Notas iniciais
Esse capítulo e o próximo vão fechar a apresentação sobre o que se trata esse livro. Espero que gostem!

Celeste

Amparada pelo advogado, Celeste adentrou na sala de inquirição. As paredes eram de concreto bruto, tingidas por um cinza industrial semelhante ao do restante da delegacia, e não haviam janelas. O teto baixo despejava uma luz fluorescente fria e emitia um zumbido persistente vindo de um tubo de refrigeração. No centro, a mesa de metal chumbada ao chão continha dois bancos compridos e metálicos de cada lado. Oposta à Celeste e ao Sr. Torres, estava sentada uma mulher.

Assim como Calebe, ela não aparentava ter mais de vinte e cinco anos e utilizava um colete bege, além de um distintivo marrom pendurado em um cordão em seu pescoço. Seus cabelos lisos e castanhos estavam amarrados em um rabo de cavalo apertado, de modo que seu rosto fino ficava bastante à mostra. Seus olhos lineares fizeram Celeste se lembrar de Miru.

— Por favor, sentem — a mulher sugeriu. — Sou Mariana Suzuki, capitã da Equipe de Themis e atual delegada da Delegacia Municipal. — Tanto o Sr. Torres quanto a jovem Aubert acataram o pedido e se acomodaram.

— Delegada… — iniciou o advogado. — Quero reforçar que minha cliente passou por um trauma inexplicável há poucas horas, e portanto, qualquer tipo de reação mais exaltada é merecida de vista grossa.

— Imagino que você não vai precisar atirar moedas de metal, como seu irmão, srta. Aubert — afirmou Mariana. Celeste engoliu a seco. Então Hugo havia atacado o investigador com uma de suas moedas. O garoto devia estar vulnerável e o advogado provavelmente tentou amenizar a situação. Ainda assim, Calebe havia se irritado a ponto de expulsar o Aubert do lugar. Já causamos uma ótima impressão, lamentou-se a garota.

— Sobre… sobre o que se trata tudo isso? — perguntou Celeste trêmula.

Mariana se inclinou para trás, endireitando a coluna, e com um olhar fixo na jovem disse:

— Muitas coisas aconteceram no seu dia hoje, certo? Eu gostaria de tentar entender o que está acontecendo na sua família. Entre você e os seus irmãos. Hoje seria um dia bastante especial para vocês.

— Nossa formatura — suspirou Celeste, tentando conter as lágrimas.

— Exatamente. Fiquei sabendo do projeto de vocês. Uma ideia adorável. — O elogio de Mariana parecia genuíno. — Antes do acontecimento, vocês ficaram o tempo inteiro juntos?

— Bem, desde o momento em que acordamos até o início da Cerimônia, estávamos todos ocupados em garantir que estava tudo em ordem com O Gato. Houve um momento que Sara se afastou de nós, porque… não estava se sentindo bem.

— Mas ela estava cercada de aprendizes, certo, Celeste? — acrescentou o Sr. Torres.

— Sim — confirmou a Aubert. — Tenho certeza que não foi mais de meia hora. Eu fui encontrá-la logo depois e voltamos para o Laboratório.

— O que sua irmã estava sentindo? — indagou Mariana.

— Olha… acho que estava ansiosa com a apresentação, talvez enjoada. Na verdade ela já parecia muito estressada há alguns dias. Estava pra baixo, comendo pouco.

— Ela estava isolada de vocês?

— Acho que sim. Tentamos conversar com ela algumas vezes, mas ela sempre desviava o assunto.

— Ela parecia estar escondendo alguma coisa? — aquela pergunta fez com que uma sirene de perigo ressoasse dentro de Celeste. A garota respondeu escolhendo cuidadosamente as palavras:

— Sara não era muito de se expressar verbalmente. Acredito que havia sim algo a incomodando, só que ela não estava confortável em dizer ainda. Pelo jeito dela mesmo.

Mariana assentiu, parecendo pensativa.

— Fiquei sabendo que houve um momento delicado durante o reconhecimento do corpo. Seu irmão Hugo parece não acreditar que é ela, correto? O que você acha?

