Elementium - Volume 1 - A Ascensão
15 A Culpa é o Inferno da Alma
Notas iniciais
Silêncio. Eu optei por ele depois das palavras que ouvi. O silêncio me permite pensar.
Meu quarto não parecia um bom lugar para me esconder, por isso sai pela janela, tive um pouco de dificuldade ao tentar voar sozinha, mas consegui sem cair de cara no chão. Primeiramente, me sentei no telhado do colégio, mas ainda podia ser vista facilmente do campo de treinamento. Então, aqui estou eu, na torre do relógio que fica próxima ao hospital, na praça central.
Daqui posso ver quase tudo sem ser vista por ninguém. É um ótimo lugar para se esconder. O vento bate forte aqui em cima, mesmo a tarde estando quente, o ar é gelado e me arrependo de não ter pego um blusa antes de sair.
Ao longe escuto meu nome. Lilian e Marian estão novamente me procurando pela praça. Faz um tempo que se dividiram para irem atrás de mim. Valeri e Rachel passaram algum tempo atrás, voando sobre os prédios. Me sinto mal por estar “fugindo” delas, mas não estou pronta para sair do aconchegante silêncio.
Quando as vozes somem, volto a me sentar no canto escuro da torre e as palavras de Austin tomam conta de minha mente mais uma vez. “Você matou trinta...”, essas três palavras rondaram meus pensamentos nas últimas quatro horas. Não consigo parar de pensar que o pior, não foi tê-las ouvido, mas sim saber que elas são a verdade. Eu matei aquelas pessoas. Eu fui a bomba implantada naquele ônibus, a espera da faísca. Sim, eu já pensei nisso, mas durante todos esses dias eu tenho me escondido dessa realidade, tentando achar algo que prove o contrário.
Quando me escondi aqui, eu pensei que estava me escondendo dos meus amigos, que eu estava brava com Austin, mas agora percebo que eu estava mais uma vez fugindo da verdade, não estou com raiva de Austin, estou com raiva de mim mesma, não estou me escondendo dele e sim de suas palavras. Palavras estas que eu não esperava escutar de mais ninguém além do meu subconsciente, que constantemente me lembra do acontecido.
Eu me odeio. Todos os dias que levanto, eu malditamente desejo não ter me mudado, não ter ido para aquela escola, não ter entrado naquele ônibus, não ter nascido. Eu sempre acreditei em destino, mas agora começo a questionar essa crença. Talvez as coisas simplesmente aconteçam para que nossa vida possa ser a mais ferrada possível. Eu podia simplesmente ter dormido demais naquela manhã, podia ter contado a minha mãe sobre as malditas veias, assim provavelmente ela não me deixaria ir ao colégio. Podia ter feito mil coisas que não fiz, e essas mil coisas não feitas custaram a vida de trinta pessoas. A minha vida também acabou naquele dia, eu matei a mim e mais vinte e nove pessoas. Eu não deveria estar aqui, o justo seria eu perecer com eles no meio de todo aquele fogo.
Por que eu tive um destino diferente? Por que eu recebi uma segunda chance? Por que meu coração não parou como o deles? Eu não consigo passar um dia se quer sem desejar que fosse deles a segunda chance e não minha. Eu não mereço isso, eu não mereço sorrir, eu não mereço ser feliz, não mereço viver. Nesse canto escuro, em uma torre distante de todos, onde apenas o silêncio e a solidão vivem, é aqui que eu mereço estar.
Eu segurei as lágrimas desde que subi aquelas escadas, mas não sou forte o bastante e elas me vencem. Seguro meus joelhos contra meu corpo e me encolho no escuro, enquanto as lágrimas escorrem pelo meu rosto.
Não sei por quanto tempo fico nessa posição, mas quando volto a levantar a cabeça, as estrelas já tomaram conta da imensidão azul. O vento está mais frio agora e meu corpo se arrepia me fazendo ficar mais encolhida possível. Volto a esconder o rosto, mas as lágrimas sessaram á um bom tempo, dando lugar a culpa e a dor. Acredito que até meu corpo sabe que não tenho o direito de chorar por meus problemas depois de todos que causei.
---- Aqui é um bom lugar para pensar. ---- escuto uma voz familiar vinda do canto oposto ---- você escolheu bem.
Levanto a cabeça em busca da dona da voz, mas está escuro demais e meus olhos ainda ardem, tornando difícil mantê-los abertos.
---- Sabe... ---- continua sem sair das sombras ---- ... você preocupou bastante gente, Lilian até pensa que você foi embora.
---- Como eu faria isso? Não sei teleportar. ---- respondo mesmo sem ver seu rosto, mas sei quem está falando.
---- Ela provavelmente esqueceu esse detalhe, como também esqueceu que você não sabia voar quando estávamos indo ao jogo. ---- responde ---- mas acredito que não é mais um problema, considerando que está aqui.
---- Eu aprendi, quer dizer, me ensinaram.
Ela murmura algo em concordância e consigo ouvir suas botas fazerem barulho sobre a madeira. O brilho pálido da lua atravessa as janelas ao lado do grande relógio, deixando o ambiente pouco iluminado, mas o bastante para eu poder diferenciar as roupas pretas das sombras predominantes no lugar. Ela está encostada na parede atrás de uma engrenagem. O rosto pálido sério e os olhos parecem cansados. Ela observa as estrelas com uma expressão triste e me dou conta que não a vi sorrir de verdade em nenhum momento.
---- Como me encontrou? ---- pergunto fazendo seus olhos escuros me encararem divertidos, escondendo levemente o cansaço antes predominante.
---- Porque eu descobri esse lugar a mais tempo. ---- responde e da um sorrindo discreto ---- E você é fácil de encontrar.
---- Como assim?
---- Vai ter tempo para entender, mas agora, você tem que voltar. ---- diz ela e eu apenas encaro o céu ---- Thais, eu sei como se sente, de verdade, eu passei por isso. Quando eu cheguei aqui, passava mais tempo nessa torre e nas sombras do que nos corredores. Eu achava que era porque eu não queria ser julgada, mas me dei conta que na verdade eu não conseguia encarar as pessoas , não enquanto eu não conseguisse encarar a mim mesma no espelho.
