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1 Capítulo 1 Amanhã é o grande dia


Abro meus olhos. Amanhã é o grande dia, o dia em que completarei meus tão esperados 16 anos. Não consigo imaginar o que mamãe irá me dar de presente, talvez um carro ou um quarto só pra mim. Minha irmã mais nova, Azha, ainda está dormindo, não sei como uma criança de seis anos consegue dormir tanto.

Tomo o meu banho, termino de me arrumar e decido descer para tomar meu café da manhã. No corredor há um grande espelho, paro no meio do caminho e passo alguns minutos me observando. Continuo meu trajeto e finalmente chego á cozinha. Pego uma colher. Mamãe está no telefone, acredito que ela esteja falando com Raen, meu irmão mais velho.

–Você precisa vir para guiar sua irmã! — Ela suspira, parece estar preocupada. -Ela precisará de você Raen.

O que ela quer dizer com guiar? Deixo minha colher cair no chão por acidente, e o barulho faz com que mamãe olhe para trás assustada. Ela se despede ligeiramente do meu irmão e desliga o telefone.

–Mamãe, você estava conversando com Raen? — Olho para baixo decepcionada. -Sinto falta dele, depois que viajou para o acampamento na Russia, nunca mais me mandou uma mensagem ou se quer me ligou.

–Katarina, você sabe que o acampamento de estudos de Raen não permite que ele faça ligações, consegui falar com ele pedindo permissão á direção do acampamento. — Ela me abraça e acaricia meus cabelos longos. -Ele virá amanhã, para o seu aniversário.

Nunca fiquei tão animada, Raen, irei ver meu irmão novamente. Quando mais novo, ele costumava me apresentar aos garotos mais populares da escola por que sabia que meu sonho era ser a mais conhecida do colégio. Quando Raen viajou para o tal acampamento de estudos comecei a perder o apetite e a vontade de viver, era muito ligada á ele, quase entrei em depressão.

Termino de tomar meu café, gosto dele sempre forte e bem amargo para afastar o sono. Subo para o meu quarto correndo e pego minha mochila, aproveito e penteio meus cabelos loiros. Prendo-os em um coque baixinho com fios soltos na frente, é meu penteado preferido. Meu vizinho Dalior está me esperando na porta de casa para irmos ao colégio juntos. Ele é meu melhor amigo, esteve sempre ao meu lado desde quando eu era uma desconhecida no colégio. Atualmente todos querem andar comigo para se tornar populares como eu.

–Bom dia Kat! — Dalior grita quando eu abro a porta de casa. Ele é alto e moreno, e aparentemente não rejeita acessórios. Sempre usa dois colares em seu pescoço, quatro pulseiras no braço esquerdo, e duas no direito. -Atrasada dois minutos hoje. — Solto uma risada.

–Vamos logo. — Eu digo segurando seu braço. -Me sinto uma criança perto de você, sabia?! — Ele ri e beija minha testa.

O colégio fica á 20 minutos da nossa rua. Ainda são 6:30 e o céu está escuro. O vento bate sobre meu rosto fazendo com que meu queixo trema, a temperatura está abaixo de zero. Uma jaqueta de frio e um café quente para esquentar o peito não são o suficiente para sobreviver nesta época do ano. Enquanto caminhamos encontro Lasria do outro lado da rua. Lasria é uma colega de classe sem graça, não costuma conversar com ninguém, sempre que vejo-a ela está lendo. Convido-a para se juntar á nós.

Lasria está segurando um livro roxo com alguns trovões desenhados na capa, não consigo identificar sobre o que é o livro mas acredito que seja sobre coisas sobrenaturais. Ainda faltam 10 minutos para chegarmos á escola, Dalior e Lasria parecem levar uma conversa divertida. Sinto que algo está nos seguindo, viro para trás. Nada. Continuamos andando e vejo que Lasria percebe o mesmo, ela se vira para trás e não vê nada. Estamos perto da escola, os dois decidem parar para comprar comida. A fila está grande, eu me sento em um banco e vigio as mochilas, incrivelmente encolhida para afastar o frio e me manter aquecida.

Me viro para trás para observar a paisagem, sinto que alguém está perto de mim, então me viro novamente para frente. Uma mão tampa minha boca, eu mordo-a com força e sinto o gosto de sangue, ouço um grito, é o grito de um garoto. Começo a correr. Olho para trás enquanto corro, dois garotos estão me perseguindo, o que eles querem? Correr é inútil, sou pequena e minhas pernas são curtas mas continuo a correr. Estou perdendo o fôlego, me encosto em uma árvore e solto um grito de socorro. Eles me encurralaram. Um deles está segurando um pequeno arco. Por que ele está segurando um arco? Sozinha, tremendo de frio, roendo as unhas de fome, e em perigo. Não sei mais o que fazer, estou em pânico, fecho os olhos e entrelaço minhas mãos.

Sinto algo queimando em meu peito, quero saber o que está acontecendo mas estou com medo demais para abrir os olhos. Tudo está silencioso, será que eles decidiram me deixar em paz? Minha cabeça começa a coçar, minhas mãos formigam, e decido abrir os olhos. Estou morta? Não enxergo nada, está tudo preto em minha volta, a árvore em que eu estava escorada sumiu. Grito pedindo por socorro, e algo aparece em minha frente. Acredito que seja um portal. O que está acontecendo? Um portal coberto de chamas. Se eu não fizer algo, ele virará cinzas. No centro do portal vejo meu reflexo, meu cabelo está vermelho? Não me lembro de ter pintado ele esta semana. Encosto a ponta dos meus dedos no portal e todo o preto em minha volta desaparece. Estou dentro de uma sala.

A sala é rodeada de estantes e prateleiras com livros antigos e duas poltronas aconchegantes de cor escura no centro, em frente á elas uma lareira se acende. O que, ou melhor, quem as acendeu? Vejo uma porta á minha direita. Eu abro e vejo um clarão branco que me cega por alguns segundos. Estou novamente encostada na árvore, com as mãos entrelaçadas e vejo os garotos correndo de mim. Um deles deixa o arco cair no meio do caminho. Estou confusa, tudo em minha volta está rodando e rodando e rodando... Desmaio.