Ella - A Verdade Por Trás Da História
38 Capítulo 37
Notas iniciais
O dia estava chuvoso e triste assim como os dias anteriores e os meses anteriores. Eles haviam partido há cinco meses, Haig, Aleh, George e Doroty.
O silêncio que se instalara na casa desde então chegava a zunir nos ouvidos e às vezes até doía. Fazia um frio como nunca antes e tudo incomodava Ella, nada conseguia deixá-la feliz, passava os dias sentada à varanda observando o jardim, ou então em frente à lareira quando anoitecia e esfriava ainda mais.
Ella estava triste porque não acreditava que a tal bruxa existisse e muito menos que houvesse encontrado uma poção mágica capaz de reverter o trágico destino ao qual todas as Is estavam condenadas. Além do mais, acreditava que acabaria morrendo sozinha, velha e acometida pelas doenças causadas pela idade antes que Haig e o filho entendessem e aceitassem isso e então retornassem a fim de poderem passar alguns últimos e bons momentos juntos.
Ella estava perdida em meio a esses pensamentos quando ouviu o barulho inconfundível do ronco do motor do crossover de Haig e saiu correndo em direção aos grandes portões de entrada do sítio. Jason havia saído cedo sem dizer nada para buscá-los no aeroporto, a intenção era fazer-lhe uma surpresa e antes mesmo que o carro parasse completamente, Aleh pulou e correu ao encontro da mãe que o abraçou entre lágrimas, sussurrando um “graças a Deus”.
Haig desceu do carro e caminhou em direção aos dois, parando a poucos passos de braços cruzados e um sorriso satisfeito nos lábios.
– Eu disse que voltaríamos sãos e salvos!
Ella olhou para seu amado por cima dos ombros do filho e foi afrouxando o abraço aos poucos até se afastar e começar a caminhar lentamente em direção a ele. Parando à sua frente, podia notar que Haig emagrecera um pouco, mas não havia perdido o porte atlético, seus cabelos estavam um pouco mais compridos e sua expressão continha um misto de alegria em vê-la e cansaço, o que a fez intuir que a busca não trouxera os resultados tão desejados.
– Desculpe – ele disse, revelando que não haviam encontrado nada significativo. Ella pulou em seu colo e ele a segurou, abraçando-a forte e sem conseguir conter algumas lágrimas que lhe escaparam silenciosamente.
– Você não tem que me pedir desculpas, eu sei o quanto você me ama. Eu também te amo e vou amar para sempre, até depois que eu não estiver mais aqui – então se beijaram demoradamente. Haig ainda a segurava no colo.
Doroty aproximou-se de Aleh.
– Vamos, querido, depois ela pode me dizer como sentiu minha falta também – eles riam e foram para a cozinha onde sabiam que iriam encontrar tia Marrie, Meridith e suas fabulosas guloseimas.
Haig e Ella mal dormiram à noite, havia muita saudade contida e um desejo enorme a ser saciado. Já era quase de manhã quando Ella adormeceu e Haig decidiu descer para cumprimentar a todos que não havia visto no dia anterior.
Depois do café da manhã e de Aleh contar a todos sobre suas aventuras junto ao pai em partes remotas da Rússia, Haig, Kuzma e George reuniram-se na sala da lareira e estavam falando sobre quais regiões ainda não haviam coberto quando Haig percebeu que Ella estava parada à porta.
– Amor, eu...
– Tudo bem – ela disse. – Se é tão importante assim para você não vou tentar impedir, não desta vez, mas tem uma condição.
– E qual seria? – perguntou o astuto George que obviamente já percebera os planos de Ella.
– Simples, eu vou junto!
– De jeito nenhum! – disse Haig levantando-se como se tivesse acabado de ouvir o maior absurdo. – Não posso deixar que corra os riscos que nós corremos! Além do mais, estaremos no território da agência, esqueceu? Mesmo com os riscos, nossa condição ainda nos proporciona alguma vantagem, coisa que você não teria!
– Não me importo! Se você e meu filho podem correr riscos, eu também posso! Seja lá como for, quero estar com vocês, eu não vou ficar aqui envelhecendo sozinha enquanto vocês procuram... – então ela parou a frase no meio, não queria que pensassem que ela não ficava comovida com o empenho de todos, mesmo achando que nada daquilo existia.
– Ella, você não entende...
Haig estava realmente muito cansado, não uma canseira física, mas um desânimo. Sentia, naquele momento, uma desesperança apossando-se dele. E se Ella tivesse razão? E se a tal bruxa não existisse? E se não existisse poção mágica alguma? E se a natureza realmente não pudesse ser driblada? George aproximou-se dele, que havia se deixado cair na poltrona.
– Ei, cara, vamos lá! Você não pode desanimar agora! Não o Haig que eu conheço! E, veja, se sua mulher quer ir junto, ótimo! Assim poderemos nos concentrar na busca sem que você precise ficar o tempo todo preocupado com ela. Acredito que estando mais concentrados, certamente encontraremos alguma coisa, alguma resposta definitiva, seja ela qual for!
Sem forças e nem vontade de lutar contra tantos argumentos, principalmente sabendo que Ella não voltaria atrás na sua decisão, Haig não teve alternativa senão concordar que sua mulher iria com eles.
Haig levou duas semanas para visitar as outras propriedades e colocar papéis em ordem. Deixou uma procuração para que Jason e Kuzma pudessem cuidar de tudo durante sua ausência que, dessa vez, seria mais prolongada.
Assim como da outra vez, Doroty também seguiria com eles.
Tudo arrumado, Ella demorou-se um pouco na sala da lareira, era como se tivesse que se despedir de todas aquelas pessoas nos retratos, afinal, compartilharam com ela, ainda que silenciosamente, dos seus últimos cinco meses de tristeza e solidão. Depois foi despedir-se do seu amado jardim, aquele que havia sido preparado para ela muito antes de sua chegada.
Quando estavam todos a bordo do cross over, Évenice veio correndo atrás do carro chamando por Ella, que pediu à Jason para parar descendo a fim de saber por que a moça corria atrás do carro. Évenice trazia algo nas mãos.
– Eu não sei bem por que, mas acho que você deve levar isto – disse estendendo um objeto embrulhado em uma toalha vermelha. Era o tal cajado que Haig havia trazido de uma das primeiras incursões que fizera à Rússia.
Fale com o autor