— Bem, hoje tem sido muito mais difícil para o Hugo, acho que ele…

— Não. — interrompeu a delegada. — O que você acha sobre o corpo? Tem certeza que é sua irmã?

A pergunta parecia um teste para Celeste.

— Eu… tenho certeza que é ela. Quer dizer, não houve ferimentos graves ou alguma deformação, então era visível que era a Sara.

— Certo… — Mariana estalou os dedos da mão. Parecia estar escondendo alguma preocupação. — Sara se dava bem com o Hugo?

— Bastante. Os dois não são muito encantados com a ciência igual eu e os outros — explicou a garota. — Eles gostavam de passar tempo juntos conversando sobre assuntos como arte e animais.

— Acha que Hugo influenciava Sara, de alguma forma?

— Talvez. Sara é mais nova e admira muito o Hugo…bem, admirava, pelo menos. De todos lá em casa ela era a que mais cedia para fazer o que ele queria. — Fazer aquele comentário doeu um pouco em Celeste. Lembrou-se de algumas vezes em que Jake acusava Hugo de se aproveitar da compaixão de Sara por ele.

— Hugo Aubert parece ser um garoto um tanto difícil — opinou a delegada. — Ele tem demonstrado comportamentos bastante reativos após o choque, e pelo o que vi na ficha dele, a instabilidade não é de hoje. Ele foi detido uma vez por uma briga em um cassino.

Celeste se lembrava desse dia. Foi no mês em que a Doutora Beatriz havia morrido, quando Hugo frequentava as casas de apostas quase diariamente. Ele tentou trapacear em um jogo para conseguir mais dinheiro, mas outro jogador percebeu e os dois tiveram um embate físico. A mesma quantia que o garoto tinha conquistado naquela noite foi utilizada para pagar sua fiança depois.

— Sim, ele tem algumas questões psicológicas — a jovem disse com cautela. — Todos nós sempre o aconselhamos muito e ele sempre recebeu apoio no Edifício Logus.

— Hugo alguma vez apresentou uma ação auto destrutiva?

Celeste pensou em todo o dinheiro que o irmão gastava com os jogos. Mesmo ele ficando sem acesso financeiro e causando conflitos com os outros irmãos, o garoto insistia em formas de ir atrás de apostar.

— Ele é… viciado em jogos de aposta. — revelou.

— Na verdade, delegada — o Sr. Torres interferiu — O rapaz Hugo frequentou algumas rodas de apoio para viciados por recomendação familiar e de outros tutores, mas não foi investigado clinicamente e nem obteve uma prescrição de tratamento específica.

— Interessante, doutor… — Mariana arqueou as sobrancelhas. — Porque o garoto foi encontrado com uma quantidade considerável de tranquilizantes no estômago. Alguma ideia de como ele teve acesso a essas medicações, Celeste? Hugo tinha o hábito de se automedicar?

Aquele era o questionamento que a Aubert havia feito a si mesma pelo menos umas dez vezes. Quando o terrível atentado havia terminado e Levi e Celeste foram chamados para o Pronto Socorro, os dois receberam uma notícia que não parecia fazer sentido algum: tanto Sara quanto Hugo haviam sido expostos a uma alta dose de sedativos. Nesse caso, a hipótese mais provável era a tentativa de suicídio. Celeste se recusava a acreditar. Hugo precisava de ajuda com a saúde mental e Sara parecia psicologicamente afetada, mas era tão preocupante assim? A garota fervia com a culpa só de pensar na possibilidade de ter sido negligente com os mais novos.

— Fármacos não são de difícil acesso no Edifício — explicou Celeste com os olhos marejados. — Não seria difícil de conseguir.

— Celeste — Mariana pronunciou o nome como se estivesse tentando trazê-la de volta de um lugar para qual ela não havia percebido que estava indo. — Por enquanto, essa é a situação: um atentado armado foi feito no Edifício Logus, no dia da Cerimônia, uma data em que uma nova geração de cientistas apresenta para a sociedade produções inéditas. Esse ataque me parece como um recado de oposição à ideia de progresso.

