Notas iniciais
aqui vamos saber algumas coisas a mais sobre Ana e apresentá-los George, personagem que terá uma grande relevância posteriormente. Espero que gostem. Bjokas

Era uma tarde chuvosa em Gävle e Amaril não pôde sair com Ana como haviam combinado, a fim de mostrar-lhe a cidade. Uma tarde dessas em que só se pode pegar um bom livro, uma xícara de chá bem quentinha e deitar-se em uma cama confortável como a que Ana possuía em seu quarto de hóspedes, sem contar o fato de que ficava numa posição privilegiada no quarto que dava visão ampla ao terreno dos fundos na propriedade de Amaril, donde podia ver um lago um pouco mais a frente. O clima, ambiente e paisagens eram propícios a um cochilo no meio da tarde.

Como Ana amava a primavera! Com ela, costumava vir também a viagem de férias. Todos os anos, a família viajava em férias para um lugar mágico, lembrava-se do cheiro e lembrava-se da sensação de total segurança que tinha ao estar ali.

Ana ainda era bem pequena, mas conseguia se lembrar que sua mãe sempre dizia algo sobre paz e porto seguro. Lembrava-se que ali, sua mãe nunca a colocava na cama sempre que aparecia alguém e que ela nunca ficava tensa com a possibilidade de aparecer alguém.

Nunca entendera muito bem aquele comportamento, era como se vivesse com medo e Ana passou a ter medo também, como se alguma coisa ruim pudesse acontecer a qualquer momento, até deixou de resmungar ou contrariar a mãe quando recebia a ordem para recolher-se. Conforme os anos passavam e Ana crescia, as viagens a esse lugar mágico foram diminuindo e sua mãe sempre lhe pedia que nunca comentasse com ninguém sobre o lugar, ou sobre a viagem. Ela dizia que ali era o paraíso da família, só para a família e que segredos costumavam salvar vidas. Então Ana pensava em como poderia dizer alguma coisa a alguém, se nunca lhe era permitido ter contato com outras pessoas.

Quando completou sete anos, as viagens cessaram de vez, depois que precisaram mudar-se de cidade umas duas ou três vezes antes de se instalarem em Riga, e as imagens, antes nítidas em sua memória, foram ficando cada vez mais embaçadas até que não conseguisse lembrar mais do lugar e das pessoas com nitidez. Eram apenas vultos com seus rostos borrados e uma saudade que sentia no peito, que só aumentava conforme ficava mais velha, só não sabia de que exatamente.

A partir daí, sua mãe evitava sair de casa, principalmente com Ana. Seu pai, Theodoro, era um homem bem sucedido e, por sorte, as propriedades que vinha a possuir tinham sempre um terreno privilegiado em tamanho e beleza, proporcionando à sua família conforto e espaço suficiente, como que querendo compensar o fato de que a filha nunca podia deixar a residência.

- Mamãe, por que não podemos sair e passear pela cidade? Eu queria muito ir à escola, conhecer outras pessoas – disse a pequena choramingando, o que, claro, partiu o coração de sua mãe, principalmente porque esta sabia que não poderia fazer nada a esse respeito.

- Querida – disse a mãe, suave e amorosamente colocando a pequena em seu colo – Você ainda não pode compreender, mas é uma garotinha muito especial, rara e preciosa, e como tal deve ser tratada. Eu e seu pai fazemos o possível para protegê-la, há muitas pessoas ruins por aí e não queremos que nada de mal aconteça com a nossa garotinha.

Emanuelle costumava levar Ana para brincar, mas não sem antes dar algumas várias olhadas ao redor e tinha um empregado que nunca saía de perto delas quando iam para fora. Ana às vezes achava engraçado, outras vezes ficava incomodada.

Um fim de tarde, já tinha por volta de quatorze anos, Ana observava a rua da janela de seu quarto, no andar de cima, procurava por alguém que sabia que estava lá, lhe observando, mas não conseguia vê-lo.

De repente, ele materializou-se perto do portão de entrada, e olhava fixamente para ela, que sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo e afastou-se instintivamente da janela.

Inconformada por se sentir repreendida por ele decidiu confrontá-lo. Desceu as escadas, pé ante pé bem de mansinho, pois sabia que se sua mãe a ouvisse não a deixaria passar da porta. Segurou a maçaneta e a girou com muito cuidado, mas, ao abrir a porta, deu de cara com o sujeito parado como se já esperasse por aquilo.

- Como sabia que eu... ah! Deixa pra lá! Você nunca se cansa? Digo, de vigiar as pessoas? Me incomoda saber que existe alguém olhando para mim o tempo todo!

- Lamento que se sinta assim, senhorita!

- Lamenta, sei! Você tem nome ou posso chamá-lo de ... Sr. Misterioso bisbilhoteiro?

- George.

- De quê???

- De George! A senhorita precisa entrar, queira ter a bondade! Mesmo porque não tenho permissão para dar nenhuma informação a mocinhas curiosas e bisbilhoteiras!

Ana ficou indignada com a ousadia dele e mais furiosa ainda porque não teria para quem reclamar, visto que havia infligido as regras de nunca sair de dentro da casa sem o conhecimento e a permissão de seus pais.

George era um homem charmoso, sempre bem vestido, de terno preto, calças bem alinhadas e sapatos pretos sempre muito bem engraxados. Na verdade, sem que ela suspeitasse, ele fazia parte de todo um esquema que fora montado para sua proteção que já naquela época contava com a colaboração e o empenho de Haig.

Ele lembrava muito o agente secreto James Bond , Ana divertia-se com essa ideia e imaginava mil aventuras para ele.

Ironia do destino?