Elementium - Volume 1 - A Ascensão
2 Wirdgewt
Notas iniciais
Meus pés caminham sobre o asfalto, um na frente do outro, colocando cada vez mais distância entre mim e o veículo em chamas. Os garotos, Ethan e Micael, me acompanham de perto, me escoltando, não sei se para me guiarem ou para terem certeza de que não vou fugir.
Não vou fingir que a ideia não passou pela minha cabeça. Correr para bem longe e pedir socorro. Voltar para o ônibus e descobrir o que aconteceu com os passageiros, mesmo que uma parte minha tenha noção que a chance de haver sobreviventes é mínima, procuro deixar essa realidade de lado para não sucumbir ao desespero.
Sinto minhas mãos tremendo, meus dedos cutucando e puxando o puído punho da jaqueta. Minha cabeça dói, meus músculos protestam quando Ethan e Micael me fazem acelerar o passo, o tempo todo concentrados nos acontecimentos a nossa volta. Parecem perturbados com alguma coisa e, mesmo com a curiosidade me corroendo, tenho medo de perguntar o que está acontecendo, pois sei que a verdade provavelmente será mais aterradora do que estou preparada para aguentar.
Sem realmente entender o que se desenrola a minha volta, permito minha mente a se agarrar na confusa conversa dos dois, algo sobre portais e praças, simplesmente porque me concentrar nesses detalhes intrigantes e me afundar na curiosidade sobre os dois rapazes parece mais fácil do que tentar enfrentar o que está as minhas costas.
Por esse motivo me mantenho em pé e caminho o mais rápido que posso, sem questionar devidamente o meu destino, nem realmente me importar com os fatos quando nos aproximamos de um grupo de pessoas, todos trajados no estilo dos meus guarda-costas. No entanto, mesmo com a minha mente entorpecida, não sou capaz de ignorar o fato de todos os integrantes do pequeno grupo começarem a desaparecer.
Isso mesmo caro leitor, você não entendeu errado. Tenho certeza que você está pensando que isso provavelmente é apenas uma visão alucinada de uma mente perturbada, concordo com você de bom grado. Será mais fácil de lidar se for o caso.
Observo estupefata enquanto gradativamente as pessoas desaparecem bem na minha frente. Demoro alguns segundos (ou talvez minutos) para perceber que todos desaparecem em um determinado ponto, como se de alguma forma houvesse um holograma projetando a rua e eles apenas ultrapassassem para o outro lado, fora do alcance dos meus olhos.
Porém, antes que eu possa de fato criar uma teoria plausível, o garoto ruivo atravessa o lugar me levando com ele. Por um breve momento estou em completa escuridão, meu corpo se torna mais leve do que o normal como se não existisse mais gravidade e, quando estou certa de que encontrarei a morte, meus pés se chocam com o chão. A rua desapareceu, não há mais carros, nem placas ou casas. O céu nublado de Curitiba foi substituído por um infinitamente mais azul e mais claro.
Encaro os arredores sem compreender, giro nos calcanhares, talvez na esperança (ou medo) de encontrar a carcaça do ônibus as minhas costas, mas meus olhos enxergam apenas mais chão de pedra branca. Sem fumaça, sem carros, sem asfalto, sem nada.
Volto a olhar para frente, por enquanto ignorando completamente os adolescentes agitados a minha volta. Não consigo entender sozinha, mas também não sei se quero que me expliquem. Quero respostas, mas tenho medo delas.
Talvez eu tenha morrido. Talvez essas pessoas sejam anjos e estejam me levando para o lugar que se vai após a morte. Talvez eu ainda esteja babando na poltrona do ônibus e tudo isso não passe de mais dos meus pesadelos bizarros. Se for esse o caso, devo admitir que dessa vez meu subconsciente se superou.
O chão de pedra branca cobre todo o terreno a minha volta, se estendendo até onde minha visão alcança, provavelmente além disso também. Ao longe consigo identificar silhuetas de prédios, mas não posso afirmar que sejam de fato construções e não montanhas, diferente do enorme edifício a minha direita que vejo perfeitamente. Inteiramente branco e majestoso, sua sombra intimidante se projetando sobre uma pequena coisa mais a frente, a minha esquerda. Um chafariz.
O pequeno item patético e sem vida quase invisível no meio to terreno, não tem água a sua volta e muito menos jorando de seu ápice. Parece não funcionar a muito tempo.
Ao lado do imponente prédio existe outra construção, cercada por longos muros de pedra branca que não consigo ver o fim. Um edifício gigantesco se ergue, aparentemente, do centro do espaço delimitado, tão majestoso quanto o primeiro, mas, por algum motivo, me sinto tentada a andar até ele.
Contendo esse desejo estranho, me preparo para a conversa que não quero ter. De repente estou consciente que meu corpo não dói tanto quanto antes, minhas mãos estão mais estáveis e de alguma forma me sinto mais forte. Infelizmente nada disso se aplica a minha saúde mental.
Engulo em seco ao reparar nos olhares sobre mim e empurro o desespero para um cantinho escuro da minha mente, preciso me concentrar no aqui e no agora. Preciso descobrir o que está acontecendo, preciso voltar para casa, preciso ver meus pais.
— Que lugar é esse? — não deixo de me surpreender com o tom firme da minha voz e para tentar me acalmar volto a varrer o lugar com meus olhos, atenta aos detalhes.
O bom de se estar em um ambiente curioso e verdadeiramente deslumbrante é que não preciso fingir interesse.
— Nós estamos em Wirdgewt, uma das oito cidades do nosso mundo. Do seu mundo. — Ethan exibe um sorriso orgulhoso.
— Como assim "meu mundo"? — encaro-o fixamente tentando encontrar sinais de desonestidade, mas seus olhos azuis são límpidos e verdadeiros.
