Minha noite para sábado correu como a maioria de todas as minhas noites dos últimos quatro anos, eu sentada vendo mil séries, analisando mil noticias com aqueles vários heróis e em sua maioria os que eu já sabia a identidade. Eu via o Batman como retratos falados uma vez que pouquíssimas imagens dele realmente existiam, via várias fotos do Superman que voava salvando o mundo, via Flash ou o rastro dele quando tentavam algo, tantos heróis, tantas identidades e eu tinha todas. Acendi a luz do quarto e observei os pôsteres dos heróis. Cada um deles ali na minha parede e seus nomes reais anotados ao lado. Meu pai odeia isso, diz que eu não estou mais na fase de ter pôsteres dos heróis na parede, que eu tenho de começar a focar na faculdade, mesmo que eu vá uma vez na semana assistir aulas com o renomado Raymond Palmer e pegar dicas sobre o curso que pretendo seguir que meu pai também insiste que é perda de tempo, que a física não dá dinheiro para ninguém e não torna ninguém popular, suspeito que meu pai nunca ouviu falar do Einstein ou até mesmo de Raymond Palmer.

Minha cabeça voltara a doer, realmente muito tempo depois, o remédio era melhor do que os anteriores que a Doutora me dera. Na minha gaveta busquei por qualquer remédio contra a dor e tudo que encontrei foram as caixinhas todas vazias, nenhum comprimido ou mesmo um de gotas.

– Droga!

Desliguei a televisão, peguei meu casaco, vesti por cima do pijama, adoro pijamas que nos permitem andar pelo mundo sem que as pessoas percebam que estamos usando nossas roupas de dormir. Peguei meu celular, peguei dinheiro. Era cedo ainda e perto de casa tinha uma farmácia 24 horas e era para lá que eu ia correr. Desci a escada, a luz da sala acendeu me fazendo dar um pulo de susto.

– Aonde você vai? – era a esposa do meu pai, ela tinha engordado bastante com a nova gravidez.

– Comprar remédio.

– Você só pode estar viciada nessas coisas – minha cabeça latejava – Não para de tomá-los, seu pai tem de fazer alguma coisa sobre isso, você tem que passar com um psiquiatra e...

– Já passo com uma e é ela quem me receita os remédios, com sua licença eu vou lá...

– Essa hora sozinha? – se ela não se calar eu vou dar um murro em alguma coisa, eu juro que vou. – É perigoso.

– Não devia estar dormindo? – a cortei – Faz mal para o bebê você ficar acordada até tão tarde – ela cerrou os olhos – É sério, se quiser depois posso até te mostrar os dados comprovados cientificamente. – ela relaxou o rosto e ficou me observando.

– Sério? – confirmei – Então é melhor eu ir dormir – isso, vá dormir e me deixe em paz – Boa-noite, docinho. – sorri forçadamente, esperei a porta do quarto fechar e corri para a rua.

Não me leve a mal, eu não sou má com a minha madrasta é só que eu não agüento algumas de suas reclamações, não suporto ouvi-la dizer que eu sou problemática, que eu não ligo para nada e que meu pai deveria pagar mil médicos para descobrir o que há de errado comigo.

Antes do acidente eu e ela nos dávamos muito bem, ela jogava até vídeo-game comigo e me indicava séries e até quadrinhos para ler, tanto que toda a minha coleção de quadrinhos foi construída com os presentes dela. Mas por alguma razão depois do acidente meu mundo virou de cabeça para baixo, imagino que para ela também não deve ter sido fácil cuidar de mim no período que fiquei apenas no quarto trancada mergulhada na mais profunda depressão e deve ter sido ainda mais difícil quando tive alguns problemas na escola, mas se ela pelo menos me deixasse em paz, até me ignorasse eu não ligaria. Minha cabeça não agüenta muitas perguntas e ainda mais com vozes irritantes e no caso a dela sempre foi, só que agora é como se pudesse me fazer explodir.

– É perigoso sair essa hora sozinha – olhei para quem falava, era um homem bem mais velho do que eu, cheirava a bebida.

Acelerei o passo e entrei na farmácia, os atendentes da noite até me conheciam.

– O antigo não funcionava mais? – o atendente falou calmo e sorridente, neguei com a cabeça – Espero que esse te ajude.