Milena continua, e quando não respondo, ela suspira, sai finalmente da escuridão e se sente a minha frente. Seus olhos parecem mais cansados do que reparei e ela parece frágil, nada semelhante com a Milena que conheci dentro dos portões do colégio. Aqui ela parece estar sofrendo, um sofrimento pior do que vi nos olhos de Austin quando seu pai foi mencionado, pior do que qualquer sofrimento que um dia vi em mim mesma.
---- Quando eles me encontraram, eu estava jantando em uma pizzaria com a minha família. Estávamos distraídos com uma conversa qualquer quando os monstros chegaram. Eles entraram pela porta, para os humanos, eles eram bandidos, mas eu os via de verdade. Vieram na direção da nossa mesa e quando iam fazer algo, os elementistas chegaram. Eu fui arremessada através de uma janela de vidro por um dos monstros. Mataram ele e eu fui escoltada até aqui. Meus pais...
Sua voz falha e ela abaixa a cabeça. Depois encara o céu e da um longo suspiro antes de continuar.
---- Muitas pessoas se feriram naquela noite, outras morreram. Eu me lembro da voz da minha mãe me chamando e do choro da minha irmã mais nova. Eu não sabia naquele dia, mas quando eu toquei o chão escuro por causa da noite, como um modo de auto preservação, as sombras me esconderam. Meus pais chamavam por mim e eu não sabia o porque de eles não conseguirem me ver, mas quando tentei andar em direção a eles, Mason, o líder da equipe que estava lá, e também um Shadow, me impediu.
Ela para mais uma vez. Desde que começou a contar a história, ela está segurando o colar com três contas pendurado em seu pescoço. Enquanto conta, ela encara a lua e seus olhos brilham, mas não vejo nem uma única lágrima deixar seus olhos.
---- Durante um ano inteiro, eu me odiei, eu desejava ter morrido, acreditava que eu tinha matado aquelas pessoas. Mas alguém me fez mudar esse pensamento. ---- ela diz e um pequeno e discreto sorriso perambula por seu rosto ---- Eu não matei elas, os monstros mataram. Se eles estavam atrás de mim? Sim, estavam, mas eu não tenho culpa de ser quem sou. Aquelas pessoas estavam no lugar errado, assim como eu e minha família. Eu não posso mudar o sangue que corre em minhas veias e tão pouco, posso voltar no tempo e mudar o que aconteceu. O que me resta a fazer é seguir em frente e lutar, por todos aqueles que se foram naquela noite e todos que ainda podem ser vítimas.
Ela me encara novamente e agora sua expressão é um pouco assustadora. Ao olhar em seus olhos concluo que nunca quero ser a inimiga dessa garota.
---- Você não vai ajudar sentada aqui, no escuro. Não vai adiantar nada você desejar não ter nascido, digo isso por experiência própria. Aquelas pessoas morreram e tudo que você faz por elas é sentar no escuro e chorar? Não, você vai levantar dai e enfrentar a realidade, a sua realidade, a realidade de todos aqui. Se precisar de alguém para odiar, odeie os bastardos que destruíram aquele ônibus. ---- ela suspira antes de terminar ---- O que eu quero dizer, é que você tem uma segunda chance, faça ela valer a pena.
Fico encarando-a, digerindo toda a informação. Ela tem razão, mesmo a culpa sendo minha ou não, todos que perderam a vida naquele ônibus merecem mais do que a minha covardia.
---- Thais, eu juro em nome dos Shadows, que se você não levantar dai, eu vou te jogar de cima dessa torre. ---- Milena diz, porém exibindo um sorriso.
---- Eu já ia levantar. ---- falo também sorrindo.
Levanto-me e bato a poeira de minhas roupas. Milena faz o mesmo e reclama da sujeira em suas botas.
---- Obrigado. ---- agradeço.
Ela assente e pega seu celular no bolso da calça jeans. Ela lê algo e me encara.
---- Você se sente psicologicamente bem para não empurrar Austin dessa torre caso ele apareça aqui? ---- me pergunta segurando o riso.
---- Contou a ele que eu estava aqui?
---- Não, mas o infeliz estava te procurando do lado de fora e deve ter me visto. ---- responde dando de ombros.
---- Pensei que tivesse vindo pelas sombras. ---- falo.
---- Não o caminho todo, estou sem energia pra isso, apenas subi pelas sombras. ---- explica.
Assinto e olho através da janela. Eu não estou com raiva de Austin, portanto não acho que o jogaria da torre, mas se não estou brava, por que uma parte de mim reluta tanto em vê-lo?
---- Thais? ---- Milena chama, ela ainda está me encarando ---- Austin está parado do lado de fora e não tenho forças para teleportar nós duas, então ele vai te ver de qualquer jeito. Se você deixar, eu permito que ele suba, se não quiser vê-lo, garanto que ele vai ficar exatamente onde está.
---- Tudo bem. ---- ela me olha confusa e decido ser um pouco mais especifica ---- Pode deixar ele subir.
Ela assente e digita rapidamente no celular. Logo a resposta chega e ela suspira. Vai até a janela e grita.
----- Sobe logo seu idiota. Antes que eu mude de ideia.
---- Sabe, não precisa fazer isso, quer dizer, eu realmente não estou muito brava com ele. ---- falo sorrindo de sua seriedade.
---- Você pode não estar, mas infelizmente pra ele, todos sentiram por você e vai por mim, isso não é 1% do que a Lili está fazendo . ---- diz ela.
Ouvimos um barulho do lado de fora e Milena se vira para mim novamente.
---- Lembra do que eu disse, você é mais que isso. ---- diz e me abraça ---- E se esse idiota falar mais alguma merda, você sempre tem a opção de joga-lo daquela janela bem ali.
Ela aponta para janela sorrindo e ouvimos Austin bufar do lado de fora.
---- Eu sei voar Milena. ---- diz ele.
