Lílian e Max viram a direita quando entramos no saguão do colégio, seguimos até o final do corredor e então fazemos a curva para a esquerda. Antes de acompanhá-los para o fim do novo corredor, consigo ler "Dormitórios" acima de uma grande porta de carvalho que, imagino eu, deve ser o acesso para o prédio dormitório.

No fim do corredor existe uma porta de vidro e uma placa me informa que se trata da diretoria. Adentramos uma pequena sala de espera composta por um sofá de couro escuro e algumas cadeiras estofadas, vasos de flor enfeitam o cômodo e, assim como no resto do prédio, a iluminação é dada por luzes flutuantes no teto. Atrás de de uma mesa de carvalho senta-se uma moça, vestida com um elegante vestido cinza e os cabelos loiros caindo em cascatas sobre seus ombros. Ela desvia o olhar para nós quando atravessamos a porta, seus olhos são dourados e sua expressão simpática.

— Boa noite crianças — ela sorri quando retribuímos o cumprimento — O diretor já está esperando por você, senhorita Windchest. — ela estende a mão por sobre a mesa e aperto-a rapidamente — Bem-vinda. Sou Mey Karston, auxiliar da diretoria.

— Prazer. — retribuo seu sorriso sem me dar ao trabalho de me apresentar, afinal isso não parece necessário.

Ela aponta para uma porta no final da sala e não é preciso que ninguém me diga que é a sala do diretor. Marttin está sentado atrás de uma escrivaninha quando adentramos o cômodo. O escritório é amplo e bem arejado pelas janelas altas na parede detrás, iluminado pelas bolinhas de luz e cheio de prateleiras lotadas de livros. Consigo ver uma escada caracol que sobe para um andar superior, ou quem sabe mais de um andar, mas, antes que eu possa especular o que pode haver acima da diretoria, a voz forte e calma de Martin domina a sala.

— Bem, vamos ver qual é o seu quarto então. — ele não levanta os olhos do computador, mas parece saber exatamente quem está em seu escritório. Será que Mey avisou da nossa chegada?

Ele parece mais desleixado do que na praça e observando sua postura na cadeira quase posso imaginá-lo tirando um cochilo durante a tarde. Seus dedos longos e finos se movimentam ágeis pelo teclado do computador, seus olhos passando rapidamente de um lado a outro da tela.

— 136 na ala C, corredor dois. — agora seus olhos escuros se fixam em mim, sempre analisando os mínimos detalhes e, diferente do que ocorreu lá fora quando me tranquilizou, aqui me sinto desconfortável.

— Certo. — não me dou trabalho de me preocupar com o fato de que não faço a menor ideia de como chegar ao tal quarto, pois a aflição sobre outra coisa está me corroendo a muito mais tempo — Eu preciso saber umas coisas antes de ir. — ele sorri compreensivo, como se já esperasse por isso — Me disseram que você me daria respostas depois... Depois que eu passasse pela escolha.

— Tudo bem. Eu precisava falar com você de qualquer forma. — ele suspira, apesar de sorrir com simpatia consigo identificar certo desconforto em seus olhos — Max, Lílian, se não me engano, está na hora do jantar, certo? — eles assentem hesitantes — Vocês podem ir comer, eu mesmo levo a Thais depois.

Os dois Sharks saem com olhares desconfiados, analisando o rosto do diretor, talvez tentando entender o seu semblante preocupado. Não os culpo, seria mentira dizer que não me surpreendi com a calma se esvaindo da expressão de Martin, na praça ele me pareceu um cara completamente despreocupado.

O diretor sinaliza a cadeira em frente a sua mesa e antes que eu pense em protestar já estou me sentando. Ela é estofada e bastante confortável, diferente do olhar de Martin sobre mim que é bem desconcertante.

— Acho que podemos começar pelas perguntas que você tem. — ele diz e engulo em seco repentinamente percebendo que não estou totalmente preparada para essa conversa, mas eu preciso saber o que aconteceu.

— Certo. — agora que estou autorizada a perguntar o que quero, as dúvidas parecem se embaralhar na minha mente, então pergunto a coisa que está me preocupando mais do que tudo — Meus pais. Quando poso vê-los? — ele suspira e desvia os olhos, me sinto na obrigação de pressioná-lo — Eles devem estar muito preocupados comigo, só me viram de manhã e agora já é de noite. E ainda tem o... o acidente...

