Elementium - Volume 1 - A Ascensão
9 As Barreiras Caíram
Notas iniciais
— Eu só quero ver ele — Lílian insiste pela décima vez.
— Mas a senhorita não pode. Sinto muito, mas o senhor Evans está em observação e não é seguro um shark ficar na mesma sala que ele — a enfermeira responde novamente com ar cansado. — Por favor, fique na sala de espera. Será informada quando puder vê-lo.
— Como assim não é seguro um shark ficar perto dele? Ele é um shark! — ela se exalta batendo o pé como uma criança mimada.
Não consigo ver sua expressão, já que está de costas para mim, mas tenho certeza que não importa quantas vezes ela tente intimidar a mulher, esta não vai deixá-la ver Max. Para falar a verdade ainda não sei como ela não foi retirada pelos seguranças. Ela já fez muito barulho desde que chegamos aqui.
Assim que entramos em seu andar no dormitório feminino e lhe contamos o desastre que aconteceu na piscina, ela saiu em disparada para a enfermaria sem nos dar qualquer chance de acalmá-la. Marian ainda estava muito cansada, então nem tentamos seguir seu ritmo.
Quando a shadow estava minimamente recuperada e eu devidamente vestida mais uma vez, Jack mandou uma mensagem avisando que Max seria transferido para o hospital. Aparentemente a enfermaria julgou que o caso dele está acima das capacidades do colégio, por isso precisa de acompanhamento médico mais especializado e equipado.
Marian e eu chegamos ao hospital a uma hora, mais ou menos, e desde antes disso, Lílian já estava surtando por não termos notícias.
O que sabemos é que ele foi submetido a procedimentos de emergência e que está em observação em uma ala isolada. Segundo a enfermeira, como relatei acima, sharks estão terminantemente proibidos. Não sabemos o motivo e ela não nos deu mais informações do que isso, então o que nos resta é esperar na sala de visitas. Ou surtar como Lílian está fazendo. Mas a maioria de nós, e com isso quero dizer todos com excessão da shark, prefere ficar esperando sem protestos calorosos.
As cadeiras do hospital são brancas com os estofados cinzas e incrivelmente confortáveis. Poucos minutos depois que me sentei eu já estava praticamente deitada nessa belezinha e isso não mudou no intervalo de uma hora.
Austin se sentou na cadeira ao meu lado e está fazendo origamis a alguns minutos. Jack se encontra no sofá a nossa frente apoiando Marian que ressona calmamente em seu ombro. Mesmo depois do seu tempo de descanso, ela parecia esgotada. Não demorou muito para dormir depois que chegamos.
O resto da recepção está mergulhada em um silêncio confortável, sem toda aquela coisa comum que se vê em hospitais na Terra. Não tem muitas pessoas, nem filas enormes, nem crianças chorando ou pacientes sofrendo. Se eu não soubesse que se trata de um hospital, poderia confundir com um hotel facilmente.
— Droga! — Líli senta pesadamente em uma das cadeiras bufando. — Não podemos entrar.
Desvio meus olhos do pássaro de papel que Austin está fazendo e seguro a risada quando a vejo toda descabela e vermelha. Ela parece ter saído de um ringue ou algo parecido.
— Nós sabemos disso — Austin responde entediado sem tirar os olhos do objeto em mãos.
— Você não está preocupado? É o seu melhor amigo que está lá dentro, sabia? Ele pode estar morrendo e você está ai brincando com uma folha de papel estúpida!
Se antes ela estava irritada, agora parece furiosa. Mas consigo perceber que, no fundo, não se trata de Austin ou de sua "folha de papel estúpida". Toda essa raiva está ligada a situação de Max e ela está descontando na coisa mais próxima.
— Caramba, eu sou um péssimo melhor amigo — responde sarcástico ainda com os olhos no origami.
— Idiota!
Ele solta uma risadinha sem humor o que parece ser a gota d'água para a garota. Ela levanta tão rápido da cadeira que quase não percebo o movimento. Agarra o origami das mãos dele e o encara com os olhos verdes brilhando de raiva.
— Fala sério, Lílian! — Ele também se levanta e tenta pegar o pássaro. — Ele está bem, O.k? Disseram que está estável, o que mais você quer ouvir?
— Estável não significa bem, Austin! — ela rebate se esquivando das mãos dele com maestria.
— Mas está fora de risco. Para de ser louca!
— Se ele estivesse bem, já poderia receber visitas!
— Só porque sharks não podem entrar não quer dizer que ele não possa receber visitas — ele praticamente rosna quando ela intercepta outra tentativa dele de reaver o pássaro de papel inacabado.
— Já chega os dois! Nós estamos em um hospital, caso não tenham percebido — Jack interrompe a discussão irritado.
Ele se reajustou em uma posição que deixa o rosto de Marian escondido em seu pescoço e puxou o capuz dela para, suponho, cobrir os ouvidos. Ele parece ter tido todo o cuidado do mundo para não incomodá-la, o que é gentil e fofo, mas de qualquer maneira, não acho que ela teria acordado com o barulho. Não estando em sono tão profundo.
Os dois sharks se encaram com raiva e o humor de Austin não melhora nem um pouco quando Lílian amassa o origami e o atira no lixo. Ele parece prestes a iniciar outra discussão, mas recebe um olhar mortal de Jack. Por fim, desiste da batalha e volta a se jogar na cadeira de antes emburrado.
Lílian, percebendo que ele não pretende mais servir como bode expiatório de sua raiva, ou enfim se dando conta que hospitais não são lugares para brigas fúteis, volta para seu lugar de antes e se concentra avidamente nas portas que levam as salas de emergência.
Alguns surtos de Lílian e resmungos de Austin depois, uma garota irrompe pelas portas de entrada do hospital. Ela anda diretamente na nossa direção. Está ofegante e um pouco descabelada. É morena e alta, os cabelos são castanhos, longos e ondulados, os olhos são claros, mas não consigo definir que cor.
Passa reto pela recepcionista que tenta chamar sua atenção e para em frente a Lílian. Antes de falar qualquer coisa, respira fundo e afasta os cabelos dos olhos. Não a conheço, mas o uniforme do colégio em tons de amarelo e branco, deixa claro que ela é aluna do Eurocado e também uma lamp.
— Oi. Eu vim o mais rápido que pude — ela fala ofegante e faz uma nova pausa para respirar. — O colégio está um caos e nós ficamos ajudando os professores com o "incidente".
— Oi, Rachel — Lílian a cumprimenta com um abraço.
Em seguida ela troca um toque de mãos com Austin e acena para Jack. Seus olhos caem para Marian e sua testa se enruga em aparente preocupação por, provavelmente, achar que a garota também sofreu consequências no ataque.
— Ela está bem?
— Sim, ela tá legal. Só descansando um pouco — Jack responde trazendo Marian para mais perto.
É incrível como ela ainda está imersa em um sono tão profundo. Salvando os movimentos de sua respiração, ela não mexe um músculo se quer. Poderia facilmente pensar que ela está desmaiada e não dormindo. Rachel sorri para eles e se volta para mim.
Azuis. E também cinzas. Não consigo definir qual das duas cores é a predominante em seus olhos. É como uma mescla perfeita.
— Olá. Você é a Thais, certo?
— Sim.
— Prazer, sou Rachel Evans, irmã do Max.
Aperto a mão que ela estende retribuindo o sorriso. Consigo perceber a semelhança entre os dois. Ambos tem o mesmo nariz pontudo, a mesma cor de cabelo e pele. Os olhos de Max são mais escuros e definitivamente mais azuis, mas o formato do olho é praticamente idêntico ao da irmã. No entanto seus traços são mais suaves, sem toda aquela seriedade que Max carrega.
— Como ele está? — Rachel pergunta para Lílian, o rosto contorcido de preocupação.
— Não sabemos — a garota responde com um suspiro pesado e cansado. Seus olhos se desviam para as portas da emergência mais uma vez e algo lá parece irritá-la. — A enfermeira não me deixa entrar e também não diz nada. Sabemos que ele está em observação, mas o que isso deveria significar?
