Notas iniciais
Olá Pessoas... Aqui está o outro, capítulo 20 referente a junho. Ainda não corrigi, então desculpem-me pelos erros.

— De acordo com Lina, o nome dele é Patrick Kayle River, tem seis anos. Foi dado como desaparecido quando tinha três. Os pais e a irmã estão mortos.

Não lembro o exato momento em que meu quarto foi invadido por quatro garotas doidas e animadas. Bem, a maioria delas. Lilian está a mais ou menos meia hora falando de sua pesquisa sobre Patrick. Ela teve a capacidade de ir até o prédio do governo e pedir informações para a moça da recepção, que descobri se chamar Lina.

Lili está me deixando louca, o motivo? Simples, ela está andando de um lado para o outro enquanto sita todas as coisas que descobriu sobre meu pequeno amiguinho. Mari está esparramada na minha cadeira da escrivaninha, Rachel está deitada no tapete com os pés apoiados na cama. Não acredito que Milena tenha escutado nem cinco minutos do discurso já que está dormindo a um tempo na cama. Eu apenas estou deitada com a cabeça em uma almofada no chão.

— Aham... E o que isso tem de estranho? Muitos desaparecimentos como esse foram registrados na época dos Mitons. – Rachel joga a bolinha azul que está em sua mão para cima novamente e a agarra depois.

— Eu já ia chegar nesse ponto. – Lili meche nos papeis em sua mão em busca de algo – Achei! O que me deixou confusa foi o fato de que nos registros dele consta que ele nasceu em mil novecentos e noventa e sete.

— Não sou muito boa em cálculos, mas acho que isso dá mais de seis anos, certo? – a expressão da Lamp se contorce em confusão.

— Sim, esse é o mistério, como ele tem seis anos se nasceu antes de nós? – os olhos verdes de Lili brilham de curiosidade.

— Já sei! – Rachel diz após agarrar a bolinha mais uma vez, chamando nossa atenção – Clonagem.

Lilian solta um suspiro e encara a amiga com tédio enquanto reprimo uma risada. Marian apenas balança a cabeça , voltando atenção para o seu celular.

— Diga algo de útil Evans. – Lili suspira novamente e se apoia na escrivaninha – só estou dizendo, que isso é estranho, não é possível que vocês não queiram saber como um garotinho que nasceu a dezenove anos atrás, tem seis agora e o que ele estava fazendo no Alasca.

— Sabemos o que aconteceu. – todas me encaram, tirando Milena que ainda ressona calmamente babando no meu travesseiro – Qual é! Até eu que cheguei agora tenho uma ideia do que aconteceu com ele.

— Tá, se importa de dividir? – Rachel arremessa de novo a bolinha e Marian volta sua atenção para mim.

— Pelo que eu me lembro, os Mitons usam a essência das crianças e elas vivem dentro deles, então, é meio óbvio que o garoto devia estar com um deles e, talvez a forma de “vida” tenha retardado o crescimento. – explico meu ponto de vista.

— Isso não deixa de ser uma suposição. Convincente, mas é uma suposição. – Lilian aponta o fato.

— Aposto que Martin sabe. – Rachel resmunga ainda brincando com a bolinha.

— Tudo bem, já chega disso. – Mari levanta chamando nossa atenção – Hora do jantar meninas. Vamos.

Jogo meus braços sobre o chão e resmungo de olhos fechados. Lilian da risada me ajudando a levantar e vamos até o corredor.

— Ei! Gauthier! Acorda garota! – Rachel atira a pequena esfera contra o rosto de Milena que dá um salto e acaba caindo da cama, arrancando risadas de todas.

— Quem jogou a bolinha? – os olhos escuros faíscam e encaram Rachel que exibe um sorrisinho divertido – Por acaso acha que sou um cachorro?

— Não seria a primeira vez. – a lamp comenta se levantando – Hora do jantar Milena.

Rachel ignora o olhar ameaçador da amiga e segue até a porta, sendo atingida por uma nuvem negra a pouco centímetros da saída. Rachel fica pálida e Milena se materializa em sua frente.

— Não me provoque Lamp. – as duas se encaram para logo depois caírem na gargalhada.

Olho para Lili e Mari que estão tão confusas quanto eu.

— Que tal as duas dementes pararem de esquisitice, eu estou com fome. – Mari resmunga de mal humor.

— Eita! Está de mal humor? Brigo com o namorado querida? – Rachel provoca sacana e Mari revira os olhos seguindo em direção a porta de saída.

Desde que voltei do hospital, a três hora atrás, as coisas estão entediantes. Como já foi dito e me é lembrado a cada cinco minutos, estou definitivamente proibida de usar meus poderes até segunda ordem, o que é horrível. Antes do Alasca, eu tinha adquirido o costume de praticar a noite quando estava sem sono.

Entramos na cantina e Mari praticamente voa na direção das bandejas. Ao contrário de ontem, não estou com muita fome hoje, considerando que me empanturrei de rosquinhas no hospital. Milena está discutindo sobre algo com Rachel que aparenta estar considerando jogar seu suco na Shadow. Olho ao redor para me certificar que nada mudou desde ultima vez que estive aqui e fico feliz em encontrar apenas familiaridade.

