Eles Estão Vindo
2 A armadilha
Notas iniciais
Sara
Sara Aubert odiava socializar. Mesmo com pessoas da sua idade e conhecidas, ela sempre se sentia nervosa quando havia gente demais. No Edifício Logus, na cidade de Forte do Campo, a garota era obrigada a fazer isso diariamente — e aquela era uma ocasião especial.
A cerimônia de iniciação já havia começado no auditório, de onde Sara escapara. Foram duas horas tediosas de apresentações de projetos feitos por outros aprendizes como ela. Não era a única que havia descido para o salão dos fundos, onde vários jovens de jaleco branco compartilhavam medos e dicas para a cerimônia.
Sentada em um puff rasgado, Sara bebia suco de manga para aliviar a ansiedade. Mas, no seu caso, só funcionava se fosse em lata. Não havia lógica nisso, mas ela preferia não questionar seus próprios mecanismos.
O ambiente abafado e quente do auditório, somado ao clima de tensão dos aprendizes defendendo seus projetos diante de uma banca renomada de cientistas, além da quantidade de colegas ao redor, era o suficiente para fazê-la querer vomitar.
Ainda assim, aquilo era o menor de seus problemas. Seu coração acelerado e a dor de cabeça vinham do que ela sabia que estava para acontecer. Naquela manhã, antes de sair para a cerimônia com seus irmãos, ela ouvira alguém comentar sobre uma "semana do desaparecimento". Desde então, evitara buscar informações no celular, mas não conseguia tirar o assunto da cabeça. Sara sabia que o pior aconteceria. Talvez naquele mesmo dia.
— E aí, melhorou? — perguntou uma voz, arrancando-a de seus pensamentos.
Sara olhou para cima e se deparou com um olhar preocupado: era Celeste Aubert, sua irmã mais velha.
— Hmmm… melhorando — respondeu Sara, dando espaço para que Celeste se sentasse.
Celeste tinha o cabelo azul-claro, cortado bem curto e raspado em uma lateral. Seus quadris e ombros eram largos, e suas coxas se tocavam com facilidade. Naquele dia, especialmente, ela parecia ainda mais linda e madura, com seu jaleco branco e feições que expressavam cuidado.
— Eu fico em pé, não se preocupe — disse Celeste, recusando o espaço —. Vim ver se você queria mais suco de manga. As máquinas dos corredores não costumam ter latas sobrando, mas acho que hoje o pessoal tá mais a fim de beber outras coisas. Então, temos um estoque todinho à sua disposição, Lady Aubert — falou com um sotaque diferente, engrossando a voz, o que fez Sara rir, esquecendo por um instante da angústia.
A presença da irmã lhe trazia uma segurança enorme. Ela gostaria de poder abraçá-la e contar tudo que estava guardando: suas escolhas ruins e as consequências terríveis que viriam.
— Ei, quer dar uma volta? — sugeriu Celeste com ternura, ao perceber o silêncio prolongado da irmã —. Às vezes, sair um pouco faz mais bem do que ficar nessa barulheira.
— Claro, pode ser — suspirou Sara. Ela se levantou com a ajuda da irmã e atirou a lata de suco em um balde queimado enquanto atravessavam o salão, de braços dados. — Desculpa dar trabalho logo hoje.
— Você não tá dando trabalho, Sara. Isso é normal. Muita gente se sente péssima hoje. É uma pressão muito forte — disse Celeste em tom suave —.
Além disso, o projeto está irretocável. Os irmãos só estão lá por paranoia, garantindo que nenhum problema aconteça de última hora. A apresentação é a parte mais fácil. Oi, Rebeca! — acenou para uma aprendiz enquanto caminhavam em direção ao Laboratório 33, onde os irmãos Aubert aguardavam para apresentar o projeto em que trabalharam nos últimos meses.
— De qualquer forma, eu… eu me sinto culpada — desabafou Sara. Ela vinha guardando aquilo há dias. Mesmo sabendo que não podia compartilhar o que sabia, sentia que iria colapsar. — Eu sei que tenho preocupado vocês, e não era minha intenção.
— Sara! Você está tremendo! — exclamou Celeste, apertando-a contra si. —Escuta, a gente já percebeu que tem algo errado, mas você não precisa se forçar. Pode compartilhar só quando se sentir confortável.