— Eu não sei — Rachel respira fundo e mexe os ombros como se para afastar a tensão. Não vejo muito resultado, porque ela continua tão rígida quanto quando chegou. — O que aconteceu exatamente? Minha turma estava em excursão pelos Meydrans e quando chegamos já estava tudo um caos. Me disseram que ele estava no hospital, mas não o que aconteceu. Ele foi atacado?
— Bem, é uma forma de dizer — Austin começa se empertigando na cadeira. Ele tem um pequeno sorriso no rosto, mas sem um pingo de humor. Na verdade ele parece bem irritado. — Mas o que eu vi foi seu irmão decidindo bater um papo com um monstro.
— Como é? — Rachel pergunta confusa.
— Tenho certeza que deve ter tido um motivo, ele...
— Ele andou na direção de um dos monstros mais perigosos que conhecemos por livre e espontânea vontade — Austin interrompe, os olhos agora faiscando. — Não consigo ver nenhum motivo nisso.
— Ele pode...
— Você não estava lá, Lílian — o garoto dirige um olhar frio para a shark e ela se cala. — O monstro apareceu. Nós ficamos estáticos por tipo um minuto, sem saber o que fazer e então Max saiu andando na direção dele. Simplesmente andando como se a coisa fosse um cachorrinho e não um Miton — ele diz furioso e me lembro que mais cedo ele próprio me pediu para evitar o nome. Aparentemente a raiva o fez se esquecer de qualquer ressalva. — Ai ele foi atacado. O treco arremessou ele contra um dos trampolins.
Lílian abaixa a cabeça suspirando, desistindo de defender as ações de Max. Não sei se ela tinha escutado a versão completa da história antes, porque parece bem irritada agora e tenho quase certeza que não se trata apenas da falta de notícias.
Rachel continua encarando Austin por alguns segundos, provavelmente tentando processar todas as informações e, quando o faz, respira fundo e revira os olhos. Mexe nos cabelos e anda de um lado para o outro, ela parece brava, mas consigo perceber que a preocupação é superior a qualquer outro sentimento.
— As vezes eu me pergunto se Max realmente tem um cérebro — ela resmunga sem interromper o vai e vem de seus pés.
— Já me perguntei isso e cheguei a conclusão de que ele tem, mas não usa quando quer ser estúpido. Como hoje — Austin comenta com um sorriso de escárnio.
— Austin — Lílian o repreende com um olhar assassino.
Austin revira os olhos, mas não inicia uma nova discussão, apenas pesca um novo pedaço de papel dos bolsos da bermuda e se põe a, imagino eu, fazer um novo origami.
Desde que cheguei ele está jogado na cadeira completamente entediado. Pelo pouco que conheci de sua personalidade até agora, ignorando as crises de bipolaridade, percebo que ele é o tipo de pessoa que não consegue ficar parado por muito tempo e é bem visível que ele não aguenta mais ficar sentado aqui.
Não tenho muita moral para julgá-lo nesse quesito, levando em consideração meu histórico e o fato de que eu mesma estou quase dando voltas pela sala de espera só para ter o que fazer.
O silêncio volta e dominar a sala e me concentro nos movimentos dos dedos de Austin. Ele manuseia o objeto com tanto cuidado que é quase impossível desviar minha atenção. Os únicos sons no cômodo são os da impressora da moça da recepção e o da máquina de café expresso.
Café...
Sim. Parece delicioso.
Você bem que podia levantar daí e pegar um.
Não posso não. E se precisar pagar? Eu não tenho dinheiro.
Estraga prazeres!
O momento de silêncio se estende tanto que começo a ficar consideravelmente mais incomodada do que antes. Austin terminou seu origami, um barquinho perfeito, portanto não tenho mais uma distração. Ele próprio se mexe na cadeira como se ela tivesse espinhos.
Marian voltou a dar sinais de vida a alguns minutos e agora troca palavras baixas com o namorado, ainda sem abrir os olhos. Se eu não tivesse acompanhado todo o processo enquanto despertava poderia facilmente achar que ela está falando durante o sono.
Rachel, que desistiu de abrir um buraco no chão e se jogou em uma das cadeiras, parece preocupada e distante, os olhos focados em um ponto na parede, mas claramente sem ver absolutamente nada.
Estou prestes a me levantar e começar a maratona pela sala quando sinto um cutucão no braço. Olho para ele irritada, mas ele não se intimida e mantém o sorriso. Demoro alguns segundos para perceber o que ele quer.
Aceite.
Por quê?
Porque estou entediada. Quero ação.
Uau! Quanta ação.
Vamos! Acabe com ele.
Reviro os olhos e estendo a mão aceitando a sugestão. Seu sorriso se alarga enquanto ajustamos os polegares em posição de ataque. Eu nunca fui muito fã de luta de dedão, mas acredito que possa ser divertido, dadas as circunstâncias.
Quatro rodadas depois, estamos empatados e rindo como idiotas. Baixo, é claro. Nada de coisas escandalosas. Dona Lia me ensinou muito bem como devo me portar em um hospital.
Quatro rodadas depois, Rachel ainda está com os olhos fixos na parede e a mente em um lugar muito distante daqui.
Quatro rodadas depois, Jack e Marian ainda estão imersos em uma conversa privada e Lílian parece sucumbir, novamente, a insensatez.
— Eu vou ver se consigo entrar — ela se levanta em um salto, já se dirigindo para as portas.
— Você já fez isso — falo alto depois de vencer Austin mais uma vez.
Ela desvia os olhos para mim, talvez por não esperar uma intervenção minha, nem eu esperava na verdade. Mas, mesmo que ela se irrite, não vou me arrepender, não se deve fazer tanto barulho em hospitais. Devemos ter respeito por eles.
"— Hospitais são lugares de cura, mas também são lugares de muita dor. Pessoas estão sofrendo lá dentro e o mínimo que podemos fazer como seres humanos é dar o máximo de conforto que pudermos. Se começarmos a gritar nos corredores e não respeitar o silêncio que essas pessoas precisam, estaremos tornando muito mais dolorosa toda a experiência. Você deve respeitar o silêncio em respeito aos doentes. Entendeu, meu amor?
— Entendi, mamãe."
A lembrança me pega desprevenida e por um momento sou arrancada da sala de espera, sou mais uma vez uma garotinha de seis anos encarando os olhos cansados de minha mãe. Naquela ocasião, um menino tinha machucado o pé e teria que fazer uma cirurgia. Enquanto a mãe dele se informava sobre os procedimentos e assinava os papéis necessários, o irmão mais velho do garoto resolveu brincar com um carrinho de controle remoto. Em pouco tempo, várias crianças que também estavam lá se juntaram a ele e tudo virou uma grande algazarra.
Lembro de ter ficado animada com toda a agitação e queria muito me juntar as eles, mas mamãe me impediu. Ela fez questão de me explicar o motivo pelo qual eu não podia brincar como os outros, assim como ela sempre fazia, para eu entendesse porque estava sendo repreendida.
Depois de conversar comigo, ela pediu aos seguranças que levassem as crianças a ala recreativa do hospital ou que pedissem aos pais que tentassem diminuir todo aquele barulho. Haviam muitas crianças doentes ali, como ela mesma disse, crianças em estado muito complicado e ela não queria que eles fossem perturbados.
Mais tarde ela também explicou que, além do barulho incomodar, muitas crianças doentes ficavam ainda mais tristes por não poderem participar das brincadeiras, pois muitas delas as vezes eram incapazes de levantar das camas.
Após esse dia eu passava a maior parte do tempo tentando impedir que as pessoas na sala de espera fizessem muito barulho. Isso quase me rendeu umas boas brigas, mas eu gostava de me sentir útil de alguma forma, já que tantas crianças estavam lá sofrendo.
— Thais.
Meus olhos entram em foco mais uma vez e vejo Austin me encarando com a testa franzida. Percebo que ele está apertando meu dedão, indicando uma vitória. Ele deve ter percebido que eu estava fora do ar quando não protestei.
— Você está bem? — Ele pergunta confuso e assinto levemente em resposta.
