Ella
1 Capítulo 1 - Livros
As pessoas sempre fizeram de minha beleza um defeito, não para elas, mas para mim. Se sentem mau com si próprio, e acabam descontando naqueles que tem mais. Como se tudo isso fosse fazer melhorar — na verdade piora tudo, porque além de ser feio por fora, ainda é feio por dentro — alguma coisa, julgar os outros, fazê-los se sentirem mau não melhora ninguém e porque colocar a culpa em alguém bonito.
De acordo com os crentes foi deus que nos fez. Porque não culpa-lo? Ele só é responsável pelas coisas boas? Não importa, eu não acredito, minhas experiências me fizeram formular minha própria opinião, tenho 17 e já me considero mais madura com "meus pais".
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— Mãe por favor, compra um livro. Não è melhor você saber que estou acordada até às 5 da manhã, aqui em casa. Lendo um livro, do que lá fora fazendo algo irresponsável?
Ela para de cortar a salsa para olhar para mim, com aquele mesmo olhar de sempre "não me faça repetir". Mas estufo o peito, respiro fundo e seguro o olhar dela. Vou me agarrar a meu argumento é dessa vez vai. Não cheguei até aqui para desistir.
– "O mau de outro homem não o torna bom", já ouviu isso Ella? — reviro os olhos, o pior de ter uma mãe desatualizada é uma super atualizada. Grande parte do dia dela é vendo séries, e parece que agora é a vez de demolidor — tudo em excesso faz mau.
– Então tá. — virei de costas, sinto o olhar dela sobre mim, ela sabe que eu não desistiria tão fácil assim. Olho nos olhos dela e digo — boa noite.
Ela cerra os olhos e não desvia o olhar. Viro as costas e começo a subir a escada para ir logo pro meu quarto, ainda com o olhar dela sobre o meu.
Pego minhas coisas de banho e vou correndo para o chuveiro, antes que ela suba e tente me perguntar o que estou aprontando.
Não vou ceder tão fácil assim, nem pensar. Vou mostrar a ela que eu pedir um livro é algo para ela se orgulhar. Depois dessa noite terei quantos livros quiser.
Quando termino de tirar o sabonete corro para o guarda roupa. Ah sim, ela vai me dar livros.
Não sou de usar roupas vulgares, nem gosto, porém sacrifícios são necessários para um bem maior. Um vestido vermelho com um decote em V e as costas todas abertas. Maquiagem bem esfumada, meus olhos são castanhos, mas claros e com um pouco de verde na luz, sempre achei que sombras escuras realçavam ele.
Me olho no espelho e até que estou satisfeita com o resultado, nem precisei fazer muita coisa no meu cabelo, só soltá-lo.
Já são 1 da manhã, minha mãe já deve estar dormindo. Então saio do quarto, deixando a porta aberta de propósito. Quero que ela saiba que não estou aqui. Que ela não sabe onde estou.
Com os saltos na mão desço com cuidado a escada para não fazer nenhum barulho. Não quero que ela acorde, não agora.
Com o mesmo cuidado saio de casa, minha casa é grande e acho que eu poderia dizer que sou uma herdeira de um grande negócio, de acordo com minha mãe meu pai era dono de uma rede de postos de gasolina se supermercados. Ela não fala muito dele, mas eu tinha que ter uma explicação para todo esse dinheiro que temos. Minha mãe, como era casada com ele ficou com tudo.
Não me lembro muito dele, e esse é o meu maior fardo. Não ser capaz de lembrar do próprio pai, aquele que ajudou nos primeiros passos, trocar fralda, me dar a vida.
Só tenho uma foto dele, e sempre carrego comigo, para nunca me esquecer. Já bastar eu não lembrar de nossos momentos.
Ele tem olhos verdes e cabelos castanhos, um sorriso lindo. Que provavelmente já fez várias mulheres se derreterem. Parece irreal, irreal que ele seja tão lindo, irreal que ele não esteja aqui.
Mas esse é o agora, meu passado não vai mudar. Nunca.
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Como uma filha herdeira, tenho minha própria conta. E está é a boate mais comentada, a elite das boates. Só pode entrar com 18 anos, mas como aprendi. Dinheiro é poder e assim consigo meu passe livre para a área VIP.