— Faz sentido. — concordou Celeste, sem saber se era autorizado fazer aquilo. Entretanto, ela sabia que o Edifício era um alvo constante de ameaças pelos tradicionalistas e negacionistas mais radicais.

— Essa conclusão, aliás — continuou a capitã, — é bastante coerente com o perfil do atirador. Um jovem de 18 anos, bastante religioso, parte de uma família de extremistas que o Logus tem irritado por anos.

Celeste sentiu um breve alívio. Se a investigação já tinha o executor do atentado, as acusações contra a família Aubert não poderiam ser tão graves.

— Só que é uma situação um tanto curiosa — retomou Mariana. — No momento em que acontece um atentado, temos numa mesma família dois desaparecimentos, uma morte e uma possível tentativa de suicídio. O que nos leva para outro cenário: Temos dois irmãos codependentes e mentalmente instáveis que tentaram um suicídio em dupla. Uma pela influência do outro. Ao mesmo tempo, outros dois irmãos decidem fugir. O momento do atentado pode ter sido um pretexto para que os quatro cumprissem seus planos às escondidas.

— Isso é loucura! — protestou Celeste. Aquela história era totalmente perturbadora e era inaceitável enxergar sua família nela. — Eles iam decidir algo de tanto peso no momento do atentado? O próprio instinto de sobrevivência não permitiria isso.

— Seu raciocínio está correto. Por isso, o que pode ter acontecido é que seus irmãos sabiam que alguma coisa que chamaria a atenção do Edifício iria acontecer, e eles estariam a sós para realizarem seus planos.

— Não. — Celeste insistiu na negação. — Meus irmãos foram criados contra a ideia de qualquer grupo radical. Eles não tinham contato algum com essas pessoas, não teria como eles saberem disso. E mesmo se soubessem, eles avisariam!

— Bom, você disse que Sara estava escondendo algo, não estava?

— Sim, mas… — o estômago da garota embrulhou. — Eu tenho certeza que não era algo assim.

— Acho que tenho uma leve ideia do que sua irmã estava escondendo, Celeste. — Mariana puxou um tablet de seu colo e começou a digitar nele. — Jake e Miru ainda não são desaparecidos oficiais, precisaria de no mínimo 24 horas para tal. É normal que eles tenham conseguido fugir do local no momento do atentado, mas é estranho que não tenham entrado em contato ainda com ninguém do Edifício. Nem mesmo com os próprios irmãos. Além disso, temos a outra dupla de irmãos que supostamente tentou finalizar a própria vida. Isso nos leva a pergunta: o que esses jovens estavam passando em casa? O que eles estavam passando com a família?

Agressão doméstica, pensou Celeste. Será que essa era a razão pela qual Levi estava sendo acusado? O Sr. Torres tossiu em seu pano e alegou:

— Delegada, considerando que as duas hipóteses de tentativa de suicídio e fuga estejam corretas. Quais as evidências de que uma agressão doméstica estivesse acontecendo para ser considerada uma das primeiras suspeitas? A vida no Logus é reclusa. A pressão é alta. — O advogado sugeriu e tossiu mais uma vez.

— Na realidade, eu tenho uma evidência bem interessante, doutor. — Mariana virou a tela do tablet para os dois e uma onda de terror percorreu o corpo de Celeste. A garota sentiu um refluxo terrível e seus sentidos começaram a falhar. O Sr. Torres emitiu um som horrorizado.

No tablet da capitã, estavam a mostra fotos de um pescoço, ombros e costas completamente machucados. Hematomas roxos e pequenos cortes apareciam naquela pele humana.

— Celeste — Mariana utilizou mais uma vez aquele tom de voz despertador — Há duas semanas atrás, Sara Aubert chegou nesta delegacia em prantos pedindo por ajuda. Eu mesma a atendi e tentei confortá-la. Não consegui fazê-la dizer quem ou o quê havia a deixado naquele estado, mas era visível o quanto ela estava assustada e com dor. Levei ela para fazer um delito de corpo e assim que tiramos sua camiseta, essa — a delegada apontou para as fotos — foi a visão que eu tive.