Procuro Lílian ao redor da sala, me lembrando que, antes de eu mergulhar em uma onda de memórias, ela estava me encarando irritada. Não posso deixar de ficar um pouco decepcionada quando a encontro discutindo mais uma vez com a enfermeira. Maldita hora para eu ter perdido o tempo da conversa.
Tenho certeza que estou fazendo alguma careta porque Austin percebe e olha na direção da garota. Agora ela está sendo repreendida por outra enfermeira que aponta para onde estamos extremamente irritada.
— Não liga pra ela — ele suspira e se volta para mim aborrecido. — Não tem a mínima noção quando se trata do Max.
— Estamos em um hospital.
— Como eu disse, sem noção — ele suspira mais uma vez. Um sorriso pequeno volta a surgir em seu rosto quando ele olha para as nossas mãos. Ainda está segurando meu dedão. — Eu venci.
Reviro os olhos mais uma vez e liberto meu dedo, iniciando uma nova luta.
Lílian volta a se sentar e as vezes desvia os olhos na minha direção envergonhada, mas em não a encaro em nenhum momento. Se ela sabe que é errado, por que continua fazendo?
Você faz várias escolhas erradas também.
Eu sei. Mas achei que ela era mais sensata do que eu.
As pessoas tem reações diferentes em situações críticas.
Em um dado momento, as batalhas com Austin perdem a graça e desistimos de continuar. Volto para a posição de antes, com as pernas cruzadas sobre a cadeira e ele se entrete com um fio solto da camiseta. Antes de Marian e eu sairmos do colégio, ela foi até o dormitório dos garotos e pegou uma camisa para Austin, já que ele saiu da piscina sem a que usava antes.
Ele não pareceu nem um pouco incomodado com o fato de ela ter estado em seu quarto, apenas grato pelo favor. Não sei qual o nível de intimidado deles, então não questionei tanto a situação.
Quando finalmente as portas da emergência se abrem e um médico aparece, minhas pernas já estão dormentes.
Ele é alto, tem cabelo branco, e quando eu digo branco quero dizer tipo a neve, cortado no estilo militar. Ele não parece muito velho, no máximo na casa dos trinta anos, o que me faz encarar o cabelo dele com certa estranheza. No entanto ninguém mais parece achar isso fora do normal, então suponho que seja mais uma das coisas que é comum aqui.
O homem caminha em nossa direção com os olhos presos em uma prancheta. Para a poucos passos de nós, posso ler Dr. Guerman em seu jaleco. Quando levanta os olhos da prancheta posso ver que tem olhos azuis, como o céu em um dia ensolarado. Ele nos analisa por alguns segundo antes de falar.
— Algum familiar de Max Evans?
— Eu. Rachel Evans, sou irmã dele — Rachel se pronuncia imediatamente, se levantando da cadeira em um salto. Parece nunca ter estado distraída.
— Muito bem, o sr. Evans está estável e fora de risco — ele diz com voz calmante, talvez percebendo a expressão aflita da garota. Ou quem sabe tenha sido avisado sobre os surtos de Lílian. — Ele sofreu algumas contusões devido ao impacto da batida e está em observação em uma sala de neutralização. Você...
— Por que em uma sala de neutralização?
— O que é uma sala de neutralização?
Rachel e Lílian perguntam ao mesmo tempo, interrompendo o médico. Ele não parece irritado ou aborrecido com o rompante das duas, apenas faz sinal para que elas se acalmem. Isso faz com que eu me lembre de quando minha mãe me dizia que parte do seu papel era aprender a lidar com os familiares também.
— A sala de neutralização é um lugar projetado para contenção de poderes elétricks, grosseiramente falando, a sala retira toda e qualquer energia que adentra seu limite — ele explica categoricamente. Rachel se empertiga, pronta para interrompê-lo mais uma vez, mas ele prossegue sem lhe dar essa chance. — O sr. Evans foi atacado por um Electric, o que, por ele ser um shark, significa que suas células foram carregadas com energia. É como se ele tivesse sido envenenado. A sala está mantendo ele estável e retirando aos poucos os resíduos de eletricidade.
— Ele pode receber visitas? — Lílian pergunta ansiosa.
Austin, ainda ao meu lado, vira a cabeça para ela tão rápido que seu pescoço estrala, mas ele não parece incomodado, está muito concentrado em fuzilar Lílian com os olhos. Ela, se percebe, ignora completamente.
— Infelizmente não de Sharks, vocês são como imãs para esse tipo de energia, se ficarem próximos deles podem ter complicações — ele responde encarando-a sério. Agora tenho quase certeza que ele sabe sobre o escândalo que ela armou as portas da emergência. — Sinto muito, vocês terão que esperar até ele estar recuperado.
Lílian solta um muxoxo e volta a se sentar na cadeira de antes. Não demoro muito sustentando seu olhar, apenas o bastante para demonstrar minha opinião sobre ela surtar novamente. Austin não se faz nem um pouco de rogado e descarrega sobre ela um olhar irritado acompanhado de um sorriso de escárnio.
— Eu posso vê-lo? Sou uma Lamp — Rachel pergunta impaciente.
Desde que se levantou de seu lugar, está parada em frente ao médico mexendo as mãos e trocando a posição dos pés. Está visivelmente perturbada e as notícias só aliviaram minimamente sua expressão preocupada.
— Eu aconselho que espere ele acordar — Dr. Guerman responde e checa mais uma vez sua prancheta. — Preciso que você preencha alguns papéis na recepção.
Assim que Rachel sai acompanhando o médico para a recepção, a sala mergulha em outra onda de silêncio. Não sei exatamente em que momento Jack e Marian terminaram sua conversa entre sussurros, mas agora estão apenas escorados um no outro. Quase consigo ver a sonolência os rondando.
Lílian não tenta iniciar nenhum diálogo, nem quando Austin solta uma indireta (bem direta na verdade) sobre pessoas fazendo barraco onde não devem. Ela apenas encara as portas da emergência com uma expressão triste, mas é perceptível que está menos preocupada do que antes.
Sem ter sua deixa para iniciar uma briga, Austin volta a se concentrar em seus próprios assuntos. Como na verdade ele não tem assunto nenhum, ele se concentra em irritar as pessoas a sua volta (vulgo eu) batendo os pés no chão e fazendo barulho a cada movimento que faz na cadeira.
Nem adianta encarar ele assim.
Assim como?
Com raiva. Ele é lento demais pra perceber.
Em pouco tempo constato que ela está certa e também que ele só está me irritando porque está tão entediado quanto eu, sem contar que nem deve perceber que está de fato incomodando alguém. Por falta de ideias melhores, começo a contar os globos de luz que enfeitam o teto.
— Bom... — Austin levanta de repente, me assustando no processo, esfregando uma mão na outra. — Eu acho que vou voltar para o colégio e ver se estão precisando de ajuda lá.
— Eu vou também — falo antes que ele faça qualquer movimento para a saída.
Me levanto devagar usando a cadeira como apoio. Não consigo sentir minhas pernas e sei que vou ter que esperar pelo menos um minuto para poder andar.
— Acho que nós também já vamos — Marian fala se espreguiçando no sofá.
Ela parece bem melhor do que antes. Seus olhos não estão mais tão fundos e não está mais sem equilíbrio. O que é ótimo, já que todo o caminho para cá eu fiquei aguardando o momento em que ela desmaiaria e eu teria que lidar com a situação. Não que ela pareça muito pesada, mas tenho certeza que não iria conseguir carregá-la até o hospital.
— Líli?
A garota ainda está encarando as portas e não da sinal nenhum de que nos ouviu. Jack suspira e vai até ela chamando sua atenção. Mesmo quando ele balança gentilmente seu ombro, ela demora alguns segundos para se voltar para nós. Não tenho certeza, mas acho que seus olhos estão mais vermelhos do que antes.
De qualquer forma ela não parece confortável com a situação e nós não fazemos questão nenhuma de tocar no assunto. Acho perfeitamente compreensível e que devemos deixar ela em paz em relação aos seus sentimentos. Só quando isso não envolve fazer arruaça nas portas da ala de emergência de um hospital, é claro.
— O que foi? — Ela pergunta distraída.