As palavras se embaralham mais uma vez quando as lembranças me encontram. Quase consigo sentir todo o calor e o odor de gasolina. Por um momento me sinto culpada por não ter perguntado sobre o ocorrido primeiro.

Ele está demorando para responder e isso me aborrece. Sua expressão ansiosa e hesitante me deixa irritada. Estou cansada de não me darem as respostas que quero.

— Thais, existem fatores que complicam um pouco a vida dos elementistas — ele inicia cuidadosamente, encaro-o intensamente, mas ele não sustenta meu olhar — e é por causa deles que você não pode ver seus pais.

Ele termina de falar lentamente, como se estivesse me dando tempo para assimilar cada palavra, não que isso adiante muito. Meus olhos perdem o foco e me sinto doente.

Você precisa ficar calma.

Isso não pode ser verdade.

Se acalme!

— Eu sinto muito por isso, mas é um protocolo...

— Por que? — interrompo sua tentativa de me enrolar, não quero voltas na conversa, quero a verdade. Ele parece nervoso — Quais fatores?

— Quando você foi resgatada, algumas providências foram tomadas a respeito do seu desaparecimento.

— Que providências? — indago com raiva. Por que ele não vai direto ao ponto?

— A pedra Métis cuida dessas situações para preservar a segurança do nosso mundo. — ele respira fundo e parece um tanto chateado com o assunto — Como seria estranho você não ser encontra entre as vítimas do acidente, foi efetuado um protocolo de segurança. — me empertigo na cadeira quando ele para de falar, mas antes que eu possa reclamar ele prossegue — Foi colocado uma espécie de clone seu para que eles encontrassem junto aos destroços do ônibus.

Clone?

Eu também ouvi isso.

Mas que droga de ideia é essa?

— Espera. Eu não estou entendendo. Como assim um clone? Eles vão perceber que não sou eu assim que o clone não souber quem eles são ou...

A frase perde o sentido aos poucos e não consigo terminar o raciocínio, a compreensão me atingindo em cheio. Não precisa falar. Não precisa respirar. Nada disso é necessário se... Se só significar que...

Isso não pode acontecer!

Aparentemente, já aconteceu.

— Não. Isso não... — olho para ele em busca de alguma coisa que melhore a situação, mas só recebo um olhar triste — Me diga que não quer dizer o que acho que significa.

Aguardo a resposta que não vem, ele apenas me encara com pena. Sinto minha respiração ficar irregular, os pensamentos são rápidos demais para que eu possa se quer me concentrar. Memórias invadem minha mente dolorosamente.

Isso não pode ser verdade!

Mas é.

Você não está ajudando!

— Thais, você não pode ver seus pais porque eles pensam que você morreu no acidente. — ele diz com pesar.

Eu não quero sua pena!

Não diga isso, ele está tentando ajudar.

Jura? Não está funcionando.

— Certo. Mas... — minha voz está irregular e preciso me concentrar para conseguir fazer o resto das palavras terem algum sentido — Eu só quero ver como eles estão. — ele suspira mais uma vez chateado e começo a entrar em pânico — Não vou falar com eles, só preciso... Preciso ver eles.

— Thais — ele levanta uma mão pedindo silêncio — Isso não vai ser possível — estou pronta para protestar mais uma vez, meu corpo tremendo de tensão, mas ele não me dá oportunidade — quando aceitamos nossa natureza, quando passamos pelo portal de entrada, nos tornamos invisíveis para o mundo mortal, a não ser para aqueles que possuem nosso sangue. Eles podem nos ver, sentir nossa presença e até mesmo nos ouvir, então, mesmo que você tente ficar escondida, isso não será possível. Não pode se esconder de seus pais, o que significa que tem que se afastar.

Consigo perceber o esforço que ele faz para tentar me acalmar no modo como pronuncia as palavras com cautela e delicadeza. Não parece ser a primeira vez que ele precisa passar por isso. De qualquer forma, não estou apta a reconhecer sua tentativa nem agradecer por isso. Eu estou com raiva, líquida e pura. Eu quero fugir, gritar, bater em alguém, mesmo tendo a plena consciência de que isso não vai resolver meus problemas.

Meus olhos ardem e eu abaixo a cabeça, não quero que ele veja as lágrimas enquanto tento impedir que elas deixem meus olhos. Como, supostamente, querem que eu viva sem eles? Isso simplesmente não é possível. O que eu vou fazer sem eles?