---- Ninguém falou com você panaca. ---- retruca ela brava e vai até a janela onde ele está esperando ---- Eu vou deixar vocês conversarem. Não estrague tudo idiota, porque se fizer isso, vou garantir uma estadia bem longa pra você na ala hospitalar.
Ela dá um breve aceno de cabeça e desaparece em meio as sombras. Volto para o canto e me encosto na parede. Austin suspira algumas vezes antes de finalmente entrar na torre. Ele está com um conjunto de moletom azul. O gorro deixa apenas alguns fios castanhos aparentes sobre a testa. Ele coloca as mãos dentro do bolso em um gesto nervoso. Seus olhos vagam pelo local e param em mim.
Tudo bem, agora, olhando pra ele sinto uma raiva que eu não sabia que estava guardando. Estou com raiva por ele ter usado aquilo contra mim, quando na verdade eu só estava tentando ajudar. Eu não consegui sentir raiva na hora porque estava perdida demais no ódio por mim mesma, mas sim, eu realmente estou com raiva dele. Quando ele olha pra mim nossos olhares se encontram, mas eu desvio e sigo em direção a janela, me debruçando sobre o peitoril.
---- Thais eu... ---- ele para e suspira mais uma vez ---- olha... eu queria...
---- Se você tem algo a dizer, ficar gaguejando não vai ajudar. ---- falo um pouco rude.
---- Eu sei. ---- diz ele e escuto o chão ranger as minhas costas ---- Me desculpe, eu não devia ter falado aquilo.
---- É, não devia. ---- falo quando ele para.
---- Eu estava com raiva, você tem que entender que eu não pensei direito. ---- diz ele.
---- Muitas pessoas sentem raiva Austin. ---- falo sem encara-lo ---- Eu estou com raiva de você agora e nem por isso estou jogando coisas na sua cara.
---- Thais...
---- E eu realmente entendo que estava com raiva ---- corto-o ---- mas isso não justifica ter usado aquilo contra mim.
Mesmo de costas, posso sentir seu olhar. Pelo canto do olho vejo-o abrir a boca diversas vezes.
---- Você tem razão e eu admito que errei. Mas eu estou aqui pedindo desculpas, então, será que custa muito me desculpar? ---- fala depois de um tempo.
Deixo uma risada irônica escapar e viro-me para encará-lo. Ele está parado alguns passos atrás, ainda com as mãos no bolso.
---- Pedir desculpas é o mínimo que você pode fazer. ---- digo dando um passo em sua direção ---- Eu não sou obrigada a te desculpar só porque você quer, isso é uma escolha minha. Não é tão simples assim, como vai ser se você fizer isso novamente, seja comigo ou não, vai simplesmente pedir desculpas e achar que está tudo bem?
---- Eu não disse isso. ---- ele recua quando dou mais um passo ---- Eu só acho que você está sendo um pouco dura demais.
---- Isso é o que você acha. ---- respondo dando mais um passo, estamos quase cara-a-cara e a cada passo parece que sinto mais raiva ---- Você estava com raiva, e seus amigos estavam tentando te ajudar, eu estava tentando te ajudar, mas como qualquer outra criança mimada e orgulhosa, você não aceitou ser contrariado e na primeira oportunidade, jogou meu passado na minha cara.
---- Não foi de propósito, quando eu vi, já tinha falado. ---- se defende.
---- Então se controle da próxima vez! ---- minha voz levanta algumas oitavas e ando os últimos passos até ele ---- Existem coisas que mesmo sendo verdades, não devem ser pronunciadas em voz alta, porque palavras tem poder, mas parece que você não sabe disso.
---- Eu sei. ---- ele diz segurando minha mão que deixei espalmada sobre seu peito após ter o empurrado ---- É por isso que eu estou aqui. Não porque é o mínimo que eu posso fazer, mas porque é mais uma consequência da minha idiotice. Olha, eu sei, você só quis ajudar, os outros queriam me ajudar, mas eu sou um estupido e fui grosso com todos. Eu descontei em você a raiva que estava sentindo de mim mesmo, por ser fraco.
Presto atenção em suas palavras e tento soltar meu braço, mas ele apanha o outro e me segura com as duas mãos.
---- Eu sou um idiota, sempre fui. Eu nunca deveria ter dito aquelas palavras, você não merecia ouvi-las, porque elas nem ao menos são verdade. Você não seria capaz de matar aquelas pessoas, nunca, aquilo foi um acontecimento do destino e não culpa de ninguém. ---- ele respira e continua me encarando, ele fala rápido e sua voz treme um pouco ---- Eu sim poderia ter matado todos naquela piscina, mas eu estupidamente sou idiota o bastante pra não reconhecer meu próprio erro e fazer todos os meus amigos me odiarem. Quando cheguei aqui, eu realmente esperava que você me mandasse ir para o inferno e isso teria sido melhor, porque eu não teria que encarar isso, eu simplesmente iria fugir, como sempre faço. Mas você não fez isso. Eu estou pedindo que me desculpe mesmo eu sabendo que não mereço.
Ele para, solta minhas mãos e o encaro séria. Seus olhos estão brilhando com lágrimas que a pouco surgiram. Ele suspira e abaixa a cabeça.
---- Eu sou um idiota orgulhoso. ---- diz ainda fitando os pés ---- Thais, por favor, me desculpe.
Ele levanta o rosto e volta a me olhar nos olhos. Acho que fazer ele admitir o obvio é um grande progresso considerando o tamanho do orgulho desse ser. Eu ainda sinto um pouco de raiva, mas acho que sou capaz de esquecer.
---- Tudo bem. ---- falo e um pequeno sorriso dança em seus lábios ---- Mas se for querer descontar sua raiva novamente, pense melhor, as pessoas não existem para serem seus sacos de pancadas.
---- Eu sei. Obrigado. ---- responde agora sorrindo.
---- Não vou fazer isso uma segunda vez. ---- digo e ele assente.
Vou até uma das janelas e volto a me debruçar sobre o peitoril. O vento bate forte contra a parede de concreto e passa assobiando ao redor da torre. Por algum motivo, não sinto tanto frio, apenas o ar um pouco gelado.
