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20 Eu estava no céu!
Notas iniciais
Estava me sentindo péssima... horrível! Minha mente, meus sentimentos... tudo! Tudo estava confuso, bagunçado. Sentada no canto daquela velha casa de madeira derramei varias lagrimas... lagrimas de dor, solidão, indecisão, raiva, tristeza... Várias e várias lágrimas. Por que tudo tinha que ser tão difícil? Por quê?! Meu peito doía de tanto soluçar, minha garganta estava seca e meu mundo obscuro, até que uma frase... não... até que ele me puxou de volta para a luz.
– Ei, esse lugar é meu. – disse Drake. Ele estava na pequena abertura onde ficava a escada apoiando seu rosto levemente inclinado em suas mãos com um meio sorriso estampado em seus lábios. Encarei-o sem entender. Com um suspiro, um longo suspiro, ele entrou de vez na casa e sentou-se à minha frente. Por alguns segundos, observou-me.
– Não chore. – Ele disse. Estendeu sua mão e secou as lágrimas de meu rosto com um leve, levíssimo, sorriso.
– Por que você está aqui? – Indaguei soluçando. Ele riu.
– A Lauren pediu para que eu te procurasse... e também te devo uma... – Sussurrou.
– Me deve uma do que? – Parou de enxugar minhas lágrimas ainda com seu polegar posto abaixo de meu olho.
– Eu te devo algo que jamais poderei pagar... bom, talvez eu jamais possa pagar... ou você aceitaria dez reais? – Arrancou uma fraca risada de mim. – Enfim. Sempre que estive em perigo, tanto físico quanto psicológico, e até mesmo quando tinha aqueles ataques de solidão, você... – Ele olhou em meus olhos – Você me ajudou... sou grato por tudo – Senti uma leve queimação em minhas bochechas. Drake estava mesmo sendo... fofo comigo? Mas por quê?! Porque ele estava sendo fofo?! E o que diabos era aquilo que ele estava me causando, como conseguia fazer com que eu me sentisse daquele modo?!
Novas lágrimas irromperam de meus olhos e, dessa vez, o abracei. Por vários segundos ele não reagiu, mas, enfim, cedeu e me envolveu com seus braços em um abraço apertado, mas caloroso. Não sei quanto tempo ficamos assim, mas em certo momento ele me soltou desvencilhando-me de seu corpo.
– Por que você estava chorando? – Indagou... preocupado?!
– E-eu... eu não consigo aguentar isso... essa pressão... por que ninguém aqui confia no Max? Por que ninguém pode perdoa-lo? Por que somente eu e ele não concordamos com essa ideologia da Conventionis? – Soltei. Eu jamais conseguiria guardar tudo isso por muito tempo... parece pouca coisa, mas não é. – Eu não consigo entender... Por que, Drake?! Por que tudo tem que ser assim? – Olhei para ele que estava com a cabeça levemente inclinada e lábios entreabertos como se pensasse em uma resposta.
Minha cabeça estava dolorida, tanto por causa das lágrimas quanto por causa dos “por quês” da minha mente. Sinceramente, eu não esperava que a pessoa com quem eu estaria desabafando fosse justo Drake. É, realmente, nunca pensaria nisso.
As coisas entre eu e ele estavam até melhorando, claro, eu ainda não entendi noventa por cento do que se passava na cabeça dele, ainda tinha mistérios por trás, ficava com raiva com suas pirras e mais ainda quando ele era grosso... mas são em momentos como esse que eu percebo que talvez... talvez, ele não seja tão ruim.
– Jamais dissemos que a vida seria fácil após ter vindo para cá, apenas proporcionamos um recomeço... Sofia, você precisa aprender a lidar com problemas que não tem controle... e tudo o que podemos fazer sobre isso é deixar o tempo resolver. Você sabe que não podemos mudar o pensamento das pessoas e nem a ideologia do nada... – Dizia como se escolhesse as palavras certas, e eu não duvidava disso.
