Eliza Failutti
10 Capítulo 10 - Adormeci
A neve caia lentamente lá fora, o frio congelava os comodos do meu enorme apartamento em Paris, mas o coração da casa ficava aquecido; deitei em meu sofá apenas com a minha roupa intima, por mais que estava frio, algo em mim já estava congelado a um tempo, então não sentia mais minha pele se arrepiar com o frio sutíl que fazia naquele fim de tarde. Passei o fim de tarde deitada no sofá olhando para o teto, pensando no que poderia me ocorrer se ficasse deitada o dia inteiro; eu não sentia vontade de fazer nada! [...] Absolutamente nada de interessante me fazeria levantar daquele sofá, então eu comecei a sentir a velha sensação ruim de antes, de abandono, de solidão. O vento uivava pelos comodos silenciosos do meu apartamento, me levantei do sofá, com o cabelo meio bagunçado e a alça do sutiã caida, fui até o banheiro, abri a torneira da pia e deixei a água livre; tão leve, tão sufocante, tão bonita; ela desceu e encostou em meus pés, olhei fixamente para a meia luz que entrava pela janelinha do banheiro, pude ver a poeira dançar suavemente naquela meia luz; caminhei até a banheira, me sentei e senti um arrepio na pele, devido a água gelada. Novamente admirando o teto, pensei em tudo que estava errado dentro de mim, pensei em tudo que entrou e saiu da minha vida, cada rosto, cada olhar, cada sorriso, eu pensei em cada um, e me lembrei com perfeição de cada um e percebi que o tempo foi cruel comigo, eu ja estava morta internamente. As estrelas lá fora estavam com o brilho apagado, a lua não brilhava tanto como nos outros dias e a luz que entrava pela janelinha do meu banheiro acabara de diminuir; emergi minha cabeça junto com meu corpo na banheira, segurei a respiração e fechei os olhos, um lugar lindo surgiu, tinha estrelas no céu alaranjado e rosado, poucas nuvens, muitas flores, crianças ao longe brincavam de ciranda, cantarolavam uma musica chata e familiar; me vi correndo entre as flores, com os pés descalços, um vestido branco e um batom vermelho nos lábios, era fim de tarde, e naquele momento eu me sentia viva. Abri os olhos ainda dentro d'agua, sorri docemente, fechei os olhos e respirei fundo. E naquele início de noite, eu, Eliza Failutti, adormeci para sempre.
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