Ella - A Verdade Por Trás Da História
14 Capítulo 13
Notas iniciais
Ella e a origem I
Momentos como esse eram raros agora, pensava Rud enquanto observava a mesa de jantar. O primeiro semestre do ano de 1991 encerrava-se com os últimos raios do sol que se punha por trás das montanhas ao leste. À mesa, estavam reunidas as pessoas mais importantes de sua vida, pelo menos as que restavam. Seu filho Theodoro Brovinskvys ao lado da esposa Emanuelle, Haig, que embora se conhecessem desde a juventude de Rud, com o passar dos anos e seu envelhecimento, ficou impossível não passar a tratá-lo como filho, além de George, que acabara sendo uma espécie de herança deixada por Zirgov e se tornara fiel escudeiro da família, e que acabara de chegar após ter providenciado todo o necessário para a saída do grupo da Rússia. Sentia falta do velho amigo Zirgov não por acaso, era aniversário de sua morte, há exatos dez anos.
A mesa já não era tão farta quanto nos tempos em que possuíam residência na cidade e levavam uma vida comum, mas o que tinham era suficiente para manter a todos bem nutridos e fortes. Tudo era cultivado por eles no meio da mata, hortaliças de pequeno porte e coisas que pudessem crescer camufladas pela vegetação, já que não desejavam chamar a atenção de helicópteros que eventualmente viessem a sobrevoar o local. Haig e George sempre traziam alguma caça para completar a refeição, geralmente animais pequenos, fáceis de caçar e um pouco mais silenciosos.
À mesa, estavam todos estranhamente em silêncio e aparentemente inquietos, Rud era uma velha raposa e sabia perfeitamente que alguém ali queria dizer alguma coisa.
– Vamos lá, desembuchem! Qual é a encrenca agora? – Theo e Haig se entreolharam e Emanuelle manteve a cabeça baixa enquanto remexia a comida no prato. George, que preferia não se meter, continuou sua refeição como se absolutamente nada estive acontecendo ao seu redor.
– Pai, bem... eu tenho uma coisa pra dizer e... – Theo não conseguia concluir, parecia um colegial que acabara de cometer alguma transgressão própria da idade, tinha medo da reação do pai em virtude do momento pelo qual passavam.
– Estou grávida! – disse Emanuelle num rompante sabendo que, se começasse a escolher as palavras também acabaria perdendo a coragem.
O silêncio que se seguiu machucaria os ouvidos de qualquer um que passasse a cem quilômetros dali. Enquanto os três estavam petrificados em seus lugares, Rud e George continuaram a comer. Depois de um certo tempo e já não suportando mais o suspense, Theo enfim quebrou a espessa camada de gelo que se formara:
– Pai, Emanuelle disse que está grávida!
Quem se apresentou a seguir foi o velho Rudolph Brovinskvys, também conhecido, nos tempos em que ainda exercia suas funções como agente, por “a raposa” ou ainda The Iron Man, pois era considerado imbatível e infalível. Ele largou os talheres, levantou-se, inspirou fundo e em seguida deu um soco na mesa, virando os copos d’água que ali se encontravam. Nessa hora, até mesmo George que permanecera, propositadamente fora do assunto, parou sua refeição e cravou olhos temerosos em Rud, que caminhou de um lado a outro e saiu da sala para o lado de fora da casa.
– O que acha que ele vai fazer? – perguntou Theo a Haig, que olhou para George, que deu de ombros, enquanto Emanuelle deixava que as lágrimas corressem livres e silenciosas pela face.
– Eu não sei! Nunca o vi desse jeito antes! – respondeu Haig.
– Também não saberia dizer – emendou George – nem todo o tempo em que convivemos juntos na agência e fora dela são suficientes para me ajudar a decifrar seu próximo passo, uma coisa posso dizer, quem está lá fora agora não é seu pai nem nosso amigo Rud, preparem-se para enfrentar a raposa!