Sobreviver. É que se faz quando perde tudo.

Respiro fundo mais uma vez, falhando miseravelmente em controlar minhas emoções. Martin espera pacientemente enquanto atinjo todos os níveis de compreensão e agradeço-o internamente por se ocupar (ou fingir se ocupar) com seu computador. Seria mais difícil se ele continuasse me encarando com seu olhar de pena.

Quando finalmente me sinto pronta e volto a encará-lo, ele levanta os olhos para mim complacente. Ainda preciso de respostas. Ainda preciso saber o que aconteceu mais cedo. Foco minha visão nas janelas, ver o céu escuro é melhor do que sustentar seu olhar.

— O acidente — me surpreendo com a rouquidão da minha voz, mas faço um esforço extra — O que aconteceu com as... As vítimas... — um arrepio passa pela minha espinha — As vítimas do acidente?

Ao longe consigo vem uma campina cercada por árvores. A iluminação do lado de fora me mostra flores espalhadas em arbustos. O sol já se foi a muito tempo, vejo apenas estrelas espalhadas pelo céu noturno. É uma paisagem muito bonita que poderia me acalmar, mas as memórias são amargas demais.

— Bem, nem todos tiveram a mesma sorte que você. — levanto uma sobrancelha com clara irritação — Me refiro a serem arremessados pela janela — ele se explica, mas mantenho a expressão — o acidente foi grave.

Ouro arrepio percorre minha espinha, o pânico voltando a assumir o controle sobre cada célula do meu corpo. Grave? Quão grave?

— Todos morreram? — obrigo as palavras saírem sentindo minha garganta seca.

— Não todos — ele responde cordialmente se encostando em sua cadeira. Mantenho meu olhar fixo em seu rosto, ávida por uma explicação melhor — Tem sobreviventes.

Quase posso sentir a cor deixando meu rosto ao perceber o tom incerto de sua voz quando fala a palavra sobreviventes. Ele não percebe que ficar enrolando apenas piora toda a situação?

Deve estar com medo de sua reação.

Vou reagir bem pior se ele ficar escondendo coisas!

Ele não está escondendo, apenas te preparando.

De que lado você está?

— Quantos? — pergunto com a voz instável e percebo que ele reluta em me dar a resposta — Quantos morreram? Por favor, não minta.

— Trinta passageiros.

Meus olhos perdem o foco e não consigo ver sua expressão. Por um segundo é como se tudo ao meu redor parasse, o tempo se torna insignificante.

Trinta. A voz de Martin ecoa pela minha cabeça várias vezes, sempre com o mesmo efeito doloroso. Como esse dia pode ter dado tão errado?

Minutos se passam e sei que o diretor começa a ficar impaciente com a falta de palavras da minha parte, mas de forma alguma estou preparada para continuar com esse circo, nada muda o fato de que eu fiquei aqui passeando enquanto famílias choravam a morte de seus entes queridos na Terra.

E quanto aos sobreviventes? Ele disse que pessoas sobreviveram, certo? Mas em quais condições? Se o acidente foi assim tão grave, é possível que alguém tenha escapado sem nenhum arranhão?

Você escapou.

A verdade é dolorosa, mas real. Eu estou aqui, respirando e sem um arranhão se quer. Não me interessa se é pela porcaria da minha capacidade de cura, não muda o fato de que eu estou bem enquanto trinta pessoas morreram por causa do acidente. Por minha...

Não seja estúpida.

Pode ser a verdade.

Não é.

Volto meus olhos para o diretor. A pena está aqui mais uma vez, mas a recente dúvida está me dominando por completo sem deixar espaços para que a raiva venha a tona.

— Pode me responder mais uma coisa? — pergunto tão baixo que só sei que ele escutou quando assente levemente. Respiro fundo ainda de forma irregular — Por que aquele monstro atacou o ônibus?

Não faça isso com você mesma!

Eu preciso saber.

— Ele pode ter feito isso por vários motivos. — ele responde cauteloso, meus olhos permanecem fixos nele. Sei que tem mais coisa ai — Eles conseguem identificar elementistas — Martin suspira, minha aflição aumenta — existem muitos perigos na Terra, Thais, não posso afirmar que o ataque tenha sido direcionado a você.