— Nós vamos voltar para o colégio. Talvez estejam precisando de ajuda por lá — Marian se agacha a sua frente e a encara de forma gentil enquanto fala. — Ele vai ficar bem. É o Max! Vai dar tudo certo.
Lílian assente e aceita o abraço carinhoso de despedida da amiga. Marian se demora quase um minuto inteiro no gesto, como se soubesse que a shark precisa disso. Depois de se afastar, sorri levemente para ela e sai acompanhada de Jack.
Austin faz um pequeno sinal na direção de Lílian. Não sei o que ele quis dizer, mas ela sorri, então não deve ser um insulto.
Não quero que a situação de antes torne nossa... Amizade? Coleguismo? Não sei. Tanto faz. Não quero que ela fique irritada ou algo assim. Então, em uma tentativa de mostrar que estava apenas defendendo um ponto importante, aperto seu ombro gentilmente. Ela devolve me manda sorriso triste.
Estou orgulhosa.
Quieta.
O quê? Preciso te parabenizar quando resolve ser sociável.
Não ouvi parabéns nenhum.
E nem vai com esse mal humor.
Reviro os olhos mais uma vez fazendo um nota mental de parar de ouvir tudo o que minha consciência...
Não sou sua consciência.
Tudo o que minha consciência diz e sigo os outros até as portas de entrada/saída. Assim que passamos pelas portas e nos encontramos do lado de fora, Jack e Marian se viram para nós com uma expressão estranha. Não preciso de muito tempo para perceber que, mesmo sendo quase seis horas, o sol ainda domina boa parte da praça o que provavelmente não é muito atrativo para shadows. Austin também deve ter chego a mesma conclusão porque encara os dois irritado.
— Vocês não...
— Nos vemos no colégio — Jack fala e passa um braço pela cintura de Marian, desaparecendo com ela logo em seguida.
— Pra que andar, não é mesmo? Andar é para reles mortais como nós.
— Somos imortais, Austin.
— Não interessa. Odeio Shadows!
Ele resmunga e sai andando a passos largos. Não consigo conter a risada perante a careta que está estampada em seu rosto. Ele parece uma criança que perdeu um doce.
Quando ele finalmente percebe que não estou disposta a ficar correndo para acompanhá-lo, diminui o ritmo e me espera. Andamos calmamente em direção aos pesados portões de madeira do colégio, mas, antes de chegarmos a metade do caminho, não consigo ignorar uma dúvida que vem crescendo desde a chegada de Rachel ao hospital.
— Me explica uma coisa? — pergunto chamando sua atenção. — Como o Max pode ser um Shark e a irmã dele uma Lamp?
— Os elementos de sangue não estão inteiramente ligados com herança genética. Nem sempre a natureza elementista dos pais passa para o filho. Sendo assim ele pode nascer natural de qualquer elemento, independente do que seus pais sejam. As vezes filhos de elementistas até nascem mortais — ele explica e deve perceber a ruga que se forma entre minhas sobrancelhas. — A origem elementista, quando se trata de um nascido em Terra, é dada exclusivamente por Karyceres, ou seja, você só se torna elementista se ele decidir. Quando se trata de um nascida em mundo elementista, em Wirdgewt, por exemplo, Karyceres não interfere. A natureza deve ser passada pelos pais, caso contrário, a criança é mortal.
"O grande problema em relação a isso é que o "gene" elementista é muito instável, mutável, o que complica na hora de passar para o filho. Ele pode simplesmente sofrer uma mutação durante a formação do bebê e se tornar inativo ou completamente normal, sem passar qualquer herança elementista.
"E também tem o problema relacionado a quantidade de filhos, porque essa capacidade de mutação vai aumentando conforme se tem mais filhos. Ninguém conseguiu descobrir o porque disso acontecer, mas sabemos que é a realidade."
— Mas Max e Rachel são elementistas.
— Sim. A família Evans é uma das raras exceções a regra. Max e Rachel tem um irmão mais velho, que já se formou. Foi quase um milagre os três serem elementistas, acho que nem os pais deles acreditam que deu certo — ele franze a testa enquanto fala como se o assunto fosse algo fora de sua própria compreensão. — Quando uma família de Naturais tem um filho e ele nasce elementista, as chances do próximo filho ter o gene cai pela metade. Um terceiro filho não tem chances quase nulas de ser um de nós. Então, quando Max nasceu, eles tinham certeza que ele seria mortal. Pensando bem, acho que eles nem planejaram o nascimento dele.
"Mas, mesmo ele tendo o gene, o desenvolvimento dos poderes dele foi bem mais demorado do que o dos irmãos. Te falaram sobre os Naturais desenvolverem os poderes com dez anos? — assinto em concordância. — Mesmo eles desenvolvendo apenas nessa idade, a maioria pelo menos, eles começam a dar indícios que são elementistas mais cedo. Normalmente demonstrando influência sobre algum elemento ou até mesmo na aparência. As vezes os elementos podem interferir na aparência, como o fênix por exemplo, que nascem ruivos mesmo não tendo nenhuma herança genética disso.
"Rachel entrou na escola com onze anos e mesmo ela já desenvolveu os poderes mais tarde. Mas Max, ele não deu nenhum sinal de natureza elementista até os doze anos. Por isso ele também entrou mais tarde no Eurocado. Isso provavelmente aconteceu porque o gene dele é bem mais instável."
— Ele corre o risco de perder os poderes? — não consigo evitar a pergunta. Com todas as informações não posso deixar de me assustar com a possibilidade de Max simplesmente deixar de ser quem é.
— Não. Uma vez elementista, seus poderes só podem ser tirados por Karyceres ou pela morte.
— Certo — assinto várias vezes como se ele tivesse me perguntado algumas coisa, apenas para processar tudo por partes. — Então existem humanos aqui? Quero dizer, pessoas mortais.
— Não.
— Mas você disse que as vezes os filhos nascem mortais.
— Sim, mas quando isso acontece, a criança precisa ser mandada para a Terra.
Paro de andar e franzo a testa intrigada. Foi me dito que elementistas não podem ficar na Terra, então como os filhos deles que nascem mortais são enviados para lá? Eles tem um orfanato na Terra ou algo assim?
Austin para alguns passos a frente e me encara percebendo a pergunta muda que estou tentando fazer porque não consigo pensar em como colocar tudo em uma única pergunta. Ele suspira e leva as mãos aos bolsos da bermuda. Parece desconfortável.
— Mortais não sobrevivem aqui. O planeta todo é rodeado por energia, nossa energia vital, a que mantém nossos poderes ativos e também é responsável por permitir a vida no planeta. Essa energia é nociva pra eles que tem vitalidade diferente da nossa. Se ficarem aqui por muito tempo, morrem.
Ele solta um longo suspiro e parece pensar nas próximas palavras que vai dizer. Ou talvez esteja pensando se vale a pena continuar na conversa. Eu sinceramente espero que ele continue porque eu ainda estou confusa.
O sol está no horizonte agora, o céu em tons de laranja e vermelho. Consigo ver as luzes do muro do colégio começarem a se acender conforme a praça vai perdendo a claridade.
É bonito.
Realmente.
Mas acho que você não quer ficar aqui a noite.
Tem razão.
Retomo a caminhada lentamente enquanto ele ainda pensa no que dizer. Estamos nos aproximando da área de Escolha quando Austin finalmente volta a falar.
— Quando as crianças nascem aqui, passam por uma espécie de batismo. Elas recebem um tipo de benção da Pedra Métis, que é tipo um reconhecimento. Na cerimônia é possível saber se o bebê é um elementista ou não — ele explica lentamente. Mantenho meus olhos sobre o seu rosto o tempo todo e consigo perceber que ele não se sente nem um pouco confortável sobre o assunto. — Quando uma criança é humana, ela é enviada para um orfanato na Terra.
Certo. Então eles tem um orfanato.
Você não está pensando no ponto mais importante.
Que ponto?
E os pais?
Oh!
— Os pais mantém contato com os filhos?
— Essa é a parte complicada — ele respira fundo e solto uma risada sem humor. — A criança não precisa necessariamente ir para um orfanato. Os pais podem escolher entre ir para a Terra com o filho ou permanecer aqui e mandá-lo para um orfanato.