Enquanto andava até meu quarto depois de chegar, fui parado por muitos alunos na sala e nos corredores do dormitório, sendo abraçada por alguns que nem conheço. Pois é, eles são bem hospitaleiros.

Me sirvo com poucas batatas fritas, uma colher de arroz e um pedaço de polenta. Vou confessar que senti falta dessa maravilha italiana. Minha vó adotiva nasceu em um bairro colonizado por Italianos, por isso, para mim sempre foi dito que minha descendência vinha de Italianos, assim como minha família materna, mas é só mais uma crença que vou ter que deixar no passado.

Seguimos até a mesa, que para a minha infelicidade conta com a presença de Austin. Não dirigi a palavra a ele desde que cheguei e não pretendo faze-lo tão cedo. Sento-me ao lado de Lili que, percebendo a tensão no ar, aproveita para implicar com Marian.

— O que você tanto procura Mccain? – ela cutuca a amiga com o cotovelo e só agora percebo que Mari está olhando para as portas de entrada da cantina.

Ela resmunga algo em resposta, mas não é bem uma palavra. Rachel está concentrada tentando escolher entre a salada e o pudim em seu prato. Mesmo encarando meu prato, consigo sentir o olhar de Austin queimando sobre mim e estou tentada a jogar-lhe o garfo na cara quando Max se senta ao meu lado.

— Então, seja bem vinda de volta. – ele exibe um sorriso nervoso quando olha para mim e sou contagiada a retribuir o sorriso. – Como você está?

— Ótima e obrigado. – ele assente com um sorriso de lado antes de se voltar para a irmã que está desesperadamente tentando abrir a garrafinha de suco.

Max solta uma gargalhada e pega o objeto de sua mão, fazendo Rachel encará-lo confusa. Ele abre o suco e devolve com um pequeno sorriso que é retribuído pela mais velha. Acho que eles realmente se entenderam, é bom vê-los assim.

Sou tirada dos meus pensamentos com o barulho de talheres indo de encontro ao metal da mesa. Todos olhamos em direção a Marian que exibi um sorriso enorme no rosto. De repente ela some e estou apenas encarando o vazio.

— Também senti saudade. – escuto uma voz muito familiar a minha frente.

Dirijo meu olhar para a porta de entrada e encontro um Jack risonho segurando Marian nos braços enquanto ela se agarra forte nele. Eles trocam um beijo que eu prefiro na assistir, mas ao desviar o olhar encontro um par de íris castanhas indesejável. Ficamos nos encarando um tempo e ele parece querer dizer algo, mas acaba por desistir.

Não sei bem o que estou sentindo em relação a ele nesse momento. Certamente a idiotice de estar bravo comigo por algo que eu fiz, mesmo sendo o certo a fazer, me deixa extremamente irritada e com vontade de socar sua cara. De qualquer forma, corto o contado visual quando Jack chega na mesa.

— Não vou mentir, eu senti falta de vocês. – seus braços estão em volta de Marian em um abraço esmagador, detalhe este que ela não parece se importar – Estou feliz que esteja bem, ruivinha, você nos deixou preocupados.

— É, já me disseram isso algumas vezes. – ele solta uma risada com a afirmação.

— Onde está a criatura que viajou com você? – por alguns segundos não entendo a pergunta de Rachel, mas a resposta de Jack explica.

— Se agarrando com James, provavelmente. – seu rosto é tomado por uma careta.

— Não aja como se você não estivesse fazendo a mesma coisa com Marian a um minuto atrás. – Lilian resmunga sem tirar os olhos da comida.

Jack e Mari ficam corados com o comentário, se sentam um ao lado do outro. Agora entendo porque de ela ter pego duas bandejas.

Eles começam a conversar sobre algo e avisto Blake vindo em nossa direção, concentrado em não derrubar nada da bandeja. Ele agarra um pãozinho, mas quando vai colocá-lo na boca o alimento some. Primeiro Blake parece confuso, mas logo sua expressão é tomada pelo tédio e ele encara nossa mesa. No espaço entre Rachel e Milena, que está concentrada em seu pudim, aparece uma pessoa risonha, assustando as duas garotas. Rachel praticamente pula no colo de Austin e Milena cai da cadeira, mas desaparece antes de encontrar o chão, reaparecendo em pé com os braços cruzados e expressão emburrada.

— Caramba! Eu amo esse pãozinho. – diz a garota ignorando o olhar de Milena.

— Valeri! – Rachel pula em cima da amiga, dando-lhe um abraço de urso, consequentemente fazendo as duas se desequilibrarem, porém, Valeri não tem a mesma rapidez que Milena, sendo assim, não consegue evitar a queda.

Milena sorri diante a cena e encara as duas no chão. Rachel ainda está abraçada a Valeri, esta que exibe uma expressão de tédio.

— Olá Gauthier. – diz ela irônica, apenas fazendo com que o sorriso da amiga aumente – Você já pode me soltar agora Rachel, acabou a cota de abraço, chega.

