Elisa
3 Elisa, a bela
Eu estava velho e cheio de remorsos e lembranças, a maioria já confusas. Todavia, uma imagem jamais escapava de minha memória.
Elisa.
Jovem e bela, dançando pelos salões de Vil'armys. Provocando desejo nos homens e cobiça nas mulheres... tão bela quanto nenhuma princesa jamais havia sido antes. Muitos homens a cortejaram, mas ela jamais cedeu mais do que um breve olhar a todos os bravos cavaleiros que vinham visitá-la, ou um sorriso, a todas as canções que lhe homenageavam.
Galanteio algum parecia merecedor de qualquer gesto de afeição, e toda a corte, sabendo que seu pai autorizara que ela escolhesse seu próprio marido, aguardava ansiosa aquele que a desposaria.
Muitas famílias, de todos os nove reinos, enviaram seus mais belos princípes e suas mais ricas comitivas, em busca de comprar a mão da jovem princesa, e depois que iam embora, frustradas, apelidaram a princesa de Coração de Gelo.
Um dia, encontrei-a nos jardins, chorando. Ofereci-lhe um lenço e perguntei o motivo que lhe fazia chorar, e após alguma relutância, ela contou-me. Ficava mais velha a cada ano, e temia que em breve, não mais atraísse quaisquer pretendentes.
– Ora, minha princesa! Isso não é algo que deva temer, pois nem mesmo o tempo seria capaz de obliviar a sua beleza.
– Belas são suas palavras, meu senhor, mas de nada minha beleza me serve se não me casar em breve.
Ela então contou-me que o pai sofria de grave doença e que sua morte parecia iminente. Se não encontrasse um marido logo, Vil'armys iria para seu desprezível tio, e com o reino, iria sua mão. Era por isso que chorava. Se não encontrasse rapidamente um marido, não duvidava que seu tio mataria o próprio irmão e a tomaria como sua esposa e rainha.
– É uma acusação séria, minha princesa.
– É a verdade! Desde quando posso me lembrar, meu tio parece comemorar cada morte na família, como se o caminho até o trono se tornasse, morte após morte, mais curto. E repetidas vezes o peguei observando a mim, como se eu fosse uma presa e ele, um grande abutre.
Não havia nada que eu pudesse fazer, é verdade. Eu era apenas um jovem artista, mais jovem do que artista, verdade seja dita. Tudo que pude dizer era que ajudaria minha doce princesa a procurar um marido que fosse amável e justo.
Mas, o desprezo com que tratara seus anteriores pretendentes fizera sua fama. Nenhuma família nobre, da sua corte ou de outras, parecia se interessar em enviar seus jovens para Vil'armys. Quando o nobre rei Edward chamou-me em seus aposentos, descobri que a princesa não havia exagerado seu estado.
– Você é um bom homem, Giuseppe. E a corte é um ninho de víboras, prontas para atacar minha Elisa — a voz dele era rouca, e sua fala, entrecortada de tossidos e gemidos — Prometa-me uma última coisa, para que um pai possa descansar em paz. Prometa-me que irá proteger minha filha, minha menina.
Eu não podia negar. Edward fora um rei justo, e se não era amado, era respeitado por nobres e plebeus. Eu sabia que o fim de seu reinado traria caos, especialmente porque Elisa fora a única de seus filhos que sobrevivera ao nascimento.
Mais tarde, naquele mesmo dia, ela me procurou.
Entrou em meus aposentos esbaforida e corada, como quem fugia de cães de caça. E depois de trancar bem as portas, contou-me que seu pai havia acabado de morrer, deixando-a, na lei, sob os cuidados do tio até que encontrasse um marido.
– Case-se comigo, Giuseppe.
– Não posso, Eli... princesa. Não sou nobre de nascimento nem tenho títulos, nem posso lhe prover uma vida boa como a que você tem.
Ela chorava. Grossas e pesadas lágrimas escorriam pelas suas faces, e ela abraçou-me, sussurrando que eu prometera que iria protegê-la. Não tive argumentos nem palavras que dizer. Casamo-nos no dia seguinte, no bosque, na companhia do bispo, de sua mãe e dos pássaros matinais.
Elisa foi salva do tio, mas não de uma morte trágica. Morreu alguns anos depois, porque falhei em protegê-la do próprio tio. Peter a prendeu em seus aposentos, e horas depois, quando me dei conta de sua ausência no almoço, encontrei-a trancada. Quando os guardas conseguiram abrir as portas, os dois estavam sobre o para-peito da janela. Ele a segurava pelo pescoço e gritava que, se não pudera possui-la, nenhum outro homem o faria.
Quando me aproximei e fiz minha presença ser notada, ele não permitiu que eu dissesse nada, e a empurrou, deixando-se cair logo após.
O velho homem mexeu as brasas do que fora uma grande fogueira, ainda no começo da noite. Tinha os olhos brancos como a fumaça que elas exalavam, e a pele enrugada e curtida de sol e chuva tal como o couro que vestia. Sua voz, grave, parou por um instante de sussurrar e ele se manteve em silêncio tempo suficiente para que nós pedíssemos que continuasse a história.
Até eu, que começara a ouvi-la incrédula, já cedia e endossava os pedidos. Ao ouvir a minha voz ele sorriu, já sem dentes.
– Seu sorriso me lembra muito o da minha Elisa...
Meus amigos passaram alguns minutos, dizendo que, com certeza, eu era tão emotiva quanto aquela estátua. A comparação fez o velho sorrir, e eu mesma acabei sorrindo. Mas então ele voltou a se silenciar e continuou a história.
Aquela imagem, da mais bela mulher que já existira, foi a última coisa que ele vira. Ele disse que o pesar o cegara, mas que suas mãos ainda lembravam-se com clareza da beleza de sua esposa, e assim ele a escupira, para dar-lhe as asas que ela não tivera antes, para escapar de seu tio.
Aquela história perseguiu-me por anos, até que encontrei-me sentada naquele mesmo jardim, numa noite de luar, a contá-la para meus filhos, na esperança que eles também fizessem o mesmo com seus filhos, e estes com os seus, e assim por diante, para que a magia, que em minha juventude havia me conquistado, não se perdessem tal qual a beleza da jovem princesa se perdera.
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