Sthavar. Enquanto baixava-se em reverência à millöra e então voltou para seu lugar.

— Sim, contamos com seu vasto conhecimento para preparar nossos jovens para o amanhã. – disse Akórdia num rápido aceno com a cabeça. – E por último e não menos importante, o jovem professor de Ivor Nalambar, especialista em todos os tipos de monstros encontrados em ellohen, desde os mais ferozes e mortais aos mais inofensivos. Sua matéria Conhecimentos Gerais sobre Monstros será de muita importância até para suas vidas fora dos limites de Sant Sovhen.

O jovem levantou de sua cadeira, era alto e magricela, usava óculos fundos de garrafa que quase não se podiam ver seus olhos castanhos. Ele acenou com um sorriso desconcertado para os alunos e então se sentou meio sem jeito. Podia-se notar que pela aparência era uma pessoa extremamente intelectual e detentora de uma sabedoria soberba.

— Esses são alguns dos professores, vocês conhecerão outros durante a semana. Agora, ao lado direito de vocês preparamos uma festa onde poderão jantar, conversar e passar o tempo como último tempo livre de vocês antes das aulas. Aconselho a vocês a aproveitarem o máximo, pois o ano letivo aqui é puxado e com suas razões. Agora vão! Aproveitem a festa, ela foi feita para vocês. – exclamou Akórdia enquanto sorria para os alunos que levantavam em êxtase correndo para a grande porta dupla que se abria como se uma grande lufada de vento irrompesse pela sala. – Só não exagerem na comida, não queremos ninguém passando mal no primeiro dia de aula, certo? – completou ela tentando levar sua voz aos que já estavam quase na outra sala.

— É, agora que vem a parte boa. – disse Hytanör para Cléo e Ellos em um tom não muito animador.

O salão onde a festa estava sendo realizada era imenso, com lustres belíssimos, grandes mesas repletas de comidas de todos os tipos, as mesmas que em questão de segundos foram tomadas pelos alunos, por sorte Hytanör e seus amigos conseguiram se sentar próximo à mesa de doces. Eram muitos doces para todos os gostos, chocolates de todas as formas, balas açucaradas e refrescos de todos os sabores. A festa estava perfeita, tinha até um grupo que estava tocando harpas e banjos cantigas conhecidas – pelo menos da maioria – sobre lendas antigas de heróis de ellohen. A festa dividia-se em dois grupos: os que se comunicavam e os incomunicáveis. A festa estava tomada por "casais" dançando no meio do salão ao som do grupo que lançavam músicas românticas que faziam jovens tímidos como Hytanör e Ellos se afugentarem em um canto do salão. Os jovens pareciam felizes, conversavam alegremente enquanto deliciavam-se com as comidas muito bem preparadas. Era quase como um baile de escola, novas amizades surgiam ali, até mesmo indícios de flertes era possível se notar devido ao clima romântico que pairava no ar. Hytanör e Ellos sempre foram tímidos e a julgar pelo comportamento deles estavam mais do que acostumados. Viam os garotos puxarem as meninas para dançarem e desejavam ter a mesma coragem. Cléo estava impaciente sentada entre os dois.

— Vocês não vão puxar nenhuma garota para dançar? – perguntou Cléo impaciente, enquanto observava os dois. Um silêncio pairou no ar, Hytanör e Ellos se entreolharam e não disseram nada.

— Aff... até a chata da minha irmã está dançando, e com o Lukka! – exclamou ela. – Não acredito, cada vez mais eu gosto menos dessa garota. – falou Cléo enquanto levantava-se bruscamente da cadeira. – Venha, vamos! Um dos dois vai dançar comigo agora!

Os dois se entreolharam novamente com uma cara de espanto, porém hilária. Hytanör não sabia dançar e exatamente por isso não desejaria passar vergonha logo no primeiro dia em sua nova escola.

— Ellos dança muito melhor que eu. Dancem vocês que irei tomar um ar, não estou me sentindo muito bem. – disse Hytanör encontrando a desculpa perfeita para escapar do provável vexame que daria.

— Mas... eu... – gaguejou Ellos tentando sair da "enrascada", mas era tarde, Cléo já havia o segurado pelo braço e o arrastou para o centro do salão. – Então será você mesmo. Venha! – disse Cléo à Ellos antes de se virar para Hytanör. – Mas está tudo bem contigo?

