Ella - A Verdade Por Trás Da História
33 Capítulo 32
Notas iniciais
To you that I do not see, but feel...
Capítulo 32
Já era alta madrugada. Ella dormia profundamente e Haig decidiu descer até a sala, deduzindo pelo silêncio que todos já estavam dormindo ou, pelo menos, que já haviam se recolhido.
Sentou-se em frente à velha lareira com um copo de whisky e ficou observando a foto maior, aquela mesma que havia chamado tanto a atenção de Ella da primeira vez em que ela entrou naquela sala.
- Noite agitada? – perguntou Kuzma que estava sentado em uma poltrona num outro canto mais escuro.
- Não sabia que você estava por aí – disse Haig sem se mover.
- Achou que eu estivesse dormindo? – riu – Não sei quanto a você, mas nesse quesito eu não evoluí tanto assim, durmo muito menos do que parece.
- É, eu também! Principalmente hoje, com tantos acontecimentos “emocionantes”.
- George nos disse que Affonso está morto. Acha que Amaril também está?
- Sim, está! E Angus também! O cretino nos contou depois de derrubar a porta do sótão e antes de mandar cortar a cabeça de Affonso. Detesto lâminas! Fomos pegos de surpresa, não teríamos chance!
- Doroty vai ficar arrasada! Eu acho que no fundo ela gostava do Angus.
- Também sempre achei isso, mas também acho que ele jamais abandonaria o luto pela mulher, e arrasados todos nós ficamos!
- Foi mal ter saído às pressas – disse Kuzma tentando tirar um sarro. — Mas Carlos chegou lá com a trupe de Alexsander colada em seus calcanhares, não sei nem dizer como conseguimos sair, por muito pouco que não fomos pegos.
- Não estou culpando vocês! As coisas são como são. Além do mais, o trato sempre foi “se não puder salvar a todos, pelo menos salve a si mesmo”. Pelo menos “ele” também está morto, menos mal!
- Já pensou no que faremos daqui para frente?
- Não, mas eu acredito que esse lugar está muito bem protegido. Quando viemos para cá foi tudo muito bem calculado, só temos gente de confiança aqui. De qualquer forma, vamos ficar de olho e seguir os procedimentos da última fuga, se for necessário.
- Nossa, em pensar que há 21 anos você estava exatamente assim, fugindo, quando me encontrou naquele bar perto do cais enquanto eu chorava a morte de Elys. Estava louco de ódio e de vontade de encontrar aquele filho da mãe! Estou feliz que vocês dois tenham conseguido. Sabe, antes eu não conseguia falar sobre ela, Elys, agora parece que faz séculos que a perdi.
- Graças ao velho George estamos salvos, um brinde! Se não tivéssemos nos encontrado naquele dia provavelmente você estaria morto, meu velho! Quanto a sua ex-amada, é a vida, dura e cruel, mas é a vida! Você deveria aproveitar a nova oportunidade. – disse Haig referindo-se a Évenice.
- Tim Tim e, já pensei nisso!
- Falando de mim? – perguntou George surgindo de repente, não se sabe de onde.
- E a velha casa de vampiros ganha “vida”! Ou não! – disse Haig. Ele estava estranho.
- Toma uma com a gente? – perguntou Kuzma.
- Nem pensar, isso aí faz mal para o fígado e o meu jovem fígado de 600 anos quer continuar como se tivesse acabado de nascer. Além do mais, eu prefiro continuar fazendo parte da turma dos ajuizados!
- Com medo de morrer de uma doença hepática? Teoricamente somos imortais, lembra-se? O que é estranho considerando que somos chamados de “mortos vivos”. “Imortais”, hã, babaquice! – resmungou Haig
- Qual é, cara? Escapou de seu maior inimigo com um bônus de morte para ele e ainda de quebra acabou de ter a mulher da sua vida nos braços, não era bem essa cara que eu esperava ver. – disse George.
Em se tratando de Haig, ele sabia que havia algo no mínimo preocupante por trás daquele senso de humor, ou da falta dele.
- É exatamente aí que está o problema. Não por saudade do cretino, mas quanto à segunda parte. Quais as chances de uma “I” engravidar na primeira vez?
- Tá brincando? – perguntou Kuzma levantando-se impaciente – Ah, qual é? Você não está fanado sério, está? Passamos por tudo isso por causa da garota e você... não parou para... não acredito! Seu imbecil! Moleque!
- Infelizmente, ela já atingiu a maturidade, as chances são muito grandes – disse George tentando manter um tom natural, mas da mesma forma que Kuzma ele estava decepcionado por Haig não ter pensado em uma maneira de prevenção.
- Eu a esperei por tanto tempo que quando eu estava com ela em meus braços não pensei em mais nada, só queria que aquele momento pudesse durar uma eternidade.
- E duraria, idiota, se você tivesse usado a cabeça! – grunhiu Kuzma.
- Bom, não há o que fazer nesse momento além de esperar e ver o que acontece – disse George com sua natural aparente calma.
Já havia amanhecido o dia e Ella acordou com a barulheira do canto dos pássaros. Sentia-se radiante, pois sabia que estava em casa e que o pesadelo muito provavelmente havia acabado, fechou os olhos e inspirou fundo, o cheiro dele estava por toda a parte e em todo o seu corpo, parecia um sonho bom, como há muito tempo não sonhava.
Na sala, os três estavam largados pelas poltronas quando Marrie e Meredith entraram para iniciar as arrumações do dia.
Marrie era viúva e a irmã mais velha de Meredith, já esta era casada com Jason. Marrie era dessas mulheres que costumam colocar todos debaixo das asas, rechonchuda e já com certa idade, lembrava bem as tias velhas solteironas e ranzinzas, porém, não menos amorosas, embora ela tivesse um jeito peculiar de demonstrar esse afeto.