— Vocês... o quê? — O corpo de Sara tremia e suas mãos formigavam.
— Sim, tá na cara que você e o Jake brigaram e devem ter envolvido a Miru. Mas ninguém vai tomar partido. Somos uma família. Vocês vão se resolver na hora certa. E, convenhamos, todo mundo já tá estressado com essa cerimônia — disse Celeste, dando um tapinha carinhoso no ombro da irmã.
Obviamente, Celeste não sabia de nada. Sua lógica não alcançava o tipo de desastre que Sara enfrentava. Se tivesse contado tudo à Celeste uma semana antes, a irmã teria feito um chá para as duas e planejado a solução mais segura possível. Mas agora, sob pressão, mesmo Celeste não lidaria bem.
— Celeste… eu nem sei o que dizer — murmurou Sara, cansada.
— AUBERT!!!! — gritou uma voz antes que a conversa das duas irmãs prosseguisse. Ambas já estavam próximas à entrada do Laboratório 33 quando viram um amontoado de aprendizes. As irmãs correram e se depararam com um rapaz empurrando as costas de outro contra o batente com toda a força. Sara escutou Celeste respirar fundo ao seu lado.
— Aquela merda de jogo acabou com toda a minha economia do último mês — rugiu o garoto mais alto.
— Emerson, eu tinha explicado. Não tem trapaça se o jogo não tem regras — respondeu Hugo Aubert. O irmão do meio da família Aubert tinha um olhar assustado, que somente Sara ali seria capaz de reconhecer, mas sua postura estava confiante dentro do possível. Os cachos densos e definidos de seu cabelo estavam caídos pela sua testa — Eu indiquei deixando claro que você tinha chances de perder, eu não fiz nada de errado.
— Não sei porque você ainda aceita indicação de jogo, Emerson — debochou uma garota no amontoado — Todo mundo sabe que aceitar indicação de jogo é fazer a outra pessoa ganhar passe livre pro cassino. Alguém já viu Hugo Aubert em um lugar que não seja um cassino? Os outros aprendizes riram na mesma hora e isso irritou Sara profundamente.
— Muito bem — interviu Celeste em alto e bom som, se aproximando do batente — Solta o meu irmão. Se algum tutor aparecer e ver isso, nenhum aprendiz fica desacompanhado até o fim da cerimônia.
Alguns jovens do amontoado resmungaram. Tanto no laboratório, quanto no salão, a maioria dos aprendizes preferia ficar sem supervisão no dia da cerimônia. Isso significava menos cobrança verbal dos tutores e um festival de horas um pouco menos maçante.
— Que diferença isso ia fazer pra vocês? — provocou Emerson — A tutora de vocês morreu.
— Ei! — Sara exclamou alto e fez com que o amontoado abrisse espaço para que ela se movesse ao lado da irmã. No entanto, Celeste se manteve fria.
— Sinal de que temos uma herança para pagar o seu dinheiro, Emerson — respondeu a jovem — Agora solta. O meu irmão.
Emerson obedeceu a contragosto e encarou os três com ódio antes de abrir a porta e entrar no Laboratório. Os Aubert esperaram para que todos ali saíssem para fazer o mesmo.
— Ele te machucou? — Sara perguntou para Hugo. Seu irmão era a única pessoa no mundo cujo ela nunca se cansaria de socializar. Vez ou outra, ele causava alguns problemas e talvez Sara fosse a única da família que tivesse paciência de fato com ele. A garota sabia que muito daquilo não era culpa dele. Hugo Aubert era um rapaz encantador. Alto, pele negra, pernas e braços longos como as de um bailarino e uma atitude muito perceptível, que despertava simpatia em uns e intimidação em outros.
— Mal ralou em mim — falou Hugo com simplicidade — Eu teria dado conta, mas obrigada por me ajudarem.
— Inacreditável Hugo — afirmou Celeste irritada — Espero que o Levi não tenha ouvido lá de dentro. Por que você continua indicando jogos de azar, Hugo? Você disse que não ia mais frequentar cassinos, e agora quer tentar entrar de graça neles?