— Sim, só preciso de um ar, sabe? Vou dar uma volta, que sabem não conheço alguém? – respondeu com um sorriso não muito confiante.

A última coisa que Hytanör pôde ver foi a cara de terror que Ellos fazia enquanto era "arrastado" por Cléo, tornando-se motivo de risos para os que estavam no meio do salão. Pôde-se ouvir apenas algumas reclamações de Ellos do tipo "me solta" e "está me machucando". Foi hilária a cena, Hytanör não teve como conter o riso.

Hytanör resolveu contornar o salão, passou pelas mesas do canto e foi até a varanda onde muitos estavam admirando a belíssima paisagem. Havia parado de chover e a lua estava mais formosa do que nunca, iluminava os rios que percorriam e cercavam o ateneu. Era possível ver alguns animais como esquilos e pequenos macacos correndo por entre as árvores, pequenas aves sobrevoando o local como se não temessem a nada, nem ao mau tempo que persistia. Hytanör estava debruçado sobre a mureta de mármore a fim de enxergar o quanto mais pudesse e assim passar o tempo que corria vagarosamente. Pensou novamente naquele sonho e no que acontecera na luta entre ele e Lukka. Nunca sentira aquilo antes, sentia-se violado, como se seu corpo fosse tomado por uma entidade estranha ou uma outra personalidade adormecida, e até então, desconhecida para ele. Hytanör se perdia em seus pensamentos quando percebeu que um grupo de quatro jovens havia parado ao seu lado, encostados no parapeito, e estavam conversando – ao que parecia – sobre um assunto sério, pois suas feições eram de apreensão. Em um momento Hytanör virou-se para pegar uma taça de bebida de um serviçal de Sant Sovhen que passeava sorridente por entre os calouros empolgados e conseguiu a proeza de retirar uma taça da bandeja sem ao menos o serviçal parar, ou simplesmente não notou que Hytanör estava lá. A taça continha um líquido estranho, era meio esverdeado e tinha um aroma peculiar, como o das plantações de eucaliptos existentes perto de sua cidade Andher, tinha também um objeto estranho no fundo da taça que mais parecia uma noz enrugada e preta como um carvão, e então hesitou por um segundo e reparou que uns jovens do seu outro lado bebiam a mesma bebida com tanta voracidade que aquilo que lhe deu certezas que não poderia ser de tão ruim. Os lábios já tocavam o vidro gélido quando Hytanör voltou sua atenção para o grupo que conversava com tanta seriedade que lhe chamou a atenção. Sabe quando você simplesmente e inconscientemente presta a atenção na conversa dos outros? Foi o que ocorreu com Hytanör que não pôde deixar de ouvir entre umas frases e outras algumas palavras como "perigo" e "intruso". Hytanör, agora, estava nitidamente prestando a atenção na conversa e por ser algo que habitualmente ele não faça, não soube ao menos disfarçar melhor seu interesse na conversa, como se estivesse sob algum efeito mágyko que lhe desse invisibilidade momentânea. Hytanör pôde notar que um deles era alto e tinha cabelos compridos e negros, assim como seus olhos, estava dialogando com os outros de maneira ríspida e séria, como se o assunto fosse de extrema importância. Um outro era relativamente mais baixo, quase pálido e visivelmente acima do peso, entre uma frase e outra proferida pelo garoto de cabelos longos, ele enfiava um pedaço de pão doce na boca. Um garoto de pele morena e olhos cor de mel, cabelos cacheados estava prestando a atenção silenciosamente, e por fim, uma garota de óculos, branca e longas tranças ruivas debatia com o cabeludo que parecia um pouco apreensivo. Hytanör desistiu de tentar descobrir o que eles tão fervorosamente discutiam, o barulho era muito grande para que pudesse escutar o que estavam falando, e foi neste momento que ouviu ser chamado por uma voz familiar, eram Ellos e Cléo que se aproximavam.

— Ei Hytanör! Aí está você! – Ellos cambaleava ofegante até se recostar no parapeito com tanta força que a mureta estremeceu.

— Onde você estava? Te procuramos por toda parte. – perguntou Cléo.

— Ah... estava tomando um ar fresco.