— Isso pode parecer confuso, mas você não é como o restante dos mortais Thais, você é como nós — ele indica o restante do grupo, sua voz é tranquilizadora, mas não consigo me sentir muito confortável com as informações — Pessoas escolhidas para lutar pela Terra.
Tenho certeza que a careta que estou fazendo deve ser muito cômica, levando em consideração os sorrisos divertidos voltados para mim, mas não consigo evitar a descrença e a massa de raiva que está se formando no meu peito.
Ignoro completamente o beliscão que dei em mim mesma e me convenço de que ainda estou dormindo, porque não é possível que tudo isso seja real, com certeza ainda estou desmaiada no banco do ônibus e vou acordar a qualquer momento com Aline me estapeando.
Ethan me observa curioso e hesitante, parece querer perguntar algo, mas não tem certeza se deveria. De qualquer forma, antes que possa se decidir, é interrompido por uma voz ofegante o chamando aos berros.
O garoto irrompe pelos muros de pedra branca, está vestindo roupa social azul e parece ansioso. Ele para desconcertado ao perceber minha presença e ajeita as vestes rapidamente.
— Ethan, o diretor quer falar com você — observo-o atentamente, nunca vi alguém com uma postura tão correta.
— Tudo bem. Max, essa é Thais Windchest — eles trocam um olhar curioso e não posso deixar de encará-los aborrecida — Ela é nova, acabou de chegar. — a expressão de Ethan está tomada pelo cansaço, assim como sua voz — Se você puder apresentar o lugar para ela até eu falar com Martin, seria de muita ajuda.
— Claro. — ele me observa pelo canto do olho ainda curioso — Mas tenho aula daqui a pouco.
— Não se preocupe, aviso o diretor que você irá se ausentar dos próximos horários — o garoto se empertiga prestes a protestar, mas é interrompido por Ethan — Thais, Max vai te acompanhar até organizarmos sua chegada. Tudo bem? — a pergunta mais parece uma suplica.
— Tá, legal. — dou de ombros sem dar muito importância, sei que é um sonho e que estou prestes a acordar no ônibus ouvindo um discurso da professora.
Ethan é acompanhado pelos outros enquanto segue até os portões por onde Max saiu e o garoto incorpora o guia turístico. Ele diz que estamos na praça central onde ocorrem as escolhas (não sei do que, mas...), o gigantesco prédio branco é o edifício do governo onde são executadas as leis e todas as demais burocracias da cidade. A segunda construção, menor e cercada por muros, se trata do colégio preparatório de Wirdgewt, onde são lecionadas as matérias superiores.
Acredito que não preciso dizer que metade da explicação dele passa batido pela minha compreensão. Não consigo focar cem por cento no que ele está dizendo nem me comprometer a procurar entender.
Está demorando para acontecer.
— Seu chafariz não funciona. — coloco as mãos nos bolsos da jaqueta, observando o objeto no meio da praça tentando identificar a sensação familiar de estar beirando a consciência, mas ela não está aqui.
Eu já deveria ter voltado...
— Não funciona porque não é um chafariz. Venha. — Ele dá de ombros indiferente e se volta para o prédio do governo.
Não é um chafariz? Ora, então pra que diabos serve algo tão inútil?
Respiro fundo ignorando o fato de ainda não ter indícios de que estou voltando a consciência e sigo o garoto apressado.
O interior do edifício é tão majestoso e deslumbrante quanto o lado de fora, colunas se projetam até o teto abobadado, onde eu esperava ver lustres há graciosas esferas flutuantes, tão brilhantes quanto o sol que raia sobre a praça. O ambiente é amplo e bem iluminado, enormes janelas de vidro âmbar se espalham pelas laterais, o chão de mármore impecavelmente limpo e elegante. Bandeiras brancas estão fixadas nas pilastras, um carpete cinza acompanha o corredor principal, levando até uma mesa no fim do salão. Uma moça se encontra sentada mexendo tranquilamente em uma pilha de papéis, na parede atrás dela está gravado um imponente brasão, mas nunca o vi em lugar algum.
— Com licença, pode me dizer se a sala da pedra está livre? — a educação é quase palpável na voz de Max.
— Sim, ela está. Quer ver algum registro? — a voz dela é tão gentil e ela é tão fofa que me faz levantar uma sobrancelha. Quem meu subconsciente imaginou nela?
— Não, eu só estou apresentando o lugar para nossa nova recruta. Obrigado. — Max agradece direcionando-lhe um sorriso gentil.
— De nada. — diz a moça sorrindo docemente e continuo encarando-a esperando que ela vire um monstro ou coisa parecida.
Por que está demorando tanto?
Sigo Max até um elevador, seu interior é revestido de branco e sem espelhos, o brasão estampado na parte contrária a entrada, me permitindo observar os detalhes enquanto ele se move de forma quase imperceptível.
— O que significa esse símbolo? — observo o círculo negro notando que este circunda vários desenhos menores.
— É o brasão da cidade, ele representa todos os oito Meydrans. — seus olhos estão fixos na porta.
Olho do garoto para o brasão várias vezes, novamente certa de que estou fazendo uma careta engraçada, mas ele não presta atenção em mim, parece perdido nos próprios pensamentos. Ele não devia ser o meu guia ou coisa parecida?
Por que ainda estou dormindo?
— E Meydrans são o que mesmo? — seus olhos se voltam para o meu rosto, ele está sério.
— São os lugares onde ficam os nascidos de cada elemento. — suas palavras funcionam como uma fábrica de perguntas para a confusão generalizada que se tornou minha mente.
Tenho plena consciência que ele pensa estar dizendo coisas óbvias o que só piora a situação, porque não consigo compreender nada do que diz.
