Enquanto Alexsander se preparava e a seu arsenal e equipe, na casa de Amaril...

- Eu sou o quê? – disse Ana incrédula andando de um lado a outro – Não, não, não.... espera aí! Es-pe-ra aí! Vocês estão me dizendo que eu... eu não sou humana?

- Você é humana! – afirmou George – Bem, quase... Sim, até completar 21 anos totalmente humana e... depois quando... se você vier a ser mãe, voltará a essa condição.

Ana levou as duas mãos à cabeça sem parar de caminhar de um lado a outro, não era possível. Aquele pesadelo, além de não ter fim, conseguia ficar cada vez pior. Sua mãe nunca lhe dissera nada a esse respeito, ela cresceu como uma garota comum, mas todo aquele zelo excessivo, o fato de que nunca a deixaram ir à escola ou sair para brincar no parque como as outras crianças, o fato de a mãe nunca levá-la à casa de alguma vizinha ou permitir que Ana participasse durante as visitas de vizinhos, só podiam ter relação com tudo isso, fazia algum sentido.

- Por que minha mãe nunca me disse nada? O que vai acontecer comigo de verdade? Eu vou querer... pular no pescoço de alguém, eu... vou querer sangue? Afinal, que tipo de “coisa” eu sou?

Haig, assim como os demais, era apenas um espectador daquela conversa, mas em seu interior ele temia que ela não suportasse a ideia de pertencer a uma espécie diferente e, pior, a ideia de que ela pudesse rejeitá-lo causava ansiedade e nervosismo. Podia sentir seu corpo todo formigando, suas têmporas latejavam. Ele não suportava mais esperar pelo desfecho daquilo tudo.

- É simples, — disse Haig irritado – desde que você não se envolva com nenhum vampiro e não queira ter filhos com ele, você viverá para sempre. – O que mais ele podia dizer? Via no rosto de Ana a expressão de medo e algo como “eu jamais chegaria perto de uma coisa assim” e isso o deixou realmente com raiva. – Mas também tem a opção de morrer como uma humana comum, basta que seus instintos maternos aflorem.

Percebendo o que acontecia com Haig, o experiente George tratou de esclarecer algo importante:

- Ana, você não tem a dimensão exata do que essas coisas significam ainda. Lembre-se, e lembrem-se to-dos – fazendo uma clara referência a Haig. – Você ainda não tem 21 anos, só vai saber do que eu estou falando com clareza quando passar pela fase de mutação, toda essa sua rejeição vai passar e sua maneira de nos enxergar também vai mudar, fique tranquila, tudo vai ficar mais fácil. Quanto a sua mãe, ela não disse nada porque queria proteger você de pessoas que, se soubessem da sua existência, certamente iriam querer persegui-la e matá-la.

Évenice se aproximou de Ana:

- Bom, acho que os mais experientes têm que pensar rapidamente em alguma coisa, pois estou sentindo que Alexsander está vindo para cá. Enquanto isso eu e Ana vamos até a cozinha – deu uma leve piscada e só Ana percebeu.

- Ana, eu... bem, há algum tempo atrás eu acharia tudo isso uma loucura, mas George está certo, a gente acaba mudando de ideia...

- Você? Não!

- Embora seja difícil acreditar nisso agora, as coisas melhoram um pouco, é como se atravessássemos um muro, do outro lado tudo parece muito natural, as coisas não nos impressionam tanto, passamos a nos sentir mais seguras e confiantes. É como se sempre tivéssemos vivido desse lado.

- O problema é exatamente esse, Évenice, não sei se quero passar para o outro lado do muro, a simples ideia já me assusta o suficiente – nisso Ana levou uma mão à cabeça e colocou a outra na região do estômago.

- Você está se sentindo bem? Ana? – ela apagou. – Haig! – chamou Évenice.

Chegando à cozinha, ele se deparou com Ana caída no chão enquanto Évenice apoiava sua cabeça.

- O que aconteceu? – perguntou Haig pegando-a no colo e indo em direção à sala para colocá-la no sofá.

- Eu acho que são os sintomas. Uma vez quando desci no porão, ela estava dormindo, fiquei lá por um tempo observando, ela suava muito e ardia em febre, delirava, mas eu podia sentir que havia começado.

- Que ótima hora! Para que tornar tudo mais fácil, não é?

- Me parece a garota certa para você, não acha Haig? – ironizou Kuzma.

- Pelo menos eu tenho uma! – a tensão era crescente entre todos.

- Tem mesmo, é? Engraçado, ela não parece concordar muito com isso! – então George decidiu intervir.

- Parem de brigar, crianças! Assim que ela acordar iremos todos embora!

- Direto pra Mora? – quis saber Carlos.