– Você devia seguir seus próprios conselhos. – Respondi sem pensar, mas vejamos, se tudo o que aconteceu com ele era do passado, porque, bem, obviamente era, ele devia deixar que o tempo resolvesse, não é mesmo?
Em resposta, apenas deu de ombro. Um simples gesto, mas que dava para entender perfeitamente o que ele queria dizer. “Faço o que posso”.
– E sobre o Max... – comentou, chamando minha atenção — Ele é de boa.
– O quê? – Oi? Eu ouvi aquilo mesmo?
– O que o quê?
– O que você disse sobre o Max?
– Ah... Ele é de boa. – repetiu sem entender.
– O quê? – Segurei seus ombros.
– Ele é… de boa... – Hesitou. Estava ficando assustado.
– Mas... Como.... – Sacudi-o. — Você....
– Sofia... estou ficando com medo de você. – Falou tirando-me desse pequeno transe.
– Ah... desculpe, é só que... – Não tinha palavras para descrever aquilo. Ele confiava no Max?! Isso... Isso é tão incrível!
– Você está “feliz” por ter alguém que confie nele, não é? – O meu sorriso de orelha a orelha deve ter me denunciado.
– Sim... – Ele riu. Esse é realmente o recorde dele, rir mais de cinco vezes em dois dias! Não que eu estivesse contando... tá, eu estou contando sim...
– Você não deveria ficar se preocupando tanto com o que as pessoas acham. Ele gosta de você, não te faria mal nenhum, eu boto fé nele. – Fixei-me em seu olhar procurando alguma brecha de sarcasmo. Nada. Nenhum pingo de sarcasmo... Será que ele estava falando sério?
– Sim, estou falando sério. — Ele lê mesmo minha mente, incontáveis as vezes que ele fez isso...
– Por que... Porque só você acredita nele?
– Hum... Eu apenas o perdoei, mesmo não sabendo exatamente o que ele fez na época, e também eu não estava, não foi tão “chocante” para mim, mas, enfim, vamos voltar logo. – Ele se levantou e estendeu sua mão para me ajudar. Enxuguei as últimas lágrimas e peguei em sua mão, ele me puxou para cima. Nessa “puxada” acabei tropeçando o que me fez praticamente cair em seus braços. Ele me segurou com força para que não tombasse contra seu corpo e ambos caíssemos. – Cuidado.
– Certo... – Minhas bochechas, novamente, ficaram quentes. Afastei-me de seu corpo e desci pela escada sendo seguida por ele. Trocamos um olhar divertido e rimos. Estava aconchegante... muito aconchegante... O que, em certos momentos, parecia bem estranho, mas... continuava aconchegante. Andamos de volta para o prédio e, antes de nos despedirmos próximo ao elevador – já que ele tinha que voltar a arrumar a Conventionis (coitado) – ele disse que Max estava me procurando. No mesmo momento lembrei-me do que ele e Zack conversaram no dia anterior. Um gigantesco sorriso ficou visível em meu rosto. Drake ia perguntar o porquê do sorriso, mas, Lauren, totalmente autoritária, o chamou.
Aquilo havia acabado com o pouco de tristeza que havia me restado.
Apertei o botão do elevador e entrei. Onde será que ele está? Onde?! Não estava conseguindo me conter! Era tanta ansiedade! Mas espera… e se ele perceber sua animação toda assim? Sofia, se acalme, respira, respira… finja que não sabe de nada, finja que não sabe de nada. Andei de um lado ao outro no elevador, balançando os braços, respirando fundo… se alguém me visse naquele estado diria que sou louca. Quando o elevador chegou ao meu andar e as portas se abriram me deparei com Zack.
– Ah, Zack. — Minhas bochechas ficaram vermelhas. Ele quase havia me visto no meu excesso de ansiedade! Controle-se mais, Sofia!
– Oh, Sofia! Eu queria mesmo falar com você. Tenho um recado do Max e da Lauren. — Disse com um simpático sorriso.
