Elementium - Volume 1 - A Ascensão
26 Falha de Conexão
Notas iniciais
– Quando estávamos falando de sorvete, eu não acreditei que realmente tinha aqui. – o gosto familiar de baunilha entra em contato com meu paladar fazendo lembranças invadirem minha mente.
– O time costuma vir aqui, eu também fiquei surpreso. – ele exibe um sorriso discreto e seus olhos se focam em mim por um tempo me causando certo desconforto.
Se você se sente desconfortável com ele, por que está aqui?
Não me sinto desconfortável com ele, só não gosto de muita atenção.
Isso é normal em um encontro.
Não é um encontro.
Se você diz.
Você fica quase um dia sem falar comigo e agora que aparece é para encher o saco?
Sentiu minha falta?
Nem um pouco.
Só estou dizendo a verdade.
– Desculpe. – arqueio as sobrancelhas confusa e surpresa diante a expressão arrependida dele.
– O que? – pergunto confusa observando o sorriso envergonhado em seu rosto.
– Não queria te deixar desconfortável.
Quase engasgo com o sorvete me dando conta que ele está plenamente consciente da minha incrível incapacidade de ser o centro das atenções sem estragar as coisas. Em nenhum momento quis fazê-lo se sentir mal, mas aparentemente eu também sou incapaz de manter as pessoas confortáveis.
– Eu estou bem. – tento parecer normal sabendo que estou falhando miseravelmente.
Por que estou me sentindo tão estranha?
Eu sei lá.
Não é você que sempre tem as respostas?
Já disse uma vez, não sou obrigada a entender suas loucuras.
– Então... Ontem, onde você realmente estava? – franzo as sobrancelhas sentindo meu corpo se retrair, ao perceber minha reação defensiva tenta se retratar nervoso – Desculpe, eu não quero ser invasivo, só fiquei curioso, você parecia bem desesperada para fugir da Scolter.
Sorrio sem graça. Mal sabe ele que eu não consegui fugir dela. Lilian pode ser bem insistente quando quer. Antes de irmos dormir, ela praticamente me jogou para dentro do meu quarto e me interrogou o máximo que pôde, nunca pensei que eu pudesse inventar tantas desculpas em um curto espaço de tempo.
– Certo, assunto proibido. – novamente me sinto mal por estar dificultando as coisas para ele – Eu queria pedir sua ajuda em uma coisa.
Um suspiro chateado me escapa involuntariamente, não por ele precisar da minha ajuda, mas porque automaticamente os acontecimentos da última vez que aceitei um pedido igual vêm a minha cabeça. Sinto seus olhos me avaliarem de novo cautelosos, talvez tentando entender minha reação.
– Que coisa seria essa? – o encorajo a prosseguir com um sorriso sincero.
– Eu ainda não sei como teleportar e como você foi uma ótima professora na questão voar, pensei que talvez pudesse me ajudar com isso. – ele atropela algumas palavras como se estivesse nervoso com o pedido, o rubor em sua bochecha entregando seu sentimento de vergonha.
Sorrio apreciando outra colher da maravilhosa substância gelada. Tenho que admitir, esse lugar sabe fazer sorvete.
Olho através da janela a minha direita, observando as pessoas do lado de fora. A sorveteria fica enfrente a uma praça, me lembro de ter passado por aqui um tempo atrás. O pedido de Caio me parece algo simples, mais fácil de ensinar do que voar, não envolve tantas coisas e provavelmente ele não tem medo de se teleportar.
Agora foi você.
O que?
Nada.
Eu devo estar mesmo louca para escutar tudo que minha consciência fala.
Achei que já tínhamos passado da fase “você é minha consciência”.
Pode me deixar em paz por mais algumas horas? Eu não vou me importar.
– Por mim tudo bem. – observo-o sorrir ainda envergonhado e não consigo deixar de constatar o quão adorável ele fica agindo assim.
O que?
Franzo a testa afastando sentimentos estranhos, isso não é certo. Volto a observar o lado de fora tomando meu sorvete, agora confusa com meus próprios pensamentos.
– Como você aprendeu? – ele pergunta curioso e novamente sou inundada por memórias desagradáveis.
A noite em que aprendi a teleportar ainda está bem fresca em minha memória. Não posso fingir que foi uma noite legal, por mais que essa habilidade seja bem útil, a carga de emoções daquele dia é muito pesada e não é uma coisa que eu goste de comentar. Mantenho meus olhos na praça tentando escapar do peso das lembranças.
– Eu... – engulo em seco tentando normalizar a voz, amaldiçoando minhas emoções – Austin me ensinou.
– Claro. – sua voz tem um tom descontente me fazendo franzir a testa e encará-lo, ele pigarreia e sorri sem humor – Austin te ensinou muitas coisas, pelo que parece.
