Chegando a sua casa, Pedro abriu a porta e lá estava ela, parada, impassível, olhar fixo nele e um ponto de interrogação imenso bem no meio da testa.

- Posso saber o que pensa que está fazendo, Haig? – disparou Doroty.

- Bom dia, querida, também senti sua falta! Ah! A propósito, pode me chamar pelo nome verdadeiro, é bem seguro agora com os exterminadores andando por aí, tenho certeza de que ficariam satisfeitos com a economia de tempo e dinheiro da agência, já que não teriam mais que se esforçar para nos encontrar e quem sabe daria um pouco mais de emoção à nossa pacata vida de fazendeiros comuns – Pedro sabia ser charmosamente sarcástico e irônico quando queria.

- Exterminadores? Aqui em Mora? Mas...

Pedro encheu um copo com uísque e jogou-se na poltrona.

- Não se preocupe, não estão em Mora, ainda! Carlos está voltando de Gävle e vai aproveitar para observar o caminho, se houver algo fora do comum ele liga.

- E Kuzma? Onde ele está?

- Relaxe, Velha Doroty, Kuzma está bem, deve estar por aí... Tomando um drink... Se é que você me entende – disse ele, divertindo-se com a ideia. – Dê uma folga para ele, apesar de não fazer o estilo caçador, está cansado, bem que merece uma diversãozinha. Ainda mais depois de passar todo esse tempo cuidando de uma velhinha ranzinza.

- Aqueles malditos agentes russos! Será que não se cansam? Por mais discretos que sejamos eles não desistem! — desabafou Doroty — E quanto a Ana? Tem notícias dela? Não quis ligar para Amaril, não sei o que disse a ela para aceitar hospedar Ana e aí acabei sem notícias dela e estava sem notícias suas.

- Não disse nada, por isso mesmo aceitou e, sim, tenho notícias dela. Liguei para Carlos antes de sair de Orsa. Não se preocupe, tenho certeza de que Amaril está cuidando dela, está segura lá por enquanto, assim que tudo se resolver por aqui, darei um jeito de trazê-la de volta.

- Eu sei por que a mandou para lá! Ela é uma “i” não é? — atreveu-se Doroty.

- Doroty, Ella não... é melhor não falarmos nisso agora – disse Pedro, saindo para seu quarto.

- Ella?!... – repetiu Doroty – Então... — agora Doroty entendia claramente toda a agitação de Pedro desde a chegada de Ana, mas nunca soube que a neta de Rudolph fosse uma... Enfim, não conhecera pessoalmente o velho Rudolph, mas conhecia a história e sua neta, que costumava vir com os pais passar as férias na propriedade. Pedro sempre dizia que era de suma importância manter seus visitantes em sigilo, pois havia prometido protegê-los após a fuga da Rússia. Então, eles a haviam escondido muito bem e por tanto tempo. Se a haviam protegido assim, só podia ser por um motivo. Agora tudo estava em risco, sentindo imediatamente a tensão que se instalava, ela decidiu não perguntar mais nada a Pedro, pelo menos por enquanto.

Pedro e Kuzma traçaram uma rota circular com Mora bem ao centro e partiram. Primeiro a Bollnäs, depois seguiram para Ljusdal V, de lá para Malung NV, Ludvika, Borlãnge, Falum e, assim que chegaram a Sandviken, Pedro soube que tempos difíceis estavam começando, novamente.

À noite, após se instalarem em um hotel simples e comum, ele e Kuzma, andaram por alguns bares na cidade e não foi difícil identificar um exterminador. Sentado junto ao balcão com seu copo de vodka preferido, era impressionante como alguns hábitos como o que beber e o que vestir se propagavam entre os agentes e nunca mudavam. Se aproximar-se dele sem levantar suspeita já seria um problema, imagine descobrir qualquer coisa. Decidiram então apenas observá-lo e tentar segui-lo discretamente.

Quando o agente finalmente deixou o bar, já pelas tantas da madrugada, Pedro saiu atrás, lembrava-se muito bem das lições do velho Rudolph e na primavera, após sua morte, quando Theodoro vinha passar alguns dias na fazenda com sua mulher e filha ainda pequena, elaboravam sofisticados planos de treinamento e passavam alguns dias metidos no vale e em bosques da região. Theodoro, que nunca entrou para agência por determinação de seu pai, o qual conhecia muito bem os riscos de se fazer parte disso, levava tudo aquilo mais para o lado da brincadeira, mas Haig tirava muito proveito. Durante os anos em que a fuga se estendeu, a necessidade de apagar pistas sobre seu paradeiro o fazia pensar que toda aquela “brincadeira” foi o que fez a diferença.

