Notas iniciais
Oi pessoal! Se vocês estiveram aqui antes vão notar que esse capítulo foi reescrito e acredito que elaborei melhor essa parte da história pro objetivo que tenho para o livro. Espero que gostem.

UMA SEMANA ANTES DA CERIMÔNIA

Calebe

Calebe Amaral funcionava melhor no silêncio. A cidade de Forte do Campo, pouco antes das cinco da manhã era muito silenciosa. A brisa gelada marcava a ausência do sol que ainda não havia saído. Encostado no banco de seu carro, o policial mastigava uma bala de hortelã para que pudesse se manter concentrado sem ocupar a cabeça com alguma informação. As primeiras horas do dia do rapaz eram seu retiro mental, então ele restringia sua experiência matinal somente ao que estivesse ao seu redor. Esse descanso prévio ajudava principalmente com sua disposição antes do trabalho.

A missão daquele dia iria exigir um pouco mais dele. Pelo o que Mari havia comentado, seria feita a prisão em flagrante de um sujeito que estava sendo investigado por uma equipe da Delegacia Municipal já havia algumas semanas. Naquele momento, Calebe aguardava, em seu veículo de vidros escuros e blindados, pela chegada da parceira que iria repassar o esquema da operação. Estava estacionado em uma rua paralela ao Pátio São Tomás de Aquino, um colégio particular católico e o foco onde tudo iria acontecer.

— Já parou pra reparar como bairro nobre é perfeitamente planejado? — a voz que sussurrou a pergunta pertencia ao irmão de Calebe. O outro detetive que iria ajudá-lo. Na verdade, ele também fazia parte da sua equipe. — Esse mesmo parece uma mini cidade. Se você reparar, só nesse quarteirão tem escola, condomínios, hospital e um shopping. Tudo de importante para os moradores eles conseguem acessar em duas ou três ruas. Quase um mundo à parte do restante da cidade.

Sentado ao lado do irmão, Davi Amaral penteava com os dedos seus cabelos em frente ao retrovisor do para-brisa. Os dois vestiam a camiseta bege do uniforme policial, com a diferença que Davi preferia usar uma jaqueta preta por cima, em vez do colete. Seu rosto era idêntico ao de Calebe, e se não fosse pelo cabelo tingido de rosa e suas escolhas de moda específicas, eles seriam completamente confundíveis. Durante a adolescência, Calebe acreditava que Davi se esforçava para parecer diferente dele. Atualmente, no auge dos seus vinte quatros, ele sabia que essa teoria era ridícula: como ele próprio poderia provar que não estava tentando se diferenciar de Davi?

— Tenho quase certeza que essa gente se muda para lugares assim pra não terem que se misturar com os pobres mortais condenados — Calebe sussurrou de volta enquanto inspecionava o irmão mexer levemente em seu retrovisor. De vez em quando, essa atitude de Davi irritava o detetive, porque ele derrubava seu chaveiro de Nossa Senhora da Aparecida que ficava ali pendurado.

Davi voltou o olhar para o irmão, rodou os ombros para trás alongando-os e disse em seu tom de voz habitual:

— Por que a gente tá sussurrando mesmo?

— Você que começou a falar assim.

— Tô impressionado que você tá julgando os moradores daqui. Eu jurava que viver isolado só que dentro de uma cidade seria seu sonho. — debochou o garoto.

— Porque eu não tenho problema de viver com pessoas de uma classe específica igual o povo daqui. Meu problema é conviver com pessoas no geral — respondeu Calebe, revirando os olhos com impaciência.

Os gêmeos Amaral haviam nascido em uma pequena cidade do interior de São Paulo e foram criados nela até os dezesseis anos, quando se mudaram para a capital paulista a fim de iniciarem o curso preparatório da Polícia Civil. A experiência de quatro anos mudou profundamente cada um deles. No caso de Calebe, ele passou a ter uma raiva imensa de lidar com pessoas, porque era cansativo performar o comportamento mais exemplar possível. No entanto, entre permanecer com a população numerosa de Forte do Campo e voltar para o interior, Calebe preferia trezentas vezes encarar a superlotação urbana.

— Se bem que pra falar a verdade o vazio dessa rua tá bem fantasmagórico — comentou Davi. Calebe concordou com o irmão. Não se tratava só do horário ou da rua vazia, mas a energia que exalava do Tomás de Aquino trazia lembranças que arrepiavam o policial.

— Que horas a Mari disse que chegava mesmo? — perguntou o rapaz para que sua mente parasse de focar no ambiente sinistro ao redor.

— Ela disse que cinco em ponto estaria aqui. — Davi verificou rapidamente o horário no relógio digital acima do rádio. Havia acabado de dar cinco horas. — Daqui a pouco, ela vai aparecer no brinquedo bonitão dela.