— Mas também não pode afirmar que não foi por minha causa.

Ele não nega, provavelmente por saber que não vai adiantar. Ele atacou por minha causa. Foi tudo minha culpa. As mortes, o incêndio, só aconteceram porque ele me queria morta. Eu matei aquelas pessoas.

Pare!

Foi minha culpa.

Você nem ao menos sabia quem era, como pode ser sua culpa?

Isso não importa.

Não seja idiota.

Não, eu sou uma assassina.

Não faça isso.

Tarde demais.

— Thais, é muito importante que você entenda o perigo que significa voltar para a Terra — ele diz preocupado e parece querer atrair minha atenção, mas meus olhos estão ocupados com seu tapete cinza — Você ainda não é treinada e corre muitos riscos voltando para lá sem proteção. Por isso precisa estudar antes para depois...

— Eu não vou voltar — interrompo-o, não estou afim de ouvir todo aquele papo de mais cedo novamente — não tenho nenhum motivo para fazer isso. — meus olhos se movimentam pela sala sem saber onde focar, me sinto perdida — Obrigada. Se você não se importar, eu gostaria de ir para o meu quarto.

— Antes preciso lhe contar uma coisa sobre seus pais. — novamente ele parece desconfortável com o assunto e agora é um sentimento que compartilhamos.

— Não quero ouvir se tiver algo a ver com o fato de acharem que estou morta. — minhas mãos apertam nervosamente os apoios da cadeira. Não sei se consigo lidar com mais um bombardeio de informações desagradáveis.

— Não, é algo que você precisa saber sobre o passado dos dois.

Mesmo com a vontade quase incontrolável de fugir para um lugar muito longe de tudo isso, não posso deixar de ficar curiosa sobre o assunto, não depois do comportamento esquisito de todos a cerca do meu nome.

— Como assim? — pergunto me recostando na cadeira, solto os apoios sentindo os dedos doerem.

— Tem um outro assunto desagradável do qual preciso te deixar informada. — ele começa hesitante e apenas faço um gesto indiferente para ele continuar — Bem, acho justo você saber que apenas seus pais são de fato da sua família, já as outras pessoas, como tias, tios, avós, não. Eles são reais é claro, mas não relamente pertecem a sua árvore genealógica — arqueio as sobrancelhas descrente, mas ele não parece estar brincando — A sua família sempre foi elementista. — a confusão é tão grande que apenas deixo ele continuar falando sem interrupções — Seus pais nem sempre foram mortais.

"Seu pai era um Shark da família Windchest e sua mãe uma Fênix da família Renning. Os dois eram extraordinários, eles estudaram aqui, se formaram e foram servir em seus Meydrans. Sua mãe era uma curandeira incrível, mas desempenhava o papel de guerreira caso fosse necessário. Alequen sempre atuou como soldado e posso lhe dizer que ele era realmente bom nisso".

Suas palavras não fazem muito sentido pra mim, talvez porque estou tentando encontrar motivos para dizer que isso é impossível.

Nada é impossível. Você está aqui.

Agradeço a informação desnecessária.

— Há aproximadamente dezesseis anos, os monstros tentaram uma rebelião e seu pai comandou a equipe de combate que venceu a guerra, naturalmente com sua mãe nesta equipe. — um sorriso nostálgico aparece em seu rosto — Não era nenhum segredo o amor deles, mas elementistas só podem se casar com aqueles que carregam a mesma linhagem. Esta regra era a única coisa que interferia, então, depois da guerra, eles decidiram abandonar os poderes e se tornarem mortais para poderem ficar juntos. Como você pode ter percebido, assim foi feito.

Coloco as informações em ordem, tentando de alguma maneira comparar a lembrança dos meus pais com essas pessoas que ele me apresenta. Mesmo querendo com todas as minha forças negar, não é improvável que minha mãe, umas das pessoas mais doces do mundo, aquela que sempre está disposta a salvar vidas, tenha sido uma elementista. E quase consigo ver meu pai, o cara corajoso e sempre mandão, liderando um exército rumo a guerra.

Eles sempre foram os meus heróis, mas agora, imaginá-los como verdadeiros heróis aqui, convivendo com essas pessoas, sendo como eles, arriscando suas vidas, faz um sentimento de traição tomar conta de mim. É como se tudo que eu vivi até hoje fosse uma enorme mentira.

Eles ainda são seus pais, isso não é mentira.