– Eu também.

Assim que eu terminei de falar uma explosão chamou a atenção de todos nós. Pude ver o bêbado correr quando um corpo parou aos seus pés. Todos na farmácia se entreolharam assustados, eu paguei meu remédio e fui ver o que acontecia. Um corpo desacordado e mascarado estava ali caído. A roupa verde e amarela me era familiar, mas eu não conseguia me recordar de onde.

– Ei – balancei o corpo – Ei, cara, você ta legal?

Abaixei ao lado do corpo, retirei a máscara e tive de segurar um grito.

– Merda, Dave!

Olhei a máscara na minha mão, ela me lembrava algo, algo importante, olhei Dave e novamente a máscara. Sons e barulhos estranhos se aproximavam, passei um braço de Dave pelo meu pescoço, meu outro braço eu o abracei e com a mão livre tentei discar para Mindy, mas estava muito complicado.

“Mindy falando só deixar o recado que eu penso se irei retornar”

Tentei novamente. E novamente e novamente e novamente e...

– Irrá! – olhei para trás assustada.

Uma fantasia vermelha e preta saltava de uma janela e caia sobre a enorme máquina que agora entendi ser o que seguia o Dave. Tiros e espadas. Que droga é aquela? Na verdade, não estou nem um pouco a fim de descobrir, comecei a correr desengonçada, abri o portão de casa, bati a porta de entrada e com mais dificuldade ainda tentei chegar até meu quarto, tranquei minha porta depois de jogar Dave na minha cama.

Seu uniforme verde estava rasgado e ele parecia estar bem ferido. Olhei meu celular e nenhum retorno da Mindy.

– No que você se meteu, seu grande idiota? – falei mais para mim do que para ele.

Lembrei de onde eu conhecia aquele uniforme além da péssima lembrança que tentou invadir minha mente e eu bloqueei com todas as minhas forças. No alto do meu armário peguei minha caixa de pôsteres e lá encontrei um especifico com o nome de Dave.

– Kick-Ass. – falei e o olhei – Uniforme ridículo.

Deixei a caixa e fui ver os ferimentos no corpo dele, pareciam sérios. No banheiro busquei pelo kit de primeiros-socorros, abri e comecei a limpar por cima do uniforme dele, fiz alguns pontos falsos, mas com toda a certeza ele teria de ir para um hospital assim que acordasse.

Liguei a TV e voltei a assistir minhas séries.

– O café esta pronto – meu pai falou na porta do meu quarto.

– Certo – eu espreguicei, tinha conseguido dar um cochilo de... – dez minutos, ta ótimo.

Olhei na minha cama, Dave ainda estava na mesma posição em que eu o tinha largado e agora eu via que meu lençol estava imundo, droga, eu devia tê-lo largado no chão. Lembrei de umas roupas mais largas que eu tinha no meu armário, deixei sobre a cadeira do computador ao lado do corpo dele para o caso de ele acordar. Fechei a porta do quarto e me joguei na minha cadeira.

– Que barulho foi aquele de madrugada? – olhei o irmão caçula da minha madrasta que vivia com a gente.

– Provavelmente fui eu. – falei espreguiçando e logo me servindo café – Desculpa se acordei vocês.

– Parecia estar fugindo de algo – eu o olhei – Aconteceu alguma coisa?

– Não, eu só não agüentava minha cabeça doendo e... – e eu percebi que acabei comprando, mas não tomando o remédio – e queria tomar logo a droga do remédio.

Ficamos em silêncio até eu ouvir o barulho de uma porta se fechando, olhei o pessoal na mesa, estávamos todos ali, meu pai, minha madrasta, seu irmão, meu meio irmão e a enorme barriga que carregava meus próximos meio irmãos gêmeos.

– Onde eu estou? – todos se viraram para trás e depois todos me olharam, como podia ser tão óbvio que aquilo era coisa minha?

– Dave! – chamei, ele me olhou sonolento.

– Ag? O que eu estou fazendo na sua casa? – observei que a roupa que eu tinha emprestado estava meio curta e ele a estava sujando ainda mais com sangue.