— Não é pra isso, Celeste — respondeu Hugo incomodado — São só apostas entre colegas, não é nada demais. O Emerson se alterou — De repente, como se tivesse se lembrado de algo, o garoto se virou para Sara:
— Você está melhor, gatinha? Eu pedi para a Celeste sair com você do auditório naquela hora porque talvez você precisasse usar o banheiro, mas eu fiquei preocupado.
— Tão preocupado que saiu para apostar com outros colegas, que engraçado — alfinetou Celeste.
— Pessoal, por favor — pediu Sara. Aquele clima estava piorando sua dor de cabeça. Eles precisavam terminar logo aquela cerimônia e sair dali antes que o desastre viesse. Celeste a olhou com compaixão.
— Vamos entrar no Laboratório e não vamos dar uma palavra sobre isso para o Levi, certo? — ordenou como a boa irmã mais velha que era. Os outros dois Aubert assentiram e entraram.
O Laboratório 33 era uma sala branca talvez do tamanho do próprio auditório, repleta de biombos onde cada aprendiz podia finalizar seu projeto com uma privacidade considerável. Aquele era o dia mais importante na vida de todos aqueles jovens, porque todos os anos de estudo no Edifício Logus seria sintetizado em um único projeto. Para aqueles que amavam aquela rotina, era a oportunidade de mostrarem que eles estão aptos para contribuir com o país de alguma forma, uma missão que os tutores reforçaram na cabeça deles a vida inteira.
Já para aqueles que odiavam, essa era a chance de buscar por uma nova vida fora do projeto Logus. Fazer uma faculdade, criar uma família, arrumar um emprego. Ser um cidadão comum. Por isso, todos ali tinham o mesmo objetivo: não falhar. O Comitê costumava reprovar poucas pessoas, mas elas eram o suficiente para apavorarem os aprendizes mais novos com suas reações de desequilíbrio mental completo.
Assim que o trio entrou no laboratório, Hugo segurou a mão de Sara. Ela não sabia se ele estava buscando conforto ou se estava tentando confortá-la, mas ela se sentiu grata pelo gesto. Talvez Hugo fosse a pessoa mais apropriada para quem a garota poderia pedir ajuda. Mas ela sabia que não faria isso. Ela amava demais o irmão para colocá-lo em risco.
— Como está o nosso mais novo filho? — perguntou Celeste, cantarolando assim que chegou até o biombo da família Aubert. O projeto estava coberto por uma toalha branca em cima de uma maca pequena. Levi Aubert estava em pé encarando-o com as sobrancelhas franzidas, concentrado. Até notar a presença dos irmãos e sorrir:
— Que alívio! Fiquei preocupado com você, Sara. Por um momento, fiquei com medo de não conseguirmos participar da cerimônia.
— Podemos não participar ainda, se ela não estiver melhor — comentou Hugo — O que vai ser mais um ano, todo mundo já precisou esperar ela fazer dezenove. Como você está se sentindo, Sara?
— Eu estou ótima — mentiu a garota. Ouvir aquelas palavras de seus irmãos, mesmo que com boas intenções, a fez se sentir mais responsável por tudo de ruim. O melhor que poderia fazer era fingir. Se apresentassem rápido o projeto, talvez eles tivessem alguma chance. Talvez ela tivesse.
— Então, acho que podemos nos preparar — aquela voz fez com que a espinha de Sara se arrepiasse. Jake Aubert havia se levantado do chão em que estava sentado e cumprimentou os irmãos com um aceno de cabeça amigável. Não, não, não. Pensou Sara.
— Também acho uma boa ideia — animou Celeste — Só falta a Miru, e falando nela…
Você não pode explodir. Não agora. Hugo tocou com preocupação o braço de Sara ao perceber que ela estava apertando sua mão com mais força do que normal, enquanto Miru Aubert entrava no biombo bufando.
— Espero que você esteja feliz — a garota disparou contra Hugo.
— O que aconteceu? — perguntou Levi, e antes que Celeste pudesse dizer algo, prevendo o que ia acontecer, Miru se virou para ele, com os cabelos lisos e longos rodando no ar como um lençol.
— Nosso irmão arrumou mais uma dívida para a gente. E arrumou briga no corredor agora pouco. Tive que me desculpar com uma das tutoras pessoalmente.
Os seis irmãos ficaram em silêncio. Levi foi até Hugo, puxou-o pelo cotovelo e murmurou algo como “Só um minuto”, antes de sair com o irmão do biombo.