Mas e o resto? Sinto como se nunca tivesse os conhecido de verdade.

— Antes de seu pai ir, ele me pediu que guardasse isto e desse para o próximo Windchest que adentrasse Wirdgewt. — ele tira um colar de couro com um pingente redondo do bolso — Esse é o amuleto do grande Aire, foi dado a seu pai como recompensa por sua bravura e inteligência ao comandar a equipe. Esse amuleto é muito poderoso, dizem que pode proteger seu possuidor até mesmo da morte.

Ele me dá o medalhão e ao cair em minhas mãos ele começa a diminuir até se transformar em um pequeno pingente redondo, na prata estão entalhadas as letras T.R.W. Eu não carrego o sobrenome da minha mãe, o que deixa a letra R estranha no meio das minhas iniciais. Atrás do pingente existem dois símbolos convergidos, os mesmos que participaram da minha escolha. De um lado Shark e do outro, Fênix.

Sem que eu perceba, um pequeno sorriso surge em meus lábios, talvez por estar segurando algo que pertenceu ao meu pai. Pode ser bobo, mas o pequeno objeto parece criar uma espécie de ligação com eles, uma que talvez eu nunca mais possa ter.

— Observamos você desde que nasceu Thais, precisávamos saber se você era ou não uma de nós. — a voz de Martin estoura a minha pequena bolha de prazer. Ele parece ainda mais chateado agora — Confesso que demoramos muito para te trazer para cá, mas tivemos alguns problemas em identificar se você era mesmo uma elementista — assinto ainda meio perdida com o assunto.

— Eu explodi uma cozinha. — falo confusa.

— Sim, mas...

— E o encanamento da minha avó. — engulo em seco — Bem, da avó que eu conheço.

— Seus pais, mesmo sendo mortais, ainda emitem bastante energia elementista, isso dificultou nossa leitura do evento e somente o incidente do colégio não era o bastante para te recrutar, poderia ser alguma outra pessoa que ainda não tínhamos identificado. — ele explica e volta a parecer aborrecido — Nossa demora também contribuiu para o que aconteceu hoje.

Assinto sem insistir mais na ideia, mesmo querendo dizer que eles poderiam ter prestado um pouquinho mais de atenção para não deixar uma bomba relógio andando por ai, em meio a pessoas inocentes. Ele também não parece muito disposto a continuar com o assunto e não posso culpá-lo, também deve estar se sentindo responsável pelo acidente.

Minutos se estendem marcados pelo nosso silêncio. Ele parece ter coisas para dizer ainda, mas, como antes, prefere esperar que eu esteja pronta para prosseguir e eu já estaria se meus olhos não tivessem caído para as minhas mãos, me lembrando da minha estranha condição matutina.

— Minhas veias... — começo sem saber muito bem como explicar, mas um olhar de entendimento cruza o rosto de Martin me poupando do esforço.

— São sintomas muito comuns, tanto entre os nascidos aqui quando os que vem da Terra — ele informa tranquilamente e minhas costas parecem carregar três caminhões a menos — deve parar de acontecer agora que você finalmente chegou. Além do fato de ter escolhido um deles.

— O outro deixa de existir? — olho para minha mãe esquerda em busca de qualquer vestígio do brilho avermelhado, mas ela está assustadoramente pálida.

— Não, você irá viver toda a sua vida com os dois poderes coexistindo em perfeito equilíbrio em suas células, mas — ele se inclina na cadeira chamando minha atenção — agora que você escolheu a água, ela é consideravelmente mais forte do que o fogo no sentido de domínio das ações. Se essa balança pender para o outro lado, você pode ter problemas sérios.

Concordo rapidamente com a cabeça e ele parece mais tranquilo, suas costas voltando a se escorar no encosto da cadeira de couro. Faço uma nota mental para me lembrar de entender exatamente o que significa "a balança pender para o outro lado", não quero ter problemas desnecessários.

— Onde está minha família verdadeira? — volto a perguntar em voz baixa, lembrar do incidente na casa da minha avó me deixa desconfortável e dessa vez não é por saber que fui eu quem causei a coisa toda.