– Ele é um bom amigo. – dou de ombros, indiferente.
Você deu um soco na cara dele.
Ele mereceu.
Ele não te contou sobre o soldado.
Por isso ele mereceu o soco.
Você é amiga dele?
Não me faça perguntas complicadas.
Você o chamou de amigo.
Eu sei.
Por quê?
Não sei.
É mais simples se você apenas admitir que o considera dessa forma.
Eu só não sei dizer exatamente como o vejo, mas amigo parece se enquadrar bem.
Muito bem.
Suspiro mais uma vez diante o olhar insatisfeito de Caio. Não sei lidar com situações estranhas, eu realmente não sei. Termino o sorvete e me levanto jogando a embalagem no lixo, volto até a mesa e encaro o garoto impaciente.
– Você quer tentar agora? – falo hesitante levando as mãos inquietas até os bolsos da jaqueta, ele levanta os olhos confuso – Teleportar.
– Claro. – ele termina o sorvete rapidamente e me segue até a porta, animado – Como se faz isso? Quero dizer, tem algum segredo ou é parecido com voar?
Não consigo evitar a risada observando toda sua curiosidade e entusiasmo. Gosto quando ele está feliz, toda a aparência perdida e sem vida de tempos atrás some por completo. Decido ir até a praça, mais afastada das pessoas, ele me segue com um sorriso enorme. Cara, que dentes brancos!
Para de encarar os dentes dele.
São muito brancos.
Apenas pare.
– Não é muito diferente. – tento me lembrar das exatas palavras que Austin me disse, novamente afastando as memórias ruins – Eu quero que você se concentre, pode fechar os olhos se achar mais fácil, e imagine com clareza um lugar para qual quer ser teleportado. Em wirdgewt de preferência.
Ele fecha os olhos e um sorriso perambula por seus lábios. Meus olhos vagam pelo seu rosto, a aparência despreocupada, o sorriso brilhante, o cabelo loiro sendo bagunçado pelo vento da tarde ensolarada. Ele abre somente um olho depois de alguns minutos me fazendo rir.
– Acho que não deu certo, não é? – ele sorri também.
– Não. – me lembro novamente da noite na torre, quase realizando minha vontade de dar um tapa na minha própria testa – Você precisa pedir, imaginar o lugar com clareza e assim como voar, deseje ser teleportado.
Ele assente fechando os olhos. Mais uma vez me distraio com detalhes pequenos, sendo tirada bruscamente dos pensamentos quando sinto um braço rodear minha cintura. Antes que eu possa protestar, a praça some e meus pés se chocam com algo duro. Olho ao redor percebendo a altura que nos encontramos e por um momento penso que estou de volta ao telhado do prédio, mas a paisagem é outra. Demoro mais alguns segundos analisando o lugar para me dar conta das cores familiares.
– Por que diabos estamos no brasão do colégio? – sento sobre as lajotas brancas que contornam todo o símbolo.
– Porque aqui é o lugar mais ao oeste possível no Eurocado. – ele sorri provavelmente se divertindo com minha expressão confusa, então aponta para frente.
Sorrio nostálgica quando meus olhos focam o céu alaranjado. As nuvens decorando a imagem, os raios brilhantes no horizonte, me lembrando dias felizes.
Por que é sempre o sol?
O que quer dizer?
Que é clichê. Sempre a mesma ideia.
Eu gosto do por do sol.
Não estou dizendo que não gosto, apenas que as pessoas não têm criatividade.
Para de reclamar.
– Obrigado. – ele sorri e não consigo evitar retribuir.
– Não há de que.
Volto meus olhos para o céu, avaliando tudo que aconteceu até eu chegar a essa situação. Se me dissessem alguns meses atrás que eu me sentaria no brasão de um colégio em outro planeta, na companhia de Caio Zanatteli e observaria o por do sol em uma tarde ensolarada de domingo depois de tê-lo ensinado como teleportar, eu provavelmente diria a essa pessoa para se internar.
Mas, por mais que eu queira negar com todas as minhas forças, cada dia que passo aqui, a outra realidade, aquela de vida normal em uma Terra normal, sem monstros e poderes, me perece mais um sonho muito antigo.
– Olha, se eu tivesse tempo, eu perguntaria o que estão fazendo sentados ai, mas eu não tenho então, Thais... – a voz familiar chama minha atenção, arqueio as sobrancelhas em questionamento, o cansaço não é mais tão predominate, mas a preocupação ainda está em cada traço do seu rosto – Preciso falar com você sobre uma coisa muito importante.
– Ah... Claro. – me levanto olhando para o Aire que observa tudo confuso e aparentemente chateado – Se importa?
– Não, claro não, pode ir. – seus olhos não acompanham o sorriso, ele encara o shadow que parece desconfortável com a situação – Blake.