— Não acha que ela vem na viatura? — perguntou Calebe pensando no flagrante.

— Que nada. Aquela exibida vai vir toda motoqueira para impor respeito no seu primeiro dia…- Davi se calou de repente, percebendo que havia tocado num assunto que não deveria — Ah, foi mal, cara — ele murmurou, desviando o olhar para a janela ao seu lado.

— Não, relaxa. — pediu Calebe tentando expressar a maior sinceridade possível. — Não precisa tratar como tópico sensível. E você tem razão, ela merece se enaltecer um pouquinho.

Davi colocou uma mão solidária no ombro do irmão. O gesto deveria incomodar Calebe, porque ele detestava quando sentiam pena dele. Só que aquela semana não estava sendo muito leve para o rapaz, e por mais que não admitisse para ninguém, adoraria que aquela fosse uma deixa para que ele encostasse em Davi e começasse a chorar. Com um pouco mais de tempo, isso poderia ter que acontecido, mas o walkie talkie dos policiais, emitiu a voz de Mari:

— Estou atrás de vocês.

Calebe destravou as portas ao ver pelo vidro do carro a colega se aproximando. A teoria de Davi sobre o meio de transporte de Mari foi confirmada pela moto estacionada próxima a traseira do carro. Era um modelo recente e Calebe imaginava que Mari não a usaria para qualquer missão. Talvez porque aquela fosse mesmo uma ocasião especial.

— Com sono, meninos? — perguntou Mariana Suzuki, enquanto se sentava no banco de trás do carro de Calebe.

— Impressionante como os caras já querem se livrar dos filhos num horário como esse. — reclamou Davi. — Fazer essas crianças chegarem numa escola antes de seis da manhã para uma aula que só começa às sete devia ser considerado tortura.

Calebe concordou em sua mente. Principalmente considerando o que ele e o irmão conversaram há minutos atrás sobre a proximidade das residências com o colégio. As atividades estabelecidas pela coordenação antes do horário de aula, provavelmente era uma exigência de pais que queriam deixar os filhos fora de casa logo no início da manhã.

— Falando em tortura… acho que essas crianças já aguentaram o suficiente — Mari afirmou enquanto desfazia um rabo de cavalo e penteava os cabelos com os dedos. Os olhos dela se encontraram com o de Calebe e o policial notou um desconforto neles. A parceira parecia pouco à vontade. — Você conseguiu a informação que eu pedi? — ela perguntou.

O rapaz decidiu ignorar o comportamento distante de Mari e prontamente forneceu os detalhes:

— Pela minha averiguação desta semana, a primeira atividade do dia é na capela às 6h. Todos os funcionários importantes já estão pelo colégio às 6h30 e o primeiro monitor a chegar, aparece por volta de 5h50.

— Ótimo. Vai bater com o cálculo — Mari batia os joelhos um no outro, um sinal de que estava nervosa. Essa reação não é comum dela, refletiu Calebe consigo mesmo. A garota se dirigiu para Davi: — Quanto ao território da escola, podemos revisar a mapeação mais uma vez?

O detetive já havia retirado um pequeno tablet que havia guardado dentro do porta-luvas antes dos gêmeos saírem naquela manhã. Ligou o dispositivo em um programa de desenho técnico e abriu uma planta do Colégio São Tomás de Aquino para iniciar sua explicação:

— Deu pra perceber que a arquitetura do lugar é algo mais neocolonial. Tem várias escadas mas essa daqui próxima ao ginásio — Davi ampliou a tela e apontou para a equipe — tem um cômodo embaixo dos degraus. Era o que você queria saber, certo, Mari?

A detetive assentiu com a cabeça.

— Saída dos fundos?

— Temos uma abertura no pátio central que dá para o jardim — continuou Davi, seguindo o trajeto com o indicador — Lá tem um único portão de grades, provavelmente feito de ferro.

— Ótimo — Mari agradeceu, e em seguida, retirou de sua bolsa um círculo de vidro do tamanho de uma moeda. — Vou conectar essa microcâmera no tablet e também coloquei um rastreador no meu celular. A ideia é que vocês consigam me acompanhar pela planta — a garota botou o tablet de lado e mostrou para os rapazes o próprio celular. — Esse aqui é o nosso alvo.

A fotografia mostrada pela policial mostrava um homem grisalho de rosto marcado pelo sol. Vestia uma camisa de algodão com a logo do Tomás Aquino. A expressão era travessa e tinha uma barba geometricamente aparada.