— Achei que elementistas não podiam viver na Terra.
— Você não está entendendo. Se os pais escolhem ir junto, a memória é apagada e os poderes retirados. Eles deixam de ser elementistas — ele diz encolhendo os ombros. Tem uma expressão triste. — Se a criança for mandada para um orfanato, ela nunca tem contato com seus pais. Toda e qualquer memória que ela tenha daqui é apagada.
As informações se chocam na minha mente e tudo o que consigo fazer no momento é uma careta indignada.
— Vocês abandonam crianças na Terra?!
— Mais ou menos.
— Isso é horrível! — não consigo conter a irritação e minha voz se eleva algumas oitavas. — Como pais podem...
— É uma escolha difícil na maioria das vezes, Thais — ele interrompe aborrecido e suspira cansado quando levanto as sobrancelhas em desafio. — Quando isso acontece, normalmente é em uma família com dois filhos. Os pais tem que escolher em abandonar um filho aqui ou outro na Terra. Não é uma coisa fácil.
Abro a boca diversas vezes com o objetivo de confrontar o argumento, mas não consigo chegar em uma frase concreta. Eu não pensei por esse lado, mas agora, levando em consideração a situação, a coisa toda é muito mais complicado. Se você tem apenas um filho, acho eu que não seria um problema se mudar para a Terra e abandonar tudo isso aqui. Claro que depende da pessoa em questão, mas com certeza é mais fácil. Agora, ter que escolher qual dos filhos abandonar? É cruel. É desumano.
— Não se pode fazer muito coisa. Mortais não conseguem sobreviver aqui e é melhor mandá-los para lá do que deixá-los aqui sem chance de sobrevivência — ele comenta quando longos segundos de silêncio desconfortável se estendem. — Por isso as famílias elementistas costumam ser pequenas, com um filho ou no máximo dois. Com excessões, como a família do Max. As pessoas não querem correr o risco de ter que escolher.
Apenas concordo com um leve aceno. Não tenho muitas outras palavras para investir em uma conversa e muito menos discernimento para aprender mais sobre o assunto.
Quando adentramos os portões do colégio, eu não vejo nem sinal da tranquilidade que geralmente predomina no jardim. Muitas pessoas estão correndo carregando alunos feridos, alguns, com machucados menos complicados, estão deitados no gramado acompanhados de outros alunos que ajudam com os curativos. Vejo vários adultos vestidos com jaleco andando em meio aos feridos, imagino que sejam os profissionais da enfermaria.
Enquanto andamos para a parte de trás do colégio, de onde vêm toda a multidão que ocupa o campus, algumas pessoas nos acompanham carregando garrafas metálicas. Eu não faço ideia do propósito dos objetos, mas não me dou o trabalho de perguntar a Austin.
No caminho até a piscina encontramos muitos alunos com expressões de pânico e choque, como se tudo o que aconteceu fosse demais para simplesmente deixar de lado e superar. E de fato acredito que seja o caso. Reconheço alguns professores que tentam acalmar os assustados da melhor maneira possível, apesar de eu achar que não existe essa tal maneira. Os sentimentos inquietos de terror que rondam a minha própria mente não podem ser apaziguados por palavras de consolo.
Antes mesmo de adentrarmos a área da piscina, consigo sentir toda a atmosfera pesada que ainda cerca todo o terreno. É um clima de morte e a tensão é quase palpável.
A piscina agora está sem água. Há um corpo no lugar dela. Um corpo enorme e disforme. Mesmo agora, quando ele está imóvel e passível de observação, não consigo entender toda a anatomia grotesca. Os membros simplesmente não fazem sentido juntos. Toda a energia que rodeava o corpo como pequenas correntes elétricas, sumiu e é possível visualizar partes metálicas em meio a lama/pele.
Soldados cercam toda a área apontando armas na direção do monstro. Demoro alguns segundos para entender que as garrafas metálicas que vi antes estão sendo usadas como munição. Cada vez que se inicia um novo ataque, um líquido dourado cai sobre a criatura.
— O que é aquilo? — pergunto me inclinando para Austin, tendo a certeza que somente ele escute.
Não sei exatamente porque sinto a necessidade de falar mais baixo. Talvez seja porque todos esses soldados tornam o ambiente hostil. Ou porque todas as pessoas a nossa volta parecem segurar o ar como se qualquer respiração mais forte pudesse liberar o caos.
Seja como for, falo o mais baixo que consigo sem atrair atenção e Austin não parece se importar com o fato. Apenas se inclina também e explica no mesmo tom.
— Incinerador. O líquido é uma mistura química que quando entra em contato com a pele dos monstros provoca combustão e transforma os restos em cinzas.
Parece nojento.
Parece perigoso.
E nojento.
— Vocês não deviam estar aqui.
A voz nos alcança vindo detrás de mim. Pelo fato de estar concentrada no que se desenrola na piscina, acabo me sobressaltando e encaro o sujeito irritada. Não aguento mais levar sustos hoje. Vamos deixar um pouco para amanhã, por favor.
O cara está parado as nossas costas com uma expressão séria e profissional. Não encontro um resquício do olhar confiante e determinado que tinha quando o vi na Av. Pres. Getúlio Vargas.
— Sério, Micael? Se o objetivo de vocês era manter isso em segredo, o plano já falhou. Caso não tenha percebido, um Miton entrou no colégio. Praticamente todo mundo sabe dessa merda. Qual o problema de estarmos aqui? — Austin pergunta irritado. Micael se limita a direcionar um olhar cansado para ele e responder no mesmo tom monótono de antes.
— São ordens, Clark. Esse lugar está contaminado com uma grande concentração de energia. Não é seguro sharks ficarem aqui.
— Eu tenho sangue Eletrick. Posso lidar com isso.
— Mas ela não — os olhos dele caem sobre mim, me analisando. Talvez tenha se lembrado de que já nos conhecemos. — A menos que queira que ela morra, é melhor tirar ela daqui.
— Não preciso de escolta — as palavras pulam da minha boca sem que eu tenha tempo de pensar sobre o assunto. Austin me olha de canto e Micael levanta as sobrancelhas, os olhos dourados ainda fixos em mim. — Posso sair daqui sozinha.
— Claro que pode. Mas duvido que já tenha aprendido o caminho de volta para o prédio.
Ele mantém a expressão séria e o olhar vazio e sei que não espera realmente uma resposta, ele sabe que não posso voltar sozinha. Todos nós sabemos disso, mas o orgulho me impede de concordar e apenas encaro-o inexpressiva.
Não é apenas seu olhar que mudou em ralação ao dia em que o conheci. Ele parece dominado por um cansaço tanto físico quanto emocional. Consigo ver vários hematomas em seus braços, no pescoço e no rosto. Os olhos perderam o brilho divertido que vi na minha Escolha, o cabelo castanho avermelhado parece estar a anos sem ver um pente, sem contar que o novo corte de cabelo parece ter sido feito por uma espada. Ele está curvado como se suas costas estivessem doendo.
Ele acabou de sair de uma luta.
Ela está certa, é claro. É muito provável que tudo isso tenha sido causado pela batalha recente, mas não consigo afastar a sensação de que se trata de alguma coisa a mais. Algo envolvendo uma outra batalha, também recente, tratada como um assunto sigiloso.
— Muito bem, nós vamos — Austin responde segurando meu braço e me puxando. — E não me chame de Clark.
Ele praticamente me arrasta por alguns metros antes que eu force uma parada. Olho para ele irritada e indico o meu braço.
— Eu sei andar sozinha.
Austin revira os olhos e finalmente afasta suas mãos de mim. Continuamos o caminho de volta para o prédio em silêncio por um tempo. Muitas pessoas, que agora consigo reconhecer como soldados, passam por nós com mais garrafas metálicas.
— Eles parecem tensos.
— Nenhum monstro desse porte entrou em Wirdgewt antes. Eles tem motivo para se preocupar.
— Nunca?
