Todos ainda jantam, quando o telefone começa a tocar insistentemente, Sebastião se nega a interromper a refeição, Eleonora então resolver atender.

- Alô?

A pessoa do outro lado da linha fica muda por alguns instantes, Eleonora então repete:

- Alô tem alguém ai?

- Eleonora... Responde a voz em tom de alivio.

- Sim, sou eu mesma, quem fala?

- Não acredito que tenha esquecido minha voz...

Aquela voz remetia Eleonora pra um passado que ela queria esquecer. E é ela então que fica muda, suas pernas bambeiam a ponto de fazê-la sentar no sofá, estática, anestesiada...

- Eleonora? Eleonora? Pergunta a voz

- Ká... Kátia? Não... Não pode ser...

Sebastião pergunta quem é e Eleonora diz que é uma velha amiga da faculdade e sai rumo à garagem, onde ninguém poderia ver sua expressão de surpresa e ao mesmo tempo raiva. Mas a verdade é que Kátia além de ex-amiga de faculdade era a ex-namorada de Eleonora, que foi embora pra Vitória em busca de um estágio de melhor remuneração na área em que estudava. Kátia tomou a decisão num momento de puro egoísmo, pois não pensou na relação que mantinha e muito menos em Eleonora, que a amava e tinha total zelo e dedicação pelo relacionamento delas.

Kátia então do outro lado da linha matinha no rosto um sorriso quando Eleonora reconheceu sua voz.

- Sim, sou eu... Você não sabe o tamanho da saudade que estou sentindo.

- Saudade? Não acredito não... Depois que foi pra Vitória, nunca mais me ligou, a não ser pra dizer que era melhor cada uma seguir a sua vida, que namora a distância não da certo e...

E antes que Eleonora continuasse com a metralhadora de lembranças Kátia disse:

- Vamos esquecer o passado, por favor. Te liguei para dizer que morro de saudade dos seus carinhos, dos seus beijos, do seu olhar, do seu sorriso, do seu abraço, do seu cheiro...

- Já disse tudo o que queria... Eleonora estava brava, mas brava ainda por saber que aquele telefonema havia mexido com ela de uma forma que não queria.

- Calma... Não precisa ser grossa... O sorriso havia se desmanchado.

Eu... Eu quero te dizer também que eu estou arrependida e que eu vou até o Rio pra te ver e te fazer uma proposta.

Eleonora não queria vê-la, mas a palavra “proposta” havia aguçado sua curiosidade, ela então questiona:

- Proposta? Que proposta?

- Isso você vai saber quando eu chegar ai semana que vem, você ainda trabalha no hospital central? Vou até lá pra gente conversar.

- Não lá não, a gente marca em algum lugar e você diz que proposta é essa.

O sorriso de Kátia ressurge e junto com ele a esperança de ter Eleonora de volta também.

- Tudo bem, eu te ligo novamente. A gente combina ok?

- Ok, então... Tchau!

- Tchau, um beijo, e até breve “minha pequena”.

De um lado do telefone tinha Kátia, radiante e feliz por ter conseguido falar com Eleonora e marcar o encontro, era tudo o que ela queria.

Do outro, Eleonora estava ainda tentando digerir o que tinha acontecido a pouco, não sabia o que pensar, o que fazer. As lágrimas saltavam de seus olhos sem que ela fizesse algum esforço, o único esforço que fazia era pra evitar tal ação. Seu coração pulsava a ponto de fazer sua respiração falhar por algumas vezes, aquele telefonema havia mesmo mexido com as emoções dela.