Depois de quinze minutos durante os quais ninguém quis se arriscar a sequer sair do lugar, quanto mais olhar pela janela ou sair para falar com ele, Rud entrou na casa, caminhou tão silenciosamente em direção ao filho que mais parecia flutuar sobre o chão, parou diante dele e o olhou diretamente nos olhos. Theo teve a impressão de não conseguir fazer com que o ar saísse ou entrasse de volta em seus pulmões. Então Rud o segurou pelos ombros como se fosse erguê-lo e arremessá-lo longe, mas, quando abriu a boca, sua voz possuía uma calma que estava sendo capaz de provocar ainda mais medo que todos os acontecimentos que precederam aquele momento:
– Você é um grande imbecil! O que pensa que fez? Não bastasse os tempos difíceis e de total insegurança a que vivemos, mais essa? Sabe bem o que isso significa? Claro que não! – dirigiu seu olhar para Emanuelle. Suas lágrimas pareciam ter feito o caminho inverso, secaram instantaneamente e ela também teve a impressão de não conseguir respirar. O velho dirigiu-se a ela, parou em sua frente mas não a tocou, apenas a olhou no fundo dos olhos e prosseguiu – E você, sabe o que isso pode significar? Claro que não, porque você se casou com um imbecil que, provavelmente, não consegue usar as duas cabeças ao mesmo tempo, já seria bom se usasse a principal às vezes, para variar!
– Rud! – interveio George quando percebeu que as coisas poderiam sair um pouco dos trilhos e, conhecendo a velha raposa como conhecia, temia não ser possível recolocar tudo no lugar posteriormente.
Rud era conhecido e chamado carinhosamente por todos de “velho”, mas estava longe de ser um velho decrépito. Na verdade, o passar dos anos até agora parecia não pesar-lhe. Era alto e ainda mantinha os músculos conquistados na época dos puxados treinamentos da KGB com exercícios de barras, flexões e abdominais diáriamente, então ele foi para cima de George agarrando-o pelo colarinho da camisa pólo, aos gritos e quase erguendo-o do chão, disse:
– Não me venha com essa agora, seu maldito vampiro de merda! É por causa da sua maldita raça que estamos aqui agora! É por causa dessa merda toda que talvez agora estejamos realmente perdidos e, como se não bastasse, ainda pode estar a caminho uma criança que condenará todo o resto da minha família!
Com muita facilidade e numa agilidade incrível, George se livrou das garras de seu velho amigo. É fato que, por um breve instante onde seus instintos mais primitivos quase se libertaram, teve vontade de arrancar-lhe a jugular numa única mordida, mas, já tinha tempo de vida o suficiente para dominar a si mesmo. Já tinha vivido tempo suficiente para saber do que Rud falava naquele momento, por isso, segurou o amigo e pediu que se acalmasse.
– Escute aqui, seu velho! É melhor se acalmar! Apesar de ser um velho bem “sarado” para sua idade, não é páreo para mim! – aos poucos Rud foi se acalmando e quando sua respiração voltou a ficar normal, George o soltou e prosseguiu – Por acaso, você já havia falado com seu filho sobre isso? Como pode cobrar dele uma atitude se ele não conhece a verdade toda?
George restabeleceu a ordem no ambiente e colocou a todos sentados em volta da mesa.
– Pronto, agora podemos começar a falar. Gostaria que explicasse a seu filho e a sua nora o motivo deste destempero e contasse o “resto” da história, por favor!
Haig não se manifestara até então, mas começou a achar que tudo estava ligado ao fato de que há poucos dias começara e sentir-se diferente em relação à esposa do amigo, não conseguia pensar em outra coisa que não fosse a segurança de Emanuelle. De repente, sem entender o porquê, sentia uma necessidade infindável de certificar-se a todo instante de que Emanuelle estivesse bem, a única coisa que conseguia distinguir era isso, nada tinha a ver com sentimento de paixão ou desejo por ela. Então, sentou-se à mesa e tratou de prestar atenção em cada palavra que Rud dizia.
Zirgov não havia conhecido Rudolph ao total acaso. Havia uma família, muito próxima à família de Iandra na aldeia e quis o destino que entre eles também nascesse uma menina “I”, que viria a fazer parte dos ancestrais de Rud.
Doralyn, que nascera doze anos mais tarde, estava para completar vinte e um na ocasião da fuga de Iandra, e sua mãe, desesperada, implorou para que a levasse junto e tentasse salvá-la antes que atingisse a maioridade, tinha medo de que inevitavelmente a aldeia começasse a persegui-la, além dos “abutres”, como a velha senhora se referia aos vampiros que procuravam por suas parceiras.