– Caio. – Blake cumprimenta e desvia os olhos para mim, impaciente.
– Até depois, obrigada pela tarde. – Caio assente e antes que eu pare para perguntar sobre seu descontentamento sigo Blake rapidamente.
Sobrevoamos o prédio dormitório, passamos pelo campus central e ele pousa próximo ao jardim leste. Pousar não é a palavra certa, está mais para cair de forma elegante. Desço lentamente com a testa franzida, Blake não tem problemas com o vôo, ao contrário, ele domina essa arte muito bem.
Ele se senta cansado e respira ofegante de olhos fechados. Percebo que suas mãos tremem e ele tenta disfarçar fechando-as em punho. Os últimos raios do sol ainda banham o gramado e lembro-me que isso é uma das coisas que deixam shadows desconfortáveis. Ajudo-o a levantar sem perguntar nada e o acompanho até a sombra de uma árvore.
Sento-me na grama e o observo regularizar a respiração, a cor voltando ao seu rosto. Seus olhos se abrem e ele me dirige um sorriso amarelo. Levanto uma sobrancelha em questionamento, tenho certeza que isso não devido ao sol.
– Eu vou querer saber o que foi isso? – tento manter o tom de voz calmo, mas as lembranças de tudo o que vi acontecer até agora não me permitem ficar tranquila.
– É exatamente sobre isso que eu quero falar. – assinto confusa, ele respira profundamente – Eu sei que foi ao Alasca ontem.
– Como voc...
– Austin não é tão esperto quanto pensa, vi vocês no ginásio. – sua voz está normal o que me deixa aliviada, ele parece melhor – Mas esse não é o ponto, quero saber se você viu algo diferente lá.
– Eu vi muita coisa que eu não sei explicar e que está me apavorando até agora, então eu preciso que seja mais especifico. – engulo em seco lembrando das cenas do dia anterior, Blake parece compreender o tom assustado em minha voz.
– Você o viu, não é? – assinto levemente, ele suspira, seus olhos exibem um brilho de raiva – Quando você estava lá, se sentiu fraca?
– Um pouco, mas pensei que fosse pelo fato de eu ser uma shark.
– Não dessa forma, quando digo fraca, me refiro a sentir como se algo estivesse roubando sua energia, não perda de calor. – ele pronuncia as palavras rapidamente e me pergunto o que pode ser tão grave para deixá-lo tão preocupado.
– Talvez. – respondo meio incerta, ele respira fundo e soca o chão – Blake, onde quer chegar com isso?
– Tem algo de errado com aquele mapa. – sua voz está baixa e ele olha para os lados, cauteloso.
Outra vez essa porcaria de mapa.
Pelo que parece ele não é só um pedaço de papel.
Certo, mas você o queimou, não deveria mais causar problemas.
Primeiro, eles não sabem disso e não pretendo contar. Segundo, tem uma cópia.
Claro que tem.
– O que quer dizer? – me apoio nos braços sentindo a grama sob meus dedos, a escuridão tomando conta de quase todo o terreno.
– Todos os que entraram em contato com ele estão sofrendo... Sintomas.— ele sorri sem humor algum como se não acreditasse no que está falando.
Essa palavra não pode significar algo bom pelo menos uma vez?
Pela cara dele, tenho certeza que esse não é o caso.
– Com sintomas você quer dizer...?
– Isso. – ele levanta as mãos que ainda estão tremendo descontroladamente, observo seus dedos serem tomados pela névoa escura, mas antes que possa se tornar qualquer coisa ela desaparece.
– Está falhando? – é impossível não parecer incrédula e isso o aborrece mais ainda – Como pode estar falhando?
– Não está só falhando, é como se minha conexão com as sombras estivesse fraca. – sua frustração é palpável e um arrepio sobe pela minha espinha quando me dou conta de algo.
– Por isso você estava voando. – seus olhos se focam em mim descontentes – Não consegue andar pelas sombras.
– Não. – a palavra parece causar dor nele – Elas simplesmente... Não me ouvem.
Sua expressão torturada deixa claro como isso o aborrece. Não consigo evitar me imaginar sem conexão com meus poderes. Não faz muito tempo que os tenho, mas sentir o poder em minhas veias, sentir a energia fluir pelo meu corpo cada vez que estou perto da água é incrível, uma sensação que não consigo descrever em palavras. Nem imagino como seria se isso fosse cortado. Acho que seria como me sentir sem vida.
– Quando isso começou? – pergunto analisando seu rosto o máximo que consigo com a visão limitada pela noite.
– No dia em que tivemos que esconder o garoto, eu acompanhei a Lena até o salão de estratégia, ela estava inquieta e me deixando preocupado. – ele franze a testa como se lembrasse de algo ruim – Eu queria que ela me contasse o que estava acontecendo, então ela me mostrou o mapa.
