Notas iniciais
Espero que gostem! bjokas!

– Oh, não! – exclamou Ana pulando da cama – Mon Dieu! – parou um instante e riu de si mesma – deve ser o “ar francês” da casa, oui?! – riu novamente enquanto abria as malas procurando algo limpo para vestir. Como podia ter adormecido daquela forma?

“Quanta deselegância” teria dito Pedro! – pensou ela, dirigindo-se ao banheiro da suíte onde tomou um prolongado e revigorante banho.

Quando abriu a porta do quarto levou susto, Évenice estava parada a sua frente com aqueles imensos olhos azuis a olharem fixamente para ela, era impossível saber o que pensava, não tinha expressão alguma.

– Bonjour, mademoiselle! Teve uma noite agradável? – sem dar tempo para a resposta, emendou enquanto se virava e começava a caminhar – Madame Amaril lhe aguarda para o desjejum. S’il vous plaît, queira me acompanhar.

Extremamente sem graça, sorriu um riso amarelo e agradeceu por ela estar de costas. Seguiu-a até o terraço onde Amaril já se encontrava sentada à mesa já posta. O dia estava magnificamente claro e agora podia ver definitivamente a by Text-Enhance\">beleza do lugar.

– Madame, queira me desculpar, eu ... acabei adormecendo. Eu sinto muito!

– Ne vous inquiétez pas! Não se preocupe, mon cher! Eu conheço a distância de Mora até aqui, devia estar exausta. Agora sente-se e tome seu café da manhã tranquilamente, enquanto aproveitamos a beleza desta manhã e conversamos, oui?!

– Claro! A propósito, sua propriedade é magnífica!

– Merci! Mudei-me para cá logo depois da morte de meu marido. Quase tudo aqui é uma cópia perfeita da casa que tínhamos na França. Rue Pierre Curie em Le Mans, eu amava aquele endereço!

– Se não for invadir demais, por que se mudou? – a senhora a olhou por um tempo, seus pensamentos viajaram e um filme sobre o trágico dia de sua fuga da França que lhe passou pela mente.

– Mon visage, tenho cá para mim, que voltaremos a esse assunto cedo ou tarde, por ora devemos nos voltar para suas necessidades, mon Cher. Então, me fale um pouco sobre você, sua família, vinham a passeio?

– Infelizmente, Madame... – começou ela, mas foi interrompida.

– Mon Cher, vamos combinar o seguinte, de agora em diante é apenas Amaril, oui? Faça-me sentir um pouco melhor, não gosto de saber que estou envelhecendo e, principalmente, que fica claro ao olhar alheio.

– Claro! Amaril ! Então, sei apenas o que papai disse antes de partirmos de Riga e coisas desconexas que mamãe balbuciou enquanto se afogava – lágrimas lhe encheram os olhos diante da lembrança de ver a mãe morrendo sem que pudesse ajudá-la.

– Oh, mon Cher! – disse Amaril em tom carinhoso e maternal, enquanto segurava sua mão na tentativa de confortá-la.

Depois de uns instantes que foram necessários para que Ana se recuperasse, ela continuou. Ana contou que seu pai, certo dia, chegou em casa e, de repente, disse que iriam se mudar, lembra-se do olhar estranho que sua mãe lançou a ele, o que, deduziu, seria pelo fato de que ela gostava muito de onde moravam, como costumava dizer. Quando Ana perguntou por que, ele respondeu “o by Text-Enhance\">dinheiro se muda, querida, precisamos acompanhá-lo!”, explicando que investimentos melhores estavam em Gävle, na Suécia, e que seus sócios já haviam preparado tudo para que ele e sua família pudessem se instalar e começar nova vida, mais tranquila e próspera.

– Hum! – disse Amaril, como que analisando os fatos – Até aí, mon Cher, tudo bem, essas coisas acontecem de fato!

– Sim, mas, de um dia para o outro? Papai anunciou isso num dia e no outro já estávamos nos dirigindo ao porto, apenas com o que era possível colocar em poucas malas.

Ana prosseguiu narrando os últimos dias da família em Riga sem ser interrompida por Amaril, que prestava atenção em tudo. Falou sobre o tal George, que era uma espécie de guarda-costas que vivia na casa com a família em Riga e parecia nunca dormir, ele os acompanhou até o porto e desapareceu sem se despedir.

No dia da viagem, a tensão era evidente, todos insistiam em fazer parecer normal e até tentavam esboçar felicidade com aquele acontecimento, mas Ana era bem menos ingênua do que todos pensavam, ela sabia que alguma coisa estava muito errada.

Um suposto sócio a quem seu pai se dirigiu e apresentou como Dr. Angus, apareceu no porto, sorrindo e dizendo que estava tudo preparado na nova cidade para a “nova feliz e próspera vida” que iriam começar, segundo suas palavras. Em seguida, após entregar as passagens, despediu-se e desapareceu, mas apenas das vistas, porque Ana sabia muito bem que ele estava por perto e essa era uma sensação que não conseguia explicar.

– Um momento... mon Cher? Você é capaz de sentir quando tem alguém por perto? – perguntou Amaril sentindo que poderia ter acabado de obter a resposta que acabaria com as suas dúvidas.