A lua cheia ilumina a praça com seu brilho pálido e as estrelas a acompanham.
As estrelas. Eu costumava observá-las com o meu pai quando era mais nova e já sofria com os constantes pesadelos. Quando eu acordava gritando no meio da noite, deitávamos na grama do jardim da nossa antiga casa em Santa Catarina e observávamos as constelações. Ele contava histórias sobre como as estrelas tinham ido parar lá e eu, como uma criança inocente, acreditava em todas elas. Conforme o tempo passava e os pesadelos se tornavam mais frequentes, minha mãe começou a me levar a um psicólogo, mas eu odiava as sessões, então parei de contar a eles sobre tais acontecimentos.
Quase todas as noites eu acordava suando e tremendo, mas para evitar mais uma visita ao médico, eu tentava me acalmar sem dizer nada aos meus pais. Passei a me sentar na varanda e observar as estrelas sozinha, já que não podia mais contar com a presença do meu pai. Mas em uma noite, o pesadelo foi extremamente ruim e eu gritei realmente alto durante o episodio. Lembro-me do abraço da minha mãe, enquanto eu chorava. Meu pai estava viajando naquele dia e ela tentava me acalmar, mas nem as estrelas puderam fazer isso naquela noite. Eu tinha nove anos. Foi a última vez que meus pais souberam de um pesadelo. Nos seis anos seguintes, dormir se tornou um verdadeiro inferno, me fazendo muitas vezes ter medo de fechar os olhos.
Isso é a única coisa de que não sinto falta. Os demônios que me atormentavam, sumiram quando cheguei aqui. Desde a minha primeira noite em Wirdgewt, eu não tive um pesadelo se quer e dormir se tornou um prazer enorme. Eu sinto falta das historias. Da voz tranquilizadora que meu pai usava. Geralmente era minha mãe que lidava com meus medos ou qualquer outra coisa e quando ela não estava, ele tentava não parecer apavorado para poder me ajudar. Ele nunca foi muito bom em lidar com assuntos assim, mas as estrelas sempre foram seu truque especial. Seus olhos verdes brilhavam de empolgação quando ele falava sobre elas.
Uma lágrima escapa de meus olhos sem permissão e leva outras com ela. Eu queria que eles estivessem aqui agora. Queria poder abraça-los o mais forte que consigo e nunca mais soltá-los.
---- Você está bem? ---- pergunta Austin me encarando preocupado.
Apenas assinto, não confio em minha voz. As lágrimas deixam meu olhos em disparada e desisto de tentar impedi-las. Eu sinto falta deles e isso não vai mudar. Eu os amo e queria poder dizer isso a eles somente mais uma vez.
Austin vem em minha direção e me abraça. Um simples abraço, exatamente como fiz com ele quando o encontrei encolhido no corredor. Eu retribuo e escondo meu rosto em seu peito.
---- Eu queria poder dizer que isso vai passar, mas infelizmente seria mentira. A dor só diminui, mas nunca vai ir embora de verdade. ---- ele diz com a voz triste ---- Eu sei que você sente saudades dos seus pais e também sei que isso é quase insuportável, mas apenas tente viver um dia de cada vez. Melhora com o tempo.
Escuto suas palavras em segundo plano e demoro alguns segundos para processá-las. Quando o faço, novas lágrimas tomam conta do meu rosto.
---- Como sabe que é por causa deles? ---- pergunto tentando me acalmar.
---- Porque conheço essa expressão, é a mesma que vejo á dez anos quando me olho no espelho. ---- responde me apertando mais forte.
Não sei quanto tempo se passa até que minhas lágrimas sessem por completo. Nos separamos e sentamos no chão lado a lado. Fico encarando o céu absorta em pensamentos até que sou tirada deles pela voz de Austin.
---- Eu não posso te levar até seus pais, mas se quiser, posso te mostrar seus amigos. ---- fala ele pensativo.
---- Como você faria isso? ---- pergunto curiosa.
---- Posso nos teleportar para Terra, é arriscado e ninguém pode te ver. ---- responde.
---- Meu pai e minha mãe são os únicos que possuem meu sangue. ---- digo com um pequeno sorriso.
---- Ótimo. ---- ele se levanta e estande a mão para mim ---- Você ainda não sabe fazer isso e acho que já está na hora de alguém te ensinar. Eu quero que focalize o lugar que quer ir, eu agradeceria se você não escolhesse sua casa, pode ser arriscado. Pense em um lugar perto dela, teleportar funciona basicamente como voar, você deseja e acontece. Vamos lá, feche os olhos e pense com convicção nesse lugar, como se já estivesse lá.
Assinto e ele passa um braço ao redor da minha cintura, como tinha feito na manhã de ontem. Fecho os olhos e visualizo um ponto do caminho que eu fazia para ir ao colégio. Um vento passa por nós e o ar antes levemente frio, muda para um vento extremamente gélido. Olho em volta e encontro a exata imagem que vi em minha mente. Estamos a duas quadras da minha casa.
---- Isso é muito divertido e fácil, como pode ser tão simples? ---- pergunto para Austin.
---- Nada é complicado, tudo é muito simples, somos nós que encaramos as coisas como bichos de sete cabeças. ---- ele sorri quando faço uma careta, sempre achei essa expressão meio estranha ---- Você vai descobrir que muitas coisas no nosso mundo são simples e como você disse, divertidas. Por que está tão frio?
Ele se encolhe como se quisesse fazer parte do moletom e eu sorrio, aquilo sim é familiar para mim.
---- Bem vindo a Curitiba. ---- falo sorrindo.
Ele assente um pouco confuso e começo a seguir o conhecido caminho. Então me lembro do aviso de Austin e paro, fazendo-o bater em minhas costas.
---- Que horas são? ---- pergunto me virando em sua direção.
---- Ah... ---- ele pega o celular do bolso ---- nove e meia, por que?
---- No horário de Wirdgewt certo? ---- pergunto e ele assente.
No meu primeiro dia, Lilian me explicou que Wirdgewt tem um fuso horário de cinco horas mais tarde que a Terra, portanto são quatro e meia da tarde aqui. Meus pais ainda estão no trabalho, o que torna seguro ir até minha casa, eu acho.
