Elementais.
2 Encontros: A yokai prateada!
Notas iniciais
Artsartye estava montada em Prince, e os dois vagavam sem rumo pelo mundo humano. As estrelas brilhavam em seu silêncio, velando na escuridão da noite os seres que dormiam. A lua estava cheia. Artsartye ergueu seu rosto pálido em direção ao céu, admirando-a.
– Prince, lembra-se da lenda do meu clã? — Disse a yokai loba em um tom que nada revelava seus sentimentos.
Prince resfolegou.
– Dizem que nós surgimos quando a lua se apaixonou por um lobo. Nunca poderiam se unir, a lua e o lobo. Portanto o lobo dedicava suas noites à uivar para ela, como a serenata de um amante, num romance cruel. Todos os seres que vivem morrem um dia, e quando chegou o fim dos dias do lobo, este ascendeu aos céus, uniu-se à lua, e então surgimos, os Lobos Lunares, o Clã Lusin. — Artsartye contou em um tom sombrio.
– Lideres da floresta. — Respondeu-lhe Prince.
Artsartye entrou em alerta.
– Farejas isto? Cheira como monstros. Uma horda deles. Uma floresta está próxima. Olhe, no chão, são rastros. Vamos, Prince, não deixaremos esta escória imunda profanar os bosques.
Rápidos como o vento, silenciosos como o vôo da coruja, avançaram em fúria cega, sem deixar rastros para trás.
Abnara andava silenciosamente pelo Acampamento durante aquela noite. Resolvera ficar de vigia. Caso acontecesse algo, seria melhor que tivesse uma deusa por perto. Depois de um tempo andando, avistou uma jovem de cabelo branco-prateado montada em um cervo. Ela resolveu se aproximar para ver quem era. Certamente, não era mortal. Mas também não parecia uma inimiga.
Prince escutou o som da respiração e o bater do coração de um ser que não era animal algum. Artsartye vira luzes após a floresta. Alguém se aproximava, e cheirava como deus, uma fêmea. Cheirava como tulipas. Cervo e Yokai olharam-se, e em silêncio concordaram que esperariam a deusa se aproximar. Sem ocultarem-se, aguardaram, com a luz do luar refletindo o prateado de seus corpos. Os olhos de Artsartye brilhavam escarlates na escuridão.
– Olá... — disse Abnara, incerta. Olhou nos olhos escarlate da Yokai.
Artsartye desceu do lombo de Prince. Aproximou-se da deusa até estarem a 30 centímetros de distância. Olhou no fundo dos olhos dela, e sabia que a outra conseguia ver refletido nos seus olhos a própria alma. Farejou-a, comentando em tom travesso:
– Certo, acho que gosto de você. Chamo Artsartye, e meu companheiro chama-se Prince. Pergunto-me, por que está em uma forma tão comum, quando posso ver claramente a outra resplandecente?
Prince revirava a relva com o casco, procurando pedrinhas brilhantes. Era passatempo do cervo prateado procurar estrelas caídas, embora nunca tenha achado uma. Agia como se a deusa não estivesse ali, embora tivesse vontade de fazer cócegas nela e vê-la rir até não aguentar mais. Prince era insano, e achava coisas azuis extremamente engraçadas, sem motivo algum pra isso. Ergueu seus olhos heterocromáticos, o castanho, que via o que os seres normais vêem, e o prateado, que via, entre outras coisas, dimensões paralelas, e olhou a menina incerta tímida que destemidamente resolvia dizer olá.
– Olá, tens alguma estrela? — Disse Prince casualmente, como se as pessoas possuíssem estrelas na mesma frequência que possuem animais de estimação.
Abnara então mudou de forma: seu longo cabelo ondulado tornando-se azul e seus olhos também. Asas transparentes, como que feitas de água, apareciam em suas costas.
– Desculpe, não tenho nenhuma estrela, mas quem sabe Nyx tenha... Bom, me chamo Abnara. — disse a deusa, gentilmente.
– Nyx, então. – Disse Artsartye sorrindo, com seus dentes pontiagudos de lobo em evidência. Montou no lombo de Prince, e disse gentilmente:
– Despeço-me agora. Tenho uma horda para exterminar. Se estiver interessada em proteger o lugar de onde veio, siga-me.
– Aliás, é mais bonita assim. Deixe que todos os seres que tiverem olhos vejam quem tu és. – Acrescentou Artsartye, esperando pacientemente a decisão de Abnara.
Abnara a seguiu.
– Obrigada. — disse, sorrindo com o elogio. Seus longos cabelos azuis voando com o vento.
Prince seguiu impetuoso em direção aos inimigos, empalando monstros com seus chifres afiados. Empinou-se, e esmagou o crânio de um orc com os cascos. Artsartye saltou graciosamente do lombo de Prince, arremessando uma lança, empalando três monstros de uma só vez. Transformou-se em um lobo prateado. Sua mordida era tão forte que decepava onde desferia os golpes. Os monstros não tiveram chance. A horda mal conseguia se defender. suas armas pareciam de papel, e suas armaduras, manteiga perante as garras e presas afiadas como a mais afiada das adagas de Artsartye. Sangue negro manchava a terra. Alguns tentaram escapar, mas nem o cervo nem a druida deixavam brechas. Ataques perfeitos, defesa impecável. Tiveram 2.000 anos para treinar. Apenas um sobreviveu. Preso por raízes, não podia fugir. Artsartye invocou uma pequena lâmina, e na testa do telquine desenhou uma lua crescente:
– Você viverá. Vá correndo para seu mestre, e conte a carnificina que Artsartye do clã Lusin e Prince de Ravenloss fizeram. Diga-os que serão minha presa.