— O nome dele é Joaquim Melo. Inspetor estudantil — contextualizou Mari — A irmã Andrea fez uma denúncia sigilosa na semana passada de que ele leva estudantes para um quarto afastado da escola e bate neles. As investigações apontam que ele têm sido acobertado pela coordenação por ser sobrinho de um dos financiadores do colégio. A Delegacia Municipal enviou uma intimação ontem e eu vou acompanhar o diretor numa busca de coleta de evidências. Estarei com ele o tempo todo e vocês estarão na escuta. Um oficial nosso descobriu que uma equipe de segurança foi contratada para guardar cada uma das entradas hoje.

— Vamos ajudar você com a busca? — perguntou

Calebe. A história de crianças sendo agredidas por uma figura de autoridade oriunda de família influente fazia seu estômago embrulhar. Enquanto Mari contava sobre o alvo, ele trocara olhares com o irmão e silenciosamente os dois concordaram no quanto os pais daqueles alunos deviam odiar, de fato, os próprios filhos.

— A busca vai ser só uma fachada. Quero garantir que a direção e a coordenação esteja ocupadas com a minha visita e vocês vão conseguir um flagrante. Além disso, a microcâmera vai ser usada para coletarmos provas.

— Quer que a gente se infiltre na escola para instalar a microcâmera lá dentro? — perguntou Davi. Como vamos driblar a segurança da entrada? Eles com certeza vão receber ordens de apenas permitir a entrada de policiais que estejam com você.

— O oficial que passou a informação da segurança é amigo de um dos contratados. — Ele vai se posicionar na entrada do jardim e vai ser por lá que vocês vão entrar. Pela planta do Davi, será um caminho longo até o suposto quarto onde ocorrem as violências, mas vai ser tempo suficiente. O período pré aula é de maior contato do alvo com os alunos. Quando vocês chegarem até o quarto, instalem a microcâmera. Ela é bastante prática.

— Qual vai ser o plano? — questionou Calebe, um pouco confuso. Mari sempre fazia com que eles trabalhassem antes das operações sem os detalhes mais relevantes. Ela tinha certeza que aquilo diminuía a chance de erro nos processos, porque nenhum caso ocuparia a mente deles fixamente. — Entramos na escola, localizamos o quarto, instalamos a câmera e monitoramos? Quando o cara entrar lá, te avisamos para o flagrante?

— Você vai fazer a prisão de flagrante, Calebe. — comandou Mari, e ambos os gêmeos não esconderam a surpresa. — Assim que instalarem a camêra, preciso que você fique de guarda próximo, e assim que o alvo entrar no quarto com algum aluno, você se revela e anuncia a prisão. Não podemos esperar que ele de fato agrida a criança para conseguir as provas e o flagrante, o comportamento dele de isolamento e coerção vão ser evidências suspeitas o suficiente.

Calebe se manteve num silêncio obediente, mas sentiu a hortelã amargar em sua boca. Aquela seria a primeira missão de Mariana Suzuki como a capitã da Equipe Themis, e o rapaz não entendia porque ela passando a tarefa principal para ele. A menos que sua parceira tivesse pena do amigo, uma opção que só de imaginar lhe dava nos nervos. Os gêmeos Amaral e Mariana trabalhavam juntos há um ano. Na época, Calebe e Davi precisavam ser formalizados em um time, mas nenhum dos veteranos da delegacia tinha interesse neles. Os dois eram mal falados devido a performance e personalidade reativa de Davi e da relação abertamente carinhosa entre os irmãos. Calebe sabia que num meio policial, esse tipo de julgamento seria intenso, mas ele se recusava que isso interferisse em seu relacionamento com seu gêmeo.

Por ser a única pessoa que o outro tinha naquela cidade, ambos eram emocionalmente apegados. Desde a escola de polícia até o trabalho na Delegacia Municipal, ouviram todo tipo de ofensa e crítica disfarçada de conselho. Só que naquela fase, Calebe temeu um pouco pela exclusão completa para o avanço de posto. Crescer na sua carreira como policial sempre havia sido sua prioridade número um, e constantemente, se sentia ansioso quando algo parecia dar errado.

Até que Mariana apareceu. Ela era voltada para investigações de busca e apreensão, uma vertente que interessava menos aqueles policiais mais morais os quais preferiam ir para a rua “instaurar ordem”. Quando a veterana leu o perfil dos irmãos, imediatamente entrou em contato e solicitou para que os três fossem oficializados em uma equipe. Mari nunca julgou nenhum deles pelo motivo que fosse e conhecia os melhores pontos de entretenimento em Forte do Campo. Quando não estavam juntos trabalhando, os colegas saíam ou se visitavam. Calebe deve ter verbalizado aquilo alguma vez, mas a companhia dela completava a família deles. Nos últimos dois meses, aconteceu uma mudança que abalou um pouco o trio. O delegado anunciou sua saída da Delegacia Municipal para uma base estadual e decidiu avaliar alguns candidatos para substituí-lo até o seu possível retorno. Tanto Mari quanto Calebe foram escolhidos para os testes, e bem… o detetive queria muito o cargo. No entanto, Mariana havia o superado em tudo.