— Nunca — ele suspira derrotado e percebo que a seus ombros estão caídos, como se estivessem carregando muito peso. A situação está atingindo ele também. — Todas as cidades tem barreiras de proteção, para que os monstros não possam entrar. Teoricamente estamos seguros desde que estejamos dentro dos limites da cidade. Se aquela coisa conseguiu entrar...
Ele deixa a frase pairar no ar, mas não preciso perguntar para entender o que quer dizer. As barreiras devem nos proteger. Mantém monstros do lado de fora. Se um monstro entrou, algo de muito errado está acontecendo.
O interior do prédio letivo está tão zoneado quanto o jardim de entrada. O saguão se tornou um posto de atendimento improvisado equipado com macas de emergência e aparelhos de reanimação organizados as pressas. É nítido que a enfermaria foi sobrecarregada pela quantidade de feridos e eles precisaram ser atendidos aqui.
Alguns dos alunos, provavelmente os casos mais graves, estão sendo levados para o hospital, enquanto os que vão se recuperando encontram um lugar no jardim.
Enquanto estou parada ao lado das portas de entrada contemplando todo o caos que se tornou o saguão, não posso deixar de pensar como a atual realidade parece um mundo distópico se comparado ao que conheci ontem. Durante meu tour, os corredores tinham pessoas sorridentes e entusiasmadas, além de ser impecavelmente limpo. Agora, as pessoas ou estão machucadas e inconscientes, ou ajudando a salvar a vida de alguém. Não tem sorrisos, só expressões preocupadas; os carpetes estão sujos de sangue, cobertos de bandagens e outros curativos.
Pelo menos não tem sacos pretos.
Certo. Isso deve ser um bom sinal.
— Por que demoraram tanto?
Jack e Marian se aproximam chamando nossa atenção. Eles estão muito mais desarrumados do quando os vi a alguns minutos e posso jurar que há sangue na camiseta de Jack. Ele tem um sorriso debochado no rosto, mas não chega aos seus olhos.
— Até onde eu sei, é proibido ficar usando teleporte dentro do colégio — Austin diz irritado, mas isso só faz o sorriso de Jack aumentar.
— Austin, ninguém respeita essa regra.
O shark bufa indignado e parece querer protestar novamente, mas algo chama sua atenção, fazendo-o arregalar os olhos.
— Aquele é o Phillip?
Olho para a direção em que ele aponta e encontro um garoto. Ele está desacordado e é carregado por outros dois alunos até uma maca. Consigo ver fumaça saindo dos cabelos pretos e por um momento penso que se trata de um fênix, mas as roupas azuis detonam essa teoria.
— Ele foi atingido por um dos raios. Carga baixa, pelo que eu ouvi, mas o bastante para causar uma parada cardíaca — comenta Jack infeliz observando enquanto os garotos tentam ajeitar o shark de uma maneira confortável na maca.
— Ele vai ficar bem?
Certo, isso parece algo muito idiota de se perguntar, considerando que fazem duas horas desde o ataque, ou seja, duas horas desde que ele teve a parada e aparentemente não teve atendimento imediato. No entanto levando em consideração tudo o que eu vi desde que cheguei, incluindo a ocasião onde eu mesma acordei depois de ter um furo no meu coração, não me parece tão absurdo perguntar se o garoto vai ficar bem.
— Sim. Provavelmente vai acordar daqui umas treze horas — Marian responde com uma expressão pensativa. — O coração sempre demora mais para curar.
— Quem é ele? — pergunto ainda sem desviar os olhos do garoto.
— O principal buscador dos sharks.
— O.K. Eu vou fingir que sei o que isso significa.
— É uma posição do Three Fields.
Certo. Ele é um atleta. Um buscador. Um jogador de Three Fields. Seja lá o que for esse esporte, agora tenho certeza de que nunca ouvi falar sobre ele antes. De qualquer forma, apenas assinto em concordância ciente de que não é a hora nem o lugar para ter um explicação melhor.
Em poucos minutos estamos todos envolvidos na dinâmica do posto de atendimento, seja carregando pessoas ou buscado remédios e curativos.
Eu observo por tempo suficiente o mutirão de alunos para perceber o quanto as pessoas aqui são unidas. Ninguém fica parado em um canto olhando, todos tentam ajudar da melhor maneira que podem. Não consigo deixar de me lembrar das diversas ocasiões na Terra onde, enquanto vítimas de acidentes ou outras tragédias são socorridas, a grande maioria das pessoas se ocupa em gravar tudo e postar nas redes sociais ao invés de tentar ajudar de alguma forma.
É claro que em muitas situações, aqueles que estão de fora não podem efetivamente fazer nada, mas deviam pelo menos mostrar respeito a quem está sofrendo.
Me lembro perfeitamente de uma vez em que eu estava voltando de ônibus de um almoço com a minha mãe e pessoas estavam comentando sobre vídeos e fotos de um acidente terrível que tinha acontecido dias atrás. Quatro pessoas tinham morrido. Toda a coisa era horrível demais, mas aqueles passageiros acharam engraçado ficar comentando e dizendo como poderia ter sido pior.
Me lembro de ter ficado com raiva e querer intervir na conversa de algum jeito, mas eu sabia que nada do que eu falasse iria mudar aquelas pessoas. É nessas horas que percebemos o quanto a humanidade se perdeu ao longo dos anos.
Outra coisa que é visível entre os elementistas é a confiança. Em momento nenhum as pessoas desconfiam que estão sendo ajudadas, eles não esperam nada de ruim dos outros, confiam plenamente naqueles que os estão carregando ou cuidando dos seus machucados. Sendo alunos ou enfermeiros. Outro valor que a muito foi perdido entre os humanos.
Quando paro pela sétima vez para tomar um pouco de água, sentindo o suor descer pelas minhas costas e os músculos reclamarem pelo esforço, um garoto irrompe pelas portas de entrada. Ele está ofegante e, assim como a maioria, carrega o semblante aflito.
— Martin está reunindo todos na praça do campus. Ele quer fazer um comunicado.
Ele continua seu caminho pelos corredores avisando o restante das pessoas. Os enfermeiros nos mandam ir até a praça e ajudar aqueles que podem ficar de pé. Os demais, que estão inconscientes ou muito debilitados para seguir todo o caminho, devem permanecer em seus leitos improvisados.
Ajudo uma garota, de no máximo onze anos. Ela era uma das que estava sendo protegida na piscina. Tem uma tala na perna direita e um dos braços está acomodado em um tipoia.
Seguimos em um ritmo lento até a tal praça. Marian está ajudando uma outra garota shadow com uma atadura na cabeça. Mais a frente seguem Milena, com o braço esquerdo na tipoia, e Bryan com a cabeça enfaixada e cambaleante. Não sei quem está ajudando quem.
Quando enfim adentramos a praça ela já está lotada de alunos e funcionários do colégio. O diretor se encontra no centro, cabisbaixo e nervoso.
Assim que todos se acomodam, um silêncio desconfortável se alastra por todo o terreno, rompido apenas pelos barulhos dos animais norturnos. A escuridão já tomou conta de quase todo o jardim fazendo com que as luzes da praça se acendam. Aqui, como na praça central, a luz parece vir do chão, o que, por se tratar de um chão coberto de grama, torna tudo ainda mais interessante.
Passados minutos de completa mudez, Martin finalmente parece decidir o que nos dizer. Ele levanta a cabeça e encara a multidão, seus olhos estão cansados e apreensivos. Os alunos se mexem inquietos. A tensão é quase palpável.
— Eu acho que vocês já sabem porque eu os reuni aqui, então vou tentar ser o mais breve possível. Tivemos um ataque direto ao colégio e desde já me vejo na obrigação de pedir desculpas a vocês. Eu sou o diretor dessa escola e também o governador da cidade, é meu dever proteger a todos. Eu falhei e muitos de vocês quase morreram hoje por causa dos meus erros. Eu sinto muito. — Ele respira fundo como se estivesse tentando acalmar a si mesmo. Seus ombros estão curvados dando a impressão de que tem um caminhão sobre eles. — A raça Miton, como alguns de vocês devem saber, é um tipo muito específico de monstro. Mortal, sanguinário e parasita. Durante muito tempo foram considerados extintos, mas, como puderam perceber, nos equivocamos sobre isso. A equipe de Ethan Jhonson entrou em batalha contra um deles no Alasca esta semana.