Ele se interrompe bagunçando os cabelos escuros em sinal de nervosismo. Suas palavras aumentam minha confusão. Como o mapa estava com eles se Austin o mantinha escondido no quarto e a cópia estava, supostamente, com Lira? Isso não faz o menor sentido.
– De inicio, eu pensei que era a estratégia que a estava preocupando, mas então ela me contou sobre alguns comportamentos estranhos que ela vinha percebendo no outros integrantes da equipe. – ele suspira extremamente aborrecido – Ela achava que tinha algo a ver com os postos de vigia no Alasca, que talvez eles estivessem sendo atacados, segundo ela, os soldados estavam fracos. Eu achei estranho, não discordei, mas ai...
Seu rosto se contorce de raiva e cerra os punhos. Seus olhos parecem brilhar em contraste com a escuridão, a irritação predominante em suas íris.
– Ela começou a ficar diferente, parecia descontente e distante, igual os outros. Ela estava fraca e então o ataque. – a raiva é quase palpável em sua voz – Ele só serviu para piorar as coisas, quando ela acordou no hospital e me contou sobre a falha da sua conexão eu consegui identificar a diferença na minha também.
Enquanto ele fala, situações estanhas vem a minha mente, lembranças das poucas vezes que vi um certo shark usar os poderes nos últimos dias. As peças se encaixam e encaro Blake preocupada.
– Você entendeu. – assinto mesmo ele tendo afirmado – Ele também está assim.
– Ele quem? – um sorriso nervoso toma meu rosto.
– Eu sei quem estava com você aquele dia Thais, fui eu quem deu cobertura quando Max resolveu ir atrás de vocês.
– Eu pensei que ele só estivesse tendo problemas com o lado elétrick. – Blake balança a cabeça negativamente, eu suspiro com a conclusão em minha cabeça – Assim como eu.
– Você o que? – ele me encara imediatamente, levanto a mãos exibindo a luminosidade avermelhada – Isso não é nada bom.
– Está afetando todos que tiveram contato com ele? – ele assente sério, sinto algo se agitar dentro de mim fazendo uma lista rápida das pessoas que vi com aquela coisa na mão – A Lira, ela...
Não termino a frase, o semblante descontente dele me dá a resposta. Mexo as mãos descontroladamente, nervosismo tomando conta do meu corpo.
– Martin me disse que isso estava acontecendo porque meus poderes estavam voltando. – minha voz sai irregular e meus olhos não sabem onde se focar.
– Isso em nada alteraria seu lado fênix, ele continuou ai naquele dia e em todo seu tratamento, nada explica ele estar descontrolado. – ele tenta soar calmo, mas não tem efeito nenhum em mim – Você já tentou usar seu poder shark?
– Não, a última vez foi quando eu alaguei o meu quarto por acidente enquanto dormia. – o tom baixo me faz questionar se ele realmente ouviu.
– Seus poderes nem ao menos deviam se manifestar enquanto está dormindo. – ele balança a cabeça freneticamente e parece mais irritado – Martin também está sendo afetado, em baixas proporções, mas está, ele sabe sobre tudo isso.
A imagem abatida do diretor toma minha mente rapidamente. As roupas amassadas, o semblante preocupado e cansado, a pele mais pálida que o normal. Pensava que tudo isso era por causa da situação com os monstros, mas agora percebo que, assim como todos os soldados da equipe de Ethan, ele teve contado direto como mapa por um longo tempo.
– Como ela está? – ele suspira cansado diante a pergunta.
– Se recuperando, o tratamento está ajudando com a conexão, mas não temos certeza se vai continuar assim quando ela sair do hospital.
– Quando ela sai?
– Provavelmente na terça, os cortes já se curaram, mas ainda estão preocupados com a ligação dela com o Rox. – assinto com a testa franzida, ele sorri levemente – Eu sei que eles não te contaram sobre essa parte, então, me responda uma coisa, tem alguém ai dentro que fala com você?
– O que? – um sorriso nervoso toma meu rosto quando ele aponta para minha cabeça.
– Relaxa, eu sei que é estanho e deve ter te assustado, mas vai por mim, é mais normal do que você imagina. – ele fala se divertindo com meu nervosismo – Você está aqui há tempo suficiente para isso ter começado. Então, a coisa ai dentro, conversa com você?
Ele me chamou de coisa?
Isso não é importante. Como ele sabe sobre você?!
Você não ouviu o que ele disse? É normal.
Isso não é normal, eu não deveria conversar com a minha consciência!
Eu já disse que não sou sua consciência.
Não consigo pensar em outra coisa para você ser.
Humanos não têm criatividade. Nem educação. Ele me chamou de coisa!
