Eletronic
3 2-O Garoto do Tâmisa ataca novamente
Notas iniciais
A semana seguiu sem grandes importâncias. Consegui finalmente completar uma quest solo de BW que havia pegado com uma NPC de Yllu. Os filhos dela haviam desaparecido nos arredores do rio Nehir quando saíram para brincar, e eu tive que sair para procurá-los. Acabou que eles haviam sido capturados por um grupo de Sereianos e eu tive que conseguir uma armadura aquática para resgatá-los. E perdi 130 coins no processo. Em compensação ganhei 150 coins e 40 de MP, que usei para upar minha resistência e percepção. O garoto do Tâmisa não voltou a aparecer, e eu acabei chegando à conclusão de que fora apenas um fruto da minha imaginação.
Isto é, até aquele dia.
Era sábado, e eu acabara de voltar do restaurante em que minha mãe trabalha, onde costumo me encontrar com Jacob (meu segundo melhor amigo). Encontrei July no cinema, como havíamos combinado no dia anterior. Era comum fazermos isso: marcar de se encontrar no sábado à tarde para ir ao cinema, e assistir qualquer coisa que estivesse passando. Quase sempre o filme era infantil ou não era interessante, então acabávamos conversando mais do que prestando atenção. Nesse dia não foi diferente. Chegamos no cinema por volta das 14:20h, e compramos ingressos para Alvin e os Esquilos, que era o que estava passando na hora. O filme não foi tão ruim, na verdade. O problema era o casal atrás de nós. Entramos um pouco atrasadas na sala, e só havia lugares no fundo. E tinha um casal de uns 18 anos logo atrás da gente. Agora imagine tentar assistir um filme relativamente desinteressante com duas pessoas se engolindo ruidosamente no assento do fundo. É nojento. MUITO. Quando o filme acabou eu estava tão irritada com eles que quando saí da sala estava quase indo lá avisar que lugar de se pegar é em casa. Ou em um motel, tanto faz, contanto que seja LONGE DAS OUTRAS PESSOAS.
Mas não fiz isso, claro, então apenas fui embora xingando-os em voz baixa. Foi então que o vi, parado, de costas para nós do outro lado da Haymarket Street.
O garoto do Tâmisa.
Reconheci-o na mesma hora: os cabelos bagunçados cor de areia; o jeito despreocupado; a pele clara como a neve...
— July! É ele! O garoto que vi no Yoshi na segunda! — Felei, talvez um pouco alto demais, pois algumas pessoas olharam curiosas. Peguei July pela mão e fui abrindo caminho até o menino. Então ele se virou para nós, como se esperasse nos ver ali, tentando alcançá-lo, e pude ver seus olhos pela primeira vez. Olhos negros e profundos, que davam a impressão de poderem enxergar dentro de você, como se soubessem de tudo, e pareciam olhar diretamente para mim. Um calafrio percorreu-me a espinha e parei abruptamente, fazendo July se bater com uma mulher que passava. Só então percebi que ela vinha estado tentando falar comigo.
— Meg! Do que você está falando?! Não tinha ninguém no Yoshi naquele dia! Você quase me matou me arrastando por ai! Da próxima vez que for me jogar em cima de alguém avise! Afinal, o que tem esse tal desse Garoto do Tâmisa?
A menina parecia estar confusa com o fato de eu ter saído puxando-a na rua. Um sedoso cacho negro havia caído rebeldemente no seu rosto, e ela tentava inutilmente mantê-lo atrás da orelha, enquanto seus olhos castanhos de cílios longos me fitavam, a sobrancelhas levemente curvadas fazendo-os perecer um pouco menores. Abri a boca para tentar explicar rapidamente, mas então lembrei como ele desaparecera da outra vez. No mesmo instante voltei o rosto para o outro lado, e lá estava ele, andando apressadamente em direção à Cockspur Street. Rangi os dentes. "Não dessa vez espertinho" pensei enquanto voltava a arrastar uma July realmente confusa e um pouco irritada.
O garoto olhou para trás, e pareceu não nos perceber. Então pôs o capuz, e virou abruptamente na Suffolk Pl. Comecei a correr. Ele diminuíra a velocidade, e pude vê-lo desaparecer lentamente na rua à esquerda. July havia desistido de entender e me xingava enquanto corria me acompanhando. Quando finalmente paramos de frente para onde o vira pela última vez, a rua estava deserta. Apertei os punhos, irritada. Ele fizera de novo. Desaparecera sem deixar pistas, me fazendo questionar se estava ficando louca ou se ele era na verdade um bruxo com a capa da invisibilidade.