Ele para por um momento e parece analisar todo o seu discurso antes de prosseguir. Olhos aflitos estão sobre ele, ninguém sabe exatamente como agir. É como se alguém na Terra chegasse para um grupo de pessoas e dissesse: Os nazistas voltaram, vamos travar a terceira guerra mundial.
— Optamos por não contar porque não tínhamos certeza de quantos se tratavam. A equipe foi atacada por um, mas poderia ser um grupo maior. Não esperávamos que a situação chegasse tão longe como aconteceu hoje.
Os alunos se mexem desconfortáveis e até tentam esconder a surpresa e o medo sem ter muito sucesso. Marian, assim como eu, encara todo o discurso com aflição (sentimento que foi me dominando sem eu nem perceber), mas não de fato com surpresa, afinal já estávamos cientes dos acontecimentos.
Entretanto não me passa despercebido que três pessoas em meio a multidão parecem ainda menos espantadas. Uma garota lamp, um shark e Milena. Encontro o olhar da shadow por alguns segundos e percebo que ela já esperava essa ocasião. Talvez a um bom tempo. Como ela poderia saber?
Eles são diferentes.
O que você quer dizer?
Tem muitas coisas que você não sabe.
Isso eu sei, mas...
— Mas como ele passou pela barreira de proteção? — Uma garota lutun interrompe os murmurinhos. Sua voz está rouca e ela parece se esforçar para que as palavras saiam altas. A reconheço como uma das alunas que estava protegendo os mais novos. Está sentada em um banco se apoiando em outra garota, tem ataduras na cabeça e uma das pernas está imobilizada.
As conversas cessam, os olhos de todos fixos em Martin mais uma vez, a espera de uma resposta. Ele solta mais um suspiro cansado antes de falar.
— Depois do ataque, as barreiras foram as primeiras coisas que checamos. Eu conversei com Karyceres e com os outros membros do conselho para saber como estava a proteção das outras cidades — diz ele escolhendo as palavras. — Nossa cidade foi a única atacada, mas outras detectaram sinais de tentativas de invasão. De alguma forma os monstros estão conseguindo burlar nossos sistemas de segurança aos poucos. Hoje foi uma prova disso.
Isso é o bastante para terminar de chocar a todos. Agora os resmungos aumentam e Martin tem dificuldades de manter o silêncio.
— Nossa proteção não está tão forte quanto antes. Eu e os prefeitos estamos tentando reparar os estragos e as falhas. Mas por enquanto, vocês precisam saber que nossas barreiras não existem mais. Elas caíram na tarde de hoje. — Ele aguarda por alguns momentos, provavelmente esperando toda a comoção de antes, mas dessa vez ninguém parece saber ao certo o que fazer. — Vamos tentar consertá-las o mais rápido possível e até lá, o exército estará encarregado da proteção da cidade, bem como dos Meydrans. Os prefeitos estão avisando cada Meydran, então seus pais também já estão sabendo da situação. Vamos manter vocês atualizados no decorrer dos próximos dias. Podem acompanhar as informações nos editais da diretoria. A entrada de pais a escola está permitida, alguns já estão a caminho. Podem encontrá-los na sala de recreação. Agradeço a atenção de todos e mais uma vez peço sinceras desculpas.
Ao terminar, Martin se junta com os professores e também ajuda alguns dos alunos a caminharem de volta para o prédio principal.
Não posso deixar de notar como a confiança e o respeito também estão presentes em cada centímetro das reações das pessoas. Martin assumiu sua responsabilidade sobre os acontecimentos e ninguém o atacou de forma alguma. Todos confiam nele e lamentam junto a ele.
Pela primeira vez desde que cheguei aqui, eu vejo todos sofrerem ao mesmo tempo. A angústia e a tensão são visíveis no semblante de cada um.
Voltamos todos juntos pelo caminho que viemos, lado a lado, como uma grande família, assim como foi na minha Escolha. É interessante perceber que tanto em momentos alegres quanto tristes, eles estão juntos, não importa o que aconteça.
Mesmo essa união estar sendo visível em um momento ruim, eu sinto uma vontade imensa de realmente fazer parte dessa família. Só agora percebo o que significa ser um elementista e o porque de eles estarem vivos e lutando até hoje.
Sinto braços sobre meus ombros me puxando para perto. Encaro Austin confusa e um pouco desconcertada pela aproximação repentina, mas logo entendo o que está tentando fazer. Sob seu outro braço está Jack e este mantém Marian sob o seu próprio braço. Eles estão olhando para frente e suas expressões transmitem um sentimento de união incontestável.
Aqui abraçada com eles, eu me sinto parte disso tudo. Pela primeira vez tenho certeza que não se trata de um engano. Aqui é o meu lugar. Agradeço-lhes mentalmente por me fazerem sentir assim.
Ao longo do caminho, lamps lançam globos de luz no ar, iluminando nosso trajeto. Outro fato pelo qual sou grata. Nunca fui muito fã do escuro e os jardins são um ótimo cenário de terror a noite.
Quando finalmente adentramos o colégio, seguimos todos para os dormitórios, como se tivéssemos combinado o caminho antes.
Como Martin já tinha avisado, muitos pais se encontram na sala de estar e logo estou presenciando lágrimas e abraços aliviados. Como não tenho a mínima vontade de permanecer aqui como espectadora de todo essa amor paternal, sigo rapidamente escada acima, sendo acompanhada de perto por Marian.
A shadow não tenta iniciar uma conversa, parece perdida em pensamentos. Assim como eu, ela não se demorou mais que um minuto junto ao grupo na sala. Não sei onde estão seus pais, mas tenho noção de que, se não estão lá embaixo, não é uma pergunta que eu devo fazer.
Seguimos em silêncio até o corredor C e não posso dizer que me surpreendo quando encontramos Lílian esperando por nós. Claro que eu não esperava achá-la jogada igual a um saco de batatas no chão, mas isso é apenas detalhe.
— Você já sabe? — Marian pergunta cutucando-a com o pé.
— Me contaram quando voltei do hospital — responde soltando um suspiro triste.
— Max está bem? — Pergunto tentando aliviar um pouco o véu de tensão que pesa no corredor.
— Sim — responde e consigo ver um pequeno sorriso surgir em seu rosto. — Era por isso que eu estava vindo. Depois que vocês saíram a Rachel autorizou eles usarem o procedimento com médicos eletricks para acelerar a recuperação. Ele está em um quarto, acordado e pode receber visitas. Eu vim chamar vocês.
— Falou com ele?
— Não.
— Mas...
— Os pais dele chegaram — ela interrompe Marian, o sorriso completamente morto. — Preferi chamar vocês primeiro.
Não sei qual a história envolvendo os pais de Max, mas tenho certeza que existe uma. Lílian parece irritada e Marian não insiste nem um pouco no porque ela, que fez a maior cena no hospital, não tentou entrar imediatamente quando pôde. Então, posso apenas presumir que é um assunto que elas evitam.
— O.k — Marian olha para mim e não sei exatamente o que ela espera que eu faça então apenas dou de ombros em resposta. Ela assente como se tivesse entendido a mensagem que eu mesma desconheço. — Eu vou tomar banho e tirar essa roupa imunda, depois chamamos os meninos e vamos.
— Tudo bem — a shark concorda sem mover um músculo de sua posição no chão.
Marian parece querer questionar sobre a permanência da amiga ali, mas desiste antes mesmo de tentar e apenas entra em seu quarto. Dou um pequeno sorriso sem humor para Lílian e também sigo meu caminho.
Sabendo que não posso demorar muito, tomo um banho rápido para finalmente me livrar de toda a sujeira acumulada nas últimas horas. Marian não estava exagerando quando falou sobre estar imunda. Era uma mistura de lama, sangue e suor que já estava me dando agonia. Ajudar pessoas machucadas deixa algumas marcas.
Pego uma calça jeans e uma camiseta, me vestindo o mais rápido que consigo. Antes de sair, amarro meus cabelos em um coque bem apertado e calço meus all star surrados. De alguma forma eles voltaram para o meu armário, fato que agradeço muito. Preciso checar depois se o restante das roupas está aqui também.
