Ella - A Verdade Por Trás Da História
2 Capítulo 1
No final de uma tarde de inverno, Ana chorava copiosamente nas areias da praia após ter chego como num milagre com vida nas pedras da costa de Väddo, Suécia. Encharcada e confusa, não sabia como havia ido parar ali. Não sabia como havia conseguido escapar à morte iminente. Olhando para o vazio em direção ao mar, as águas agora pareciam calmas e silenciosas, não havia barulho algum, além daquele que habitava sua própria alma nesse momento e que gritava em desespero. Todos haviam morrido e além da dor dilacerante pela perda de toda família ficava pensando como seria sua vida agora que não tinha mais nada, nem lugar para onde ir ou voltar.
Sua família estava se mudando da Letônia, em um navio através do mar báltico, pretendiam chegar a Gävle, na Suécia, deixando tudo para trás. Durante a viagem, um naufrágio havia levado consigo tudo que ainda possuíam além de suas próprias vidas, por mais que tentasse, Ana era incapaz de compreender como escapara de tão trágico destino.
Seu pranto já ia tão longe quanto as horas da noite quando sentiu uma brisa tocar-lhe o rosto e pensou ter ouvido alguém sussurrar seu nome. Virando-se instintivamente, avistou ao fundo, em meio à neblina, a figura de um homem que caminhava em sua direção. Apesar do medo que sentia, não se moveu, pois, pensava que já não tinha mais nada mesmo. Então, qualquer que fosse sua sorte, até morrer, poderia ser bem agradável naquele momento, porém, não conseguia desgrudar os olhos daquela figura que se aproximava cada vez mais até que tudo tornou-se tão negro quanto a escuridão mar adentro em noite sem luar.
Ao abrir os olhos, percebeu que a confusão instalava-se definitivamente. Mas que lugar era aquele? E como havia ido parar ali? Sentou-se na cama, uma cama imensa e muito confortável, seus lençóis eram brancos, macios e perfumados com pequenas e delicadas flores de cores sortidas estampadas neles. O aposento era espaçoso, à frente da cama havia um aparador com espelho, ao lado direito, uma confortável poltrona sob uma grande janela e, um pouco mais ao lado, uma porta de vidro coberta por cortinas em tom laranja claro que davam um ar de alegria ao ambiente. Ao lado dessa porta, uma pequena mesa redonda, branca, em metal trabalhado com duas cadeiras igualmente elaboradas.
- Você já cumprimentou o sol hoje? – cantarolava uma voz que adentrou o aposento e a pegou de surpresa – Bom dia, flor do dia! Já lhe preparei um banho com algumas ervas que vão lhe ajudar com as dores, deveria tê-lo tomado ontem, mas, da maneira como chegou aqui... Bem, vamos, querida, eu lhe ajudo e asseguro que vai se sentir bem melhor, nada como uma boa noite de sono e um bom banho revigorante no dia seguinte.
- Mas... – tentou Ana.
- Oh! Me desculpe! Tagarelando sem parar e nem me apresentei, Doroty,
muito prazer!
- Sou Ana, poderia me dizer como cheguei até aqui? Ontem eu estava... –
logo foi interrompida.
- Muito prazer Dª Ana! Mas acalme-se e nesse momento, apenas se deixe cuidar, haverá tempo para todos os esclarecimentos!
Sem muitas forças para retrucar e sentindo-se totalmente sozinha no mundo, Ana achou por bem acatar os conselhos de Doroty.
Doroty era uma mulher que mostrava vigor e ânimo, era alta e esguia, cabelo negro e longo preso feito um rabo de cavalo, vestia-se com sobriedade, devia ter por volta de quarenta e cinco anos, não mais que cinquenta, executava suas tarefas com agilidade e destreza acompanhadas de muito bom humor, assinalado por um sorriso sincero nos lábios que iluminava toda sua face, parecia uma pessoa frugal.
Após o banho, Ana encontrou sobre a cama, roupas novas e perfumadas que lhe caíram perfeitamente, vestiu-se vagarosamente uma vez que a curiosidade não era maior que a descrença em seu futuro e deixou-se cair sobre a cama.
Perdida em pensamentos que lhe traziam recordações felizes da família, assustou-se com as batidas na porta. Era Doroty, que trazia consigo uma bandeja com frutas, pão, queijo, um bule acompanhado de uma xícara e uma rosa vermelha, ela nunca havia visto um tom de vermelho como aquele em uma flor, mas, também lhe chamara a atenção a maneira como Doroty conseguia equilibrar aquela bandeja farta sem nem ao menos tilintar as louças.
- Vamos Dª Ana, precisa alimentar-se. Uma boa noite de sono, um bom banho e um belo café da manhã acompanhado de chá de ervas aromáticas, descansam a mente, acalmam a alma e revigoram o corpo. Qualquer dia, apresento-lhe meu estimado e por mim denominado “pomar da felicidade” onde cultivo diversas espécies de ervas com finalidades terapêuticas.
- Doroty – chamou Ana.
- Vamos, senhorita, não há tempo agora! Alimente-se e descanse, logo mais todas as suas perguntas serão respondidas.
Ah! Mas que bom! Pensou ironicamente, sem visualizar outra alternativa, sentando-se em uma das duas cadeiras próximas à mesa onde a bandeja havia sido disposta. Foi quando Doroty abriu as cortinas e as portas, Ana levantou-se ao mesmo tempo em que exclamava: “Ah! Meu Deus!”.