Sim, gosto de Harry Potter. Agora me deixe continuar a história.
Xinguei-o em um sussurro, enquanto July arfava pouco atrás. "Sua vaca" ela resmungou e chutou minha canela ao se aproximar. Mostrei-lhe o dedo do meio ainda procurando o garoto. Para o caso de você não ter amigos assim, vou explicar como funciona: melhores amigos não se ofendem quando você os xinga; eles te xingam com algo pior. Assim somos eu e July.
Ela me fitava com uma sobrancelha erguida esperando uma explicação. Suspirei e me virei para ela começando a contar sobre ter visto um garoto estranho no Tâmisa na segunda-feira, e que ele parecia estar me observando, quando um movimento atrás da minha amiga me distraiu. Como pode perceber, o mundo adora me interromper.
Derrepente senti uma pancada forte na cabeça com um baque surdo. As coisas ficaram confusas, e lembro-me de ver July gritar e um vulto bater com algo longo parecido com um taco de basebol em sua cabeça. Percebi que estava caindo, minha visão cada vez mais desfocada, a pancada na cabeça latejando, e quando me dei conta do que acontecera minha visão escureceu e eu desmaiei.
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Quando abri os olhos a primeira coisa que pensei foi "por que diabos esse colchão é tão duro?". Estava deitada em uma cama um tanto dura, com um fino cobertor aos meus pés.
Lentamente as memórias foram voltando, e as perguntas começaram a pipocar na minha cabeça. Onde eu estava? Por que aquelas pessoas nos atacaram? Onde estava July? Se havíamos sido raptadas, por que estava deitada quase confortavelmente em uma cama? Uma resposta perturbadora passou por minha cabeça, se tornando terrivelmente possível depois de eu constatar que não vestia mais jeans e blusa de manga comprida, mas um vestidinho leve marrom claro. Sentei-me afastando o pensamento, e percebendo que o ambiente era estranhamente claro e quente, o que definitivamente não é o que se espera do outono londrino. Pisquei, tentando organizar as ideias, e só então notei as vozes vindas do lado de fora do quarto onde me encontrava. As paredes do quarto eram beges e estavam sujas e manchadas, e o chão era de madeira. O teto era simples e as telhas alaranjadas deixavam entrar a luz do sol. Além da cama onde estava deitada as únicas coisas no quarto eram nove camas iguais à minha.
Relutantemente levantei-me, e no mesmo instante minha visão se turvou. Me apoiei na parede e fiquei parada encarando a parede por alguns segundo esperando a tontura passar. Pisquei algumas vezes e então comecei a andar em passos curtos e lentos em direção à saída. As vozes foram ficando mais altas e uma sensação de alívio me fez apressar o passo quando reconheci a voz de July.
— ...não faz sentido! BW... Como... É um jogo! Eu... Eu não... — dizia ela. A luz do dia me ofuscou quando passei pela porta, mas pude ver um grupo de umas dez pessoas paradas pouco à frente. Fez-se silêncio e deduzi que elas tinham percebido minha presença.
— Meg! Você acordou! — July me abraçou enquanto eu tentava me acostumar à luz. Ela se afastou e notei que ela vestia uma calça legging cinza, uma blusa bege clara e folgada um pouco grande e com mangas pouco acima dos cotovelos. Seu cabelo estava preso em uma tiara de pano preta e ela calçava seus tênis azuis. Pouco atrás dela as pessoas nos observavam: garotos e garotas mais ou menos na nossa idade, os mais novos com dez e onze, os mais velhos com dezessete ou dezoito.
Um menino de cerca de 17 anos se aproximou de nós. Era um pouco alto, cabelos loiro-escuros e muito lisos, olhos azuis claros e algumas sardas no nariz pequeno e pontudo. Vestia uma calça cinza escura e uma camisa verde também escura, além das botas de couro e do cinto com uma... Aquilo era uma espada?
— Meggan Rotherfield, não é? Que bom que acordou. Estava explicando à sua amiga como vocês chegaram aqui em Ryshin...
— Espere um pouco — interrompi — Ryshin não existe. É uma vila de BW.
O garoto sorriu de modo estranho, como se estivesse acostumado com esse tipo de comentário.
— Bom, já que você começou vou ser bem direto: srta. Rotherfield, bem vinda à Ryshin, e ao mundo de Blood Warriors.
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