Notas iniciais
When the night has, been to lonely, And the road has been to long. That you think that love is only, For the lucky and the strong. Just remember in the winter, Far beneath the bitter snows, Lies the seed that with the suns love, In the spring becomes the rose. The Rose - Janis Joplin

Enfim deixaram aquela vida de isolamento para trás. Desde que chegaram às cavernas, Haig, Aleh e, alguns meses depois deles, Ella, trazida por Carlos, cinquenta anos haviam se passado. Cinquenta anos em que Haig, cumprindo o acordo com Zurik em troca da imortalidade de Ella, permaneceu nas cavernas junto ao povo da lua apresentando-lhes o mundo fora da região da Abecásia, em incursões monitoradas às cidades da região para que aprendessem a conviver e a controlar-se na presença dos humanos. Ele tinha a certeza de que só havia suportado por estar junto da mulher que amava e do filho, que jamais cogitaram a ideia de sair de lá sem ele.

Enquanto o carro deslizava pelas estradas Haig sentia um imenso alívio. Depois de todos esses anos, estava a caminho de casa. Porém, dentre todas as emoções que lhe invadiam nesse momento, a mais gratificante era saber que Ella estaria com ele para sempre. Claro, a preocupação por não saber como andavam as coisas em Mora também era grande. A esta altura Meredith e Jason encontravam-se em idade avançada e esperava ter tempo de encontrá-los com vida para poder lhes agradecer e cuidar deles pelo tempo que ainda lhes restasse.

Já próximos, se sentiam inquietos, será que as coisas haviam mudado muito? Será que aquela velha e discreta estrada alternativa, por onde podiam entrar e sair da cidade sem serem notados, ainda existia? Surpresos, puderam observar que as coisas não haviam mudado tanto assim, até mesmo por ali. Surgiram poucas casas ao longo da velha estrada, provavelmente filhos dos antigos fazendeiros e pequenos sitiantes da região. Naquelas bandas, era comum construírem nas propriedades dos pais ou dos sogros.

Quanto mais se aproximavam, mais o coração de todos se enchia de ansiedade. Atrás da próxima colina, estaria o grande portão que dava acesso à propriedade e de cima dava para notar pequenas mudanças. Haig parou o carro.

–Uau! — exclamou Aleh, pulando do carro — Isso é demais!

–Eu não me lembro de termos tantos cavalos! — disse Haig, olhando para Ella.

–Eles são tão lindos! Eu também vou a pé daqui! — disse Ella, indo logo atrás de Aleh e deixando Haig no carro.

–Tudo bem! Eu levo o carro então! — disse ele, como se lhe tivesse sobrado alternativa.

Uma parte da propriedade havia sido transformada em haras, onde cavalos da raça Andaluz pastavam tranquilamente.

Era o fim de uma tarde de primavera e tudo ao redor estava exalando vida, Ella caminhou em direção ao grande portão que estava entreaberto e pôde avistar o jardim florido. Como era bom estar em casa!

Meredith (que agora usava o nome de Ana) se balançava em sua cadeira do lado oposto da casa, na varanda que dava para o vale. Donna lhe servia o chá quando ela parou seu balançar repentinamente.

– O que foi, Dª Ana? Está se sentindo bem? – perguntou Donna.

– Eles voltaram, finalmente!

– Eles quem? Do que a senhora está falando? – perguntava Donna aflita, pensando que aquele poderia se mais um sintoma da idade.

– Você não ouviu o portão de entrada? Não percebeu que o cheiro no ar mudou? Venha, me ajude a levantar, vamos para a frente da casa!

Meredith abriu a porta e, com dificuldade e lágrimas nos olhos, caminhou até Ella que terminava de subir as escadas. As duas abraçaram-se enquanto Meredith sussurrava em seu ouvido:

– Finalmente... finalmente...

– Querida Meredith!

Haig e Aleh chegavam para se juntar a elas naquele abraço cheio de saudade e gratidão. Em seguida Kuzma e Évenice se aproximaram e também a abraçaram com saudade.

