Eles estavam se afogando. Quando a escuridão envolveu o corpo de Cameron como tentáculos gelados e apavorantes, ele sentiu o ar ser sugado de dentro do seu corpo. A bruma negra era tão densa e gélida que o garoto podia sentir o corpo afundando nas profundezas da fenda outrora criada por Scott. Ele estava ciente da presença dos seus novos amigos ao seu redor, mas não conseguia fazer absolutamente nada além de se afogar na escuridão sombria e sufocante que envolvia cada centímetro cúbico do seu corpo.

Ele não fazia ideia de para onde Scott os havia mandado e não tinha certeza de que sairiam vivos da imensidão negra agora que o garoto certamente estava morto. Se não havia quem abrisse o portal do outro lado, como eles sairiam dessa dimensão de trevas?

Cameron se sentia egoísta por estar pensando em sobreviver enquanto um garoto havia acabado de se sacrificar para salvar a vida de todos eles, mas ele não era próximo de Scott e nem o conhecia direito. Quando ele pensou no garoto morto, simplesmente não sentiu nada.

Ele afundou ainda mais nas sombras, incapaz de mexer os braços que ainda ardiam. Era quase insuportável como ele não sentia nada além da dor em seus braços, queimando lentamente. Cam não ouvia nada, não via nada e não respirava. Ele sentia com se estivesse flutuando no vácuo, sufocando lentamente enquanto o sono o embalava para a morte tranquila e convidativa.

Se aquela era a morte, ele a abraçaria com gosto. E assim o fez.

. . .

Cameron conseguia divergir sua atenção para múltiplas direções distintas, mas não conseguia se mover de maneira nenhuma. Por um breve instante de pânico absoluto, ele imaginou que tudo estava começando de novo e que ele estava na caixa. Mas o que ele podia ver era muito diferente daqueles minutos aterrorizantes em que seu corpo não o obedecia e sua memória recusava-se a formar uma lembrança sobre seu passado. Ele estava em um quarto perfeitamente arrumado, com paredes cor de rosa uma janela com venezianas brancas e uma cortina de renda.

A claridade dos raios de sol que passavam pela cortina banhava sua pele, espalhando calor pelas suas juntas doloridas.

– Cam? – A voz de Joe parecia nebulosa, como se houvesse uma grossa parede de vidro entre eles. Cameron viu o amigo parado ao seu lado, o rosto devastado pelo sofrimento. Os cabelos loiros estavam mais curtos e sua expressão era mais jovem, apesar da dor impressa em seu semblante. – Cameron, por favor.

Joe se curvou e agarrou os ombros de Cameron, sacudindo-o abruptamente. Cada músculo e terminação nervosa presente do corpo de Cameron gritou de dor, queimando com o movimento brusco de Joe. Ele queria gritar para que Joe parasse, queria gritar que não havia mais nada que pudesse ser feito, mas sua voz morreu antes mesmo de chegar à garganta.

Ele sentiu algo pingar em sua bochecha e seus olhos se fixaram nas lágrimas que escorriam pelas maçãs do rosto de Joe.

– Cam, por favor, você não pode me... – A voz de Joe foi sumindo, tornando-se um gemido de dor. Scarlet se aproximou, os passos abafados, colocando a mão no ombro direito de Joe. Os olhos dela estavam inchados e vermelhos, não muito melhores do que os de Joe no momento. – Você não pode nos deixar, parceiro. Nós precisamos de você, seu babaca. Eu preciso de você, seu inútil. Imbecil, idiota, otário, babaca, retardado, filho de uma...

– Joe, temos que continuar. – Ele e Scarlet se viraram, permitindo que Cameron pudesse ver Scott parado na soleira da porta. Ele não pareceu muito confortável com a atmosfera do quarto, mas manteve a expressão austeramente calculada.

Scarlet negou com a cabeça ao mesmo tempo que Joe concordou. Ambos os irmãos trocaram olhares significativos enquanto Scarlet grunhia de raiva e se virava para Cameron. Ela segurou sua mão inerte e ele novamente quis gritar. Até aquele gesto afetuoso e cheio de carinho enviou uma onda de dor até a sua alma, ameaçando destruir o pouco da sua consciência que não havia sido completamente destruída pelo câncer.

– Eu sinto muito, Cam. Eu sinto tanto... – As palavras dela o feriram. Ela soluçou e Joe estendeu a mão em sua direção, tentando ampará-la. Scarlet estapeou a mão do irmão, afastando-se em direção à porta onde Scott abriu caminho para que ela passasse.

Joe clonou os movimentos outrora efetuados por Scarlet, segurando a mão de Cameron com a esquerda enquanto reproduzia o aperto de mão secreto deles com a direita.

– Bryan acha que é desumano deixá-lo assim. Acha que seria melhor matá-lo e acabar logo com esse sofrimento. – Scott murmurou, ainda na porta. Joe assentiu como se concordasse e não tivesse a menor pretensão de realmente fazer aquilo que fora sugerido por Bryan.