— Seus pais nasceram aqui e quando estavam na adolescência, por volta dos treze anos, aconteceu o que chamamos de Grande Guerra — ele responde, sua mente parece perdida em memórias — seus avós lutaram bravamente junto a todos nós. Esta guerra foi a primeira vez que os monstros conseguiram entrar em Wirdgewt e com certeza pode ser considerada a pior de todas — ele suspira, o semblante triste e cansado — Seus avós morreram protegendo o colégio, no muro de resistência que os soldados montaram na praça.

"Seus pais eram filhos únicos, portanto você não tem tios. Os pais da sua mãe eram Fênix como ela e seus avós paternos vinham de uma longa linhagem de Sharks. Sua família tem um grande legado. Achei justo te explicar isso para você entender as expectativas dos outros."

Uma onda de insegurança me atinge como sempre acontece quando alguém me compara com meus pais. Mesmo na Terra eu tinha uma grande dificuldade no quesito de saber quem eu sou e o que queria fazer. Com o início da minha vida no ensino médio, as cobranças sobre faculdade e carreira começaram a pesar sobre mim. Não por parte dos meus pais, eles sempre deixaram essa escolha livre, quando eu decidisse eles me apoiariam. Já do resto da família, não era bem assim. Muitos queriam que eu cursasse medicina e seguisse os passos da minha mãe, mas eu nunca me vi como médica. Pensando agora, sabendo que eles não eram de fato minha família, me sinto idiota por ter levado em conta suas opiniões, muitas vezes cruéis.

Agora, ouvindo todas as palavras de Martin, quase sinto falta das longas conversas com minhas tias. Aqui as coisas parecem mais pesadas do que lá. Ser uma guerreira como eles? Isso me parece impossível. Eu não sou nem um pouco como eles.

Isso é o que você pensa.

Isso é que todos vêem e pensam.

— E se eu não for como eles? Eu não sou uma guerreira ou heroína, só sou uma garota agitada e que não consegue nem mesmo controlar o próprio temperamento, como esperam que eu seja igual a eles? — não consigo controlar a velocidade das palavras e não tenho certeza se ele entende o que quero dizer.

Não acredito que eu possa fazer o que supostamente esperam que eu faça. Desde pequena eu sou um poço de encrenca por ser atrapalhada, agitada, geniosa e completamente impulsiva. As pessoas nunca gostaram muito da minha companhia e depois de um tempo eu parei de insistir em amizades que nunca dariam certo. Eu não pareço o tipo apropriado para ser um poço de bondade como minha mãe ou abusar do carisma como meu pai.

— Ainda é muito cedo para dizermos como você vai ser no futuro — ele diz gentilmente com um pequeno sorriso — Já conheci pessoas demais para poder afirmar sem dúvida que todos podem surpreender. Você acabou de entender quem é, terá muito tempo para descobrir se é ou não parecida com eles. E se não for, qual é o problema? — Martin é atencioso demais para que eu possa se quer ter raiva dele, parece saber exatamente como me sinto — Sei que a distância parece enorme agora, mas você está mais próxima deles do que imagina.

Seus olhos transmitem calma e carinho, mas a amargura não vai ir embora só porque ele disse uma dúzia de palavras bonitas, é bem mais complicado que isso.

— Por que eles nunca me contaram? — a frustração é quase palpável em minha voz.

— Não poderiam — olho-o irônica certa de que ele vai começar a falar de leis de sigilo, mas ele parece tão aborrecido quanto eu em relação ao assunto — eles não se lembram deste mundo e nem de nenhum de nós. Acreditam que foram mortais desde sempre. — levanto uma sobrancelha em questionamento e ele suspira chateado— Quando um de nós escolhe abandonar as habilidades, são tirados os poderes, as lembranças, tudo o que possa conectar a pessoa ao nosso mundo.

"Para que possam ter uma vida normal, lembranças são colocadas no lugar dos momentos esquecidos, uma nova história é criada com fatos como uma formatura, emprego, no caso de seus pais, a ocasião em que se conheceram e todo o resto. Naturalmente o elementista não volta para o lugar onde ele ou os pais nasceram, ele vai para um país determinado por karyceres e lá eles continuam sua vida partindo da idade que preferiram.

— Da idade que preferiram? Eles não vão com a idade que tem aqui?

— Não. Thais, quando passamos pelo portal de entrada muitas coisas acontecem. Você recebe proteção, as suas habilidades são liberadas por completo, um quarto é designado à você no colégio, sua ficha surge em minha mesa e você recebe a imortalidade, dando-lhe a livre escolha de ter a idade que preferir — ele explica, mas parece perceber minha confusão — Por exemplo, se você tiver quinze anos poderá ter a aparência de qualquer idade abaixo disso, mas só poderá ter acima quando alcançar em anos mortais.

