Mais uma tarde tediosa em que eu teria de me separar da Mindy para passar com minha louca e animada psiquiatra. Não reclamo dela, eu até consigo gostar da Dr. Harleen, mas eu adoraria uma tarde de sexta que eu pudesse sair e não ter de conversar sobre coisas que me deixavam cansada e sem animo de comer qualquer coisa, o que para mim é muito significativo já que não paro de comer.

— Não agüento esperar pelo dia que você vai poder sair com a gente – Mindy falou sorrindo.

— Nossa! – ela me olhou curiosa – O Dave está fazendo mesmo um ótimo serviço com você, não é? – eu mandei uma piscadela que fez Mindy revirar os olhos e me xingar com muito gosto como ela sempre fazia quando eu insinuava algo entre os dois.

— Espero que hoje você possa sair – ela falou acenando.

— Nos encontramos amanha – ela me deu as costas enquanto eu entrava no pequeno escritório da doutora.

A secretária conversava no telefone sem parar como tinha o costume de fazer, me joguei em uma das cadeiras da espera depois de assinar na frente do meu nome, já era o quarto ano seguido que eu fazia isso já se tornara tão automático que tinha dia que eu tinha duvida de realmente ter assinado. A Doutora abriu a porta, me olhou e sorriu radiante, seus olhos brilhavam com algum brilho especial que eu não conhecia. Ela era muito bonita, mas hoje sua beleza ia além do normal.

Esticou o braço indicando o divã, eu gostava de ficar deitada ali apesar de ter dia que eu queria socar a cara da Doutora, mas eu nunca cheguei a fazer isso.

Quatro anos e há quatro anos não consigo contar os detalhes do que eu vi, não consigo enumerar as pessoas que estavam comigo e sequer consigo descrever o rosto que sempre dá um jeito de se enfiar em meus pesadelos. Inspirei profundamente quando Quinzel indicou o ínício da sessão. Ouvi dizer que ela era psiquiatra de um hospício, eu não consigo imaginar como alguém coma delicadeza dela conseguiria tratar loucos de todos os tipos, como eu também não conseguia imaginar a Mindy socando pessoas até que eu a vi quase matar um cara que tentou assaltá-la. Me prometi nunca mais duvidar das pessoas só pelas suas aparências.

Foram quase três horas de apenas a Doutora perguntando e eu em silêncio e olhos fechados, foram apenas três horas, tempo suficiente para eu querer agarrar minha cabeça e espremê-la entre as mãos além de ter certeza de ter calado a Doutora, eu entendo que seja o trabalho dela, entendo que ela tenha de me fazer superar os fatos, mas por que raios ela tem de me forçar tanto, por que raios tem de me pressionar tanto. Enquanto eu não me forço a lembrar nada ruim acontece, eu não fico mal nem nada, apenas quando me lembro e isso ocorre em dois momentos, quando consigo dormir e quando a Doutora me enche de perguntas, apenas nesses dois breves instantes da minha vida. Já contei isso ao meu pai, mas quem disse que ele escuta alguma coisa do que eu digo, ele diz que eu tenho de continuar com a Doutora até ela me dar alta, o que pode acontecer bem rápido ou eu ter de passar o resto da vida agüentando essa tortura (e voto na segunda opção).

— Toma – ela me esticou um comprimido – Vai te ajudar com a dor de cabeça.

— Espero que seja melhor do que os outros – ela confirmou – Pelo menos o gosto é bom – ela sorriu – Obrigada.

— Por nada.

Abriu a porta. Saí do consultório e encarei um menino, era a primeira vez que eu via outra pessoa ali, eu costumava ser a última que ela atendia na semana o que sempre resultou na sala de espera bem vazia, mas não dessa vez.

— Hawkins – a Doutora chamou.

O menino de roupas largas se levantou, sequer me olhou enquanto eu o encarava profundamente, entrou e fechou a porta atrás de si. A secretária ainda estava ao telefone, apenas acenei para ela que acenou de volta. Joguei a mochila nas costas e mais um dia de terapia que me impedia conseguir fazer qualquer outra coisa tinha acabado.

Notas finais
Espero que gostem ^3^