— Mari — iniciou Davi. — Como vamos fazer com o monitoramento da microcâmera?

— Você vai ser responsável por isso, Davi — de repente, a capitã instalou o polegar de uma das mãos, como sempre fazia quando estava pensando muito. — Na verdade, prefiro que você esteja aqui desde o início. Você vai me acompanhar pelo rastreador mas quero que você oriente o Calebe a chegar no ponto do alvo da forma mais direta possível.

— Então… eu também uso um rastreador? perguntou Calebe, tirando seu celular do bolso e Mari acenou positivamente com a cabeça enquanto ele o entregava para Davi.

— Poxa vida — sorriu o irmão provocativo, enquanto conectava os rastreadores dos celulares da equipe no tablet. — Saber o tempo todo onde você está, meio que é meu sonho desde os nove anos, meu querido.

O policial deu uma cotovelada em Davi, o que fez com que Mari deixasse escapar uma risada. Ver que ela estava um pouco mais à vontade agora, tranquilizou Calebe.

— Não vou poder sair de perto do quarto em nenhum momento, então? E se você estiver passando por perto com o diretor?

— Vou tentar enrolar o cara para me levar sempre para um ponto afastado de onde você estiver conforme a orientação do Davi. — esclareceu Mari. — No geral, é só se manter despercebido e intimar o inspetor antes que ele machuque qualquer criança. Sua escuta precisa estar ativa o tempo inteiro, porque assim que você flagrar ele, vou até você.

— E eu já salvo a gravação e faço o chamado da viatura? — presumiu Davi. — Com um reforço barulhento o suficiente eles não vão poder inverter a situação e nem impedir a ida do alvo até a Delegacia. E se o alvo declarar que o veículo não estava na posse dele e incriminar o ajudante ?

— É o que eu espero — suspirou Mari. — Não sei como o caso vai ser prosseguido daí em diante mas teremos provas o suficiente para colocar o sujeito num processo bem difícil e faremos uma cena chamativa o suficiente para que os pais exijam, no mínimo, afastamento do funcionário.

Mari pegou três escutas em sua bolsa e cada integrante da equipe de Themis estaria com uma.

— Preciso que, por favor, vocês me avisem se qualquer coisa der errado. Só iremos sair daqui quando tivermos interrompido o primeiro, e espero que último, caso de agressão. — destacou a policial.

— Prometemos orgulhar nossa mais nova capitã nessa missão — Davi prometeu em um tom pomposo, fazendo Mari corar. Calebe ficou feliz por o irmão ter mencionado o assunto primeiro, porque gostaria muito de parabenizar Mari, porém, a iniciativa de fazer isso lhe dava um nó no estômago que ele odiava admitir.

— Sabe que parece que nada mudou? — comentou Calebe e Mari se voltou para ele com um olhar receoso. — De um jeito ou de outro, você sempre lidera, é quase como natural seu — o detetive instantaneamente se arrependeu, pois tinha medo que pudesse ter soado como uma indireta, mesmo que não fosse sua intenção. Embora os sentimentos fossem reais. Porém o sorriso iluminado de Mari acalmou sua preocupação.

— Obrigada meninos — ela tocou com cada mão, carinhosamente, o braço de um dos gêmeos e sua postura se tornou mais aprumada. — Certo. Preciso entrar agora e esperarei o diretor chegar. Confio em vocês.

Assim que Mari saiu do carro, Davi posicionou o tablet e finalizou a configuração que permitiria a planta do Tomás de Aquino como fundo para o indicador de rastreamento da capitã e do irmão. Calebe respirou fundo e fez uma oração para o seu anjo da guarda, como sempre fazia antes de uma operação. A partir dali, não havia mais espaço para crises ou melancolia. Se Mari havia dado a função do flagrante para ele, que fosse porque ela acreditava na sua imensa competência. Por isso, era crucial que isso fosse demonstrado hoje. Era hora de trabalhar.

O jovem detetive saiu do carro com a sensação de que aquela missão poderia mudar a percepção da Equipe de Themis sobre ele para melhor. O que Calebe Amaral não sabia era que sua própria percepção seria mudada permanentemente.

Notas finais
Esse capítulo ficou bem grandinho, então acabei dividindo em duas partes. O melhor ainda está por vir, principalmente porque o próximo foi o que me fez ter a ideia desse livro :)