— Então se quisermos virar mortais podemos escolher a idade? — a pergunta é mais como uma afirmação, mas preciso tentar encaixar todas as peças soltas.

— Exatamente.

— Quantos anos meus pais tinham? De verdade. — lembranças de aniversários inundam meus pensamentos.

— Ambos tinham trinta e oito.

Não evito o suspiro frustrado. Outra mentira. Comemoramos o aniversário de trinta e dois deles ano passado.

— Essa guerra onde meus pais lutaram — ele assente e prossigo depois de conferir os cálculos mentalmente — foi um ano antes de eu nascer, não foi?

— Sim, foi há dezesseis anos e não sei se devemos chamá-la de guerra, foi mais parecida com uma rebelião.

— E então meus pais viraram mortais e nasci um ano após isso. — afirmo mais para eu mesma do que para ele.

— Exato.

— Certo.

Suspiro frustrada, as novas informações rondando minha cabeça insistentemente. De repente a pressão no peito, que estava começando a melhorar, parece mais forte do que nunca.

Meus pais são elementistas, ou eram até alguns anos atrás. Minha família não é de fato minha família. Trinta pessoas morreram por minha causa. Não posso voltar para casa. Para todos os efeitos, eu estou morta.

— Preciso saber de mais alguma coisa? — tento diminuir o tom mal-humorado em minha voz, mas tenho certeza que não funciona — Eu gostaria de ir para o meu quarto.

— Claro — ele olha rapidamente para o computador e parece indeciso — Acho que não vou poder te levar. — apoia o queixo em uma mão e parece pensar em algo — Você tem algum problema com a senhorita Scolter?

— Nenhum. — respondo após alguns segundos tentando me lembrar de quem é o sobrenome.

Ele sorri e aperta algo em sua mesa, aparentemente um acesso ao alto falante da escola, a julgar pela forma como chama Lílian à diretoria.

— Antes que você vá só preciso pedir que fique longe do oitavo andar — ele tem uma expressão hesitante como se avaliasse a necessidade de levantar o assunto — sendo mais especifico, fique longe da sala vinte e quatro do oitavo andar.

Restrição. Isso geralmente significa encrenca, mas não estou disposta o bastante para discutir o assunto, apenas concordo com um aceno.

Ele suspira mexendo nos cabelos, parece cansado. Minutos de um silêncio desconfortável se seguem até que ouvimos batidas na porta e Lílian adentra a sala.

— Lílian, você poderia levar Thais até o dormitório? Eu preciso resolver algumas coisas — a menina assente prontamente.

— Claro diretor. Vamos. — ela sorri animadamente, mas, depois de toda essa conversa, o máximo que consigo é não fazer uma careta.

— Tenham uma boa noite e não andem pelos corredores após o toque de recolher — Martin diz repreendedor.

Nos despedimos rapidamente dele e Lílian me puxa para fora da sala. Mey não está mais em sua mesa, agora completamente organizada e limpa. A sala está silenciosa e percebo que as luzes que iluminam o lugar estão perdendo o brilho.

— Como isso funciona?

— O que? — ela parece confusa, então sinalizo as esferas no teto — Ah, elas tem horário programado para funcionar. Permanecem ligadas durante o período de aulas, desligam quando o ambiente está iluminado pela luz do sol — ela indica as janelas na lateral da sala — e param de funcionar as dez. Depois disso só acendem pelo sensor de presença.

— Certo. Obrigada — digo, ela sorri e segue para fora da diretoria.

De volta aos corredores, seguimos mais uma vez até o fim a paramos em frente a porta de carvalho que avistei antes. "Dormitórios" é o que diz a placa. Encontramos alguns poucos grupos de alunos vagando pelos corredores e tento ignorar os olhares curiosos acompanhados de cochichos que me incomodam.

Atrás da porta dupla existe uma escadas composta por uns vinte degraus que leva a uma passarela, esta por sua vez está ligando o prédio letivo ao edifício dos dormitórios. O chão é de mármore e as paredes de vidro. O teto gesso está enfeitado por duas das esferas brilhantes, agora mais opacas como as da diretoria. Afinal, que horas são?