Rachel ignora a frase da amiga e Valeri desaparece novamente, deixando a Lamp abraçando o vento. Milena volta a se sentar e Rachel segue seu exemplo ainda procurando a terceira com os olhos, indignada.

Rimos da reação de Rachel e de repente Austin me encara furioso, mas quando estou prestes a perguntar o motivo, sou surpreendida por mãos tampando meus olhos. Por um momento fico tentada a bater na pessoa, mas sua voz me para, fazendo-me sorrir.

— Juro que se você tivesse morrido eu te trazia de volta para te matar eu mesmo. – solto uma gargalhada e retiro suas mãos do meu rosto, levantando para abraçá-lo.

Senti falta dele também, mas Lili me explicou que ele estava ocupado com reposições de algumas matérias e aulas extras para não ficar tão perdido. E desconfio que o chamado de Martin para que eu vá a sua sala amanhã tenha algo a ver com as tais reposições também.

Quando me afasto encaro seus olhos azuis que contém um brilho divertido. O sorriso em seu rosto é contagiante como sempre foi e talvez, só talvez, ele não esteja mais tão distante como quando chegou. Ao ver seu cabelo meu sorriso expandi, lá está o topete.

— Acredite, você não é o primeiro a dizer isso. – ele da uma gargalhada.

— Imagino. Me desculpe por não ter ido te ver no hospital. – ele suspira chateado – Não me deixaram livre esses dias.

— Sem problema, eu entendo, me explicaram os motivos. – asseguro-lhe.

— Obrigado Lilian. – ele se volta para ela sorrindo.

— Disponha. – ela devolve o sorriso e do nada fica séria – Já pedi pra me chamar de Lili.

— Desculpe. – Sorri vendo a irritação dela. – Eu tenho que pegar uns papéis na diretoria, até amanhã, que bom que está bem.

— Até. – ele dá um beijo em minha bochecha e vai embora.

Volto a me sentar e revido o olhar de Austin com um ameaçador. Em todas as vezes que discutimos ele não conseguiu me irritar tanto, mas está conseguindo sem proferir um palavra se quer dessa vez.

— Caio ficou muito preocupado com você. – Mari comenta.

— É verdade, ele sempre me perguntava como você estava e realmente ficou doido quando não pode ir ao hospital. Ele é um amigo de verdade. – Lili diz dando ênfase mas últimas palavras e fuzilando Austin com os olhos.

Apenas concordo com a cabeça e não encaro o ser a minha frente. Acho que consigo identificar outro sentimento além da raiva. Magoa. Sim, acho que no fundo eu estou magoada também, pela sua atitude infantil.

— Até que enfim o casal maravilha da o ar da graça. – diz Blake, que está sentado ao lado de Milena – Você me deve um pãozinho Gareth.

— Oi pra você também Blake. – Valeri resmunga se sentando junto com James – Jamais pagarei essa dívida.

— Tenho certeza que ele sabe. – James joga um pãozinho para o amigo.

— Controle sua namorada, Dalsin. – Valeri lança um olhar nada agradável para Blake.

— Missão impossível cara. – James recebe um tapa da namorada e sorri abraçando-a.

— Considere-se excluída da minha lista de pessoas merecedoras de abraço, Valeri Gareth. – Rachel diz magoada.

– Que sorte a minha. – Valeri dá de ombros indiferente.

– Valeri. – Milena a repreende.

Valeri revira os olhos e desaparece, se materializando atrás de Rachel, abraçando-a. A lamp mantém a expressão chateada, mas aos poucos exibi um sorriso, fazendo a Shadow voltar ao seu lugar satisfeita.

– Vocês vão ficar esgotados de tanto teleportarem. – Max não parece feliz com as ações dos amigos e me lembro de Lili dizendo algo sobre ele respeitar todas as regras.

– São distâncias curtas Max, não se preocupe. – Mari sorri com a expressão séria do garoto.

O jantar segue cheio de brincadeiras e algumas discussões que acabam resultando em gargalhadas. Quando terminamos, o refeitório está quase vazio e os que ainda estão ali apresentam expressões cansadas. Caminhamos todos juntos até a sala e só agora, vendo o grande relógio na parede, reparo que são quase dez e meia, o que explica o silêncio nos corredores e o fato das luzes estarem sendo apagadas.

Me despeço de todos e subo para o meu quarto. O cansaço finalmente me atinge e desmaio na cama após um banho rápido. Sem sonhos. Sem lembranças. Apenas apago, mergulhando na inconsciência.

Sou despertada por uma sirene alta e acabo batendo a cabeça na cabeceira da cama. Solto um gemido de dor e levo a mão sobre o local atingido. Olho em volta em busca do maldito som e meus olhos fixam em um pequeno item sobre o criado mudo, iluminado pela luz fraca do abajur (Eu dormi com ele ligado?). Fico estática ao encarar o objeto vermelho e preto gritando. Por alguns segundos penso que tudo foi um sonho e que estou em casa novamente, mas essa teoria vai por água a baixo quando as luzes do quarto acendem assim que coloco os pés no chão.

— Buenos dias, Thais. – a voz ecoa pelas paredes, quase tinha me esquecido dela.