Kuzma saiu um pouco mais atrás, era preciso certificar-se de que não havia mais de um o que, obviamente seria impossível, agentes não andavam sozinhos.

O agente seguia cambaleante, era claro que queria dar a impressão de que estava embriagado, mas esse truque era muito velho e Pedro então pensou que talvez não estivessem atrás de nada concreto já que mandaram um inexperiente agente, com seus truques obsoletos, talvez estivessem apenas fazendo o de sempre, sondando.

Quando o homem finalmente caiu, Pedro começou a se aproximar para oferecer-lhe ajuda, mas nesse momento Kuzma surge de uma sombra qualquer e o arrasta para longe.

- O que está fazendo? Ficou maluco?

- Ah, qual é? O cara está bêbado, até caiu! – disse Pedro entre risinhos irônicos – O que é que você acha que estou fazendo? O cara é um imbecil! Que truque mais idiota!

- Esse aí pode até ser um imbecil inexperiente, mas ele só esta servindo de escudo! Vamos embora, tenho algumas informações! – seguiram rapidamente para o hotel, alguma coisa no olhar agitado de Kuzma fazia Pedro estremecer até os ossos. — Pedro, temos um grande problema! Aquele idiota cambaleante era apenas um escudo, ainda bem que cheguei a tempo antes de você se aproximar dele. Se tivesse feito isso, amanhã teríamos uma agência inteira na nossa cola! Sabe quem está com ele? – em seu interior Pedro desejava que não saber, porque aí certamente seria um problema – Alexsander Rhandorvick!

Pedro ficou paralisado por um instante, com olhar atônito, não conseguia pensar em nada, o pavor tomou conta dele, e quando algo lhe surgiu na mente, foi Ana. Alexsander Rhandorvick, não era só um especialista em exterminar vampiros, mas também em detectar as “i” e ele estava perigosamente perto de Gävle.

- O que faremos Kuzma? Ele pode estar sabendo de Ana, ele pode saber de ... Ana... – Kuzma espantou-se ao ver, ainda que por um breve momento, aquele homem tão forte, decidido, expert em fugir de exterminadores ou até mesmo eliminá-los quando se tornavam insistente demais, tão fragilizado, mas isso durou poucos minutos. Respirando fundo, Pedro reuniu todas as forças que possuía e disse a Kuzma:

- Bom amigo, a guerra vai recomeçar e agora eu vou matar esse desgraçado!

- Precisamos ter cautela, Pedro, não sabemos quase nada ainda!

- Haig, Kuzma! Pedro morre aqui! Chega de me esconder, eu vou acabar com eles! Agora tenho alguém que não pode se defender sozinha, que precisa de mim, não posso acabar aqui Kuzma, não posso perdê-la, esse seria o fim da linhagem de Zirgov, você sabe disso! Ela precisa de nós e eu preciso de você e da sua ajuda mais do que nunca!

Kuzma entendia muito bem o que Haig queria dizer, ele mesmo não havia encontrado sua “i” e se viesse a morrer nessa batalha, acabaria ali, nada restaria dele sobre a terra, realmente era estranho pensar que um dia pudesse parecer que ele simplesmente nunca tivesse existido.

- Pedro... Desculpe, é força do hábito! Haig, se me permite opinar, acho que o melhor seria contar tudo a Ana, ela não sabe que corre perigo, não sabe que tem que se proteger, muito menos por que, sem saber nada vai ficar muito mais difícil para nós, ela vai se expor.

- Não, Kuzma, ainda não!

- Você tem medo que ela fuja de você! Pensa que, de qualquer forma, está se arriscando a perdê-la.

Haig sabia que seu amigo tinha razão, mas era impossível saber do que tinha mais medo, se era de que ela fugisse dele, apavorada, acreditando que ele fosse o monstro dos contos de vampiro ou que acabasse morta pelos algozes de seu pai e de Rudolph. De repente, tudo pelo que havia passado antes pareceu quase nada diante das terríveis probabilidades do futuro.