Lílian percorre o caminho rapidamente, mas não posso deixar de me entreter com a paisagem do lado de fora. Consigo ver o muro da frente do colégio bem iluminado, os portões agora fechados e tenho certeza de avistar pessoas patrulhando o terreno. O céu está escuro e sem nuvens, estrelas tomam toda a imensidão azul.

— É mais bonito durante o dia, você pode ver os jardins se olhar para o outro lado — Lílian diz parando ao meu lado e me impeço de lhe contar que sempre achei a noite mais bonita — Nós temos que ir.

Sigo-a até o final da passarela e encontro o que parece ser uma sala de receração. O cômodo é amplo e parece ser projetado especialmente para ser confortável. Sofás brancos estão espalhados por todo lado, consigo ver algumas TVs, vidiogames e alguns jogos de tabulheiro pelo local. Existem mesas nos cantos, livros em prateleiras, comutadores e até algumas revistas.

Meus olhos varrem o cômodo, preciso admitir que estou impressionada, com certeza é a maior sala que já vi. Na parede do fundo existe uma enorme escadaria que, uma vez no alto, se divide em duas menores, uma para a esquerda e outra para a direita.

— Essa é a sala onde relaxamos a noite, depois das aulas — ela diz sorridente — todos ficam aqui, na quadra, no jardim ou nos corredores até o toque de recolher, que toca às dez horas.

— Ela é enorme! — ela ri diante minha afirmação óbvia.

— Precisa ser para atender todos os alunos — ela segue até a escada — O lado direito leva para o dormitório dos meninos, o da esquerda é o nosso.

Acompanho-a escada acima. Na porta consigo ler palavras escritas em vermelho vivo: “DORMITÓRIO FEMININO” e “PROIBIDO GAROTOS”. Assim que ultrapasso a porta chego a conclusão que o tamanho da sala não foi nada comparado ao dormitório.

Existe um corredor central, dele saem corredores para a esquerda, cada um sinalizado com uma letra do alfabeto, algo com "Ala A". Ao lado de onde está a porta de entrada, antes do corredor da primeira ala, existe uma escada levando para os andares superiores do prédio.

Ultrapassamos a ala A e a B, então ela vira no C e segue até o fim do corredor onde existe outro na horizontal contando todas as alas. Pelo que Lílian diz, cada ala possui dois corredores e mesmo que eu tente não consigo contar quantas portas estão espalhadas pelo lugar. Identifico quase todas cores que Austin me disse antes da cerimônia de escolha.

— O preto não é a cor dos Shadows? — pergunto ainda vasculhando o corredor para ver se nenhuma porta escura passou despercebida.

— Sim.

— Então por que não tem portas pretas?

— Digamos que todos os quartos são decorados com a cor do seu elemento e branco. — ela sorri divertida — Vendo por esse lado, os Shadows não gostam muito de branco, então todo o quarto deles é preto e a porta, branca.

— E como as distinguem dos Aires? — franzo a testa confusa.

— A maçaneta.

— O quê?

— A maçaneta dos Shadows é preta. — ela aponta para uma porta branca próxima.

Encaro o objeto metálico se destacando na porta branca. Observo os corredores novamente e sinto uma presença atrás de nós, me viro e avisto uma garota, vestida com roupas pretas. Passa correndo por nós e escuto sua voz quando está se afastando.

— Oi Líli, oi garota nova.

— Cuidado Milena, vai bater em alguém. Você estava fazendo revisão? — Lílian exibe um sorriso amigável enquanto segue a garota com os olhos.

A menina sai pela porta que tinha entrado e anda alguns passos na nossa direção, sorrindo minimamente.

— Esqueci meu livro História. — ela mostra um livro de capa escura — Até mais.

Ela da três passos e desaparece. Simples assim. Poof! Igual ao cara no edifício do governo e as pessoas na praça. Olho assustada para o lugar em que elas estava a poucos segundos.

—Como ela...

— Fez isso? Ela é uma Shadow, eles podem se teletransportar, se esconder e andar nas sombras, é um poder básico de um Shadow. Na boa eles fazem coisas bem mais incríveis. — a Shark da de ombros andando na direção de uma porta azul..

Olho para cima da entrada do corredor, lá está a letra C acompanhada do número dois. A porta que Lílian indica contém o número 136 e uma placa de metal azul exibe três letras douradas. T.R.W.