Lilian me ajudou dias atrás a programar o quarto para agir sozinho em algumas ocasiões, como me acordar de manhã, acender as luzes quando piso no chão, avisar quem está do lado de fora quando batem na porta, vigiar o quarto com câmeras, responder minhas perguntas (desde que saiba a resposta, é claro), entre outras funções.

— Buenos dias. – respondo de olhos fechados por causa da luz – Eliminar las luces.

As luzes se apagam e volto a encaram o aparelho, agora silencioso, ao lado da cama. Como não notei ele ontem?

Pego-o e observo atentamente, tentando encontrar algo diferente, mas não vejo nada. É o mesmo aparelho que ganhei quando decretei para qual time de futebol iria torcer. Foi um presente do meu pai anos atrás, pensei que nunca mais fosse vê-lo, mas aqui está ele. Encaro o símbolo atrás dos ponteiros, CAP em branco no centro de linhas verticais alternadas em vermelho e preto. Sem perceber já estou abraçando o objeto e me afundando em memórias, mas dessa vez não choro, apenas sorrio ao lembrar dos muitos momentos vividos sendo torcedora com meus pais.

Sou retirada do mar de lembranças por batidas leves na porta. Encaro a madeira por alguns segundos voltando a realidade.

— Quién esta en la puerta? – questiono sentando na cama.

— Lilian Scolter. – a resposta vem imediatamente.

— Encender las luces y abrir la puerta. – como sempre tudo é feito rapidamente.

Ouço os passos de Lili dentro do quarto e a porta se fechando em seguida.

— Por que está abraçando um relógio? – abro os olhos lentamente tentando me acostumar com a luz, depois a encaro franzindo o cenho, que diabos de roupa ela está vestindo?

— Por nada. – olho-a da cabeça aos pés confusa – Que roupa é essa?

Ela olha para a própria roupa com uma expressão de desgosto antes de suspirar pesadamente e responder irritada.

— Pois é, esquecemos de te avisar deste pequeno detalhe ontem. Temos novas regras. – ela revira os olhos como se lembrasse de algo desagradável – O uniforme é padronizado agora e obrigatório, ou seja, precisamos vestir isso.

Faço uma careta e ela assente, confirmando o que disse.

— Você está brincando, certo? – pergunto esperançosa.

— Infelizmente não. Essa porcaria já deve estar no seu armário também. – resmunga.

Levanto-me deixando o relógio no criado mudo e sigo até o guarda-roupa. Ela está certa, aquela coisa já está aqui. Quatro pares na verdade. No canto esquerdo, em cabides se encontram camisas brancas com o escudo do colégio e o brasão dos Sharks, suéteres azuis marinho com listas brancas na gola v, também com os símbolos, blazers da mesma cor que os suéteres com os dois símbolos, mas o brasão na cor branca e horríveis saias. Como se não bastasse serem saias, elas ainda são xadrezes com vários tons de azul e alguns riscos brancos. E para piorar a situação ainda tem meias três quartos da mesma cor que os blazers, vários pares. Esse uniforme é terrível e eu nem contei dos sapatos pretos.

— Eu não uso saia. Eu as odeio. – encaro Lili sentada na minha cadeira da escrivaninha.

— Considerando que estavam organizando um movimento para banir as saias, acho que você não é a única. – ela suspira cansada – Já tentamos até botar fogos nessas coisas, mas não queima. Você não precisa colocar o suéter, é para dias de inverno.

— O que o Martin tem na cabeça? – me jogo na cama indignada.

— Não foi ele. – Lili dá um risada sem humor algum – Foi o novo inspetor.

— Quem? – não me lembro de nenhum inspetor.

— Depois do que aconteceu no Alasca, muitas pessoas culparam o Martin e os representantes da cidade receberam algumas reclamações, alegando que o diretor está abalado com o que está acontecendo na cidade e que deve ser isento de algumas responsabilidades no colégio para que possa se concentrar nos para com os cidadãos de Wirdgewt . Então houve uma votação e foi enviado um “ajudante” para cá, o inspetor. – ela revira os olhos mais uma vez e sua expressão demonstra irritação – Idiotas.

— E o que ele deveria fazer? Nos obrigar a parecer palhaços? – eu nem sei quem é esse tal de inspetor, mas já não fui com a cara dele.

— Segundo o Martin e ajudá-lo a “deixar o colégio em ordem no meio de tanto caos do lado de fora”, palavras do mesmo. – responde com tédio – Além do Alasca, as ocorrências de brigas também chegaram aos representantes.

Automaticamente me sinto culpada, já que também contribui para a lista de brigas. Quero voltar para meu quarto de hospital e dividir rosquinhas com David enquanto ele conta a vida dele, melhor do que ficar aqui pra ver esse cara.

— Por que não tinha ninguém vestido assim quando cheguei ontem? – encaro-a curiosa.

— Fomos liberados as quatro horas ontem por causa de uma reunião de última hora. – ela encara o teto suspirando pesadamente.

— E por que não vi nem você, nem Mari com esse negócio quando iam ao hospital?

— Está brincando?! Eu nunca vou ultrapassar os portões desse colégio vestida assim e Mari não pensa diferente. Na verdade, acho que ninguém. – ela responde irritada – Anda, você precisa trocar de roupa ou vamos nos atrasar.