– Meus queridos! – dizia Meredith

– Como você está? – perguntou Ella.

– Velha, minha filha, estou velha... – e todos riram enquanto adentravam a casa.

– Para mim, você continua uma gata, Meredith, com todo respeito! – disse Kuzma bem-humorado, somente a volta para casa poderia lhe tirar do rosto aquele costumeiro semblante sério e compenetrado.

Sentaram-se todos em volta da lareira, apesar de ser primavera, aquela região era sempre fria, principalmente nos finais de tarde.

Meredith foi colocando os recém-cegados a par dos acontecimentos dos últimos anos. A KGB havia voltado a sondar o lugar, passaram muito tempo monitorando a casa e a rotina da propriedade, mas como ela e o marido Jason haviam assumido as identidades dos patrões, sem ter conhecimento desse detalhe, a agência acabou concluindo que se tratava mesmo de dois humanos que tocavam a vida e os negócios de maneira comum e normal e, depois de três ou quatro anos, deixaram de aparecer no local.

Meredith e Jason tiveram um filho, a quem chamaram de Jason II e que havia se formado em administração e ajudava o pai a tocar e a multiplicar os negócios que iam muitíssimo bem mesmo após a morte de Jason pai.

– Oh, querida Meredith! Eu sinto muito! Esperávamos encontrar todos aqui... – disse Ella com lágrimas nos olhos.

Além de Jason II, Donna, que fora entregue a eles quando ainda era um bebê e que havia se formado em veterinária, ajudava também nas propriedades cuidando dos animais, e agora se revezava com o rapaz nos cuidados e na companhia para Meredith.

– Jason II já vai chegar! Depois que adoeci, ele corre pelas propriedades mais próximas logo nas primeiras horas do dia e depois vem me fazer companhia. Eu sempre digo que não é necessário, tenho Donna, alías, Doroty não voltou com vocês?

– Não! Ela se adaptou à maneira de vida nas cavernas e Carlos não quis deixar tudo para trás mais uma vez, então...

– Ah, não me diga! Fico feliz com isso! Já era tempo de Doroty encontrar alguém!

– E George, Meredith, apareceu por aqui? Não soubemos mais dele, por lá não se chegam muitas notícias do mundo... – quis saber Ella, sentindo-se saudosa.

– Veio sim, mais de uma vez! Se não me falha esta memória velha... umas quatro vezes ao longo desses anos... George ... bom homem... disse que passaria de vez em quanto para ver como estávamos.

– Fico feliz que ele tenha cuidado de vocês!

E virando-se para Donna, com delicadeza, Ella disse:

– Temos muito que conversar, Donna! Trago notícias e mensagens de sua tia Doroty, ela quer que eu lhe conte tudo sobre ela, suas origens para que, a partir daí, você possa saber mais sobre si mesma!

Donna sabia que havia algo diferente com ela. O que sabia de sua história de fato era que fora entregue a Ana (Meredith) e Pedro (Jason) quando ainda era um bebê. Lembrava-se que, quando pequena, Meredith sempre lhe dizia que ela era uma pessoinha muito especial e que um dia seria uma mulher linda e poderosa. A princípio, achava que era apenas o amor de mãe falando, mas com o passar do tempo, principalmente depois que completara 21 anos, começou a notar que realmente era diferente.

O jantar foi um momento muito alegre com todos em volta da mesa, rindo e contando sobre as “aventuras” que viveram nas cavernas, ao mesmo tempo em que Meredith dava mais detalhes sobre tudo o que aconteceu no mundo “normal” no período em que ficaram isolados nas cavernas da Abecásia.

No final, como era de costume, Meredith se retirou para a cadeira de balanço na varanda. Não importava o frio que fizesse, ela sempre ficava lá por alguns minutos depois do jantar. Dizia que ali era onde podia encontrar Jason e conversar com ele um pouquinho antes de dormir.

Ella encostou-se na porta, logo atrás de Meredith, e ficou observando o balançar da velha cadeira. Meredith murmurava como se falasse ao pé do ouvido de alguém.

