Elena
2 The guy
Notas iniciais
Seguia uma lista muito precisa: havia cidades, nomes e ao lado deles a data, mês, ano e horário. A causa era a minha parte predileta: era onde eu colocava minha criatividade em prática.
Ultimamente, não tenho causado as mortes mais extraordinárias que me dariam algum tipo de orgulho. Confesso que ando muito... Entediada. Por isso que muitas almas acabam voltando para seus corpos e os mundanos podem “voltar” à sua vida monótona. Mas não pense que isso é em vão, pois como eu sempre digo: a vida é pior morte que um ser humano pode ter.
Abri o caderno grosso, velho e pesado em minhas mãos. Havia tantos nomes, riscados e não riscados, e pensar que sempre haveria mais deixava-me um tanto quanto cansada. Nunca me veria livre dos humanos.
Olhei o próximo nome: Dylan Piggeon, Londres; 23/09/95; 7:00 p.m.
Sorri. Adorava Londres, principalmente a London Eye: sempre quis derrubá-la e riscar diversos nomes.
Suspirei fundo, fechei meus olhos e me concentrei em Dylan. Deixei que sua alma me chamasse e me levasse até ele. Eu sentia as vibrações, ouvia os sons altos, tudo de uma vez só. Como quando você está prestes a pegar no sono e tudo vira um borrão.
Quando abri meus olhos, estava em uma estrada escura; havia bares, becos sem saída, grupos de fumantes e drogados por toda a parte.
Caminhei pelas ruas úmidas por conta da chuva. A noite dançava sob a minha cabeça e a névoa começava a surgir. Continuei caminhando calmamente observando as coisas em meu redor. Londres. Doce e amada Londres.
Não fiquei surpresa ao encontrar o caro Dylan em um beco escuro, jogado no chão. Observei-o de longe, estudando-o. Tinha cabelos loiros e olhos verdes completamente vermelhos. Seu corpo dava a impressão de ser feito apenas de osso e pele; se encontrava em um estado deplorável. Revirei os olhos ao constatar que Dylan vivia à base de drogas e álcool.
Olhei a hora: 7:00, p.m. Sorri.
Concentrei-me em seus batimentos cardíacos, já fracos, e o fiz ter uma pequena convulsão.
A cena era, no máximo, perturbadora. Seu rosto começou a ficar vermelho e de vermelho foi para roxo. Ele debatia-se contra o chão e a parede de tijolos, seu corpo inteiro tremia. Veias grossas saltavam de sua testa e garganta enquanto ele tentava lutar contra a dor. Seus braços e pernas se contorciam involuntariamente e o último gemido foi ouvido quando seu coração resolveu, finalmente, parar.
Sorri ao ver a vida escorrer por aquele corpo.
Acomodei sua alma em meus braços e senti-a me satisfazer e me deixar mais forte. Apesar do poder que ela me proporcionava, a alma era imunda, exclamava desespero e dor.
Virei as costas para o corpo morto de Dylan com a alma ainda em meus braços. A levaria para o estágio final, onde poderei julgá-la e deixa-la nas mãos dos ceifadores que a levarão para o inferno ou paraíso.
Continuei andando quando avistei um jovem. Ele possuía cabelos negros, era esbelto, estava todo de preto exceto pela sua camisa branca. Andava apressadamente com a cabeça baixa e com as suas mãos nos bolsos frontais de sua calça. Não consegui ver seu rosto mas senti algo pulsando dentro de seu corpo. Seria sua alma? O sentimento era outro. Estranho.
Mesmo assim, não me importei com sua presença e segui em frente. Porém, quando ia passar ao seu lado para continuar meu caminho, ele chocou-se contra meu ombro.
Senti meu corpo arrepiar-se e travar. Ele, apesar da pequena batida, continuou andando como se nada tivesse acontecido.
Deixei com que a surpresa e a dúvida tomassem conta de meu rosto enquanto o observava entrar no beco escuro – onde o corpo morte de Dylan se encontrava.
“Como?”, pensei. “Como ele conseguiu fazer isso?”
Sou como o vento que corre nas manhãs e como uma sombra que vaga pelas noites. Era impossível um ser humano ter um contado físico direto comigo.
Então, quem era ele?
Ou melhor, o que ele era?
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