Celeste se virou para o lado e vomitou. Aquilo tinha sido o ápice de todo o seu dia aterrorizante. Não tinha como aquele corpo ser o de Sara. Eles teriam percebido. Teriam visto. Sr. Torres ajudou a garota a se segurar, dando tapinhas amigáveis em suas costas enquanto pedia para a delegada trazer água. Alguns minutos depois, quando a tontura de Celeste havia passado, Mariana retornou com um copo de água gelada e um limão.

— Cheirar a casca melhora a náusea. — ela informou colocando a fruta na mão da garota e sentando-se novamente. — Peço desculpas por não ter avisado antes do conteúdo sensível das fotos. O contexto que eu quero que você entenda Celeste, é que Sara estava sofrendo alguma violência. Não só isso, como ela parecia estar em silêncio por abuso emocional. Já que uma denúncia não poderia ser feita, coloquei ela na Regra de Vulnerabilidade. Você sabe o que é isso?

A Aubert apenas balançou a cabeça negativamente, ainda fraquejando. Sr. Torres tossiu e iniciou uma explicação:

— Quando uma pessoa vulnerável, no caso de Sara, uma aprendiz do projeto social nacional, é encontrada com sinais de violência, a tutela responsável por ela é notificada e tem até duas semanas para abrir uma ocorrência. Do contrário, o tutor ou tutora pode ser preso preventivamente por agressão doméstica e submetido a uma investigação.

— Então… o Levi… — o mundo de Celeste estava rodando e não tinha mais a ver com seu enjôo.

— Temos aqui nosso maior mistério. — suspirou Mariana. — Os documentos do estado do corpo não atestam nenhum hematoma ou ferida. Nem mesmo cicatrizes ou marcas. Como se a agressão tivesse simplesmente sumido do corpo de Sara Aubert.

O rosto de Celeste perdeu a cor e seu advogado tossiu furiosamente.

— Ou como se… não fosse o corpo da Sara. — a garota murmurou.

— Que sabemos não ser o caso, certo, Celeste? — perguntou Mariana. — Você confirma com certeza que aquele era o corpo de Sara?

Celeste lembrou da expressão de desespero de Hugo. Do rosto sem vida de sua irmãzinha. Das suas roupas de sempre, braços e pernas finas e pequenas.

— Eu tenho plena certeza que era ela. — garantiu a jovem.

A delegada Mariana apoiou os braços na mesa e respirou fundo:

— Nesse caso, não temos como iniciar uma investigação contra Levi Aubert por negligência ou sequer como manter a denúncia por agressão. As provas do ocorrido não batem com a materialidade da vítima. Vou liberar seu irmão.

— Obrigada. — disse Celeste em um tom baixo. Por mais aliviada e feliz que estivesse com aquela notícia, seu rosto se recusava a expressar qualquer emoção positiva.

— Doutor, o senhor poderia alinhar os procedimentos finais com o detetive Calebe, por favor? — a capitã dirigiu-se ao Sr. Torres que imediatamente se levantou e saiu da sala.

— Celeste? — dessa vez o tom de Mariana era quase terno. Aquilo trouxe uma paz estranha para Celeste que se sentia congelada no mesmo lugar. O seu cérebro, pela primeira vez, não conseguia formular uma lógica adequada. Seu olhar estava vidrado no nada até se encontrar com o da delegada. — Fique aqui até se sentir melhor. Vá para casa e ajude seus irmãos. Vou fazer o possível para tentar resolver isso para vocês.

— Os desaparecimentos — Celeste soltou quase automaticamente.

— O que...?

— Sara também estava preocupada com os desaparecimentos da cidade.

E pela primeira vez, desde que havia entrado na sala, Celeste Aubert notou uma emoção de medo emanando da Delegada Mariana.

Notas finais
No próximo capítulo teremos um novo ponto de vista e uma temática nova para a história. Vejo vocês lá!