Qual é o seu plano dessa vez, me confundir?
— Certo. — o tom hesitante atrai sua atenção e ele me encara confuso.
Legal, agora estamos os dois confusos, que maravilha! Por que não consigo acordar?
— Ethan não te contou nada? — ele não parece muito surpreso com esta conclusão, apenas cansado.
— Não, absolutamente nada, só disse que eu deveria vir com ele. — digo encarando as delicadas linhas vermelhas que formam algumas chamas dentro do símbolo.
— É claro! Por que explicar se pode deixar que outro faça isso? — resmunga com uma expressão emburrada e suspira antes de voltar a falar — Bem, então é o seguinte, você não é humana — volto a encará-lo confusa e ele parece desconcertado — Digo, você não é completamente humana, tem uma parte com sangue especial — ele suspira quando minha expressão não se altera — Você consegue fazer coisas diferentes das outras pessoas, não é?
— Que tipo de coisas? — engulo em seco tentando ignorar o nó que está se formando na minha garganta.
— Não sei ao certo, eu nasci aqui — Max resmunga e parece procurar as palavras certas — Já aconteceu alguma coisa estranha com você? Alguma coisa que você não consegue explicar, mas sabe que foi você quem fez?
— Talvez. — respondo hesitante e ele me lança um olhar de incentivo — Explodi algumas coisas quando estava nervosa.
— É mais ou menos disso que estou falando — seus olhos me analisam com o mesmo brilho de curiosidade de quando Ethan me apresentou — Você nasceu com o dom de controlar elementos.
— Elementos? — novamente sou incapaz de evitar uma careta.
— Sim. — ele me encara fixamente e, mesmo com a imensa vontade de perguntar se perdeu alguma coisa na minha cara, me contenho e analiso as ondas azuis próximas as chamas — Bem, um elemento.
— Por quê? — indago me concentrando mais do que nunca em tentar acordar.
Isso não pode ser real. Com certeza é apenas fruto da minha preocupação com a situação.
Quase de forma instantânea, provavelmente desencadeado pelas lembranças, um calafrio sobe pela minha espinha e puxo as mangas da jaqueta, prendendo-as firmemente entre os dedos.
— Os seres humanos têm poluído e destruído a terra, então, ela precisa se defender, por isso a cada quinhentas crianças que nascem uma é escolhida pela Terra para lutar do seu lado. — juro que estou tentando entender, mas tenho a impressão de que minha cabeça está cheia de nós — Geralmente quando estão próximos dos quinze anos, ele ou ela, começa a ter sintomas de seus poderes e esse desenvolvimento chama atenção. Comumente, um de nossos líderes vai até esta pessoa para trazê-la para cá onde entenderá suas origens e vai lutar contra os inimigos.
— Que inimigos? As pessoas? — um grande ponto de interrogação se forma em minha mente. Afinal, o que Max e os outros são?
— Contra o que elas criam.
Sempre fui dotada de uma imaginação surreal e nesse momento ela prontamente se apresenta. Meus pensamentos são tomados pela imagem de um bando de adolescentes correndo atrás de um carro poluidor.
— Que tipo de coisas? — a pergunta sai quase que automática.
— Monstros criados pelo acúmulo de poluição. Há vários tipos deles e nós somos destinados a derrotá-los antes que destruam todas as condições de vida do planeta — Ele parece tentar descobrir o que estou pensando com seus olhos sérios e críticos — eles são como parasitas, se alimentam de poluição e sentem prazer em criar destruição.
Isso tem que ser um sonho, certo? Não é real. Não pode ser.
— Isso é ridículo. Basicamente, é como lutar contra um monstro de desenho animado do Max Steel. Tipo, “Ahá achei você seu papel de bala malcriado”. — respiro fundo tentando controlar o desconforto que aumenta em meu peito, pressionando-o.
Sei que estou sendo consumida pelo desespero que estou escondendo em minha mente desde que acordei no asfalto, mas não posso me dar ao luxo de me descontrolar, preciso me manter focada. Não posso cair nas peças pregadas pelo meu subconsciente.
Max me encara por um momento, ele parece irritado e quando finalmente decide dizer algo, as portas do elevador se abrem, revelando coisas enormes e horríveis, formas humanoides, sombras com olhos brilhantes e até seres disformes. O susto me pega antes que eu posso me situar e um grito escapa da minha garganta.
Sim, reconheço este momento, é agora que uma coisa horrível acontece e eu desperto suando igual a um camelo.
Sou bruscamente arrastada de volta a realidade pela risada de Max, contida e discreta, mas sem dúvida está se divertindo ao me ver grudada na parede do elevador.
— Claro, papel de bala malcriado, não é? — espio-o pelo canto dos olhos vendo seu sorrisinho debochado.
— O que são essas coisas? — me encosto mais ainda na parede quando ele começa a andar para fora do elevador.
— São os seus monstros de desenho animado. — tenho certeza que ele está adorando isso.
— Ok, isso não tem nada a ver com Max Steel! — ele segura as portas me encarando divertido.
— Não diga! — seus olhos vagam a sala rapidamente antes de voltarem ao meu rosto — vamos.
— Você quer que eu passe por essas coisas? — seguro a barra da jaqueta nervosamente.
— Eles não são de verdade, estas são apenas réplicas representando eles. — olho para a sala novamente, encontrando olhos vermelhos me encarando. Certeza que eu vou passar por ai... aham, tá bom — Essa é o andar do Triunfo, aqui estão representadas as grandes lutas e conquistas dos elementistas ao longo dos anos.
— Então eles são menos aterrorizantes de verdade? — seus olhos correm pela sala mais uma vez avaliando a pergunta.
— Não, eles são bem piores cara a cara. — como isso pode ser animador? — Agora vamos logo.