– Sim, Amaril, mas não é com todo mundo, algumas pessoas eu consigo sentir, não sei explicar. Por exemplo: eu não saberia dizer se você está em casa ou não, mas eu consigo saber quando Évenice está por perto!

– Évenice?... “minha” Évenice?, não, não, mon Cher, isso não é possível! – Amaril inquietou-se. Não, Évenice, imagina! Estava com ela desde que se mudara para Gävle, impossível!

– Sim, Amaril, eu a sinto, mas é diferente. Não é como sentir a presença do George em Riga, ou do sócio do papai no porto, ou de Pedro e seu jardineiro, é diferente, a presença dela é diferente da presença deles, mas eu sinto!

– Oh! Mon Cher, antes de continuarmos essa conversa, preciso lhe fazer um pedido, crucial para que eu possa lhe ajudar.

– Sim, o que precisar, Amaril!

– Não fale nada sobre Évenice com absolutamente ninguém! Nem mesmo com a própria Évenice, finja que... Enfim, continue agindo como agiu até agora, e não me pergunte nada, apenas confie em mim, eu vou lhe ajudar com tudo isso, mas você precisa entender que tudo tem o seu momento e, para o sucesso do seu propósito, é essencial que você tenha paciência!

– Eu sei que posso confiar em você. Não me pergunte como, mas sei!

– Isso também será esclarecido, mon Cher, não se preocupe. Agora é também fundamental que tente se lembrar de todos os detalhes possíveis da história.

No navio, seu pai havia ficado em cabine separada de Ana e sua mãe Emanuelle. A uma certa altura da madrugada, Ana despertou e parecia ouvir cochichos vindos do lado de fora da porta de sua cabine e sua mãe não estava na cama, aproximou-se da porta onde colou os ouvidos e pôde ouvir trechos da conversa “o que faremos Theodoro?”, “Ella não está segura aqui, nenhum de nós está!” dizia sua mãe em voz aflita. Logo em seguida seu pai disse: “Emanuelle, vá para a cabine, acorde Ana e dê-lhe as instruções que combinamos, se ela escapar precisa saber o que fazer, ele a estará esperando em Gävle”. Nesse momento, um solavanco jogou Ana para o outro lado do quarto ao mesmo tempo em que a porta se abria e sua mãe era jogada para cima dela com a cabeça machucada e sangrando.

– Mamãe, mamãe! – gritou desesperada, enquanto sua mãe recobrava a consciência e se esforçava para sentar-se.

– Filha, preste muita atenção, o que te vou dizer pode salvar sua vida, precisa fazer exatamente o que vou dizer – Ana consentiu com a cabeça – A partir de agora, você passará a se chamar Ana, esqueça seu verdadeiro nome, esqueça o nome de seus pais e esqueça suas origens! Você deve ir a... – nesse momento, um novo solavanco, um estrondo ensurdecedor e um clarão, típicos de incêndio, puderam ser ouvidos e vistos pela pequena janela da cabine. Com esse novo solavanco, sua mãe foi arremessada contra a parede batendo ainda mais forte com a cabeça quando apenas conseguiu pronunciar “Haig”, perdendo definitivamente a consciência. Ana tentou arrastá-la para fora da cabine que começava a ser rapidamente invadida pela água.

Ana começou a chamar pelo pai, mas, lembrando-se dos conselhos de sua mãe, calou-se e decidiu que tentaria salvá-la e no caminho procuraria por ele. Em nenhum outro momento ouviu a voz de seu pai. Com água já na altura do pescoço, percebeu que não teria forças para tirar sua mãe dali a tempo, ou ela saía naquele momento, ou morreria afogada. Sem alternativa e aos prantos, largou a mão de sua mãe e nadou para fora da cabine pelo corredor já quase todo submerso, conseguiu passar por uma abertura mínima quando percebeu que estava no mar, cercada por destroços e aparentemente sem nenhum outro sobrevivente por perto.

Bem ao fundo, podia ver uma sombra no horizonte, parecia terra firme, não acreditou que conseguiria de fato nadar até lá, mas não tinha outra escolha, iria pelo menos tentar. Acordou um tempo depois nas areias da praia que soube depois pertencer a Vaddö, não soube explicar como sobrevivera à arrebentação.

O homem que vira se aproximar na praia, não soube dizer quem era, pois havia perdido os sentidos antes que ele saísse totalmente da neblina. Apenas se lembra de ter acordado na casa de Pedro, de haver sido muito bem tratada, de conhecê-lo na semana em que chegou lá. Mas deduziu, pelas palavras que ouvira de sua mãe, que deveria ir Gävle, procurar por alguém chamado Haig, mas não sabia por onde começar, não tinha ideia do que fazer.

– Mon Cher, oh! Nem sei como lhe dizer isso também, mas, não procure por Haig! Na verdade, jamais pronuncie esse nome. Eu sei que vai ficar difícil para você confiar em mim diante de tantos pedidos de paciência e silêncio, mas pode ter certeza, tudo isso é para proteger você!

Ana sentiu-se frustrada, encontrar todas as respostas não seria tão fácil, mas sentia que aquela mulher falava a verdade e que podia confiar nela. Sabendo que podia estar em real perigo como sua mãe lhe havia dito, só lhe restava esperar.

Notas finais
Não esqueçam de comentar! Se gostaram ou não gostaram, o comentário é sempre proveitoso para quem escreve! Bjokas.