Volto a andar e ele me segue. Em poucos minutos, chegamos em frente a casa que em pouco tempo me apeguei tanto.
---- Espera! ---- diz Austin me segurando pelo braço quando tento adentrar o terreno ---- Você não consegue ficar oculta da visão dos seus pais.
---- Eu sei. ---- digo e olho sugestivamente para sua mão em meu braço, que ele retira ao entender o recado ---- Agora é quase cinco horas aqui, meus pais ainda estão trabalhando.
Ele encara a casa e depois olha para os lados. Quando volta a me olhar, sua expressão é de dúvida.
---- Eu vou entrar pela porta da varanda do meu quarto, eu sempre deixava aberta caso precisasse usá-la sem fazer barulho, então, a menos que meus pais tenham trancado, ela ainda está aberta. ---- falo tentando convencê-lo.
---- E se a porta não estiver aberta?
---- Então nós vamos embora. ---- respondo e ele assente.
Seguimos até a janela. Acho que estou pegando a manha desse negócio de voar. Subo na varanda facilmente e Austin vem logo atrás sorrindo.
---- O que foi? ---- pergunto sorrindo também.
---- Você aprendeu rápido. ---- responde sorrindo mais.
O encaro por um momento tentando entender sua “felicidade” perante isso. Por fim, volto minha atenção para a porta. Na verdade eu não deixava ela aberta, eu estraguei a tranca quando cheguei. Comecei a fazer isso em todas as casas que moramos depois daquela noite. Quando chegávamos, eu estragava as trancas de janelas ou no caso de varandas, das portas. Destranca-las a noite fazia barulho e minha mãe tinha adquirido uma incrível capacidade de acordar com qualquer ruído. Eu sabia que a porta estaria aberta, então simplesmente a empurrei e lá está o tão conhecido quarto.
---- Espera. ----- Austin segura meu braço quando faço menção de entrar ---- Vou ver se não tem ninguém. Espere aqui.
Ele entra no cômodo e seu tênis fazem um baixo som ao entrar em contato com o piso. Ele sai pela porta, deixando-a entre aberta. Espero alguns minutos, ele provavelmente está checando a casa toda, o que é meio idiota, eu sei que não há ninguém em casa.
Atravesso a janela e observo o cômodo que antes era meu refúgio. Um lugar que ainda mantém guardadas minhas lágrimas, os gritos de pavor e as tentativas frustradas de sessar os soluços. Esse lugar tem muito da minha agonia fixa em suas paredes, cada canto, tomado pelo medo. E então, a varanda, um lugar que eu considerava imune ao desespero.
Olho novamente ao redor e meus olhos se fixam na estante de porta-retratos. Em um em particular. Vou até ele e o seguro com as duas mãos, como fiz muitas vezes antes. Essa foto sempre foi minha preferida, mas agora uma parte de mim grita que essa realidade representada nesse pedaço de papel, não é verdade.
Na foto está presente uma menininha de seis anos, o sorriso faltando alguns dentes, o cabelo ruivo curto e bagunçado, os olhos verdes alegres. Do lado esquerdo da foto, um homem, com olhos verdes brilhantes, tão animados quanto os da pequena, exibindo um sorriso que pode ser visto até de costas, suas mãos grandes e firmes, seguram a garotinha no ar como se ela estivesse voando. Ao lado direito uma linda mulher, os cabelos ruivos presos em um coque frouxo, os olhos castanhos dourados divertidos olhando a cena a sua frente. Ela também tem um sorriso enorme estampado no rosto.
Eles parecem felizes. Eles eram felizes. Mas então, a garotinha banguela cresceu. Eles não moravam mais na casa com o grande jardim, onde foi tirada a foto. Os pais trabalhavam muito e não tinham tempo para ter momentos como o da fotografia. Os sorrisos diminuíram com o tempo e então, a famosa cota d’ água. Um acidente. E a foto, que antes representava uma família, agora lembra a falta de um integrante.
Quando percebo, estou literalmente abraçando o porta retrato, mas dessa vez, meus olhos não contém lágrimas e sim raiva, dor e saudade. Raiva do meu maldito destino, dor por causa do que perdi e saudade da felicidade que antes eu tinha.
---- Não tem ninguém. ---- escuto a voz de Austin as minhas costas.
Ele está ali a algum tempo, ouvi seus paços quando chegou, mas por algum motivo resolveu se dar por presente só agora.
---- Eu já sabia disso.
---- Pedi que esperasse do lado de fora. ---- ele diz em tom acusatório, mas não respondo ---- O que está fazendo?
Mas uma vez ele recebe apenas meu silencio. Ouço seus paços novamente, cada vez mais próximos. Sua respiração bate em meu pescoço, mas não tenho reação alguma, apenas continuo olhando as inúmeras fotos da estante. Ele as observa por um tempo e parece finalmente ver o objeto de vidro em minhas mãos. Ele me olha hesitante e ofereço o porta retrato. Ele segura e observa por alguns minutos.
---- Você tinha cabelo curto. ---- diz ainda observando a imagem.
---- Era mais fácil de cuidar, considerando que eu era uma pestinha quando criança e sempre acabava grudando alguma coisa no cabelo. ---- respondo perdida em lembranças.
Austin assente sorrindo, como se ele próprio estivesse lembrando de episódios na infância.
---- Esse jardim não é aqui. ---- conclui depois de mais alguns minutos.
---- É na minha cidade natal. Na primeira casa em que morei. ---- respondo agora observando os pôsteres nas paredes e as coleções de livros tanto amados por mim.
---- Você é parecida com seus pais. É uma perfeita mistura dos dois.