- Não, Angus já disse qual local mais seguro, ou pelo menos, menos óbvio no momento e para onde devemos ir até que a poeira baixe, é um antigo esconderijo da própria agência, depois pensamos no que fazer. Angus, Carlos e Affonso nos darão uma vantagem enquanto dão cobertura quanto à movimentação por aqui.

- Não vai dar para esperar que ela acorde, Alexsander está a caminho, vocês têm que sair agora! – afirmou Évenice causando agitação geral, mas foi sua mãe quem pareceu mais aflita.

- Como assim “vocês”? – questionou Amaril – Você também vai, minha filha, aqui não é mais um lugar seguro. Eu vou fazer o que puder para retardá-lo, ele certamente já sabe sobre você.

- Eu não vou deixar você aqui sozinha, nem pensar! Nós sabemos muito bem o que ele é capaz para arrancar-lhe informações!

- É exatamente por isso que eu quero que você vá! Se você não estiver aqui, não há nada que possa usar para me obrigar.

- Ele vai matá-la!

- Filha, meu amado Francis deu a vida por vocês, não foi por acaso que eu a encontrei na rua aquele dia e a trouxe para essa casa, acredito que de certa forma ele tenha nos colocado uma no caminho da outra, eu para protegê-la e você para que eu não ficasse sozinha. Cumprimos bem nosso papel, pelo menos o seu foi cumprido com perfeição! Talvez se eu tivesse tido um filho do meu próprio ventre, ele não teria sido tão perfeito quanto você foi! Agora me deixe cumprir o meu papel e fazer exatamente o que meu Francis espera que eu faça!

Évenice abraçou Amaril, as duas choravam, a jovem sabia que se não fosse por aquela mulher sabe Deus o que teria sido de sua vida.

- Como viverei sabendo que a deixei aqui para ser sacrificada por mim, como viverei sem você?

- Querida, eu já vivi o suficiente, já vi coisas que jamais pensei que existissem! Eu estou cansada, Évenice! Não tenho mais idade, saúde e nem quero mais fugir ou viver com medo, chega! Vou enfrentar esse desgraçado e se eu tiver a oportunidade, vou enfiar a ponta da minha bengala em seu coração!

Ana começava a despertar e Évenice ficava cada vez mais agitada, mas relutava em deixar Amaril.

- Temos que ir! – disse George com voz firme.

- Vou até o sótão, das janelas laterais é possível observar os dois lados de acesso da casa e vai dar para ver caso haja qualquer movimentação diferente, eu aviso por onde sair – disse Carlos.

- Ana! Ana! – chamava Haig ajoelhado ao lado do sofá onde ela estava – Precisamos sair daqui — disse com voz calma e terna. Ele estava tão perto quando ela abriu os olhos, ela ainda o via como Pedro, era difícil imaginar aquele homem por quem havia se apaixonado como um vampiro sanguessuga. Involuntariamente ele acariciou os cabelos dela enquanto os olhares prendiam-se um ao outro.

- Bom, sem querer cortar o “barato” de ninguém, mas esse acerto aí vai ter que esperar! – disse Kuzma que vigiava a janela da frente quando seu celular tocou. – É Carlos, disse para sairmos pelos fundos, onde deixamos os carros, ele não consegue ver Alexsander ainda, mas disse que já é capaz de sentir o mau cheiro.

- Você consegue andar? – Haig perguntou gentilmente a Ana que não teve o mesmo cuidado ao responder.

- Claro! Mas se não der é só esperar um pouco e quem sabe eu possa sair voando também! Ah é, eu não vou ser um morcego, mas de qualquer forma deve haver uma vassoura piaçava por aqui! Ao invés de “morcega”, bruxa! Não te parece ótimo? – levantou-se se desviando dele que permaneceu por alguns segundos no mesmo lugar, até quando ele teria paciência não sabia dizer.

Kuzma segurou o braço de Évenice com delicadeza indicando que ela deveria segui-los. Despedir-se de Amaril e da vida que levara até aquele momento não estava sendo nada fácil, mas ela sabia que era fugir ou morrer. Ainda que acreditasse valer a pena morrer por alguém que a havia salvado, sabia também que isso traria ainda mais sofrimento a Amaril.

Saíram pelos fundos e entraram no Crossover de Haig, foi então que seu celular tocou, era Carlos.

- Vocês tem que sair daqui agora! O malcheiroso está estacionando em frente à casa e não está sozinho, eu encontro vocês no casarão!

- Boa sorte e obrigado! – disse Haig dando partida no carro e saindo rapidamente.

Com Haig foram George, Kuzma, Évenice, Ana e Doroty e na casa ficaram Amaril, Angus, Carlos e também Affonso que se recusava terminantemente a deixar sua idolatrada patroa, morreria por ela se fosse preciso. Carlos e Angus contavam que por serem os mais antigos suas habilidades e experiência pudessem ajudar a, quem sabe, salvar Amaril além deles mesmos.

Notas finais
Espero que tenham gostado!