Encaro-o indignada, fato que ele faz questão de ignorar. Ainda hesitante, saio do elevador, seguindo-o rapidamente e mantendo a maior distância possível dos Elementors Super desenvolvidos. Max vai até uma porta no fim da sala que se abre quando ele coloca algo em um círculo brilhante na parede. Atrás da porta não tem nada de horrível (Oh glória!), muito pelo contrário, é um sala ampla e deslumbrante igual ao salão de entrada. Aqui os globos brilhantes vagueiam flutuando ao longo do ambiente, circulando tudo a área como se tivessem vida própria. As pilastras altas dessa vez exibem brasões (os mesmos presentes no símbolo da cidade) ao invés de bandeiras e o chão não tem carpete, é inteiro de mármore.
Nas paredes existem quadros alinhados com os vãos entre cada pilastra, analisando melhor percebo que os símbolos se repetem aos pares, um de cada lado do quadro. Sem ter tempo de assimilar os significados de cada portal dos quadros, minha atenção é totalmente tomada pelo cristal brilhante no fim do corredor.
— Thais, seja bem-vinda a Sala da Pedra, essa é a sala mais importante da cidade toda e significa muito para todos os elementistas. — olho-o de esguelha, ele exibe um sorriso orgulhoso e um pouco sonhador .
Encaro a pedra e em minha análise geral, ela não tem nada de especial se comparada a outras pedras brancas, mas algo em seu brilho e a forma como parece transmitir calor e conforto (eu sei, é estranho imaginar isso em uma pedra, mas estou lhe dizendo, é uma sensação estranha) a torna diferente de tudo que eu já vi.
Sinto algo confortável se espalhar pelo meu peito, um sentimento de familiaridade e acolhimento, como se de alguma forma a pedra me transmitisse segurança, o que não faz o menor sentido, eu sei, mas não questiono, pois os menos aqui dentro diminuem um pouco.
— Ah... — sem desviar os olhos do objeto e ainda aproveitando o momento, tento encontrar palavras — Ela significa o que exatamente? Parece apenas um pedra.
Seus olhos severos caem sobre mim intesamente e compreendo que usei as palavras mais erradas que eu poderia ter escolhido.
— Ela é o centro de tudo. Fornece, mantém e comanda nossa proteção — sua voz é séria e não deixa espaços para brincadeiras — Você tem respeitar e ser grata a ela porque, assim que aceitou vir com Ethan, você aceitou sua natureza.
Ai está. O estopim. Eu sabia que algo iria me tirar dessa ilusão toda de conforto em um instante. As palavras me atingem despertando uma raiva que eu não sabia que estava guardando.
— Aceitei? Não, não. Espere um instante. Você considera ser arrastada para um lugar estranho sem nenhum tipo de explicação coerente de aceitar? Então você tem sérios problemas Max, sinto muito por você é caso de internação. Já se consultou esse mês? Se é que tem médicos nesse lugar. — sei que estou falando demais e também sei que não estou fazendo muito sentido, mas a crescente percepção de que isso pode não ser um sonho não está contribuindo para a minha racionalidade.
Até posso dizer que estou admirada com a calma que tenho conseguido manter até agora, mas desde o início eu sabia que isso iria se desmantelar. Ao despertar no asfalto eu estava anestesiada e me deixei mergulhar na curiosidade da situação para não lidar com o que estava acontecendo. Agora as consequências chegaram e estou começando a surtar.
— Bem, primeiro, eu não sabia que tinha sido trazida dessa forma. Segundo, não tenho problemas porque elementistas não tem doenças ou qualquer coisa que prejudique nossa saúde e terceiro, sim temos médicos pra pequenos ferimentos somente. — sua calma me surpreende e ele me analisa apreensivo, como se, assim como eu, estivesse esperando um surto a qualquer momento.
— Ok, então o que acontece se tiver um elementista com um ferimento muito grave prestes a morrer? — eu estou gesticulando demais, falando rápido demais, isso não está certo.
Como assim eles só tratam ferimentos leves? Que tipo de lugar é esse? Eu preciso voltar.
— Isso nunca vai acontecer, porque elementistas não morrem. — ele explica como se fosse a coisa mais normal do mundo — pelo menos não por causas naturais ou por machucados normais.
Respiro fundo engolindo os xingamentos que estão na ponta da língua. Ele não tem nada a ver com isso, não foi ele quem me trouxe para esse lugar. Não era ele que estava fazendo não sei o que no local do meu acidente. Ele não tem culpa da minha cabeça ser perturbada.
— O que quer dizer com não morrem? — ele me encara como se eu fosse uma retardada, mas não posso culpá-la, fazendo perguntas idiotas desse jeito é de se esperar que pense dessa forma.
Nada nesse lugar está certo. O que aconteceu naquela rua? Quem são essas pessoas afinal? E o mais importante, o que diabos eu estou fazendo aqui? Porque eu não sai correndo quando podia?
— A qual é, em nome de Zeth, você é burra? — tudo bem, agora ele está irritado.
— Não. E que diabos é Zeth? — franzo a testa e percebo a pressão adicional no meu peito.
Levo a mão as costelas pensando que talvez a minha respiração instável seja devido ao corte presente ali, mas meus dedos não encontram nada. Sem corte, sem sangue, sem dor. Não tinha percebido que as fisgadas não estavam mais presentes. Testo mexer o joelho e esse também não protesta como antes. Não estou mais machucada, mas isso não diminui minha inquietação.
Por que não estou mais machucada? Pessoas normais não cicatrizam nessa velocidade. Talvez não seja um sonho, talvez eu esteja realmente morta.
Ou talvez você seja uma elementista.
Impossível.