Me arrasto choramingando até o armário e pego o primeiro conjunto olhando-o com desprezo. Vou até o banheiro, tomo um banho rápido e me visto depois de terminar minhas higienes. A saia vai até um pouco acima do joelho e é franzida na barra. Parece uma saia escocesa, só que mais curta. Estou começando a sentir falta das roupas hospitalares. Prendo meu cabelo em um coque mal feito e entro no quarto novamente. Lili me encara e segura o riso.

– Não ouse. – resmungo e ela assente risonha.

– Você esqueceu a gravata. – aponta ainda sorrindo.

– Você não está com uma gravata. – retruco.

– Ai que você se engana. – Ela leva uma mão até o bolso do blazer e tira de lá um objeto azul royal. – Não sei fazer o nó, estava esperando Mari, mas acho que ela já desceu.

– Não tem nenhuma gravata no meu guarda roupa.

– Segunda gaveta, lado esquerdo. – fala entediada.

Volto ao guarda-roupa e abro a gaveta encontrando as benditas gravatas. Observo o pedaço de pano com repulsa. De tanto ver meu pai fazer os nós das dele aprendi a técnica, então, arrumo rapidamente a gravata. Prefiro mil vezes parecer um lápis de cor azul.

– Eu te ajudo com isso, me dá a gravata. – estendo a mão e Lili me entrega o objeto.

Ajeito sua gravata e ela finge estar sendo enforcada deixando claro que é uma ideia que está sendo avaliada em sua mente. Quando termino saímos do quarto. São sete e cinco, temos cinquenta e cinco minutos para comer.

Ela estava certa, ninguém parece feliz com o novo uniforme. Quando chegamos na sala, tem algumas filas com pessoas ajudando a fazer os nós das gravatas o que me faz sorrir. Enquanto andamos até a cantina, encontramos Mari com o novo uniforme dos Shadows. É basicamente o mesmo que o nosso, apenas com brasão diferente e de cor diferente.

– Não fala nada. – ela levanta um dedo para mim quando estou prestes a falar.

Nós três entramos na cantina que está até engraçada. É uma confusão de blazers de várias cores e novamente as expressões irritadas dos alunos estão presentes. Olho para nossa mesa, Max e Jack estão sentados. Jack está mexendo na gravata desconfortável, ele próprio já manifestou seu desgosto por elas uma vez e Max, bem, esse eu acho que não foi afetado pela regra nova, porque já se vestia assim.

Olho para o balcão e seguro um gargalhada. Milena está parada furiosa enquanto arruma a gravata preta. Rachel está ao seu lado olhando com desprezo para o blazer amarelo em suas mãos, ao contrário do irmão, ela não costuma se vestir assim.

Sigo para o balcão e me sirvo do belo café da manhã. Mesmo a comida do hospital sendo boa, não supera a do colégio. Sento-me na mesa sendo acompanhado por Lili e Mari. Passados alguns minutos, Milena se senta pesadamente ao meu lado.

— Tem algo de errado com a sua gravata Milena. – Max comenta.

— Eu sei Evans. – ela lança um olhar mortal para o garoto.

— Eu definitivamente odeio esse blazer. – Rachel joga o objeto sobre a mesa.

— Detesto mais a saia. – Mari fala aborrecida.

— Dane-se a saia e o blazer, essa coisa está me enforcando. – Lili aponta para a gravata.

— Pelo menos você sabe fazer um nó decente. – Milena parece extremamente descontente.

— Meninas, vocês ainda não se acostumaram? Já fazem três dias. – Max parece cansado.

— Jamais vou me acostumar com essa ditadura. Quem ele pensa que é? – Rachel joga os braços sobre a mesa exasperada.

— O cara que tem o poder de nos fazer usar uniformes. – Acho que isso se repetiu nos outros dias, já que Max parece estar vendo e ouvido tudo pela décima vez.

— Eu quero sumir. – Mari se debruça sobre a mesa.

— Você pode fazer isso. – Rachel aponta se recostando na cadeira.

— Não com aquele panaca por ai. – Marian suspira extremamente chateada.

Jack não diz uma palavra, apenas puxa-a para si, abraçando-a com um braço enquanto come. Começo a comer, ignorando o aperto desconfortável em meu pescoço. O blazer limita meus movimentos me deixando mais irritada. O metal frio da cadeira contra minhas pernas faz com que arrepios percorram minhas costas.

— Eu vou matar aquele cara. – Blake se joga na cadeira irritado.

— Você tem que usar saia? Não, então fique quieto. – Milena rosna ao meu lado.

Blake revira os olhos, mas não diz nada. O mal humor da Shadow está pior hoje, deixando claro que falar com ela é perigoso. Ao olhar para porta seguro o riso novamente. De pé com expressões raivosas se encontram Bryan, James H e Luide. Estão vestindo calça social, camisa branca, gravata, blazer e sapato social, cada um com cor diferente. Apenas uma coisa está diferente das meninas, claro eles usam calça, mas ao contrário de nós, todas as calças são pretas, o que muda de cor é o blazer e a gravata.