Encontro Marian e Lílian no corredor. A shadow se rendeu e está jogada ao lado da amiga, mas agora suas roupas estão limpas e o rosto sem sinais de sangue ou terra.
— Já mandei uma mensagem para os meninos, eles devem estar nos esperando lá embaixo — Marian se levanta e se adianta pelo corredor principal. — A propósito, como vamos sair daqui se os portões já fecharam Líli?
— Eu tenho permissão para sair — ela mostra um papel pardo.
Ajudo-a a se levantar e seguimos para a escada. Austin e Jack nos esperam em um canto menos movimentado da sala. As pessoas falam baixo, os alunos parecem relatar o que aconteceu para os mais velhos. O clima é mais pesado do que antes e agradeço por não ficarmos muito tempo ali.
Assim que saímos pelas portas um dos patrulheiros nos para. Mesmo depois de lhe mostrarmos a permissão, ele nos escolta até os portões desconfiado, mas o porteiro informa que já tinha sido avisado da nossa saída. Ele carimba nossa permissão e diz que temos duas horas, depois disso não poderemos mais entrar.
O hospital está muito mais cheio do que antes. A sala de espera apinhada de alunos e alguns elementistas mais velhos. Levando em consideração quantos alunos vi serem mandados para cá e quantos eu mesma ajudei a carregar até os portões do colégio, o número de visitas é bastante compreensível.
Dessa vez a enfermeira não apresenta resistência quando caminhamos até os elevadores. Os seguranças olham para Lílian desconfiados e ela apenas sorri envergonhada. Max está no quinto andar, quarto 215. O encontramos sentado na cama comendo bolacha. Bem, ele estava comendo antes de Austin roubar o pacote em velocidade relâmpago. Max o olha indignado o que se torna até cômico pelo fato de sua boca estar toda suja de farelo.
— Ei!
— Não reclame, eu abandonei o jantar para estar aqui cara — Austin retruca devorando as bolachas.
Líli revira os olhos e sem esperar qualquer outra coisa, anda a passos largos até a cama. Ela e Max se envolvem em um abraço apertado e demorado. Um sorriso triste e aliviado se expande pelo rosto dele e ele parece ter voltado a respirar só agora.
A aparência de Max é infinitamente melhor do que quando o trouxeram até aqui, mas é nítido que ainda sente alguns efeitos do ataque.
O abraço se prolonga por mais alguns segundos e não tentamos interromper o momento. Mesmo conhecendo-os a pouco tempo, estou ciente de que existe uma história entre eles e os surtos de Lílian precisam ser compensados de alguma forma.
— Como você está? — Ela pergunta quando finalmente quebram o abraço. Ela limpa rapidamente as lágrimas que surgiram em seus olhos e nós fingimos que elas nunca estiveram ali.
— Eu estou bem, Líli. Sério, não se preocupe tanto — Max está com os olhos fixos nela transmitindo nada além de conforto. Sua mão está acomodando a dela gentilmente sobre a cama. Mais uma vez fingimos que nada está acontecendo.
— Eu fiquei preocupada. No que você estava pensando?
— Em merda — Austin fala imediatamente recebendo um cotovelada de Marian. Ela está concentrada na cena que se desenrola e quase consigo ver satisfação em seus olhos.
— Você podia ter morrido! — Lílian engole em seco e respira fundo tentando se acalmar.
— Eu sei. Me desculpe, eu não devia ter feito aquilo. — Ele seca uma lágrima que ela deixa escorrer e volta a abraçá-la.
Devo dizer que a cena é bonita e aposto que se os conhecesse a mais tempo estaria com o mesmo sorriso satisfeito que Marian exibe agora. Jack se mantém em silêncio atrás dela e também parece contente. Austin está ocupado demais com seu lanche usurpado para demonstrar reação. Mas ele parece muito feliz em devorar todo o conteúdo do pacote.
— Se você fizer isso de novo, eu mesma mato você.
Lílian se afasta e se acomoda em uma cadeira ao lado da cama. Ele sorri abertamente e só então parece se lembrar de que também estamos no quarto. Suas bochechas se coram de um vermelho intenso ao constatar que assistimos toda a interação entre eles.
De qualquer forma, o cumprimentamos como se nada tivesse acontecido, não é de interesse de ninguém deixá-los constrangidos e retraí-los de algum jeito. Depois de todos os cumprimentos e repreendas por ele ter sido irresponsável, ele nos encara sério e preocupado.
— As coisas estão feias, não é?
Assentimos sem qualquer hesitação. As palavras de Martin ainda frescas e gritantes na mente de todos nós.
Max suspira e abaixa a cabeça pensativo. Não sei se lhe contaram sobre as informações recentes e, se não contaram, ele não parece precisar de uma explicação. Provavelmente deduziu sozinho os fatos.
— Mais alguém notou o que aquele monstro queria? — Ele pergunta após algum tempo. Os olhos fixos em um ponto no chão.
— Sim, cara! O que eles sempre querem, as crianças — Austin responde como se fosse óbvio. O pacote acabou. Ele parece mal-humorado agora.
Definitivamente é fome.
Então vamos falar com ele só quando estiver alimentado.
Boa ideia.
— Não, ele não queria isso — Max retruca agora com os olhos fixos em nós. — Ele ignorou as crianças que estavam na frente dele e atacou um grupo específico. — Levanto um sobrancelha confusa. Como ele sabe dessas coisas se estava desacordado? — Encontrei alguns alunos na enfermaria. Eles me contaram o que aconteceu depois de... Vocês sabem.
— Sim, depois de você partir um tranpolim ao meio. Estamos por dentro do assunto — Austin fala revirando os olhos. Ele suspira e da de ombros entediado. — Vai ver ele tem um gosto mais refinado. O monstro, quero dizer.
— Pelo que eu sei, ele tentou matar as pessoas no caminho e não sequestrar alguém. É como se... — ele pensa em busca das palavras certas. — Como se fossem apenas empecilhos.
— O que você quer dizer, Max? Ele atrás de outra coisa? Do que exatamente? — Jack questiona impaciente.
— Para qual lado ele estava indo?
— O que?
— Para qual lado, Jack, ele estava indo enquanto atacava?
— Eu não sei. Para o colégio, talvez.
— Não — a palavra salta da minha boca antes que eu pense direito sobre o assunto. Eles me encaram com expectativa e imediatamente me arrependo por ter me envolvido na conversa.
O que eu ia dizer mesmo?
Prédio do governo.
O quê?
Você ia dizer que ele estava indo para o prédio do governo.
Certo. E por que eu diria uma coisa dessas?
Porque você se lembra de ver o prédio enquanto observava o troço atacar as pessoas.
Verdade. Obrigada.
Na próxima eu vou cobrar.
— O prédio do governo.
— O quê? — Jack está ainda mais confuso. Não posso culpá-lo, não expliquei decentemente minha suposição.
— Ele estava indo na direção do prédio do governo.
— A Torre Branca? Tem certeza?
Torre Branca? Oi? Desde quando o prédio se chama assim?
Acho que desde sempre.
Provavelmente.
— Não certeza absoluta. Mas quase — respondo sentindo minhas bochechas ficarem quentes.
— Certo. Então ele queria algo que está no prédio do governo.
— Talvez ele só quisesse quebrar tudo. O negócio brilha tanto que chega a cegar as vezes. Vai ver ele estava irritado.
Max olha para Austin com tédio, mas este não parece nem um pouco arrependido do comentário. O silêncio se estabelece por uns minutos e quando Max o quebra eu já posso sentir a tensão se tornando um denso véu mais uma vez.
— Ele não entrou aqui sozinho — fala com convicção atraindo nossa atenção. — Nenhum monstro conhece Wirdgewt. Precisariam de informações para saber onde teleportar e onde ir.
Suas palavras pesam sobre nossas cabeças. Nem mesmo Austin tenta cortar a tensão com piadas. Marian é a única que decide colocar em palavras o que Max deixou pairar subentendido no ar.
— Ele teve ajuda de alguém.
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