– Ah… certo… — Respirei fundo três vezes… ainda estava muito ansiosa. Zack me olhava com uma sobrancelha levantada.
– Você esta bem?
– Sim, estou… — Menti. Eu não estava nada bem, nada bem mesmo! Meu coração estava muito acelerado… agora, por quê? Respirei novamente três vezes. Nossa, Sofia, você possui um senso de ansiedade gigantesco, agora... se controla! — Pode falar.
– Certo… Bom, a Lauren quer falar com você e Drake de noite após o café e o Max… Bem… — Ele sorriu — Ele quer que você vá para as cachoeiras.
– Cachoeiras?
– Sim, aquele lugar onde você e Drake treinaram.
– Ah, esse lugar… — Ficamos em silencio. Um, dois, três, quatro, cinco segundos se passaram até ele se pronunciar novamente.
– É, tenho que ir terminar de limpar o prédio… você viu o Drake?
– Sim, ele está no refeitório terminando de limpar.
– Obrigado — Sorriu, se inclinou e depositou um beijo em minha bochecha. Virou-se e correu em direção a janela mais próxima, abriu-a e pulou… opa, pulou? Ele pulou pela janela!? Mas há uma escada ao lado do elevador! Corri para a janela e coloquei a cabeça para fora do prédio. Zack estava… correndo pela parede… correndo… pela… parede. Suspirei. Fui até meu quarto e troquei de roupa. Esse lugar é repleto de loucura, de qualquer modo, então não estou mais tão surpresa.
– Por que meus amigos são tão estranhos? — Indaguei voltando ao elevador e encarando meu reflexo projetado pelo espelho que havia nele. Apertei o botão do térreo. Max me espera nas cachoeiras e Lauren quer falar comigo e com o Drake depois do café, então… é, Max primeiro.
Andei alguns minutos pela trilha que Drake havia me guiado dias atrás. A mata cobria um pouco o céu, deixando-a sempre fresca e com bastante sombra, o que era bom para o dia caloroso. Meus passos eram calmos, mas meus braços não, se alguém me visse de longe acharia que sou louca. Eu os movia em todas as direções, quando estava sozinha tinha mania de falar fazendo gestos, quer dizer, no momento não estava bem falando, e sim pensando... admito que algumas vezes tais pensamentos escapavam pela boca, o que só me deixava parecendo ainda mais louca.
Minha mente estava em um tipo de guerra civil que logo me deixaria com dor de cabeça.
"Ai, nossa, Sofia! É agora!”, pensou meu subconsciente.
“Fique quieto!”, retruquei.
"Namoro, namoro, ele vai me pedir em namoro!”, cantarolou.
“Calado!", bati em minha própria cabeça.
Depois de mais alguns minutos andando, afastei delicadamente as últimas folhas da frente, dando vista para aquela belíssima visão. Água cristalina, gramas em verde vivo, rochas acinzentadas aqui e ali. Identifiquei Max de costas, abraçando seus joelhos e olhando para aquele paraíso. Estava em uma pedra não muito alta da água. Seus cabelos brancos balançavam com a leve brisa, estavam bagunçados como sempre. Suas costas alvas tinham algumas leves pintas e uma ou outra cicatriz também, mas nada que eu devesse me preocupar... eu acho.