- Mas o que é isso aqui no meio da minha sala? – e saiu batendo nas solas das botas que estavam duas apoiadas na mesa de centro, sendo essas de Kuzma e George, e outra pendurada no braço da poltrona, a de Haig.
Os três cochilavam e levantaram-se assustados.
- Meu Deus, Marrie! – disse Kuzma
- Não é bom estar em casa? – ironizou Haig.
-Tia Marrie – chamou George carinhosamente – É bom vê-la novamente!
- Vocês têm toda eternidade para cochilar! A Doroty já colocou a mesa do café! Tratem de se lavar antes que ela comece a gritar, e você aí, gostosão – disse dirigindo-se à Haig – trate de ir buscar sua bela adormecida, porque ela ainda não desceu.
- A Senhora manda, tia Marrie! Como sempre!
Quando entrou no quarto, Haig ouviu o barulho do chuveiro. Sentiu-se verdadeiramente tentado a ir até lá, mas achou melhor manter distância até falar com Doroty, afinal, ela era uma bruxa e talvez encontrasse um jeito de descobrir o que ele queria saber sem que tivesse que esperar pelo tempo necessário para se descobrir uma gravidez. Deixou um bilhete:
“Espero-te para o café. T.A. Haig”
Sério? Ele subiu ao quarto e deixou “um bilhete?”, pensou Ella ao sair do banho e encontrar o bilhete sobre a cama, mas estava tão feliz que decidiu não pensar mais nisso, teriam todo o tempo do mundo para ficarem juntos agora. Vestiu-se e desceu.
Todos estavam sentados à mesa embora apenas alguns parecessem “comer” realmente, então ela disse, meio sem graça:
- Huum... bom dia!
Todos a olharam, o que não a deixou mais confortável, mas talvez sua grande felicidade estivesse refletida em sua aparência, em forma de uma sutil luz azulada que pairava em torno dela. Ella estava realmente bonita e era impossível para todos não a olharem.
Haig estava sem palavras e demorou um instante até que se levantasse para puxar a cadeira vazia ao seu lado para que Ella se sentasse.
- Lembra-se da primeira vez que lhe servi o café, Ella? — perguntou Doroty sorrindo.
- Claro! Lembro-me que só queria sair daquele quarto, antes tivesse ficado lá! – todos riram e a descontração tomou conta da mesa. Haig, Kuzma e George tinham à sua frente uma xícara de café que obviamente não tocaram e Ella perguntou à Haig:
- Você não... toma... café?
Torcendo um pouco a boca para o lado, ele respondeu:
- Café a essa hora não me cai bem!
- Café nunca cai bem, hora nenhuma! Mas tia Marrie nos proibiu de beber whisky na mesa do café da manhã! – disse Kuzma um tanto contrariado.
- Bom, agora que estou cercada de vampiros de verdade gostaria que me esclarecessem algo – todos a olharam curiosos. – Bom, sempre gostei desse tema, digo, na ficção, histórias de vampiros e tal. Em algumas delas os vampiros sempre tomam whisky, alguns não comem nada, só tomam sangue... e whisky, por quê?
Os três se olharam e caíram na risada, Doroty balançou a cabeça e também riu um pouco.
- Quer dizer que você lia sobre vampiros? – perguntou Haig divertindo-se – E achava que era só ficção?
- Tá legal, engraçadinho, vai tirando sarro – disse ela um tanto contrariada.
- Sério, desculpe! Sei lá, comemos algumas coisas de vez em quando, mas é difícil engolir, não dá para explicar, já o whisky desce fácil. Aliás, se tem duas coisas que sentimos bem o sabor é whisky e ...
Ele parou de falar sem levantar a cabeça e todos ficaram em silêncio, exceto Ella.
- Sangue – completou meio que automaticamente, parando em seguida como se tivesse dito alguma coisa que não deveria.
- Uh, que climão! – disse Kuzma, mas ninguém disse nada. – Ah, qual é, gente? Todo mundo sabe que vampiro bebe sangue e não é porque ninguém fala nisso que vai ser diferente! Se a moça aí vai viver entre nós é melhor se acostumar e olha que o pessoal aqui não ataca as pessoas, pelo menos não as conhecidas.
- Kuzma! – reprovou Doroty.
Mudando a direção da conversa, George fez um movimento com a cabeça na direção de Évenice, que permanecera calada até aquele momento.
- Você está bem, Évenice? – perguntou Ella e a outra balançou a cabeça afirmativamente e com um meio sorriso – Se quiser conversar... podemos ir até o vale, eu queria muito ir até lá desde a outra vez em que estive aqui, o que acha?
Diante de um gesto afirmativo de Évenice as duas se levantaram e saíram enquanto os outros permaneceram sentados, calados.
Évenice falou à Ella sobre sua tristeza pela perda de Amaril e o medo a respeito de seu futuro. Ella lhe disse que de tudo aquilo deveria guardar apenas o amor que Amaril tinha por ela e ser grata por ter demonstrado esse amor da forma mais marcante possível, dando a vida para salvá-la. Do mais, deveria dar uma chance às coisas novas que poderiam vir a acontecer de agora em diante, abrir as portas do coração para que pudesse sentir as oportunidades de felicidade que talvez já estivessem lhe batendo à porta.
Ella falava de Kuzma, da maneira como ele havia se preocupado com Évenice e cuidado dela durante a fuga e de como estava preocupado com sua tristeza nesse momento. Évenice saiu dessa conversa um pouco mais leve e decidiu que prestaria mais atenção em Kuzma e quem sabe se ela não seria uma I para ele? Só o tempo diria.
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