— É o grande Shark, o primeiro na linhagem do meu elemento de sangue. — seus olhos se voltam para a pedra, quase tinha me esquecido da nossa conversa.
Tudo bem, se eu “pertenço a este lugar”, seja lá qual ele for, eu certamente não deveria ficar confusa com o que ele diz, mas é o que está acontecendo.
— Max, em nome tudo que é mais sagrado, qual a parte do “eu não sei nada sobre vocês, este mundo e o que existe nele” você ainda não entendeu? Quer que eu desenhe pra você o fato de não terem me dito nada? — agora estou no auge do descontrole, eu simplesmente não consigo mais me controlar, tudo o que aconteceu e continua acontecendo está acabando com a minha parte racional.
Ele me olha bravo, acho que finalmente meu dom da chatice o atingiu. Eu sou muito boa nisso, meu recorde foi irritar o professor de história em dois minutos na chamada quando o fiz repetir vária vezes o meu nome alegando que queria ter certeza de que eu era realmente a pessoa a quem ele se referia.
Aquele dia foi bem engraçado, tirando a parte que eu fui levada para a sala do diretor e perdi uma prova. Isso não ocorria muitas vezes, só em ocasiões muito específicas, me importo com minhas notas que nunca deram problemas aos meus pais. Eu não acho justo eles gastarem dinheiro no colégio e eu ir mal como muitos da minha sala faziam. De qualquer forma, em minha defesa, se tratava de um senhor preconceituoso e arrogante.
Distraída momentaneamente pelas memórias, acabei me esquecendo que ainda estava em uma conversa. Max ainda está me encarando e eu encarando-o de volta. A verdade é que não me lembro porque estamos nos encarando, mas não sei se é seguro interromper.
— Tá legal, vou contar desde o inicio, só presta atenção. — Finalmente! Meus olhos já estavam ardendo — Há muito tempo, acredita-se que desde o começo da vida na Terra, existem criaturas destrutivas que se alimentam da poluição do ecossistema. Claro que, se você se lembrar, no início de tudo não havia de fato tanta poluição assim, portanto as ações desses seres não eram lá muito preocupantes.
"No entanto, com a evolução das sociedades e o desenvolvimento dos humanos, a poluição foi aumentando progressivamente o que possibilitou a proliferação dessas criaturas hediondas. Sendo assim, a Terra precisava se defender de alguma forma, ou toda a vida seria devastada em pouco tempo, visto que os monstros, como os chamamos hoje, destroem tudo em seu caminho.
"Oito crianças foram escolhidas para começarem a linhagem dos elementistas, pessoas com habilidades capazes de resistir e destruir essas espécies. Mas, por via de regra, tudo que é ameaçado ou evolui ou morre, com os monstros não foi diferente. Apesar de ainda haverem muitos que são pouco desenvolvidos, a grande maioria deles evoluiu de forma assustadora em resposta a nossa criação. Se tornaram capazes de formar sociedades, estabelecer estratégias e até mesmo conseguiram adentrar o nosso mundo.
"Nós começamos a perder. A Terra precisou nos mandar mais reforços e desde então estamos em guerra. Eles se alimentando e se fortalecendo da poluição do mundo enquanto nós resistimos com os poderes oferecidos pela Terra. Você vai ter tempo de aprender tudo isso".
— Então, a poluição cria os monstros? — mais uma vez me agarro a curiosidade, afundando o resto em um buraco escuro.
— Eles são criaturas como todas as outras, precisam de alimento e condições de vida. Então, de certa forma sim, se você parar para pensar que se não houvesse poluição eles parariam de se proliferar. Encare-os como um doença que se espalha em larga escala.
— Certo. Então vocês partem do princípio que matá-los constantemente vai acabar com a ameaça? — ele parece desconfortável diante a pergunta, mas assente — Mas vocês não estão tratando a fonte, só estão remediando.
"Vocês não estão tratando a fonte dos problemas, ela precisa de terapia".
As lembranças inundam a minha mente e me sinto levemente culpada pela expressão desanimada de Max. Balanço a cabeça para me livrar das palavras da médica, não posso me distrair com isso agora.
— Bem, não podemos extinguir a raça humana, não é? Enquanto não conseguimos mudá-los, é a melhor maneira de impedir a destruição de tudo. — a calma volta a predominar sua voz e de alguma forma acaba me acalmando um pouco — Há monstros para cada um dos oito elementos: água, fogo, ar, terra, gelo, sombras, luz e eletricidade. Os oito primeiros elementistas foram trazidos a este lugar pelo espírito da terra que chamamos de Karyceres. A cada quinhentas crianças que nascem, uma será elementista, antes a cada cem mil uma criança tinha o dom, mas como os humanos passaram a poluir mais e mais, não dávamos conta. O nome Wirdgewt surgiu da junção de uma letra de cada elemento em inglês.
— Por que inglês?
— Por que o grande fênix era Inglês. — responde indiferente — Os poderes dos nascidos na Terra geralmente começam a criar problemas aos quinze anos, mas pode acontecer antes. Quando os grandes perceberam que tudo ficaria desorganizado, decidiram nos separar por elemento de sangue. Os lugares de cada elemento foram denominados Meydrans. Quando um elementista chega, tem que primeiro se formar um elementista.
Olho para o chão com o cenho franzido, algumas peças se encaixando e outras se soltando. É engraçado como a história funciona perfeitamente como uma válvula de escape.
— Nós temos uma escola onde cada um passa oito anos até aprender tudo sobre o nosso mundo, os monstros e aprender a lutar, para depois ir para seu Meydran e defender em uma equipe do governo, se decidir seguir a carreira militar. — ele explica percebendo minha confusão interna.
— Ótimo, robozinhos. — resmungo aborrecida.