– Eu te ajudo a subir. – falei prendendo o pão com a minha boca e indo até ele, todos nos assistiam em silêncio, eu estava no meio da escada quando ouvi o meu irmãozinho perguntar para a mãe se Dave era meu namorado e ela disse que iam descobrir logo logo.

O sentei na cama e o xinguei por ter deixado o uniforme jogado no chão de qualquer jeito, ele ria enquanto eu brigava com o pão ainda na boca, sua barriga roncou, joguei para ele o que sobrava do pão, ele comeu sem hesitar. E observava meu quarto enquanto mastigava, os machucados pareciam nem doer.

Meu celular tocou.

– Por que raios não me atendeu ontem? – gritei ao telefone para Mindy.

– Eu estava... ocupada... – ela falou.

– Hit-Girl – ela soltou uma exclamação e Dave me olhou e para o seu uniforme e só então pareceu ligar os fatos – Olha... – eu me sentei no chão ao pé da cama e apoiei a cabeça – Desculpa ter gritado, eu devia ter imaginado que se ele tava em ação você também estaria – eu suspirei.

– Ag, ta tudo bem? – ela perguntou preocupada, Dave se aproximou de mim e me observava enquanto eu ainda tinha minha mente dando mil voltas.

– Mindy, o Dave ta aqui... – estiquei o celular para ele e fui até a janela, abri minha persiana e observei a rua com seus carros, pedestres e cachorros perambulando, droga, estou me sentindo tonta.

A conversa dos dois eu não entendia mais, minha mente parecia ter se desligado, meu corpo parecia absurdamente pesado e cansado, minha mente sumiu...

– Como se sente? – olhei a Doutora, o sorriso alegre e o cabelinho loiro inconfundíveis.

– Bem, eu só acho que lembrei de algo – ela sorriu animadíssima – Se importa de conversarmos em outro lugar, tipo o seu consultório?

– Algum problema?

– As paredes têm ouvidos – ela riu – Quem te chamou?

– Eu a chamei assim que o garoto saiu gritando que você tinha desmaiado do nada – meu pai falou preocupado.

– Dave! – meu pai confirmou – Como ele está?

– Disse algo sobre ir ao hospital e depois se encontrar com a Mindy – minha madrasta falou com um tom que eu não conhecia – Você tem que segurar melhor os homens, Agnes.

– Ele não é... Droga! – levei a mão até a cabeça, Quinzel me esticou a mão com um comprimido que engoli sem a ajuda de água – Obrigada.

– Tem certeza de que quer conversar agora? – ela perguntou parecendo pela primeira vez preocupada, confirmei.

Entrei no carro da Doutora, ela dirigia como uma louca e parou apenas quando chegamos ao seu escritório, destrancou a porta e entramos, eu fui direto ao divã. Ela se sentou em sua poltrona, mas colocou as pernas sobre os apoio de braço e ficou quase deitada.

– Então do que se lembrou? – ela perguntou curiosa, eu a olhei.

– Alguém que estava lá também – ela me olhou ainda mais curiosa, pensei bem no que dizer, eu não ia revelar assim abertamente que Dave é o Kick-Ass ou que Mindy é a Hit-Girl, os dois mantiveram isso em segredo e eu acabei descobrindo, não tenho como contar isso a ninguém nem mesmo a minha psiquiatra – Era um uniforme verde e amarelo, lembro de ser um uniforme bem justo e também tinha uma máscara.

– Foi ele quem matou sua mãe? – ela perguntou abruptamente, até me encolhi no divã.

– Não, claro que não – o Dave matar alguém? Eu até tive de conter um riso – Mas ele estava lá no instante posterior ao tiro e as mortes, foi como um agente chegando atrasado para prender o bandido – soltei o ar lentamente.

– Entendo... – ela estava desapontada – E você quis vir até aqui para me contar apenas isso, apenas que mais alguém estava lá e esse alguém não era o assassino? – eu a olhei sem entender aquele tom, ela suspirou e se levantou – Isso já foi mais divertido. – ela riu de um jeito que me fez ficar confusa, não sabia se ria para mim ou para si mesma – Vai precisar de carona de volta?

– Não, eu posso voltar sozinha – ela abriu a porta para que eu pudesse sair.

Agradeci de estar com meus remédios para dor de cabeça, tomei mais um e esperei no ponto de ônibus.