— Isso não foi legal, Miru — repreendeu Celeste — Você podia ter esperado nossa apresentação.
— Desculpe, mas eu acabei de tomar um esporro da chefia por algo que eu nem fiz. O mínimo que ele precisa é escutar algo de alguém — Miru cruzou os braços com raiva. Ela era belíssima, com seus cabelos escuros como a noite, que caíam suavemente quase até a cintura. Seus olhos puxados eram como duas pequenas fendas misteriosas que refletiam sua graciosidade mas também uma rispidez imediata. Sara queria poder derrubá-la no chão.
— Por favor, damas — Jake Aubert colocou-se no meio de Celeste e Miru e pôs os braços em volta do ombro de cada uma — Hoje é nosso grande dia. Pensem em quantas pessoas em Forte do Campo possuem momentos especiais como esse, nestes últimos tempos? Não é mesmo, Sara?
Ele está te provocando. A garota pensou. Não caia nessa.
— Isso você tem razão, Jake — suspirou Celeste reflexiva — Quando penso naquelas pessoas desaparecidas. Aquela coitada da escrivã da delegacia não dá sinais há uma semana…
— Agora — interrompeu Sara.
Os três Aubert voltaram-se para ela.
— Temos que nos apresentar agora — ela afirmou veemente — Por favor, eu não acho que consigo se for depois disso.
— Ah minha querida, tudo bem — Celeste desvencilhou-se de Jake e examinou a irmã de perto — Tenho certeza que podemos trocar com o Valentim, os fios do projeto dele estão desencapados.
— Se for assim, eu levo o projeto — Miru decidiu sem dar abertura para discussões. Seus irmãos deram espaço para que ela levasse o carrinho para fora do biombo, e antes de sair ela deu uma piscadela para Sara. Mas devia ser coisa da sua cabeça.
— Que tal você ficar comigo e fazermos um exercício antes da apresentação, Sara? — sugeriu Jake.
— Não — ela respondeu tentando não parecer suspeita — Acho que o ideal é já seguirmos a Miru.
— Você tem certeza? — Celeste perguntou com um senso de proteção genuíno. Sara assentiu com a cabeça. Jake apenas sorriu e disse:
— Nesse caso, vou esperar mais um pouco por aqui. Acho que eu preciso de um tempo.
— Fique à vontade, mano. Se cuida também! — Celeste puxou Sara para fora do biombo e as duas foram atrás de Miru. Deixar Jake sozinho não era uma boa escolha, mas era melhor do que estar ao redor dela. Seu coração palpitava de terror e a jovem Aubert só queria que aquele pesadelo fosse encerrado.
****************************************************************************************************
A apresentação havia sido um sucesso. Por mais que muitos discordassem, a Dra. Beatriz Aubert tinha ensinado o melhor para seus filhos adotivos e isso era refletido no projeto que eles entregaram para o Comitê. Além da ciência, todos eles trabalhavam com humanidade e era a partir dessa ideia que o Gato surgiu. Um animal de estimação inteiramente tecnológico para suprir as necessidades humanas, mas que ocupava o espaço de um bicho doméstico. Além disso, a população teria menos gastos. Focar na qualidade de vida humana em vez de artifícios que promovessem lucros para indústrias foi um ponto positivo para o Comitê.
Os Aubert saíram radiantes da apresentação e abraçaram uns aos outros. Sara deve ter abraçado Miru e Jake sem perceber, porque por um seguindo, ela lembrou-se do tempo em que eles ainda eram uma família feliz. E eles eram mesmo.
Até o disparo. Tudo aconteceu em câmera lenta. Sara ouviu três tiros ou dois e alguns gritos. Viu aprendizes correndo amontoados e outros se escondendo embaixo das poltronas do auditório. Os tutores puxavam as crianças pela mão e Sara ouviu alguém chamar seu nome inúmeras vezes. Ela não se lembrava de ter feito nada que não fosse correr. Sara Aubert sabia o que estava acontecendo. Escapar daquilo era como tentar correr no fundo de uma piscina.
Ela sabia que mais cedo ou mais tarde pagaria por suas escolhas ruins. Mas ela também sabia que os outros pagariam. Porém, ela nunca soube como. Agora ela sabia. Um atentado.
Fale com o autor