Só para deixar uma coisa bem clara sobre mim, odeio dar ou receber ordens, não me dou bem com autoridades e odeio política ou qualquer tipo de polícia. Meu pai é um militar, mas eu não acho justo que seus soldados tenham que acatar tudo que ele diz, acho que todos nós temos o direito de dizer o que achamos sobre a ideia do líder e não só obedecer.
— O que você tem contra soldados? — Max arqueia as sobrancelhas sério.
— Por quê? Quer ser isso quando crescer? — era para ser uma brincadeira, mas ele não encara dessa forma.
— Sim, qual o problema? É o que a maioria quer por aqui, se tornar alguém importante na guarda de seu Meydran e ajudar a defender o melhor que puder. — Ele parece desconfortável e acabo me arrependendo do que falei.
— Não, problema nenhum, o sonho é seu mesmo. — desvio os olhos para o objeto brilhante a minha frente.
— Ok. Então, continuando, o nome do nosso colégio é Eurocado School. Lá nós aprendemos como controlar nosso elemento e usar nossas habilidades. Você estuda oito anos até se formar.
— Espere um pouco... Está me dizendo que eu vou ter que estudar tudo de novo? — encaro-o estática, nem morta eu faço o fundamental de novo! Só pode ser brincadeira.
— Como?
— Eu já estudei oito anos. Oito longos e detestáveis anos. Está me dizendo que vou ter que fazer isso de novo? — isso não pode estar certo, de jeito nenhum.
— Infelizmente sim. No Eurocado nós não aprendemos as mesmas matérias dos mortais, nós aprendemos as nossas matérias e mesmo que fossem as mesmas você teria que aprender combate e controle. — Max me olha com um certa pena, me deixando mais irritada.
— Eu não acredito nisso. Oito anos pra nada. — resmungo indignada, lembrando de todas as tarefas, trabalhos e muita outras coisas que fiz e aprendi em vão.
— Você vai ficar junto com os chegados da sua idade, no primeiro ano. — Ele me observa enquanto dou gritos histéricos internamente .
— Ótimo. — acabo sendo rude, mas, poxa, eu acabei de descobrir que vou fazer o primário novamente, desafio qualquer um a ficar feliz com isso — Você disse que nasceu aqui? — ele assente — Como funciona isso?
— Bom, nossa anatomia é de certa forma muito parecida com a dos humanos então...
— Não é disso que eu estou falando. — reviro os olhos, mas o tom rosado que invade seu rosto é engraçado — Quero dizer, como funciona a educação para os nascidos aqui?
— Nós estudamos nos colégios de matérias indispensáveis. Entramos quando completamos cinco anos e aprendemos coisas básicas como: escrever, ler, contar, entre outras coisas. — ele me observa para ter certeza de que estou prestando atenção — Os colégios ficam nos Meydrans, então estudamos apenas com pessoas do mesmo elemento. A maioria das crianças começa a desenvolver os poderes com dez anos e, assim que isso acontece, são transferidas para o Eurocado. Claro que os dons podem se manifestar mais tarde, como no meu caso, que entrei no Eurocado com quatorze anos. — ele respira e algo como saudade aparece no seu semblante — A partir daí temos a mesma educação que vocês.
"Estudamos as matérias consideradas superiores: Toxicologia, o estudo dos venenos e seus efeitos; Pugnalogia, a teoria do combate; Biologia, que não foge muito do que vocês aprendem na Terra, eu acho; Combate, onde nos ensinam a lutar; História, onde aprendemos todos os acontecimentos do passado; Cimexlogia, o estudo dos monstros e demais criaturas; Necrologia explica as formas como podemos morrer; e por fim a Habilitação que nos ajuda a controlar e dominar os poderes.
"Durante sete anos vamos aprofundando essas matérias para, no oitavo, nos especializarmos em uma determinada profissão que, dependendo de qual for, demanda anos suplementares de estudo. Como prova final, para nos formarmos, temos que enfrentar um desafio determinado pelo conselho de professores.
"Depois da graduação vamos para os Meydrans, onde compramos uma casa e vivemos com nossas famílias, ou sozinho, se a pessoa decidir assim."
Sorrio levemente em agradecimento, ele devolve o gesto e parece envergonhado por algum motivo que não entendo. Absorvo as informações grata por finalmente saber alguma coisa sobre esse mundo, mas no fundo a coisa incômoda que tenho ignorado ainda aperto o meu peito dolorosamente.
Elementista? Dons? Escolas que ensinam crianças a lutar? Monstros? Tudo ainda é muito abstrato e não consigui me convencer completamente que isto não passa de um sonho muito bem produzido. Seria mesmo possível que tudo que vem acontecendo comigo tenha uma explicação tão fantástica e assustadora assim? Ou tudo que ocorreu desde que acordei no asfalto é fruto da minha imaginação enquanto eu estou em coma em algum hospital? Talvez o acidente tenha sido muito mais grave e eu esteja na vida após a morte ou algo do tipo.
O acidente. Meus amigos. O fogo.
Afasto o pensamento horrível que tenta me dominar quando as imagens se chocam na minha mente. Não pode ser, eu saberia se tivesse sido, não saberia?
— Tudo bem, eu entendi, agora me leva de volta. — me levanto do lugar onde tinha me sentado durante a explicação, a aflição se expandindo dentro de mim. Max me olha confuso.
— De volta pra onde?
— Pra minha casa, pra onde mais seria? Preciso saber se meus amigos estão bem. — respondo impaciente, estou gesticulando demais, ansiosa demais.
— Você não pode voltar, não é permitido. — ele parece nervoso.
Ele não pode ficar nervoso. Eu estou nervosa. Eu tenho o direito de estar nervosa. Se ele ficar nervoso, me deixará mais nervosa e isso não vai acabar nada bem.