Assinto andando devagar até a cama. Algo está errado aqui. Tem alguma coisa faltando. Encaro as cobertas, nada mudou, são as mesmas que eu estava usando no meu último dia ali e estão arrumadas, exatamente como deixei. Os travesseiros, do mesmo jeito de sempre, nem um milímetro fora do lugar. As almofadas, tudo igual. O... achei. Aqui está a diferença. No meio das almofadas, onde ele sempre se encontrava, mais um dos meus objetos preferidos. O pequeno urso de pelúcia que ganhei do meu pai quando eu tinha cinco anos e me recusava a dormir por medo. Ele me deu o urso e, como sempre, contou uma grande historia sobre o bichinho, dizendo que ele era protetor das crianças.
É óbvio que o pequeno urso não ajudou em nada, mas por algum motivo, eu sempre o espremia entre os braços quando estava apavorada. Ele sempre esteve no meio das almofadas quando a cama estava arrumada, mas agora ele não está ali. Olho mais uma vez para o quarto em busca do ursinho.
Me levanto e sigo até a porta. Austin percebe meu movimento, solta o porta retrato e me segue. O corredor está escuro, mas não preciso de luz agora, conheço perfeitamente o caminho. A porta está entre aberta e assim que atravesso, o cheiro familiar me rodeia. O doce cheiro do perfume da minha mãe. Geralmente eu espirrava com ele, mas agora não tenho nenhuma reação a não ser a enorme vontade de chorar.
O cômodo está exatamente do jeito que me lembro. A cama no centro, a varando do lado esquerdo, as grandes cortinas cor de pêssego, os inúmeros porta-retratos e, lá está ele. Sentado sobre a cama, a tão familiar bolinha cor de caramelo, os minúsculos olhos negros e as pequenas orelhas de urso. Ando a passos lentos até a cama e o encaro. Bordado em azul, na barriguinha peluda, o nome escolhido pela garotinha amedrontada de cinco anos. TOM.
O pequeno urso Tom me encara com seus olhinhos brilhantes. Parece me questionar, a mesma pergunta que me faço: O que vai acontecer agora?
Certo, provavelmente eu sou a única que vê essa pergunta em seus olhos de bolas de gude. Austin ainda está parado na porta e tenho quase certeza que ele me encara confuso. “Por que essa doida está encarando um ursinho de pelúcia?”, com certeza é esse o pensamento dele.
Por fim, decido não pegá-lo. Se ele está aqui e não no meu quarto, é porque, sem dúvida, foi minha mãe quem o pegou. Assim como os outros três porta-retratos que estão faltando na minha estante, mas que se encontram no bidê ao lado do travesseiro dela.
Viro as costas para Tom e volto para meu quarto. Estou quase na varanda, quando me lembro da família alegre da foto. Não vou conseguir sair daqui sem essa lembrança. Apanho o porta retrato e finalmente saio do meu antigo quarto.
Austin parece querer dizer algo sobre eu ter pego a foto, mas parece perceber que nada do que ele disser vai me fazer deixa-lo para trás. Não posso deixa-lo. Estou levando ele exatamente porque preciso de um lembrete de quem já fui, da família que eu tinha, preciso de algo para me lembrar que aquilo aconteceu de verdade e não só na minha mente. Eu preciso de uma prova que as pessoas que eu conhecia existiram, que essas pessoas não são sobras de elementistas que desistiram de sus vidas de heróis. Preciso dos pais que conheci e amei, que ainda amo e não das pessoas que todos em Wirdgewt querem que eu veja quando me lembrar deles. Tenho que deixar viva a lembrança do policial e da medica, os pais distantes porém amorosos, os dois que tanto fazem falta.
---- Você sabe dizer se meus amigos estão vivos? ---- pergunto encarando os olhos castanhos que todo esse tempo me analisam curiosos.
---- Sim, eles estão. ---- ele garante ---- Pelo que eu ouvi da secretária de Martin, os quatro foram afetados pela explosão, mas como estavam no fundo, conseguiram sair pela porta de emergência antes do tanque explodir. Eles tiveram queimaduras, algumas sérias. Três estão em casa e um ainda continua no hospital. Parece que ele voltou para ajudar alguém e acabou se queimando mais. Alguns dos sobreviventes foram arremessados como você, por isso não tiveram muitas queimaduras, só cortes e alguns ossos quebrados.
---- Quem ainda está no hospital? Você sabe o nome? ---- pergunto aflita.
---- Le... Leandro, não, não é Leandro. ---- ele pensa, mas o nome certo já está em minha cabeça ---- Li...
---- Leonardo. ---- falo.
---- Isso, Leonardo.
Com a confirmação dele, sinto novamente a onda de culpa. Leo voltou para ajudar os outros e por isso está no hospital. Ele se machucou tentando salvar pessoas, enquanto eu estava a sei lá quantos metros prestando atenção na conversa de um garoto que eu nem conhecia. Por que eu não levantei daquela maldita rua?
---- Você sabe em qual hospital ele está?
Austin assente e novamente passa um braço em minha cintura. O novo lugar não é frio, na verdade tem um calor aconchegante. Ele é branco e incrivelmente familiar. É um quarto de hospital. Viro-me e lá está a cama. Os cobertores brancos o cobrem até quase toda a cabeça, mas reconheço a bagunça de fios escuros. Sua respiração está calma o que indica que está dormindo. Puxo devagar o coberto e as lágrimas tomam conta dos meus olhos. As mãos ao lado do rosto estão enfaixadas. Consigo ver um enorme curativo no pescoço. O rosto não está queimado, pelo menos não o lado exposto, mas consigo ver vários arranhões. Mais da metade do braço esquerdo está enfaixado. Ajeito novamente o cobertor e ele se mexe, deitando de barriga pra cima. Realmente ele deve ter protegido o rosto, pois todos os traços que lembro estão ali, levemente danificados pelos cortes, mas nada de queimadoras.
Austin pega uma prancheta do pé da cama e diz:
---- Ele quebrou o pé esquerdo. Teve vários cortes, um profundo no braço direito, feito por um pedaço da lataria do ônibus. ---- ele analisa mais um pouco a folha ---- As queimaduras estão em sessenta por cento do corpo. Ele está fora de risco, mas vai ficar internado por um tempo.