Como Iandra sabia bem pelo que a jovem passaria, concordou. Quando, por um sinistro capricho do destino, cruzaram com Androv e este estava prestes a colocar as garras sobre elas, Iandra conseguiu esconder Doralyn, que, por sua vez, teria exatos onze meses para aprender a se proteger, a se tornar invisível antes que atingisse seus vinte e um anos. Depois disso, jamais voltaram a vê-la.
Mesmo sabendo que seria difícil que alguém no local onde havia sido a antiga aldeia dois séculos antes, dar qualquer informação sobre os ancestrais de Doralyn, Zirgov e Iandra retornaram a fim de tentar saber alguma coisa. Os mais velhos, sem imaginar quem poderia ser Iandra, contaram a eles velhas lendas que diziam que séculos atrás a última esposa do diabo que havia passado pela região levara consigo a filha de um camponês para oferecer em sacrifício ao “marido”. Depois disso toda a aldeia foi atingida por uma peste que a dizimou quase que completamente, restando pouco daqueles habitantes.
Zirgov e Iandra foram procurar essas pessoas alegando ser descendentes de uma família daquela época. Não conseguiram saber absolutamente nada a respeito de Doralyn, mas, passaram a acompanhar as várias gerações da família que permaneceu na aldeia e que se seguiram até os dias de hoje, até Rud.
Ao contrário do que se pensa, assim como vampiros, as “i”s também não fazem parte de nada “sobrenatural”, mas de casos raros e possíveis, caprichos da natureza assim como os albinos, talvez. Pessoas comuns podem ter filhas “is”, meninas com uma mutação em alguma parte na estrutura do DNA feminino que ocorre em meio ao turbilhão de mudanças hormonais que começa geralmente aos quinze anos e tem seu ponto culminante aos 21, onde esse ciclo mutante termina e se estabiliza. Já, por outro lado, apenas as “is” podem gerar vampiros, desde que, claro, seu parceiro seja um vampiro, nesse caso, apenas meninos nascerão. Não há relatos quanto à existência de vampiras.
Os antepassados chamavam de “sangue negro”, “after sanguis” nos tempos da inquisição e denominada pelos cientistas russos da KGB de “insolitum” daí a abreviação “I”.
O jantar há muito havia terminado e, ao final das explicações dadas por Rud, Emanuelle levantou-se e começou a tirar a mesa e, parando no caminho entre esta e a cozinha, virou-se e perguntou:
– Existe alguma chance de que essa criança seja ... “normal”?
Rud olhou para Haig que deixou claro que já sabia a reposta. Ele sabia que era uma menina e que não seria... “normal”. Sem deixar que as lágrimas que estavam em seus olhos fugissem pela face, o velho respondeu:
– Se for um menino com certeza! – não queria que Emanuelle entrasse em desespero, tratava-se de sua neta e ele a amaria de qualquer jeito e passaria o resto de seus dias tentando protegê-la e, apesar de tudo, mesmo que a idéia não lhe agradasse muito, sabia que Haig também daria a própria vida por ela.
Haig levantou-se e seguiu Emanuelle até a cozinha, levando o resto das louças.
– Eu estarei sempre com vocês, Emanuelle, e prometo que viverei em função de proteger sua família e nada poderá atingi-la sem que me derrube primeiro – disse isso colocando a mão sobre a barriga da amiga.
– Pode ser um menino, você ouviu o velho! – e virou-se para que ele não pudesse ver suas lágrimas. Haig achou melhor não falar mais nada, era um momento delicado e não queria perturbar a gravidez. Quando ia deixando a cozinha Emanuelle segurou-lhe o braço:
– Eu sei querido. Você é o melhor amigo que já tivemos!
Saíram das remotas florestas de Kalunga, na região central da Rússia rumo à Vysokovsk a noroeste de Moscou, depois para Strunino, de lá partiram para Mozhaysk e depois para Sobinka, na margem direita do rio Klyazma. Desse ponto, a distância até Riga era de treze horas e meia, 1086 quilômetros, caminho esse que faziam na maior parte a pé, parando em uma cidade ou outra, onde permaneciam por algum tempo.