Luide está ajeitando a gravata verde musgo. Brayan está com os braços cruzados e andando pesadamente até o balcão, enquanto James H tenta desesperadamente arrumar o nó da gravata púrpura.

— Bom dia. – Caio se senta a minha frente com um pequeno sorriso.

— O que tem de bom nele? – Lili o encara brava.

— Tudo bem, eu vou tomar café com o time. – ele se levanta rápido e segue até uma mesa cheia de Aires.

Não sabia que ele estava no time.

Acho que o uniforme deles é ainda pior, considerando que da cintura para cima é todo branco, com exceção do brasão bordado em preto.

— Miserável, idiota, imbecil, retardado, deficiente mental... – Valeri resmunga enquanto se senta acompanhada de James.

— Você vai acabar com a lista de insultos e não vai adiantar de nada. – James adverti com tédio.

— Ah.. Milena, a sua gravata...

— Tem algo de errado, eu sei. – Milena interrompe Valeri.

— ELE ESTÁ VINDO! – eu garoto grita na entrada da cantina e todos se calam.

— Ótimo, eu vou matá-lo com essa gravata ridícula. – Valeri exibi um sorriso maquiavélico.

— Se comporte. – James segura o braço da namorada com um olhar severo.

Encaro a porta quando um sujeito alto passa por ela. Ele tem cabelos negros, pele parda e veste um terno finíssimo. Sua expressão é rígida, parecida com as que eu via nos soldados quando ia visitar meu pai no trabalho. Ele olha ao redor e para em uma pessoa em particular por alguns segundos. Lira. Ela se encolhe na cadeira como se quisesse desaparecer. Ela está sem gravata e reparo que algumas pessoas olham-na com raiva.

— Bom dia. – a voz dele é grossa e alta, quebrando o silêncio da cantina – Venho apenas lembrá-los que devem estar na sala antes do sinal, qualquer aluno que se encontre no corredor após o início das aulas será terminantemente castigado, relembrando que os alunos das aulas de combate devem ficar dentro dos limites impostos e os que estão de licença ou qualquer outro motivo que os faça serem liberados das aulas, devem permanecer no dormitório.

Enquanto ele fala, as expressões de desgosto e irritação aumentam, os alunos parecem estar ao ponto de esganá-lo com as próprias mãos. Na minha análise pessoal ele parece orgulhoso e detestável.

— Me agrada ver que estão todos de uniforme, mesmo que alguns incompletos, o que eu espero que mude antes de irem para a sala. – ele direciona um olhar significativo para Lira que se encolhe mais, se for possível – Tenham um bom dia.

Enquanto anda até a porta, olhares raivosos o seguem. Valeri rosna e volta a comer seu café irritada.

— É isso ai, viva a ditadura, com cumprimentos de Mathew Argonel. – Lilian praticamente cospe o nome.

— Espera... Argonel não é o sobrenome da...

— Lira? Sim, ele é o pai dela. Adorável. – ela me interrompe falando com desdém.

— Ela não parece feliz com isso. – observo a garota saindo rapidamente do refeitório de cabeça baixa enquanto recebe olhares desaprovadores.

— E não está. Ela foi a primeira a reagir contra isso, mas não tinha muita coisa que ela pudesse fazer. – Rachel apoia a cabeça nas mãos emburrada.

— Certo. Eu vou pegar meus materiais. – aviso antes de me levantar.

Eles concordam e voltam a comer desanimados. Ando pelos corredores de forma robótica, pensando na merda que está sendo esse dia e ele nem começou direito ainda.

Abro meu armário e chego a conclusão que ele precisa de uma arrumação urgente. Os livros estão caídos, o jaleco jogado sobre uma pilha de papeis e um líquido azul, que desconfio ser tinta de caneta, esta espalhado sobre meu caderno.

— Ótimo, maravilha de dia. – resmungo pegando alguns papeis para limpar a tinta – Caneta idiota.

Quando retiro o caderno, a caneta, que estava atrás, cai sobre o jaleco branco. Amaldiçoo o objeto mil vezes antes de andar até o lixo mais próximo e me livrar dela. Minha mão está completamente azul e por pouco não sujo a camisa. Ando até o banheiro do corredor e tento tirar a tinta, sem muito sucesso. Estou prestes a lançar outra onda de palavrões quando escuto um soluço vindo de um dos boxes.

Fico em silêncio tentando escutar novamente. Quando o som volta a se repetir, ando lentamente até a porta e bato de leve. O barulho cessa e a pessoa funga.

— O que foi? – mesmo com a voz embargada a reconheço.

— Por que está chorando Lira? – recebo apenas o silêncio como resposta.

Encaro a madeira da porta por alguns minutos, pensando se devo ou não bater novamente, até que ela se abre revelando uma garota ruiva de cabeça baixa.

— Não estou chorando. – resmunga andando até as pias.

— Ah claro! Consigo pensar em apenas três explicações para seus olhos inchados e vermelhos. Você está usando drogas, caiu um cisco no seu olho ou você está chorando. – enumero com os dedos enquanto falo.

— Por que está falando comigo? – ela sussurra e demoro um pouco para compreender.