Uma gargalhada toma meus ouvidos. Encaro o shadow assustada o que o faz rir mais. Ele parece achar a situação extremamente engraçada e por um lado me sinto grata pelo breve sumiço da tensão anterior.
– Conversa sim. Está conversando agora não é? – seu sorriso debochado me faz hesitar e desviar os olhos – É ela ou ele?
Respiro fundo encarando-o desconfortável. Nada disso faz parte de um assunto legal para mim, eu nunca gostei de conversar sobre as coisas estranhas que acontecem em minha mente, mas a forma como ele fala sobre o assunto parece algo comum.
– Ei... – apóia uma mão em meu joelho sorrindo gentilmente – Isso não é uma coisa que você precisa esconder. O meu se chama Byron, ele é irritado e sarcástico.
Arregalo os olhos observando sua expressão despreocupada. Tento encontrar qualquer sinal de que ele está tirando com a minha cara, mas ele mantém a sorriso amigável.
Byron é um nome legal.
Por que você não tem nome?
Você não me deu um nome.
Você não disse que queria um.
Eu disse, você que é lenta demais.
– Ela não tem um nome. – sussurro hesitante, mas observando o sorriso contente surgir em seu rosto sei que ele escutou.
– Por que ainda não deu um nome a ela?
– Por que eu daria nome a minha consciência? – pergunto indiferente, ele gargalha mais uma vez.
Estou começando achar que meu nome vai ser Consciência.
Você não tem que ter um nome. Não é uma pessoa, nem meu bichinho de estimação.
Vou me lembrar da sua indiferença da próxima vez que você precisar ser salva.
– Você ainda está negando ela? – ele franze a testa incrédulo – Thais, isso é errado, ela é muito importante.
Estou começando a gostar mais dele agora.
Como ele sabe sobre você?
Ele não é idiota.
– Ela é um Moribus. – faço um careta com o nome e ele sorri mais – Eles representam nosso espírito oculto. São como um espelho da nossa personalidade, o lado que não conhecemos.
– Então... Tem mesmo uma coisa aqui dentro?
Se me chamar de coisa outra vez vai ter dor de cabeça por um mês.
Desculpe.
– Eles não gostam de ser chamados de coisa, por isso, peço desculpas para ela. – ele exibe um sorriso arrependido – Ela é bem real, vocês ainda não se encontraram pessoalmente, mas quando isso acontecer você vai entender a dimensão da ligação de vocês.
Eu gosto dele. Byron tem sorte.
Ei!
O que? Agora sou importante?
Por que não me contou?
Eu disse várias e várias vezes que não era você, pelo menos,não exatamente.
Mas não me disse que era um Mori... Como é mesmo o nome?
Se você não sabe nem a palavra, do que ia adiantar eu te explicar?
– Eles são iguais a gente?
– Não. – ele parece se divertir com o pensamento – Eles tem uma forma própria, mas isso depende de cada um e essa parte eu vou deixar você descobrir.
– Por quê? – não consigo conter a curiosidade o que provavelmente é cômico na visão dele.
– Porque eu estaria estragando toda a surpresa e temos que ir, já estamos bastante encrencados pelas faltas de ontem. – ele revira os olhos e levanta se apoiando na árvore, ainda parece meio tonto.
– Hoje é domingo.
– Sim, mas o Pinguim mudou o toque de entrada para as sete horas. – fala enquanto tenta se equilibrar ainda inseguro.
– O que vamos fazer em relação a isso? – encaro minhas mãos hesitante, mas elas estão com a aparência normal agora.
– Eu não sei, mas acho que conseguimos manter assim até a Lena voltar. – coloca as mãos nos bolsos da calça jeans nervoso – Se não usarmos os poderes é mais fácil, retarda os sintomas.
– E quando ela voltar?
– Resolvemos o que fazer. – ele suspira e começa a andar na direção das portas de entrada – Por hora, tenho que dar um jeito de escapar da aula de combate na quarta.
Se antes eu estava ansiosa para a quarta-feira, agora ela me parece algo repulsivo. Acompanho o shadow para dentro do prédio. Sob as luzes dos corredores ele parece extremamente pálido e começo a duvidar do seu plano de aguentar por mais uns dias.
Os corredores do prédio principal estão desertos o que significa que o jantar ainda não começou. Andamos calmamente até a sala de estar que está mais lotada que o normal, parece que todos tiveram a mesma ideia.
– Ela voltou. – Blake faz sinal na direção da ruiva sentada em um dos sofás.
Um sorriso se expande em meu rosto ao observar a garota sorrindo e conversando animadamente. Me aproximo procurando as mudanças, mas estas ainda não estão muito aparentes, identifico apenas um leve tremor nas mãos.