Aproximei-me devagar, com passos de anjo, subi na parte livre da pedra e antes que ele notasse minha presença derrubei-o com um empurrão. Se acha que tive oportunidade de rir, está errado... na verdade, mal houve tempo de pensar nisso, pois Max é realmente muito esperto... ele pegou minha mão fazendo com que eu caísse junto. Felizmente ninguém se machucou naquela queda desajeitada. O contato repentino com a água gelada fez com que meu corpo tremesse, mas ao mesmo tempo foi muito refrescante. Assim que caímos, emergimos para recuperar o ar, com a mão esfreguei um pouco os olhos para abri-los. Na minha frente, Max estava perfeitamente lindo (não que isso fosse uma novidade em particular). Deu-me o seu melhor sorriso, um sorriso caloroso, de canto de boca, que ao mesmo tempo em que trazia gratidão, trazia também uma pitada de malvadeza. Fiquei alguns segundos encantada com aquilo, mas logo ele me puxou para baixo da água, fechei meus olhos com força e peguei o último “pedaço de ar” que consegui, estava um pouco assustada pela ação repentina, mas tudo pareceu fazer sentido quando senti seus lábios nos meus... o conjunto, a água em nosso entorno, nossos corpos, lutando por se juntar mais e se aquecer naquela imensidão fria. Cometi o erro de abrir a boca para aprofundar o beijo, deixando assim o pouco ar que me restava escapar. Com a mesma velocidade que nos juntamos, separei-me dele e subi a superfície novamente respirando fundo assim que cheguei. Ele emergiu em seguida olhando-me com aquelas orbes vermelhas hipnotizantes e uma sobrancelha levantada.
– Acho que o oxigênio... ou melhor, a falta dele, nos atrapalhou... – comentei com um sorrisinho de lado, quebrando o silêncio que se formou entre nós, mesmo que esse não fosse incômodo. Na verdade, todo o local ajudava. O barulho da cachoeira, a água correndo, as folhas das árvores balançado com a leve brisa... nossas respirações ofegantes.... Tudo só ajudava para que fosse o momento perfeito.
– Então, onde havíamos parado mesmo? – soltou o sorriso mais falsamente inocente que eu já tinha visto. Amei.
– Não sei, poderia me lembrar? – soltei uma copia daquele sorriso, iria arriscar morder levemente o lábio inferior, mas ele foi mais rápido em retomar de onde tínhamos parado. Seu corpo juntou-se ao meu e os lábios prometiam não se separar tão cedo. Com uma das mãos, envolveu minha cintura e com a outra, meu pescoço, fazendo com que ele tivesse total controle sobre mim. Eu não ficava para trás, percorria suas costas com as mãos aproveitando aquele beijo que tornava-se cada vez melhor, por mais impossível que parecesse. Meus pés alcançavam esforçadamente a areia que cobria as pedras. Max não tinha o mesmo esforço, então não foi difícil para ele (ainda mais porque estávamos na água) segurar-me no colo. Enlacei minhas pernas na sua cintura e o modo que ele me segurava passava cada vez mais segurança. Minha mente estava surtando, podia jurar que se eu fosse controlada por pequeninas mini-Sofias, todas teriam dado uma pausa no cérebro para festejarem.
Depois de não sei quanto tempo, nossos lábios se separaram para que conseguíssemos respirar novamente, encostamos nossas testas e a ponta de nossos narizes, enquanto meio-sorrisos se formavam uma vez ou outra em nossas bocas, totalmente hipnotizados pelo acontecimento. Através de nossos olhos trocávamos vários pensamentos e sentimentos, e o principal deles... era o amor.
Em certo momento Max me soltou devagar e retirou minhas pernas de sua cintura, segurou minha mão e entrelaçou nossos dedos. Encarou-me.
– Sofia... — Disse em um sussurro.
– Sim? — Seus olhos, de um vermelho sem igual, capturaram totalmente minha atenção (mais uma vez), ele respirou uma, duas, três vezes antes de dizer.
– Faz pouco tempo que a conheci, eu sei, mas eu realmente estou apaixonado por você! No primeiro dia em que te vi senti algo diferente, algo que só recentemente pude entender... — Ele levantou sua mão livre e ajeitou algumas mechas molhadas de cabelo que estavam a frente de meu olho e as pôs atrás de minha orelha. — Sofia Sparks, quer namorar comigo?
"KYAAAAAAH!", surtamos eu e meu subconsciente. As mini-Sofias estavam em festa naquela hora. Eu estava em festa! E por mais que tentasse amenizar o sorriso gigantesco que se formava, não era tão fácil assim.
– Quero, eu quero namorar com você!! — Pulei em cima dele. Mesmo na água, ele me abraçou e começou a me girar.
Eu estava no céu.
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