Neste momento um dos jovens que estavam conversando ao lado de Hytanör virou-se para ele como se o reconhecesse de algum lugar.

— Ei! Você é Hytanör? – indagou o jovem de cabelos longos e negros como a noite.

— Sim. Eu o conheço? – pareceu surpreso com a pergunta, mas manteve-se sério.

— Provavelmente não, mas eu vi sua luta. Você não é o garoto que quase derrotou Lukka? Sim, é você mesmo! – deu um largo sorriso, e Hytanör desejou mais do que nunca que tivesse mesmo desaparecido da face de ellohen.

— Sim. – respondeu Hytanör secamente. Aquele "quase" deixou-lhe frustrado como nada mais poderia causar-lhe isso.

— Cara, você foi muito bem na luta. Na verdade, a sua luta foi a melhor do Gran Marid, talvez a melhor que tenha visto em toda minha vida. Você esteve tão perto de vencer, não sei por que deixou ganhá-lo. – disse o jovem entusiasmado.

— É mesmo. – entrou na conversa a garota de óculos e de tranças. – Você foi muito bem mesmo. Torcemos muito por você durante a luta, nunca vimos nada igual. – Os outros dois assentiram com a cabeça como que se quisessem confirmar que também torceram por ele durante o Gran Marid. Hytanör estava sentindo-se melhor com os comentários, afinal quem não se sentiria? Era como uma injeção de auto-estima para tornar a noite mais agradável. Mas os fatos bizarros que aconteceram durante a luta é que deixavam Hytanör chateado.

— Pois é, não sei o que aconteceu, mas um dia eu espero encontrar respostas. – respondeu parecendo um pouco cabisbaixo.

— Bom, desculpe por não nos apresentar primeiro. Me chamo Lothan. Lothan Arkamis. Estes são Falfar Boldt, Nicos Murediel e Mara Amidala – Falfar era o gordinho que no exato momento estava com um último pedaço de pão na boca e mal teve tempo para limpar as mãos rapidamente nas calças e apertar a mão de Hytanör e Nicos era o moreno de poucas palavras, porém muito observador. Nicos e Mara assentiram com a cabeça em gesto de respeito, e forma de cumprimento.

— Esses são meus amigos Ellos Nathos e Cléo Azamara. – Os dois assentiram e cumprimentaram os jovens.

— Mas então, do que vocês estavam conversando? Desculpe, mas não pude deixar de ouvir a conversa de vocês, falavam de algo que parecia ser muito sério. – Hytanör pensou depois que talvez não devesse ter perguntado, pois as fisionomias de alguns mudaram, Mara pareceu ficar mais séria.

— Não é nada demais, são apenas histórias malucas de Lothan. Ele vive imaginando que tudo é uma conspiração e que ninguém é confiável, mas nós estamos no lugar mais seguro de ellohen, não temos nada com que nos preocupar. – revelou a ruivinha de tranças, em um tom irônico.

— Não é verdade! – exclamou Lothan parecendo um pouco contrariado. – Hytanör, a verdade é que meu pai é um bibliotecário muito influente em Vandar, conhece gente de todos os tipos, dos mais famosos e poderosos magos aos bardos fanfarrões e vagabundos de ellohen. Ele me disse para tomar muito cuidado, pois após a morte do Millör de Sant Sovhen, Armus V, o ateneu sofreu uma divisão, alguns desejaram tomar o poder desrespeitando a hierarquia que daria o trono à Akórdia. Essa discórdia rolou por entre os bastidores e sabe-se que muitos membros de Sant Sovhen foram exilados e juraram se vingar do ateneu. Dizem que estes exilados formaram uma sociedade secreta que planeja tomar o controle de Sant Sovhen, e fontes ligadas ao meu pai dizem que inclusive existe até um intruso deles aqui, em algum cargo de alto poder.

— Estão vendo!? – interrompeu Mara. – Gente, isso são apenas boatos, não teria como uma pessoa exilada, ou qualquer estranho adentrar os domínios da ilha, ela é mágykamente protegida.

— Isso é verdade! – Ellos pareceu se interessar pela conversa, e realmente estava excitante para Hytanör, e ao mesmo tempo preocupante se tudo aquilo fosse realmente verdade. – Estudei muito sobre as defesas mágykas de Sant Sovhen, são impenetráveis por qualquer arma mortal, somente selünes podem conceder a passagem por uma mágyka deste nível. É amital do mais alto gabarito. – Os olhos de Ellos brilhavam enquanto ele falava.