— Como assim não é permitido? Vocês não mandam em mim, posso sair a hora que eu quiser que, a propósito, é agora. Faça o favor de me levar de volta. — bato o pé no chão como uma criança mimada e sei que estou sendo ridícula.
Estou ficando cada vez mais irritada. Preciso me certificar que não estou certa. Precisa saber se essa ideia terrível que toma forma nos meus pensamentos é real.
— Você não pode sair daqui enquanto não se formar, existem regras restritas dizendo que não somos permitidos a ir para a Terra em missões ou seja lá o que enquanto não formos elementistas formados e integrantes uma equipe. — ele fala calmamente, mas isso não me acalma porcaria nenhuma.
— Eu quero que as regras se danem! Eu nunca as respeitei mesmo porque isso iria mudar agora. Você vai me tirar daqui ou eu vou ter sair sozinha? — minha voz se eleva alguma oitavas sem minha permissão.
— Pode tentar, não vai conseguir mesmo. Ninguém consegue. Nosso sistema é muito bem escondido de novatos. — ele ainda está calmo, mas não parece saber como lidar com a situação muito bem.
— Eu invadi o sistema do governo pra fazer um texto sobre política, não é como se eu não conseguisse fazer outra infiltração. — debocho, mas é apenas uma forma de tentar disfarçar o nervosismo crescente — Eu vou embora, com a sua ajuda ou sem ela.
— Não, você não vai. Eu tenho que te mostrar o resto da cidade, ai depois perguntamos ao diretor o que aconteceu com o ônibus da sua escola. É melhor aceitar, não tem como fazer melhor que isso. — agora ele parece temeroso.
Uma parte de mim tem plena confiança na minha capacidade de fugir, mas outra, mais forte e mais convincente, sabe que eles me encontrariam muito rápido. Respiro fundo, não quero esperar para descobrir o que aconteceu, não quero fazer tour nenhum, quero minha casa.
Minha respiração está acelerada de novo, a ardência no peito voltou, me encosto em uma pilastra fechando os olhos tentando me acalmar.
Não é verdade, não pode ser, eu saberia se fosse.
Mesmo de olhos fechados percebo sua aproximação, ele parece hesitante, mas não tenho certeza em relação a que. Sua mão está em meu ombro e é mais reconfortante do que eu esperava.
— Você está bem? — Max pergunta preocupado — O que houve?
— Como sei que isso não é um sonho?
Não abro os sonhos para descobrir como ele reage a pergunta, mas pela leva contração de sua mão imagino que esteja rindo. O sangue pulsa em meus ouvidos, me sinto perdida, confusa, me sinto doente.
— Você acha que está dormindo? — ele parece mais surpreso do que qualquer outra coisa — Thais, você não está sonhando, isso é muito real — ele aumenta o aperto em meu ombro — eu sou real e você também. Você é uma elementista, como eu, só que o seu caminho até aqui foi um pouco mais longo — ele ri levemente e consigo ver um sorriso solidário quando abro os olhos — você é uma de nós e tenho certeza que vai ser brilhante.
Mais uma vez agradeço com um sorriso e tento me recompor da melhor maneira possível. Deixo de lado o acidente, pelo menos por hora, para poder me concentrar no que está acontecendo.
— Você está bem mesmo? — encaro-o confusa e ele aponta para minha testa — Tem sangue no seu cabelo.
Levo as mãos ao local que antes tinha um pequeno corte, mas agora está apenas sujo com sangue seco, sem sinal de qualquer ferimento.
— Eu me machuquei quando... — engulo em seco e mais uma vez mexo nervosamente nas mangas da jaqueta — Quando caí, mas o corte parece ter sumido. É só sangue.
— Você está curando.
— Eu estou... O que?
— Curando — ele ri novamente e fico contente em saber que a minha confusão pelo menos o diverte — Nós cicatrizamos mais rápido do que os humanos, sua cura deve ter sido ativada quando você chegou.
— Certo — suspiro conformada e aponto para a porta — pode continuar com o seu tour, mas depois quero falar com esse tal diretor.
Ele assente e voltamos pelo mesmo caminho de antes. Os monstros agora me parecem menos aterrorizantes e não sei dizer se isso é bom ou ruim.
Saímos do prédio e mais uma vez posso contemplar a praça tão graciosa iluminada pela luz do sol. As árvores ao redor criando sombras sobre a pedra branca. Consigo ver grama ao longe, em frente ao prédio do governo, onde o extenso chão de pedra acaba em uma passarela mais estreita que se estende muito a frente de onde posso ver.
Max anda calmamente até a entrada do colégio, o muro de pedra branca refletindo o brilho do sol. O portão é constituído por duas pesadas portas de carvalho, ambas com metade de um símbolo que, provavelmente, se completa quando os portões são fechados. Em frente a entrada se estende um grande campo com árvores enormes espalhadas pelo terreno, alguns adolescentes caminham pelo lugar , consigo ver poucos sentados escorados nos troncos, mas o local está praticamente deserto o que acredito ser por causa do horários de aula.
Com a vista que tinha da praça eu tinha imaginado que o prédio do governo era maior, mas agora percebo que ele é apenas mais alto, sendo amplamente superado em comprimento. O prédio principal se ergue majestoso do centro do terreno — como eu tinha previsto — sendo composto por vários andares, construído com o mesmo material branco no edifício do governo, cheio de janelas altas e sua arquitetura semelhante a de antigas construções da Terra, mas, ao mesmo tempo, expressivamente mais moderno de uma forma que nunca vi antes.