Rud foi apenas até certo ponto, convenceu a todos de que o melhor seria que ele ficasse monitorando as coisas de perto para que pudesse preveni-los caso soubesse que os inimigos tinham alguma pista sobre eles. Com a influência que julgava possuir, sempre haveria alguém disposto a ajudar ou a vender informações que pudessem mantê-los a salvo.
Quando Emanuelle estava prestes a entrar no oitavo mês decidiram que era hora de dirigir-se ao destino final, ela não poderia mais levar essa vida exaustiva viajando de um lugar a outro. Rud tinha algumas posses que, assim que ele e seu amigo Zirgov descobriram as intenções da agência, tratou de reverter tudo em dinheiro vivo porque como uma velha raposa que era, sabia que as coisas poderiam ficar estranhas, agora estava agradecido por seguir seus instintos. Haig por sua vez também possuía um bom dinheiro vivo e muitas propriedades espalhadas, tanto pela Rússia como em vários outros países.
Sua fortuna havia sido conquistada no decorrer do tempo em virtude da longevidade da família, digamos assim, e, sendo seu pai quem era, tomara algumas precauções, assim como seu amigo Rud. As propriedades fora do país estavam em nome de velhos amigos administradores, portanto, sabia que, se precisasse deixar o país, poderia dispor de seu dinheiro como quisesse que não seria rastreado.
Novos documentos foram providenciados, Theo agora era Manoel, Emanuelle era Maggie, Haig passou a se chamar Pedro. George foi o único a assumir seu verdadeiro nome, pois, na agência, quando foi recrutado, havia se apresentado com nome falso. Era bom ser o vampiro mais velho, seiscentos anos deram-lhe instintos suficientes para manter a desconfiança constantemente ativa. Não conseguia se conformar com o fato de que Zirgov, com seus quinhentos anos de existência, tenha conseguido meter a si mesmo e ao filho, de apenas cento e quarenta e três anos, numa confusão dessas.
Uma outra forma de desviar atenção e qualquer ligação que pudessem fazer sobre um grupo viajando juntos foi se separarem. Theo e Emanuelle seguiram para se instalar em Riga, enquanto que Haig continuou até a Suécia, estabelecendo-se em Mora e, a seu pedido, George acompanhou, ainda que de longe, a família de Theo a fim de ficar de olho neles e protegê-los.
Em dezoito de março do ano de 1992, Theo chegou a Riga com a família, como um jovem que havia recebido uma herança e desejava se tornar um empreendedor em uma nova cidade. Investiu na indústria metalúrgica que estava se restabelecendo. Emanuelle não escondia mais a gravidez que completaria nove meses em menos de um mês, então, caso ainda procurassem por eles, não fariam a ligação com um casal que esperava um filho.
Já na Suécia, mais precisamente em Mora, Haig, começou um novo negócio no ramo agropecuário mantendo outros que seu pai já tinha em Estocolmo e adjacências, sob nome de diferentes proprietários.
Em Mora, Haig preparou a propriedade de seus sonhos, construiu a casa toda pensando no dia em que teria sua amada definitivamente em sua companhia e, sob esse pensamento, começou a entender as razões de seu pai para não querer um filho.
Na casa recém reformada, toda em tons claros que iam do branco ao salmão nos andares térreos, e do branco ao lilás nos andares superiores, já era final de tarde e Manoel acabava de chegar da empresa. Maggie o esperava, como de costume, na varanda em frente à casa e o recebeu com um abraço seguido de um suave beijo nos lábios. Manoel perguntou-lhe como havia sido seu dia e ela respondeu que saíra pela manhã a fim de fazer as últimas compras para a chegada do bebê que, segundo ela, sentia que seria em breve.
Eles tinham uma empregada, Margaret, uma senhora de uns cinqüenta e poucos anos, de muita confiança, que se tornara quase uma mãe para eles e estava sempre atenta às necessidades de Maggie. Ela preparou um jantar leve, dizendo que Maggie precisava começar a comer com moderação, pois tinha a impressão que de aquele bebê chegaria de uma hora para outra e ela não poderia estar empanturrada quando fosse a hora.