Assinto e volto a encarar o rosto de Leo. É estranho não ver o sorriso brincalhão em sue rosto, não parece ele, assim tão calmo. Pelo menos sua expressão não é de dor. Austin fica do outro lado da cama e me observa, ele desvia os olhos quando o encaro, mas sei que está me observando.
Olho para o relógio na parede. São vinte para as seis. Não parece que ficamos aqui todo esse tempo. O quarto é realmente muito familiar, o piso, as coisas no quarto, é como se eu já tivesse vindo aqui.
Encaro novamente meu amigo adormecido e levo uma mão para tirar seus cabelos dos olhos. Eu não esperava uma reação afobada de Austin, mas é isso que acontece. Quando ele percebe meu movimento, ouço seu “não” , mas é tarde demais, já toquei a testa de Leo.
Assim que toco sua pele, ele começa a se mexer, como se algo estivesse machucando ele, sua expressão de calma muda para uma agoniada e eu tiro a mão de imediato. Infelizmente isso não acaba com o “sofrimento” dele, que continua a se contorcer. Encaro Austin confusa e surpresa.
Os aparelhos ligados á Leo começam a apitar incontrolavelmente, os batimentos cardíacos aumentam do nada e sei aonde isso vai dar. Austin encara os aparelhos desesperado e leva uma mão a testa de Leo, fecha os olhos e parece se concentrar em algo. Aos poucos segundos Leo para de se contorcer e sua expressão vai voltando a ser calma, porém, os aparelhos continuam apitando, mesmo com os batimentos voltando ao normal.
Austin tira a mão do rosto de Leo e abre os olhos. Ele parece cansado, mas continua me encarando apavorado.
---- Temos que sair daqui. ---- ele diz ---- não consigo teleportar, vai ter que ser você.
---- Não acho que consigo fazer isso com rapidez ainda. ---- respondo insegura.
---- Então vamos ter que correr mesmo.
Ele segue até a porta, observa o corredor e dá um sinal para mim. Sigo ele para fora e os corredores são mais familiares ainda. Procuro esses corredores em minha mente enquanto sigo Austin correndo, mas não preciso me esforçar para lembrar, pois, quando chegamos a entrado do hospital, eu a vejo. Os cabelos tão ruivos quanto os meus, presos como sempre. O jaleco branco exibindo seu nome. Seu rosto está com a típica mascara, mas não preciso de mais confirmações, eu não precisaria nem mesmo ver seu cabelo, os olhos já me dizem quem estou encarando. É claro, são os mesmo que me olharam com amor durante quinze aos, mesmo quando eu quebrava seus vasos preferidos ou sujava o sofá da sala.
É por isso que tudo parecia tão familiar. Olho para frente e consigo ler o nome claramente. Aquele é o hospital que tantas vezes esperei ela, perdi as contas dos dias que fiz minha lição de casa sentada em seu consultório. Ela não olha pra mim, o que é um alívio, o aviso de Austin ainda está claro em minha mente. Corro mais rápido, em meio aos enfermeiros, para que ela não consiga me ver, mas sei que falho miseravelmente quando escuto sua voz.
---- Thais? ---- ela pergunta, hesitante ---- Filha?
Sua palavras me paralisam, assim como as de Austin mais sedo, mas dessa vez o efeito é outro. Sua voz aumente mais a saudade que vem me corroendo. Eu sei que ela não vai vir até mim, a menos que eu responda. Bem, quem iria estar segura de que realmente está vendo a filha que deveria estar morta.
Austin está atravessando a porta e eu sei que é questão de segundos até perceber que não estou mais o seguindo. Noventa por cento do meu corpo grita para que eu continue correndo sem dar ouvidos a ela, mas os outros dez imploram por seu abraço só mais uma vez. Sem pensar me viro, é como se meu corpo respondesse ao som da voz dela. Pode ser coisa da minha cabeça, mas consigo ouvir seu arquejo de onde estou e eu luto contra as lágrimas.
Mas a mulher que se encontra na minha frente, não é a mulher que me lembro. Esta é bem mais frágil do que aquela presente em minhas memórias. Existem olheiras profundas abaixo de seus olhos e estes, perderam o brilho. Antes não consegui reparar nesse detalhes porque estava correndo, mas agora, parada posso ver o quão abatida está minha mãe. Ela tira a mascara e as lágrimas tomam conta de seus olhos, mas sei que eu não deveria estra fazendo isso, ela não podia ter me visto. E é por esse motivo que quando ela dá o primeiro passo em minha direção, eu corro. Simplesmente corro.
Atravesse a entrada do hospital em disparada e sei que ela me segue, por isso, quando chego do lado de fora, vou para o lado, saindo do campo de visão dela e voo até o telhado. Sento-me e escuto as portas se abrirem novamente. Consigo vê-la daqui. Ela olha para os lados e felizmente não pensa em olhar para cima. Austin está no muro a sua frente e me encara, ele provavelmente reconhece ela da foto, mas se mantem calado encostado no muro.
Minha mãe continua procurando, mas é interrompida por uma voz. Uma voz que conheço bem. É Marta. Ela trabalha com minha mãe a um bom tempo, cuidou de mim muitas vezes e é praticamente impossível não reconhecer sua voz.
---- Lia, precisamos de você. ---- ela diz e vai até minha mãe quando esta não se mexe ---- O que foi? Por que está parada aqui fora?
---- Eu vi ela. ---- minha mãe responde com a voz embargada ---- ela estava aqui, bem aqui. Eu a vi. Tenho certeza, como não a reconheceria, era ela.
Não consigo ver o rosto dela, mas sei que está chorando. Não me lembro qual foi a última vez que vi minha mãe chorar. Também não consigo ver Marta, mas ela provavelmente está confusa.
---- Quem você viu?
---- Thais. Eu a vi, mas ela correu e não sei para onde ela foi. ---- minha mãe responde procurando novamente ao seu redor.
Austin ainda me encara. Não sei dizer qual sua expressão. Está escuro para isso.