Antes que eu possa dizer alguma coisa, olhos verdes me encontram e sorrio levemente. Seus olhos encaram Blake e ela franze a testa. Anda rapidamente na minha direção desviando dos outros alunos.
– Você não estava com o Caio? – ela parece confusa e procuro arduamente por um desculpa plausível.
– Sim, nós... – procuro a ajuda do shadow, mas ele já está do outro lado da sala conversando com Jack – Ele teve que fazer uma coisa e encontrei o Blake voltando.
Você é uma péssima mentirosa.
Eu sei.
– E foi legal? – ela pergunta entusiasmada.
– Sim, foi legal. – seus olhos me encaram em busca de mais informações – Eu nem sabia que vendiam sorvete aqui.
– É claro que vendem. – nos sentamos mais afastadas dos outros, pelo canto dos olhos consigo ver Mari vindo em nossa direção – Vocês só tomaram sorvete? Nada mais?
– O que mais você acha que aconteceu? – sorrio nervosamente e ela revira os olhos.
– Algo interessante talvez. – responde como se fosse obvio.
– Do que estão falando? – A shadow se senta no chão a nossa frente.
– Do encontro da Thais. – Mari arqueia as sobrancelhas surpresa.
– Não foi um encontro. – protesto sentindo as bochechas esquentarem.
– E como é que eu não soube disso? – Mari pergunta ofendida – Como você não me contou que ia ter um encontro?
– Não foi um encontro. – resmungo encarando o chão envergonhada.
– Claro que não foi. – Lilian debocha – Aposto que o Caio não pensa assim.
– Caio? – Mari pergunta mais surpresa ainda e encaro-a confusa.
– Quem mais seria? – Lilian observa a shadow que agora está tentando disfarçar a expressão de espanto.
– Ninguém , eu só fiquei surpresa, ele parecia bem inseguro. – semicerro os olhos ao perceber seu semblante levemente desapontado.
Entendo ela.
O que?
Nada não.
– Vocês sabiam sobre isso? – pergunto meio incrédula, recebendo sorrisos brincalhões em troca.
– Que ele gosta de você? – minhas bochechas devem estar queimando a essa altura o que a faz sorrir mais – Sim, sabíamos.
– Não exagera Lili. – a shark encara a amiga confusa – Sabíamos que ele estava mais próximo dela, só isso.
– Mari, francamente, como se você não tivesse percebido. – Lili revira os olhos diante a expressão de desentendida da shadow – Fora que o encontro é prova disso.
– Não foi um encontro. – encaro-a irritada – Nós só tomamos sorvete e pronto, nada demais.
– Vai negar até quando? – reviro os olhos ao ver seu sorriso debochado.
– Lili, ela disse que não foi um encontro. – Mari cutuca a shark séria – Vamos acatar isso.
Sorrio agradecida e ela retribui. Lilian cruza os braços parecendo uma criança emburrada. Passados alguns minutos Jack e Max se juntam a nós. Enquanto esperamos a hora do jantar, assuntos banais surgem e acabo por ignorar a conversa, me concentrando no novo problema.
Blake diz que encontraremos um jeito, mas não vejo como isso possa ser resolvido facilmente, muito menos como um pedaço de papel idiota pode fazer tanto estrago. Mas analisando os recentes acontecimentos consigo encontrar os sintomas em certas ocasiões. Meus poderes não foram muito afetados no começo, eu ainda tinha grande dificuldade de controlá-los, mas acreditava ser por causa da falta de treino. Depois veio o acidente, eu fui proibida de usar minhas habilidades, então não tinha nem como perceber alguma mudança e isso, possivelmente, pode ter atrasado os sintomas.
Quando eles finalmente voltaram estavam totalmente descontrolados e vendo pelo ponto de vista levantado por Blake, realmente não faz sentido meu lado fênix dar as caras. O cansaço e a sensação estranha de que estava faltando alguma coisa vem a tona, no início pensei que fosse devido todo o estresse causado pelas mensagem daquele maldito.
Sinto a raiva tomando meu corpo ao me lembrar do dia anterior. Ele estava lá, na minha frente e eu simplesmente corri, de novo. Eu senti medo por dias e quando o encontrei o sentimento veio acompanhado de raiva. Eu estou cansada de sentir medo. Agora, além de me atacar emocionalmente ele começa a mexer com a única coisa que me faz sentir segura? Eu não vou deixar.
Volto a realidade quando sinto uma dor aguda no braço. Levo a mão até o local e encaro Marian indignada. Ela sorri e balança a cabeço de um lado para o outro.
– Quando você vai parar de ser tão distraída? – olho em volta notando que a sala está quase vazia – É hora do jantar.
Sigo-os ainda perdida com os sentimentos conflitantes na cabeça. Minha fome sumiu completamente e estou totalmente sem vontade de ficar sentada na mesa respondendo perguntas sem sentido.