Terminado o jantar, Margaret arrumou tudo e foi pra casa. Às vezes ela costumava dormir por lá mesmo o que era mais frequente agora, no final da gestação de Maggie, mas, era quarta-feira, e às quartas-feiras Margaret e as amigas se reuniam para jogar cartas e fazer fofocas sobre as amigas que faltavam ao encontro, uma diversão para quem estava entrando ou fazia parte da terceira idade.
Manoel e Maggie estavam em frente à lareira, ele em sua poltrona reclinável assistindo as últimas notícias da região enquanto que ela lia concentrada um livro sobre o significado de nomes de bebês. Com uma agradável sensação de paz e segurança, olhou para ele e disse como era bom sentir-se assim depois de tanto tempo fugindo e se escondendo em lugares que nada tinham de confortáveis e muito menos seguros.
Mal concluiu a frase quando alguém lhes bateu à porta gerando um certo pânico, devido ao fato de que não esperavam nenhuma visita, principalmente pelo adiantado da hora.
Maggie correu para se esconder no porão que Manoel construiu depois que a casa já estava pronta com pretexto de uma pequena reforma interna para a chegada do filho, mantendo, assim, segredo sobre o cômodo extra muito bem camuflado para o caso de alguma emergência, como esta.
Enquanto isso, Manoel pegava uma das várias armas que possuía e que foram estrategicamente escondidas pela casa, por toda a parte. Ao se aproximar da porta, ouviu um sussurro bem junto a ela.
– Sou eu, abra logo! – reconhecendo a maneira inconfundível de falar, abriu rapidamente a porta.
– Ficou maluco? O que está fazendo aqui? Aconteceu alguma coisa? – Pedro olhou para as mãos do amigo e reconheceu em uma das mãos, uma arma adaptada que continha uma ampola de Z42 e na outra, uma glock 380 com balas especiais de madeira, não do tipo que machuca e deixa fraco, mas, do tipo que dá fim ao “problema” – Sorriu, um riso meio irônico e meio nervoso.
– É, está preparado, hein! Mas, se não se importa, essa coisinha aí na sua mão esquerda me deixa meio... “paralisado” de medo... se é que você me entende. A da mão direita... bom, melhor nem pensar! – Manoel abaixou as armas e abraçou o amigo rindo, em seguida fechou a porta atrás de si quando Pedro continuou. – Peguei o primeiro avião em que consegui um lugar, onde estão elas?
– Elas? – perguntou Manoel para em seguida ouvirem o grito de Maggie. Correram em direção à entrada do porão e viram que Maggie já começava a subir as escadas, estava toda suada.
– Podem me ajudar aqui, por favor, acho que não vou conseguir subir. – Manoel paralisou-se diante da cena e Pedro reagiu.
– Que foi, atirou no próprio pé? – então correu para pega-lá no colo e trazê-la para cima.
– Me leve para o quarto, Pedro, por favor – ao que ele obedeceu e depois desceu para buscar o marido, que permanecera parado pensando no que deveria fazer.
Quando ambos chegaram lá, Maggie foi logo dando as instruções:
– Vamos precisar de toalhas limpas e água fervendo, Manoel, tenho uma caixa de primeiros socorros na segunda porta do guarda-roupas, com luvas e anti-sépticos, linhas esterilizadas e, se for necessário, tem até um bisturi. Diante de tudo o que Maggie dizia, Manoel parecia ficar cada vez mais pálido. Enquanto Pedro desceu as escadas voando para providenciar a água quente, Manoel pegou a caixa de primeiros socorros e foi deixando tudo arrumado sobre o criado mudo, depois pegou as toalhas e as arrumou sobre a poltrona do quarto. Por fim, sentou-se à beira da cama, segurou a mão da esposa e perguntou:
– Querida, tem certeza de que chegou o momento? Podemos ligar para Margaret.
– Manoel, ligar para Margaret significaria dar uma série de explicações sobre quem é e o que faz aqui seu amigo Pedro – nesse instante Pedro entrou no quarto, carregando um caldeirão com a água fervente.
– Você não está falando sério, não é? Nós não vamos mesmo fazer isso? – perguntou Manoel com um riso nervoso.