– Sim, querido, finalmente voltaram... sim, agora posso ir ao seu encontro, descansar... Minha jornada aqui foi longa e proveitosa e só não foi mais feliz, porque tive que percorrer um pequeno pedaço dessa estrada sozinha, mas agora estou livre... e feliz...

Fez-se silêncio, mas era um silêncio diferente, nada se movia, nem um zumbido de inseto, nem folhas e nem mesmo o crepitar da lenha da fogueira... silêncio... Ella começou a sentir-se incomodada e decidiu aproximar-se, Meredith parecia ter adormecido, mas Ella agora podia saber quando o coração de alguém não batia mais.

O funeral de Meredith foi lindo. Triste, mas lindo! Enterraram-na numa cova ao lado da de Jason, no final do vale. Um pequeno cemitério particular, o que é bem comum naquele país, o mesmo lugar onde Ella decidira enterrar Alexander depois de descobrir que ele era seu pai, depois de ver que ele se arrependeu e deu a vida para salvá-la e, para onde também haviam mandado trazer e enterrar os restos dos amigos queridos: Amaril, Affonso e Angus.

Donna chorava ajoelhada ao lado do túmulo, sentia-se sozinha agora. Meredith a havia amado como se tivesse ela mesma lhe dado a vida, assim como Jason jamais fizera diferença entre ela e seu filho biológico, os dois a protegeram e educaram e agora não havia mais nenhum deles por perto. Restava-lhe o irmão a quem amava muito, mas que não sabia como ficaria agora.

Sem saber se Haig e Ella desejavam tê-los por perto, Jason II comentou que pretendiam deixar a fazenda.

– Não aceitaremos isso, Jason! – disse Haig firmemente — Você trabalhou muito por este lugar e também para manter os demais, não vai embora assim! Se não deseja ficar aqui conosco, deixe-me pelo menos garantir-lhe o que prometi a seu pai, que jamais o abandonaria!

– Se você insiste, e se não for pedir muito, gostaria de ficar com a propriedade ao sul de Orsa, ela é a menor de todas, mais fácil de tocar o que me permitirá continuar trabalhando com você na administração dos negócios, caso seja de seu interesse.

– Sempre será de meu interesse ter os descendentes de Jason próximos de nós! Ele foi uma criança que amei e criei como a um filho, alguém que vi se tornar um homem íntegro e de valor! Ele foi minha família e os seus também serão, caso assim desejem.

Apertaram-se as mãos e partiram para um longo abraço, como a se reconhecerem como família. Não haveria mais separação.

Donna ouvia e as lágrimas de tristeza pela perda da mãe misturavam-se às lágrimas de alívio, pois, sem saber muito bem por que, não desejava afastar-se daquelas pessoas. Aleh aproximou-se, estendendo a mão para ajudá-la a levantar-se e, como que lendo seus pensamentos, disse:

– Não se preocupe! Você não ficará sozinha! Nunca a deixaremos só... Eu não deixarei!

Abraçada a Kuzma e Évenice, Ella observava as cenas paralelas que se desenrolavam à sua frente. Precisava estar preparada para enterrar muita gente amada, já que certamente os descendentes de Jason continuariam a vir através de seu filho Jason II. Precisava estar preparada para quando chegasse a hora de seu filho precisar passar pelas provações que ela mesma enfrentara. E pela proximidade de Aleh e Donna, certamente esse dia não tardaria a chegar...

Notas finais
E é isso povo lindo! Eu quero agradecer o incentivo, os reviews e principalmente à paciência daqueles que me acompanharam até aqui, esperando dias pela postagem dos capítulos. Foram vocês que me fizeram seguir em frente cada vez que eu não tinha ânimo para continuar, devido a minha vida corrida. Outra pessoa que nunca me abandonou foi Rain, beta linda e dedicada! Obrigada pelas correções, pelas dicas valiosíssimas e pelas sugestões fundamentais. Obrigada também pelo imenso apoio. Você é minha the best of the world. Até a próxima!♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!