Encaro a comida intacta no prato. Desvio o olhar para minhas mãos inquietas, não consigo notar diferença alguma, o tremor não está presente como em Blake. Talvez ele tenha se enganado e eu não esteja sendo afetada.
Você sabe que isso não é verdade.
Como você tem certeza?
Porque se você se sente fraca, eu também me sinto.
Não é exatamente fraqueza que eu venho sentindo.
Tem razão, depois de ser internada você melhorou.
Sim, não me sinto fraca.
Mas está sentindo o descontrole.
Como assim?
Você não pode mentir para mim, eu sei que eles não estão sob o seu controle.
Eu não sei o que fazer.
Mesmo querendo negar, sei que ela está certa. Ainda que eu tente colocar toda a culpa na falta de experiência, sei que não é só isso. A constante sensação de estar fora de equilíbrio, como se algo dentro de mim quisesse sair a todo custo. As manifestações dos meus poderes em situações inusitadas. Até mesmo o descontrole sobre minhas emoções. Sinto como se não estivesse no comando de nada.
Uma mão pousa em meu ombro chamando minha atenção. Os olhos azuis de Mari parecem preocupados, a pergunta explicita. Ela não precisa colocar os pensamentos em palavras, sei que está ciente de que algo está errado. Como ela reagiria se eu contasse? Como iria encarar o fato de que cinco amigos dela estão sendo... Drenados? Nem sei se essa é a palavra certa.
Direciono-lhe um sorriso fraco, tentando passar a ideia de que estou bem, mas sei muito bem que ela não vai se enganar com isso e muito menos aceitar uma resposta dessas. Marian é extremamente super protetora e pelo que sei pretende trabalhar no hospital futuramente, sua vontade de cuidar das pessoas é involuntária.
Ela me responde com uma careta insatisfeita, mas deixa o assunto de lado. Durante todo o jantar consigo sentir seus olhos sobre mim, mas apenas finjo que não notar. Quase posso escutar as engrenagens do seu cérebro funcionando em busca de respostas.
Quando me levanto para devolver a bandeja com meu jantar quase intocado, encontro Blake, ele sorri tristemente em minha direção e sussurra algo como “Aguente firme”. Caminho em silêncio até o dormitório, agora dando falta de um integrante no grupo e lembrando que não o vi desde o dia anterior.
– Onde está o Clark? – vasculho a sala com os olhos buscando por ele, sentindo a frustração por não encontrá-lo.
– Não o vi hoje. – Jack responde e parece só se dar conta do fato nesse momento.
– Por que a preocupação? Ele deve estar no quarto dele ou fazendo alguma coisa proibida. – Lilian dá de ombros indiferente.
Talvez porque estão drenando os poderes dele!
Não grite!
Desculpe.
A vontade de dizer a verdade é grande, mas só estaria preocupando eles, fora que eu não entendo direito como isso está acontecendo. Só sei que desde a conversa com Blake, todas as reações estranhas e a aparência abatida de Austin começaram a fazer sentido, não consigo evitar a preocupação. Ele não teve nada que retardasse o processo, deve estar pior do que o shadow.
– Só achei estranho ele não ter jantado. – falo tentando disfarçar a apreensão.
Subo rapidamente as escadas sendo seguida pelas duas garotas. Marian ainda me direciona olhares questionadores que eu faço questão de ignorar. Não quero responder perguntas. Lilian também parece curiosa, mas tenho certeza que por outros motivos, sobre os quais eu estou com menos vontade ainda de conversar.
– Você já vai dormir? – a shark questiona assim que paro em frente a minha porta.
– Estou cansada. – respondo ainda de costas, sentindo minhas mãos ficarem quentes.
Droga!
– Sabemos que é apenas uma desculpa para nos dispensar. – Marian coloca uma mão sobre o meu ombro mais uma vez, mas mantenho meus olhos em meus punhos tentando conter as chamas – O que está acontecendo com você?
– Nada! – minha voz aumenta algumas oitavas e me arrependo assim que ela se afasta assustada – Me desculpe, eu só... Estou com alguns problemas com isso.
O que está fazendo?!
Pare de gritar.
Você vai contar?
Não, mas preciso despistá-las.
Exibo minhas mãos avermelhadas e suspiro chateada. Não conseguir conter o comportamento inconveniente do meu lado fênix me deixa mais aborrecida do que eu imaginava.
– Martin disse que isso é normal, lembra? – Lili fala gentilmente e não evito o sorriso sem humor – Você precisa se acalmar.
Eu preciso é de uma solução!
Ela não sabe o que está acontecendo.
Eu sei.