— Porque não tenho um motivo coerente para não fazê-lo. – ela me encara e vejo seus olhos dourados brilharem um pouco.

— Não está com raiva? – sorrio ao perceber sua surpresa.

— Por que eu deveria? – ela volta seus olhos para a pia e lava o rosto.

— Acho que a essa altura você já sabe. – balanço a cabeça afirmativamente, mesmo ela não vendo o gesto.

— O que eu sei é que o colégio tem um novo inspetor que não está deixando os alunos contentes. – seus olhos caem sobre mim novamente – Mas não vejo motivo para ficar com raiva de você.

— Bem, o cara chato de terno é meu pai. – ela arqueia as sobrancelhas esperando uma reação.

— Eu sei. – afirmo – Novamente, por que tenho que ficar com raiva de você? Não é você que está me obrigando a usar essa saia ridícula, ou essa gravata miserável e esse blazer infernal.

Ela sorri e assente. Se vira para o espelho, tira a gravata vermelha do bolso e a ajeita no pescoço com desprezo.

— Obrigado. – diz ao terminar.

— Não há de que. – ofereço-lhe um sorriso.

— Vamos, temos aula. – ela anda até a porta.

Jogo a cabeça para trás e amaldiçoo o dia mais uma vez. Volto ao meu armário com alguns pedaços de papel e limpo o máximo que consigo da capa do caderno. Lira segue para o quarto andar e eu vou para o terceiro.

Assino a chamada da aula de história e entro na sala. Ela está quase cheia e o professor já se encontra em sua mesa conversando com alguns alunos que aparentam estar indignados. Varro o lugar com os olhos e paro em Milena sozinha em um canto. Sigo até lá e me sento ao seu lado. Ela levanta os olhos rapidamente antes de voltar para o desenho que está fazendo no caderno.

Faltando um minuto para bater o primeiro sinal a sala enche. Todos entram correndo e o professor fica na porta olhando para o relógio. Austin chega correndo, assina a chamada rapidamente e entra com o sinal ecoando pelos corredores. Ele está com a gravata pendurada no pescoço, sem o nó. Praticamente se joga na cadeira ao lado de Jake.

A aula é tão entediante quanto qualquer outra aula de história. Após quinze minutos de aula, Milena se debruça sobre o caderno e dorme, aparentemente. Anoto algumas coisas do que o professor diz, mas a verdade e que quando ele começou a falar sobre formações de equipes, a imagem do soldado de preto ontem volta a minha cabeça. Por que ele estava com uma espada? Por que perecia tão diferente dos outros Shadows? Por que diabos estava com uma máscara?

São tantos porquês que sou obrigada a parar de me fazer perguntas ou meu cérebro vai começar a fritar. Os minutos restantes são torturantes, porque não consigo me concentrar na aula, mas também estou tentando parar de pensar no soldado e consequentemente meus pensamentos voltam a pensar em meus pais, assunto que também não quero pensar no momento. Tentando evitar esses, minha mente vaga até o Alasca, mas afasto as memórias de Patrick quase morto. Então imagens de Austin chegam, acontecimentos de dias atrás. Ele me ensinado a voar, a discussão na torre do relógio, a visita a minha casa, etc.

Acabo ficando surpresa com os pensamentos, sem perceber o encaro confusa e ele sustenta meu olhar, tão confuso quanto eu. Eu quero bater nele por não ter vindo falar comigo, mesmo eu estando com raiva, queria que ao menos ele tivesse tentado. Estou magoada pela indiferença, irritada pela infantilidade, furiosa por me sentir assim e mais irritada ainda por me deixar ficar assim.

O sinal bate novamente me fazendo desviar o olhar, mas ainda sinto o seu. Saio rapidamente da sala com o objetivo de fugir dele. Eu realmente não me entendo, em um momento quero que ele fale comigo e no minuto seguinte fujo.

O corredor do meu armário está vazio, o que não faz muito sentido. Começo a pegar meus materiais calmamente quando sou surpreendida por uma voz.

— Posso falar com você? – ele bagunça os cabelos, gesto que entrega seu nervosismo.

O encaro analisando as opções que tenho: Bater nele e depois ir embora... Ignorá-lo e depois ir embora... Responder não e bater nele... Bater nele e bater nele. Todas são tentadoras, mas decido ficar com a segunda.

— Thais, é sério. Preciso falar com você. – sua voz treme um pouco.

— Se me lembro bem, as últimas vezes que dei ouvidos a você me arrependi depois, então não. – abuso da arrogância.

— Eu sei, eu sou um idiota e todos os outros adjetivos que você está pensando agora. Eu só queria me desculpar...

— Você já fez isso. – interrompo-o irritada – A alguns dias atrás, quando você foi um idiota. Não se cansa de pedir desculpas?

— Não quando é necessário pedi-las. – seus olhos estão fixos em mim e estou me segurando para não levar minha mão até sua cara.

— Mas eu me canso de escutar. – bato a porta do armário com força e o encaro – Cansei de aceitar suas desculpas Clarck, já percebeu que você sempre pede quando fez uma idiotice sem cabimento algum? Você parece uma criança brigando por coisas idiotas, sendo que essas coisas eram as certas a se fazer.