Tem vários engravatados cercados por garotas que provavelmente são muito mais novas e os que não estão cercados estão no bar, bebendo. Mas sempre com uma tentando se aproximar.
Não vim aqui para conseguir uma noite com alguém, vim aqui para irritar minha mãe, não vou fazer nada estupido, só mostrá-la que tenho outras opções na lista.
A boate é um estilo meio moderno, luzes neon para decorar, paredes de couro — tipo daqueles sofás de luxo — várias mesas, bar e umas portas. Que não faço questão nenhuma de abrir. A única porta que posso ter a intenção eu já sei onde fica e está encima escrito em neon feminino.
Acho uma mesa livre daquela gente cheia de hormônios e ambições no canto da sala. Observo todo mundo mas ninguém me vê, não porque não podem, mas porque tem seus próprios interesses e estão ocupados demais para olhar para mim.
Trouxe meu celular e só pretendo ir embora quando minha lista de ligações perdidas estiver cheia.
Observo cada um e tento decifrar o que estão pensando — só para passar o tempo — analiso suas ações e seus tiques. Troca de olhares, desvios. É tão interessante que eles não saibam que eles mesmos se sabotam, mesmo sendo involuntário.
Estou tão perdida nos meus próprios pensamentos agora que nem percebo o olhar constante em mim. Já estou acostumada com isso, talvez seja por isso que não percebi. Mas ele, ele não está rodeado de mulheres, não está bebendo, não está fazendo nada comum nem incomum aqui. Apenas me observando. Será que eu pareço assim quando observo os outros? Uma louca?
Então quando o olhar começa a me incomodar, me levanto pego minhas coisas e vou ao banheiro. Não preciso de um tarado tentando me analisar. Viro de costas e vou andando calmamente para não alarmar nada, rumo ao banheiro.
Hoje só pode ser meu dia de sorte. Nem ao banheiro posso ir mais. Tem uma fila enorme, que antes não existia. Ótimo.
Viro novamente para voltar ao meu lugar de saída. Meu celular vibra. 2 da manhã, ela já percebeu? Mas como disse, quero que encha. Com isso em mente coloco meu celular de volta na bolsa.
Olho na direção de onde o garoto estava. Pelo menos uma boa notícia, ele não está mais lá.
A hora vai passando e continuo com meu jogo de analisar os outros, mas dessa vez tomo mais cuidado para não parecer uma psicopata.
Umas 25 chamadas perdidas, acho que já é o suficiente. Daqui a pouco amanhece.
Pego minhas coisas e vou em direção à saída.
Mas paro assim que o vejo, o garoto está ali, parado olhando para mim a uns 15 passos de distância. Ele é o que um perseguidor?
Ando em sua direção, mas agora os olhos dele se movem. Me olhando de cima a baixo.
Reviro os olhos, ridículo, só pode ser psicopata, e o que eu estou fazendo andando em direção a ele?
– Qual o seu problema? — digo com uma voz clara e firme, sem um pingo de fraqueza ou hesitação.
Ele me olha novamente, de cima a baixo. Faço o mesmo, já que é assim, mereço analisar quem me analisa.
Ele tem cabelo loiro, não pintado em salão, natural. Olhos de um azul profundo, que daria para se afogar caso continuasse olhando. Sua pele, bronzeada. Parece que ele passa grande parte do tempo na praia. Um surfista?
Mas então ele para, olha nos meus olhos. E fica assim por um tempo, até que eu me viro de costas e sinto sua mão no meu ombro.
– Não tenho problema nenhum — eu me viro novamente para ele e o olho— e você? Tem algum problema?
Sua voz é suave, doce. Quase seduzente para mim. Mas não me derreto tão fácil assim. E respondo.
– Tenho.
– E qual seria?
– Você. — digo já me virando de costas para ir embora, mas novamente ele me segura — pare, pare de ficar me encarando, olhando, perseguindo. Como você quiser chamar. E pare de colocar a mão em mim.
Faço um movimento com o ombro que logo me livro da mão dele.
Encaro ele. E logo sigo meu caminho rumo à casa. Que me espera com uma mãe muito, muito brava.
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