Ela segura minhas mãos que, em contado com seus dedos frios, vão perdendo o calor lentamente. Sorrio agradecida sendo retribuída. Marian ainda me encara inquieta como se soubesse que tem algo a mais nessa história, só aumentado minha vontade de contar. Mas vou esperar Milena voltar, talvez ela saiba como resolver isso.
– Eu vou dormir, realmente estou cansada. – emocionalmente.
– Tudo bem. – solta minhas mãos e sorri amigável – Nos vemos amanhã.
Antes de seguir Lili, Mari me direciona outro olhar preocupado e sussurra um baixo “boa noite”.
Meu corpo agradece quando me deito sobre o colchão macio. Empurro todos os acontecimentos de hoje para o mais fundo possível em minha mente e tento me concentrar apenas em dormir. A inconsciência não demora a me encontrar e não posso estar mais agradecida por isso.
Quando os raios do sol atravessam minhas pálpebras, amaldiçoo o tempo por passar tão rápido, o silêncio estava tão confortável.
Arrasto-me até o armário em busca do uniforme. Depois de me arrumar me encaro no espelho enquanto arrumo a gravata azul. Meu rosto ainda não tem olheiras o que me faz agradecer muito, seria mais difícil ter que explicá-las. Encaro minhas mão me certificando que não estão tremendo, o tom de pele normal me causa alívio e não reprimo o sorriso. Só mais um dia.
Essa frase me acompanha pelo caminho inteiro até a cantina como um mantra. O café da manhã é calmo e mais uma vez consigo fugir das perguntas, mas não dos olhares significativos de Mari.
Quando estamos saindo, vejo Austin entrar sorrateiramente no refeitório. Despisto os outros e ando rapidamente em sua direção. Ele não nota minha presença até me sentar a sua frente. Encaro-o avaliando cada detalhe do seu rosto. Ele está levemente pálido, as olheiras não aparecem tanto quanto eu imaginava. Ele me dirige um sorriso brincalhão, mas parece cansado.
– Por que não me contou? – ele franze a testa confuso, suspiro aborrecida – Por que não me contou que estava tento problemas com seus poderes?
– Porque eu não estou. – responde nervoso e sorrio debochadamente – Como você sabe disso?
– Porque também está acontecendo comigo. – ele arqueia as sobrancelhas, cruzo os braços e me recosto na cadeira – Estou perdendo a conexão com eles.
Ele assente e encara o relógio voltando a comer rapidamente. Olho para o objeto na parede constatando que faltam dez minutos para as aulas. Ele termina seu café e seguimos os corredores até nossos armários.
– Acha que isso tem alguma coisa a ver com o Alasca? – ele pergunta hesitante.
– Não totalmente, tem mais a ver com aquele papel apocalíptico. – reviro os olhos lembrando do objeto com repulsa.
– Como tem certeza?
– Porque não somos os únicos que estão sofrendo esses efeitos colaterais.— sussurro observando os corredores cautelosa – Todos que tiveram contato com aquela porcaria estão assim.
– Todos quem? – ele segura meu braço me impedindo de andar.
– Milena, Blake, Lira, toda a equipe do Ethan, Martin e qualquer outro que tenha tocado naquela coisa. – ele leva uma mão aos cabelos nervoso.
– E o que está acontecendo exatamente? – nego com a cabeça frustrada – Como você sabe de tudo isso?
– Blake veio falar comigo ontem, queria saber se o mesmo estava acontecendo comigo e me contou sobre isso. – ele assente e seguimos rapidamente para o segundo andar – É como se algo estivesse drenando nossos poderes, pelo menos é assim que eu me sinto, como se algo estivesse...
– Faltando. – assinto e ele suspira agoniado – E o que vamos fazer?
– Eu não sei. – assinamos a chamada e sentamos nas ultimas carteiras – Blake quer esperar a Milena voltar, talvez ela tenha alguma ideia de como resolver isso.
Ele concorda e seus olhos parecem se perder em algum ponto no chão. Encosto a cabeça na parede observando o professor se acomodar em sua cadeira. Os sorrisos das pessoas a minha volta, as conversas animadas o dia ensolarado. Tudo isso parece um insulto levando em conta a situação.
– Isso que está acontecendo, é estanho. – ele balança a cabeça negativamente e me encara confuso, sua voz está irregular – É como se fosse uma falha de...
– Conexão. – completo a frase quando percebo que ele se perde no raciocínio.
Observando seus olhos perdidos e sua expressão de agonia, me questiono o quanto deve ser difícil para ele sentir isso. Avalio minhas lembranças e minha vida sendo mortal me dando conta que não conseguiria mais viver como antes. Não posso mais ficar sem todo esse mundo, ele faz parte de mim e a ideia de perdê-lo me causa pânico. Por isso, eu tenho certeza de uma coisa: Não importa o que aconteça, eu não estou disposta a perder mais nada.
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