Cléo prestava a atenção em cada palavra da conversa juntamente com Falfar e Nicos, enquanto Mara fazia uma cara de reprovação para Lothan.

— Tenho certeza de que se algo acontecesse Agnis saberia, e se ele soubesse não nos deixaria vir para cá se não soubesse contornar a situação. – Hytanör falou de uma maneira que talvez ele não desejasse que tivesse sido, soou de forma convicta e arrogante, como que se não quisesse acreditar que o local, que agora estava tornando-se um lar, estaria em um perigo iminente. Aquilo desnorteou Hytanör, torcia para ser apenas boatos que passavam de boca em boca pelas tavernas do mundo à fora, mas algo por dentro dizia-lhe para ser todo ouvidos, manter-se alerta e encarar todas as possibilidades.

— Gente, já chega desse assunto não é? Acho que já está na hora de irmos, todos já estão se recolhendo. – interrompeu Cléo, e era verdade, a maioria já havia se retirado do salão e rumado para suas moradas. Já era tarde e o cansaço já começava a pesar sobre o ombro de todos, sem exceção.

— Hytanör, em qual morada você está? – perguntou Lothan enquanto tirava sua faixa azul do bolso.

— Estou na sétima morada. – respondeu ele, mostrando a faixa que estava em sua mão.

— Eu também. – o número sete pôde ser visto em sua faixa também. Aquilo causou surpresa para Hytanör, mas também alívio por ao menos já ter um conhecido na morada, pois não se sentiria só. Nicos ficara na sexta morada, Mara na segunda junto com Ellos, e Falfar na terceira morada.

— Legal! Vamos poder conversar bastante, tenho muitas outras conspirações, bem... são mais boatos do que qualquer outra coisa, mas são interessantes. – sorriu Lothan e Hytanör também riu, embora fosse um cara legal, Lothan deixava até mesmo seus amigos Nicos, Falfar e Mara enfadados com sua imaginação fértil e conspirações mirabolantes. Hytanör não ligava, estava entusiasmado com o primeiro dia de aulas que viria e agora tinha companhia e não se sentiria deslocado em sua morada.

Já era tarde da noite quando todos se retiraram do salão e seguiram rumo às suas respectivas moradas, escoltados por guardas de Sant Sovhen. O corredor largo repleto de quadros e tochas mágykas levava a uma parte desconhecida até então para os calouros, um declive que parecia levá-los ao nível do mar. O corredor seguia-se até um grande afresco com uma bela imagem que se estendia até o teto com uma serpente alada sendo domada por um hipogriffo, Hytanör caminhava arrastando seus dedos pela lateral da parede como que se quisesse sentir a respiração do local, era como se o local tivesse vida própria, era assim que o jovem calouro se sentia sobre o ateneu. Um grande arco feito de rocha branca e retalhado por símbolos antigos separava a parte do castelo onde estavam do grande campo gramado e verdejante, talvez não tanto agora por causa da noite, mas o terreno que vinha a seguir era belo e amplo de maneira que se viam apenas labaredas de um fogo esverdeado no alto de casas de três andares, eram pequenas mansões dentro de um imenso castelo. Como podia ser tão imenso aquele castelo? De fora mal parecia ter essa magnitude, mas agora conhecendo-o por dentro, era de deixar qualquer um novato atônito. Eram exatamente sete "mansões", Hytanör supôs que essas seriam as tais sete moradas, e pelo que todos puderam perceber, existia muito mais do colossal castelo depois das moradas, era como a parte intermediária do castelo. A maior e mais imponente parte do castelo encontrava-se protegida por muralhas magníficas atrás das moradas, além disso, o que mais chamava a atenção de todos era a estátua de dez metros de altura de uma ave com seis asas abertas como se estivesse pronta para alçar vôo e partir para o ataque, aquela estátua passava, mesmo que inconscientemente, uma extrema segurança aos que vislumbravam sua imagem. Hytanör olhava para a estátua admirado, sentia-se renovado e pronto para deixar os problemas de lado e dar o máximo de si durante o ano.