Os detalhes graciosos e bem trabalhados em cada pedacinho das paredes faz com que pareça menos intimidador que seu vizinho, mas igualmente imponente. O mesmo símbolo que vi no portão está gravado em uma enorme placa de pedra branca: tem a forma do escudo do flamengo, só que quadriculado em branco e cinza com as letras E e S, ambas em quadrados maiores, um cinza e naturalmente o outro branco. Ao lado do escudo consigo ler a seguinte frase:
“Eurocado School, a escola dos combatentes para o futuro”.
— Quem fez esse slogan? — franzo as sobrancelhas sem reprimir um sorriso,
— Os primeiros. — Max responde simplesmente.
— Ele é horrível. — era para ser apenas uma opinião pessoal, mas novamente Max não vê dessa forma.
Ele me olha como se eu tivesse ofendido sua mãe e mais uma vez me repreendo por tentar aliviar meu nervosismo com piadas inconvenientes. No entanto, sei que nunca vou conseguir controlar perfeitamente essa parte minha.
— O que foi, só estou dizendo o que eu acho. — me defendo.
— Tenha mais respeito, este lugar tem mais anos do que podemos contar. — certo, ele não gosta muito de brincadeiras.
— Ok, ok, vou me lembrar disto da próxima vez que ver algo horrível aqui. — ele me olha de volta um pouco mais irritado e levanto as mãos como um sinal de rendição. — Tudo bem. Parei, parei. Desculpe.
— Esse é o prédio letivo, é onde temos todas as aulas — ele aponta para o edifício maior que eu estava admirando, depois indica a construção do lado direito — aquele é o prédio dormitório, na ponta esquerda você pode ver a cantina e nas outras duas pontas do prédio ficam a sala do diretor e a enfermaria.
O prédio dormitório é praticamente idêntico ao letivo, mas tem muito mais janelas e parece bem mais extenso do que consigo ver. Não tem portas de entrado ou saída para o jardim da frente e acredito que possa ser acessado apenas pelo lado de dentro do prédio principal.
A cantina é semelhante a uma torre, as paredes arredondadas e tão graciosas quanto o prédio maior, mas com a parte ligada ao gramado feita de vidro e o telhado em círculo feito de telhas vermelhas. É o primeiro lugar em que ele me leva ao adentrarmos o saguão, deslumbrante diga-se de passagem, amplo e bem iluminado pelas familiares bolinhas de luz (essas fixas no teto), o chão revestido por carpete cinza, as paredes brancas impecavelmente limpas decoradas com bandeiras brancas, assim como as pilastras do prédio do governo. Ainda não entendo a fixação dessas pessoas por branco, mas tenho que admitir que de alguma forma o lugar fica lindo apenas com branco e cinza.
Em frente a porta se estende um longo corredor e vários outros paralelos a ele, todos com carpete cinza e iluminados pelas bolinhas brilhantes. Max diz que ao fim dos corredores existe uma escadaria que leva para os andares superiores e isso se repete ao longo do prédio. Ele explica que mais corredores cortam os principais e é preciso estar alerta para não se perder a caminho das aulas. Sobre isso eu tenho certeza de que ele está dando um conselho baseado em experiência própria.
A cantina é muito maior do que aparenta do lado de fora, mas não tenho tempo de analisar melhor porque Max me arrasta dali antes que eu possa me apossar de um dos bolinhos de carne apetitosos que estão a vista. Não tinha percebido que estava com fome até o momento e meu estômago faminto está me fazendo esquecer a pequena simpatia que comecei a desenvolver pelo garoto.
Ele me escolta por vários corredores explicando coisas que vão se perdendo em meio a tantas informações, mas tenho certeza que mais tarde vou me arrepender de não ter prestado atenção. Armários brancos se distribuem em grupos pelas paredes, consigo ver alguns bancos pelo caminho, alguns vasos de flores decorando pequenos espaços, lixeiras, murais cheios de papéis, salas lotadas de alunos, cada uma com uma placa diferente que não tenho tempo de ler.
Depois de no mínimo vinte corredores e cinco andares (meus pulmões se perderam na terceira escadaria) paro de absorver qualquer coisa que Max explica. Sei que o dormitório só pode ser acessado do térreo assim como a cantina, sei que os armários estão espalhados pelo térreo e nos três primeiros andares, o sexto e sétimo andar são da biblioteca, há banheiros em todos os andares, as aulas práticas ocorrem no térreo e no primeiro andar porque facilita o caminho até a enfermaria, as aulas sobre a biologia elementista acontecem no segundo, aquelas referentes a história e pugnalogia no terceiro e, por mais eu tenha tentando, perdi as informações restantes.
Quando já estou conformada que não vou mais conseguir entender o que ele diz e apenas acompanho-o entediada, Max resolve voltar para o térreo e, mesmo eu tendo curado, meus joelhos reclamam ao descerem os longos lances de escada.
Ele corta para direita assim que terminamos de descer a última escadaria e passa direto por uma porta fechada, nela consigo ler os dizeres Combate I e II. Quando tenho certeza que Max irá ignorar o cômodo ando até a porta e, tomada por um impulso irresponsável de curiosidade, estico a mão para a maçaneta.
— Ei! Você esqueceu essa, o que tem aqui? — abro a porta lentamente.
— Não entra ai! — quando escuto suas palavras é tarde demais, a porta já está aberta.
No momento em que abro-a, sinto algo contra meu corpo, então percebo um garoto com um arco na mão mirado em minha direção. Pois é, ele está com o arco e eu acho que é de se imaginar aonde está a flecha. Está se projetando do meu peito. Sem risada, não é engraçado.
Consigo sentir o sangue começar a se espalhar pelo tecido da camiseta do colégio, meus sentidos ficando mais lentos e entorpecidos, meus joelhos cedendo a pressão da gravidade e meu corpo indo de encontro ao chão. Quando sou embrenhada na escuridão só consigo pensar que finalmente estou acordando.
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