— É por isso que eu estou aqui. – ele suspira e coloca as mãos nos bolsos da calça nervosamente – Eu fui um completo idiota não indo te ver no hospital e brigando com você por ter salvado uma criança.

— Se está aqui para afirmar o que eu já sei faça o favor de sair da minha frente, eu tenho mais o que fazer. – a raiva transborda de minhas palavras.

– Eu sinto muito. – ele insiste.

– Já ouvi isso antes. – exibo um sorriso irônico – Apenas palavras vazias vindas de você.

– Por favor, abaixa a guarda e me ouve. – seus olhos castanhos suplicam.

– Não tenho motivos para fazer isso, eu não deveria nem estar falando com você. Da última vez que me pediu desculpas eu avisei que não faria aquilo novamente, se você acha que eu estava brincando, você pode estar mais errado. – as palavras jorram incontroláveis – Eu cansei das suas promessas mentirosas e das suas idiotices, eu não sou obrigada a te escutar e te desculpar quando quer. Você errou, não tente consertar o que já deixou de existir. Palavras não remendam buracos e a nossa amizade está cheia deles.

Ele parece ter recebido um soco e aproveito a deixa para seguir meu caminho, ou tentar já que ele agarra meu pulso fazendo todo meu corpo se contrair. Deixo os materiais caírem e sinto meu corpo mole indo de encontro ao chão. O que diabos aconteceu?

– Thais! – abro os olhos rapidamente vendo imagens desfocadas – Santo Zeth! Você está bem? Me desculpe eu não queria fazer isso, acabo me descontrolando quando estou nervoso.

Sinto seus braços circularem meu corpo e ele me levanta. O chão parece ter sumido debaixo dos meus pés e minha pele está formigando. Aos poucos meus olhos voltam a focar e minha respiração se acalma, mas ainda sinto uma certa eletricidade pelo corpo todo.

– É sério? Duas vezes em um mês? Qual vai ser a próxima maneira de tentar me matar? – me desvencilho de seus braços e me apoio nos armários tentando controlar meus batimentos cardíacos.

– Me desculpe, não estou controlando meu lado Elétrick muito bem ultimamente. – ele ainda me encara e parece pálido.

– Tanto faz. – volto a ficar em pé quando recobro todos os sentidos.

– Da pra parar de ser tão indiferente por alguns minutos? – agora ele parece indignado.

– Não. – respondo com um sorriso de escárnio.

– Por Zeth! Me desculpe por brigar com você sem motivo algum! Eu simplesmente perdi o controle quando te encontrei morrendo no meio de todo aquele gelo, eu perdi a cabeça quando me disseram que você talvez não acordasse! Você não tem noção do desespero que foi cogitar a ideia de que você voltaria a ser mortal. Eu fiquei furioso com você, fiquei indignado ao saber que você simplesmente colocou sua vida em risco sem pensar duas vezes.

– Eu estava tentando salvar um garotinho que estava morrendo e precisava de ajuda, seu idiota! – grito interrompendo-o.

– Eu sei! – ele leva as mãos a cabeça bagunçando ainda mais o cabelo – Eu estava sendo egoísta, eu não conseguia agir de outra forma porque eu estava desesperado e eu covardemente descontei em você a raiva que eu estava sentindo de mim mesmo por estar de condenando por algo tão corajoso que, talvez, nem eu tivesse a ousadia de fazer.

– Já parou pra pensar que sempre desconta sua raiva nas pessoas em vez de si mesmo? – rosno.

– Esse é o ponto, eu me odeio por fazer essas idiotices quando somente eu sou o culpado de tudo. Eu envolvo pessoas que não tem nada a ver com meus problemas. – ele passa as mãos no rosto exasperado – E eu continuo pedindo desculpas porque o máximo que posso fazer.

– Talvez a solução seja parar de ser um completo babaca e crescer!

– Você está certa. Está certa quando me condena por tudo isso, está certa em me odiar, está certa por mil razões. Me desculpe por existir Thais.

– Seu idiota! Eu não...

Talvez minha próximas palavras fossem ter um efeito catastrófico sobre ele ou não, mas nunca saberei, pois sou interrompida por passos rápidos vindos do corredor ao lado. Estou pronta para enfrentar o inspetor quando sou surpreendida por uma cabeleira negra correndo desesperadamente. Assim que ele me vê, corre em minha direção e se agarra em minha cintura. Fico estática, sem saber como reagir perante a ação do garoto.

Austin me encara confuso, mas não sei o que falar e nem quero falar com ele agora. Afasto o menininho e me ajoelho com as mãos em seus ombros.

– O que foi? O que você está fazendo aqui? – em vez de responder ele se agarra em meu pescoço, me deixando sem reação nenhuma além de abraçá-lo.

Olho para frente em busca do que o amedrontou e vejo algo preocupante. Um soldado de mascará correndo pelo corredor enquanto as luzes queimam, engolindo-o nas sombras.

Notas finais
Pessoas... Até semana que vem, eu acho. Se não for, prometo não demorar. Bjs até o próximo.