Caminhou para fora do quarto, boquiaberta. Que lugar era aquele?
perguntava-se ao contemplar um jardim totalmente florido, ali havia flores e cores que ela não conhecia, uma beleza indescritível. Ela, como quem houvesse sido enfeitiçada, seguiu pela varanda que parecia ladear a extensão total da casa acompanhando toda aquela maravilha sem desviar os olhos e deixando que o perfume das flores invadisse seus pulmões. Mas foi quando chegou ao outro lado que ficou realmente sem fôlego, ao avistar um verdejante vale que se estendia até tocar o horizonte para onde algumas das flores o acompanhavam, tornando tudo impossível de se colocar em palavras.
Apesar da beleza de sua terra natal, Ana nunca havia visto tamanha diversidade de flores e cores, fechando os olhos, tentava pensar em algo para dizer, mas, colocar aquilo tudo em palavras seria, com certeza, diminuir sua beleza. Então, aspirou profundamente e apenas pensou que se o paraíso tivesse um cheiro, certamente seria parecido com aquele.
Altos pinheiros e vidoeiros se misturavam à paisagem dando um toque de mistério sem abalar ou tornar fria a beleza do lugar.
Podia perceber que o sol nascia do lado oposto ao vale e que conforme as horas fossem passando, ele daria um brilho a mais naquela maravilha toda à sua frente, ao se pôr no final da tarde.
Seguindo-a de perto, estava Doroty com um sorriso satisfeito nos lábios.
- Sr. Pedro sempre tratou a propriedade com muito zelo e amor, não passa um único dia sem que ele inspecione todo o jardim ao redor da entrada principal e depois ainda passeie pelo vale até o riacho. Sr. Pedro sempre disse que cuidaria de tudo até que ela chegasse, tudo isso, com a ajuda de nosso estimado Kuzma, é claro. Ele é nosso jardineiro.
- Então, o tal Sr. Pedro tem uma família, uma esposa, filhos?
- Nada disso, Senhorita!
- Mas você disse que ele a espera, quem é ela, a mãe? Uma irmã?
- Não sabemos, ele só diz: “ela”.
De repente, sentiu-se estacar no local, ao olhar para o vale mais uma vez, avistou uma figura de um homem que caminhava em direção à casa, seu contorno lembrava-lhe a noite anterior. Oh! Será que ...
O que sentiu, poderia ser descrito com algo próximo a ser apanhando por um vendaval e sentir seu corpo sendo jogado de um lado a outro, ficando quase sem respiração. Percebendo a palidez que se instalara em sua face, Doroty preocupou-se de imediato.
- Está vendo Srtª Ana, deixou seu café, saiu caminhando em jejum e acabou passando mal – segurando a mão de Ana, conduziu-a de volta ao quarto, ao que ela obedeceu sem protestar.
Chegando em seus aposentos, porém, Ana sentou-se à mesa decidida a interrogar Doroty e não perdeu tempo:
- Doroty, por favor, não agüento mais conviver com tantas incertezas, de uma vez por todas você vai se sentar aqui e me contar agora mesmo o que está se passando, a começar por este lugar, onde estou? Quem são os donos? Como vim parar aqui? Por que “ainda” estou aqui? E por que ninguém ainda veio falar comigo? – disparou Ana num único fôlego, a fim de que Doroty não tivesse tempo de vir com seu habitual: agora não, depois, depois...
- Bem Srtª Ana – começou Doroty, calma e suavemente – Não tenho permissão para lhe dizer muito, mas, a Srtª está em Mora, numa propriedade rural na Suécia, afastada das concentrações humanas a fim de preservar a privacidade desejada. Quanto “ao” dono, sobre esse nada posso lhe dizer, pois, deseja ele mesmo ter com a Srtª, assim que possível.
- E como vim parar aqui, Doroty?
- Bom, aqui são todos empregados antigos, apenas pessoas de extrema confiança, Kuzma, como já lhe disse, Carlos, nosso motorista, eu, Marrie e Meredith que ajudam com os afazeres da casa, Jason que cuida de tudo por aqui na ausência de Pedro, ah! sim, ele é marido de Meridth. Sinto muito senhorita, mas nada mais poderei dizer, apenas, não se preocupe, o Sr. Pedro é um homem íntegro, honesto, jamais lhe causaria qualquer mal ou constrangimento. Com tempo vai perceber que “aqui” é o único lugar onde realmente desejaria estar e onde estará protegida de tudo e de todos. – arrematou Doroty mesmo sabendo que não deveria.
- Poderia ao menos me dizer quem me trouxe até aqui?
- Ora, pois, não sabes? – perguntou Doroty deixando imediatamente o aposento a fim de não ser mais interpelada pela moça.
Como assim, “não sabes”? E por que deveria saber? Fora salva após um terrível naufrágio, não sabe como, deveria agora estar dormindo nas areias da praia e mendigando alimento e, por algum motivo, estava em uma bela casa sendo tratada com todo cuidado e atenção. Como poderia imaginar qual destino a aguardava, vivera toda sua vida protegida e cuidada por sua amorosa mãe como se fosse uma boneca de cristal e agora tinha medo de simplesmente não sobreviver sozinha nesse mundo que agora se apresentava a ela imenso e totalmente novo.
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