---- Lia. ---- quase consigo ouvir o suspiro de Marta ---- Todos sentimos falta da Thais, como não sentir. Eu a considerava uma filha. Mas Lia, tem um garoto lá dentro, que sobreviveu aquele maldito acidente, eu sei que você queria que fosse ela, mas não sei porque diabos o destino não quis assim. Então, por favor, pela Thais, ajude ele, alguém que podemos salvar. Querida, ela sempre vai estar com você, não importa o que aconteça, mas agora precisamos da médica que você guarda ai dentro.
Marta abraça minha mãe enquanto fala e novamente luto contra as lágrimas. Quando o abraço acaba, sei que minha mãe já colocou sua armadura de novo.
---- Você tem razão. Temos que salvar quem podemos. ---- ela diz, mas antes de entrar olha mais uma vez em volta como se quisesse ter certeza de que não estou ali.
Quando escuto a porta se fechar, finalmente liberto as lágrimas e falho em reprimir os soluços. Sinto braços ao meu redor e sei que é Austin. Mesmo me abraçando, sei que ele está inseguro de ficar aqui. Em meio as lágrimas, fecho os olhos e me concentro. Sinto o vento mudar de novo. A tensão nos ombros de Austin desaparece e ele me abraça mais forte.
Enquanto choro, chego a uma conclusão. Eu preciso ser igual a minha mãe. Ela, mesmo com tudo o que aconteceu, continua batalhando por vidas todos os dias. Se ela está fazendo isso, por que eu não posso? Chega de me lamentar pelo que eu perdi, já está na hora de lutar pelo que eu ganhei. Se eu me tornei uma elementista em vez de morrer, eu deveria estar fazendo a minha parte.
Eu não posso chorar pelo resto da minha vida. Isso é sério, não é um sonho que eu vou acordar, é a vida real. Essas pessoas lutam pela vida de todos na Terra. Minha mãe está salvando quem ela pode, então vou fazer o mesmo.
Me separo de Austin gentilmente e seco meu rosto. Ele me encara preocupado, mas seus olhos também transparece compreensão.
---- Me desculpe. ---- falo e ele parece confuso ---- eu devia ter corrido mais rápido.
---- Não culpo você por não ter corrido. Se eu ouvisse a voz do meu pai, não pensaria duas vezes antes de correr até ele. ---- ele diz e por dois segundos seus olhos se tronam tristes, mas ele se recompõe ---- Você não é de aço Thais, tem sentimentos e, apesar de termos criado uma confusão enorme que Martin vai ter que arrumar e que provavelmente Max vai querer comer o meu fígado caso descubra, não estou bravo, jamais te culparia por ter uma reação completamente normal.
---- Então obrigado. Por tudo. ---- digo ---- E prometo não deixar o Max comer o seu fígado.
Ele sorri e olha o relógio. Seu sorriso se torna travesso, como se estivesse prestes a aprontar.
---- O toque de recolher é mais tarde no fim de semana, mas os portões estão trancados e já estão sendo patrulhados. Eu não tenho energia para me teleportar e nem você. Pronta para ser uma ninja?
---- Tudo bem, estamos ferrados.
Ele ri e segue até a janela. Saímos da torre e seguimos caminhando no escuro até os portões do colégio. Não vou dizer que foi extremamente fácil passar, mas também não foi muito difícil. Os seguranças não são muito ligados no trabalho deles.
Entramos rindo no prédio-dormitório e quando chegamos na sala, praticamente todos estão lá. Jack está como sempre deitado no colo de Mari. Max está sentado jogando alguma coisa com Lilian. Valeri está deitada conversando com Milena e Rachel enquanto mexe no cabelo de James, que está sentado no chão jogando vídeo game com Blake. O outro James, vamos chama-lo de James H, muito bem, James H está jogando cartas com Bryan e Luide. Bem, vocês entenderam, todos estão ali.
Acho que o fato de todas as conversas sessarem quando adentramos a sala, não me surpreende. Max é o primeiro a me ver e Lilian, reparando que ele para de falar, também olha em minha direção.
---- Onde você estava? ---- ela praticamente grita e vem correndo em minha direção.
Quando chega , empurra Austin que estava em minha frente e me abraça. O abraço de urso me deixa sem ar.
---- Lilian, assim você vai matar ela. ---- Austin diz, e parece chateado com o empurrão que recebeu.
---- Cala a boca, Austin. ---- ela rosna.
Me lembro do que Milena disse na torre e realmente as coisas não parecem estar boas para ele.
---- Lili, eu não estou mais brava com ele. ---- falo com a voz abafada por seus cabelos.
---- Mas eu estou. ---- ela diz e me solta. ---- E com você também, como você se atreve a desaparecer desse jeito. Sabe por quanto tempo nós te procuramos, a Milena ficou muito tempo andando pelas sombras atrás de você.
---- Você me fez fazer isso Lilian. ---- escuto a voz de Milena vinda dos sofás ---- Eu sabia onde ela estava.
---- Como é? ---- dessa vez é um coro de vozes.
Blake ri da reação das pessoas e Milena o acompanha.
---- Ei, casalzinho, que história é essa? ---- pergunta Valeri.
Me sento ao lado de Lilian no sofá e Austin fica em uma das mesas, a ideia de sentar próximo a ela não parece muito boa para ele.
---- Primeiro, não somos um casal. ---- Milena responde e Valeri revira os olhos ---- e segundo, sim eu sabia onde ela estava.
---- E por que não contou? ---- pergunta Rachel indignada.
---- Porque se eu contasse, vocês iriam atrás dela. ---- Milena responde.
---- Esse era o objetivo Gauthier. ---- fala Lilian.
---- Não passou pela cabeça de vocês, nem por um segundo, que ela talvez quisesse ficar sozinha? ---- pergunta Blake.
---- Ninguém nunca quer ficar sozinho. ---- responde Rachel.
Eles entram em uma discussão calorosa sobre o assunto e eu me mantenho calada, só observando. Sim, é possível, eu posso muito bem viver aqui, eu quero viver aqui. Meus pais estão seguindo todos os dias para seus trabalhos porque sabem que não podem mudar nada do que aconteceu, então, eu vou seguir todos os dias pelos corredores que um dia eles andaram, porque é isso que eu posso fazer. Lutar pela vida deles.
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