– Vocês acabam de ser nomeadas minhas parteiras oficiais. – dizendo isso, se contorceu soltando um grito comprido de que estava tendo uma forte contração. Pedro teve a certeza de que Manoel iria desmaiar e com a rapidez de um vampiro sentou o amigo em outra poltrona, voltando para segurar a mão de Maggie.
– Manoel, não podemos fazer isso sozinhos, precisamos de você, reúna suas forças, cara, depois pode desmaiar a vontade! – disse Pedro que tentava esconder, mas estava tão nervoso quanto o amigo, sem contar que estaria diretamente perto de muito sangue. Isso sempre o deixava nervoso, era como se tivesse medo de que um instinto primitivo viesse à tona sem que pudesse controlá-lo. Por fim, Manoel respirou fundo e juntou-se a eles.
O trabalho de parto durou pouco mais de três horas. Ao final do dia 18 de abril de 1992, todos estavam exaustos, Pedro embrulhou a menina recém nascida em uma toalha limpa e a entregou ao pai, que estava largado em uma poltrona, enquanto se esforçava para limpar tudo rapidamente e acabar com todo aquele cheiro de sangue que se espalhara pelo quarto. Manoel olhava a filha e ao mesmo tempo em estava emocionado, também havia a preocupação do que seria dela agora, será que havia herdado a maldição?
– Pedro? – chamou Maggie
– Está tudo bem querida! É uma linda menina! – ele respondeu feliz e preocupado, pois não sabia como seria a reação deles agora e como ele seria recebido e tratado no seio daquela família, se é que seria recebido. Após ouvir as palavras de Pedro, Maggie adormeceu quase que instantaneamente, não lhe restaram forças para nada naquele momento, Pedro então dirigiu-se ao amigo dizendo:
– Me dê a menina e vá tomar um banho, você está horrível! – Manoel hesitou um pouco, mas, acabou entregando a filha e foi tomar um demorado banho pensando em como deveria agir de agora em diante, tinha medo de que o amigo de toda a sua vida se tornasse um estranho e uma ameaça agora.
Ao segurar aquela criança nos braços, de alguma forma que nem ele mesmo sabia e, portanto, seria impossível explicar, sentiu por ela uma ternura imensurável e teve a certeza de que se consolidava ali uma ligação que já sabia existir desde antes mesmo de Maggie anunciar a gravidez, quando ainda estavam naquela cabana, na Rússia.
À menina foi dado o nome Ella. Pedro não tinha vontade alguma de voltar à Suécia, mas, por questões de segurança, sabia que não poderia ficar, e mais, deveria sair da casa antes que Margaret retornasse para iniciar mais um dia entre os Iandersons, sobrenome adotado por Manoel e Maggie na nova documentação.
Antes de partir, Pedro marcou um encontro onde convocou George, a fim de torná-lo o guardião temporário de Ella. Anteriormente, seu trabalho resumia-se em observar a família de longe, prestando atenção em tudo o que acontecia à sua volta a fim de detectar possível movimentação estranha, o que nunca havia acontecido. Agora, Pedro queria que ele ficasse mais próximo.
Para introduzi-lo no cotidiano familiar sem levantar suspeitas com uma aproximação repentina, Theo contratou George como segurança para a portaria da empresa metalúrgica.
Com o passar do tempo, foram gradativamente tornando a proximidade de George à família de Manoel o mais natural possível, com pequenas promoções. De segurança de portaria, passou a inspecionar o pessoal da segurança interna fazendo rondas pela empresa, depois, passou a auxiliar de departamento de pessoal, o que, claro, também tinha como objetivo, conhecer todas as pessoas que trabalhavam para Manoel, de modo geral, depois, passou a auxiliar a secretária de Manoel e, por fim, tornou-se assessor direto do diretor da empresa, auxiliando-o nos mais diversos assuntos.
Como a amizade deles, pelo menos aos olhos de todos, foi nascendo e crescendo conforme a convivência, tudo parecia natural, atingiram o objetivo e agora George podia circular livremente tanto pela empresa quanto pela casa de Manoel.
A partir daí, Ella cresceu cercada pelo carinho dos pais, os cuidados amorosos de Margaret e a proteção de George.
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