Apavorado, tudo o que o telquine conseguiu fazer foi correr, sumindo assim da floresta, deixando para trás um rastro negro feito pelo sangue que escorria de seus braços decepados.
– Dessa vez apenas observaste. Eu sou a predadora, e eles, a presa. Nunca fique entre um lobo e sua presa. Considere-se afortunada. Aqueles que protege viverão para ver o amanhã. — Artsartye disse . Estava ensanguentada.
Artsartye usa armas feitas em outra era, com metais desconhecidos aos deuses e às demais raças. Elas não fazem os monstros virarem pó, e sim cortam-os assim como metal comum corta humanos. Não teria graça se fosse fácil demais.
– Eu deveria ter ajudado. — disse Abnara. A deusa não gostava que outros fizessem todo trabalho, mas desta vez, quando percebeu, a batalha havia acabado.
Artsartye suspirou e começou a tirar as entranhas dos chifres de Prince.
– Entendo. Haverão outras batalhas. Dê seu melhor nelas. — Disse a Yokai sorrindo com um pedaço de fígado na mão:
– Aliás, Prince, você está fedendo. — Prince bufou em resposta e mostrou a língua.
Abnara riu.
– Gostaria de conhecer o Acampamento? — perguntou a deusa, com a mão direita sobre o ventre.
– Depende. Tem porcelana lá? — respondeu a yokai, colocando uma mecha prateada atrás da sua orelha pontuda.
– Oh. Tem um filhote no ventre? — Perguntou espantada Artsartye.
– Sim, tem porcelana lá. — disse Abnara, rindo. — E bom... São dois... — falou então, olhando para a barriga, que já estava maior que o normal.
– Ah. Não sei como são seus costumes, mas no meu mundo, fazemos isso — e aproximando-se, tocou a barriga da deusa, onde uma luz prateada brilhou , e disse:
– Que a Lua zele por você.
– Desculpe-me, Vocês. – Rindo, Artsartye corrigiu-se. — Porcelana é delicioso, devia experimentar.
– Perdão, nem me apresentar direito a você me apresentei. Sou Artsartye do Clã Lusin, última de minha linhagem.
– Obrigada — disse Abnara. — Sou Abnara, filha de Poseidon e Atena.
Artsartye percebeu que a deusa disse o nome da mãe com desgosto.
– Atena. — Artsartye disse com desprezo — Uma olimpiana. Sabe, eu vivi para ver a aurora dos tempos dos humanos. Tornaram-se vermes quando os deuses deles começaram a se tornarem banais também. Atualmente, vivem como humanos. E são deuses. Deuses fúteis, banais, e estúpidamente humanos. É por isso que caço deuses. A humanidade se corrompeu, eles não fizeram nada para impedir. Em pouco tempo, os humanos começaram a devastar as florestas. Meu clã foi perecendo, uma vez que cabia aos líderes da floresta protegê-la.
– É por isso, que se um dia encontrar Atena, irei matá-la. – Concluiu Artsartye enquanto olhava para o céu. Era uma promessa.
– Com isso eu devo concordar. — disse Abnara. A deusa não gostava de ser comparada à uma humana, mesmo vivendo entre estes. — Venha. — disse, indo em direção ao rio. Artsartye seguiu Abnara até o rio, e por onde passava pequenos animais a seguiam, e esta seguia distribuindo pequenas frutinhas vermelhas para os animais.
– Ora, não sejas guloso. Já ganhaste uma. – Artsartye ralhou com um pequeno esquilo.
Abnara sentou-se na margem do rio e colocou seus pés descalços na água. Sua pele tornando-se meio azulada com o contato com sua fonte de poder.
– Este é um dos meus lugares favoritos no Acampamento. É onde me sinto em paz... — disse a deusa. Alguns peixes se aproximavam dela e ela passava a mão rapidamente por suas escamas. Abnara sorriu.
Artsartye sentou-se perto de Abnara, tirou os sapatos e as grevas colocando seus pés no rio também. Prince aproximou-se serenamente, sentou-se do lado da companheira e pousou sua cabeça em seu colo.
– Não sabia se devia contar, por que como deve saber, não estou do lado de ninguém. Achei uma carta endereçada a alguém cujo nome me parece mortal. Estava entre os pertences do general. – Artsartye disse enquanto tirava uma carta do cinto. Prince fitou a carta curiosamente, pensando na melhor forma de comê-la. Concluiu que cartas não parecem saborosas. Mordeu com moderada força os dedos de Artsartye de forma petulante para que essa fizesse carinho atrás de sua orelha esquerda.
– Deixe-me ver a carta — pediu Abnara. Qualquer coisa que pudesse vir a ser uma pista era ótimo.
– Oh. Aí está. Porque eu deveria? — Artsartye disse enquanto segurava a carta com mais força.
Abnara não tinha resposta para aquilo.
– Por favor... — disse ela, deixando todo o seu orgulho de lado. — Certamente é algo importante...
– Aconselho que entregue. – Disse Asaroth com sua voz imponente. Estava parado na frente das garotas, na outra margem do rio. Tirou o elmo, e seus cabelos caíram ao redor de seus ombros. Tinha um rosto bonito, porém era marcado pelo dever e o peso de inúmeras lutas. Seus olhos eram amarelos, e reluziam com a luz da lua. Possúia uma cicatriz que ia do olho esquerdo até o queixo, em forma curva.
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