— Magnífica, não é? – Ellos estava maravilhado assim como Hytanör olhando para a estátua.

— Pois é. Ela passa algo muito bom para a gente, algo com esperança, segurança.... – respondeu Hytanör olhando admirado.

— Não poderia ser diferente, esta é Niravitta.

— Quem? – retrucou.

— É a ave celestial de Alürenn. É o seu animal de estimação digamos assim, ela foi o símbolo da grande guerra que Agnis mencionou no cerimonial, ela guiou e protegeu os guerreiros de Alürenn durante a guerra. – E então Ellos parou de falar quando percebeu que todos em volta estavam olhando para ele, seu rosto corou e então resolveu caminhar mais rápido. Hytanör apenas riu e apertou o passo para acompanhar o amigo. – É melhor a gente ir andando rápido, não é? Estamos ficando para trás.

— Estou logo atrás de você. – prontificou Ellos.

No centro do terreno um pátio feito de mármore que reluzia a luz da lua, era um grande centro de treinamento, haviam armas por todo lado, bonecos feitos de madeiras e muito castigados por sinal. O pátio se estendia por todo o terreno que também era repleto de mesas e cadeiras de uma madeira branca muito especial próximas a um jardim florido e muito bem cuidado, algumas árvores frutíferas cercavam o local que mais parecia um bom lugar para se fazer um repouso, conversar descontraidamente sob a sombra das belas árvores. Mais adiante haviam as moradas, e como eram belas ao passo que todos se aproximavam, a arquitetura de cada casa era única assim como o acabamento. Uma escadaria ligava todas as moradas umas às outras como vários rios que desaguam em um único oceano. As moradas iam se amontoando morro acima à medida que a escadaria evoluía crescentemente, podiam-se ver de duas em duas casas até a última casa quase no topo das escadas, mas acima da desta havia ainda um grande templo com imensos pilares de sustentação e um símbolo incrustado no alto da fachada. Sem dúvida alguma era o templo de Alürenn. O templo era magnífico, muito maior do que as moradas, tanto quanto em extensão quanto em imponência. A luz da lua refletia-se no símbolo sagrado de uma meia-lua e uma estrela cadente de Alürenn no alto da fachada do tempo, aquilo brilhava de forma tão intensa que parecia mágyka. A impressão era que este era o grande ponto de referência do castelo, não fosse uma gigantesca fortaleza mesclada com uma torre espessa que se encontrava atrás do templo. O castelo era imenso demais para se tentar conhecê-lo em apenas um dia, Hytanör ouvira muitas histórias de Sant Sovhen, mas se surpreendera com o que vira neste dia, não imaginava o quanto seria magnífico estar ali.

Todos passaram pelo imenso pátio e agora seguiam para suas respectivas moradas. Todos estavam cansados e por isso nem se quer tentaram conhecer outros cantos do castelo ou do pátio. Hytanör se despediu de Ellos e Cléo que foram para suas moradas, e seguiu para a sétima casa ao lado de Lothan que também se despedira de seus amigos. O que mais Hytanör odiou foi ter que subir uma quantidade numerosa de escadas e pensou, seriamente, se a sétima morada seria uma boa.

Dentro da morada, Hytanör pôde sentir o quanto era aconchegante o local, que mais parecia uma estada de férias. Tinham logo na sala principal várias almofadas gigantes onde se podia deitar e relaxar, sofás espalhados, um carpete de dar inveja a muito colchão de ellohen, assim como os quem tinham no navio Negrume Núncio. Era um andar repleto de mesas e cadeiras também, imaginava-se que era de estudo, pois podia-se ver alguns alunos veteranos estudando à mesa que nem pareciam notar a presença dos novos moradores. Uma escadaria principal levava ao segundo andar, onde ficavam os quartos, e se estendia até o terceiro andar. Hytanör não conseguiu contar quanto quartos tinham em cada andar, mas percebeu que era mais do que suficiente para todos. O guia que estava escoltando o grupo dirigiu-se para o centro da sala e começou a ditar os nomes das duplas e em qual quarto ficariam. Para a surpresa de Hytanör ele acabou ficando no mesmo quarto que Lothan, e no 3º andar. Pelo lado bom, era que Hytanör já o conhecia e pelo lado ruim era que teria que subir mais três andares – pensou.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.