Ele soltou a mão de Cameron e usou os dedos para fechar os olhos do melhor amigo, como se fosse melhor imaginá-lo dormindo do que incapacitado de pensar racionalmente. Cam só via a claridade por trás das pálpebras, incapaz de ver o rosto de Joe novamente.

– Vamos, Scott. – Ele ouviu Joe resmungar. Sua voz estava carregada de tanta dor que parte de Cameron realmente morreu naquele dia. Ele havia decepcionado o melhor amigo de uma forma irreparável. – Ele desistiu. É um covarde. Eu não tenho mais nada para fazer aqui.

Cam ouviu os passos dos garotos ao se afastarem. Ouviu, minutos depois, a mini-van que eles haviam roubado. Ele ouviu seus amigos irem embora, partindo sem ele e aquilo doeu mais do que quando seus pulmões se encheram de água, do que quando seus músculos simplesmente haviam se recusado a obedecer qualquer ordem e queimaram como se um ferro em brasa fosse colocando em suas juntas. Aquilo doeu mais do que as pontadas excruciantes que devastavam sua sanidade mental, destroçando cada vez mais sua consciência que lutava para permanecer no controle, lutando compulsivamente contra o câncer. Era uma luta injusta que ele já havia perdido, mas continuava tentando.

Ele ouviu o assoalho ranger, mas não conseguia abrir os olhos. A parte racional do seu corpo exigia que ele fizesse de tudo para despertar daquele estupor denso e poderoso, mas a aparte racional de Cameron já não era ouvida há muito tempo.

A ponta fria de uma agulha perfurou a pele do seu antebraço, ardendo mil vezes mais do que deveria ser normal. A sensação gelada do líquido penetrando seus tecidos musculares abrandou qualquer dor provocada pelo câncer.

Um sono descomunal começou a engolfá-lo no exato instante em que o hálito quente de alguém soprou em sua orelha.

– Você é um de nós agora, Cameron. Você é um peão deles. – Assim que as palavras foram sussurradas ele afundou em uma escuridão fria, quase como se estivesse se afogando nas trevas. Ele reconheceria aquela sensação esmagadora e sufocante em qualquer lugar, exatamente como reconhecia a voz de Scott, lançado-o em uma fenda dimensional.

. . .

Cameron acordou suando e resfolegando, sorvendo uma quantidade exorbitante de ar enquanto sua visão tentava se adaptar à luz vespertina. Ele estava dentro de um saco de dormir, sob a claridade imensurável do sol que atravessava os vidros do centésimo segundo andar do Empire State.

Seus braços ardiam como se ele tivesse tomado muito sol sem protetor solar, mas ele suspirou de alívio ao ver que conseguia mexê-los novamente.

– O sangue de Quimera é tóxico, mas não é permanente. – Cameron se sentou abruptamente e sentiu a vertigem o atropelar sem rodeios, quase o derrubando novamente. Debbie estava sentada em uma caixa de madeira, distraidamente fazendo as unhas dos pés enquanto falava com ele. – As manchas vão sumir em alguns dias, como se nunca tivessem estado aí.

– Onde está todo mundo? – A voz de Cameron estava embargada pelo sono. Ele esperava que não estivesse todo descabelado e sujo pela noite anterior e novamente se sentiu culpado por estar mais preocupado consigo mesmo do que com Scott.

Ao pensar em Scott seu estômago deu um mortal para trás. Havia sido Scott quem injetara o gene mutante X nele, antes do câncer destruir todo o seu cérebro. Sua simpatia pelo garoto diminuía cada vez mais.

– Voltaram para o supermercado. Ainda estamos sem comida, então Joe organizou mais uma expedição até o centro de Manhattan. – Um flash azulado piscou na mão de Debbie enquanto ela acenou para as próprias unhas. – Pronto, nada como um ventinho frio para secar o esmalte.

– Debbie, por que eles voltaram lá? – Cameron tentou se levantar, mas seus braços não estavam tão bons quanto ele achou que estavam. A letargia o atingiu e ele quase caiu novamente. Apesar do tom coloquial com o qual ela o tratava, Cameron pode perceber que as mãos dela tremiam e que ela estava mais pálida do que deveria ser considerado saudável.

– E-eles queriam encontrar o corpo do Scott. – A voz dela tremeu e toda aquela pose indiferente ruiu. — Joe ficou transtornado. Ele organizou todos como se fossem militares prestes a entrar em uma guerra. Ele usou a desculpa de que ainda precisávamos de comida, mas todos nós sabíamos que ele tinha esperanças de encontrar o corpo de Scott. – Ela apoiou o pé cuidadosamente no chão e suspirou, lançando ao garoto um olhar solidário. Cameron tinha absoluta certeza de que não a conhecia, mas o olhar dela o confortou. – A fenda que ele criou nos deixou bem em frente ao Empire State. Você estava inconsciente e Scarlet não queria deixar você sozinho, mas todos concordaram que eu era uma ótima babá e que podia muito bem cuidar de você.

– Desculpe fazer você perder toda a diversão – ele disse com toda a sinceridade do mundo. Debbie bufou e revirou os olhos, o que só fez Cameron gostar ainda mais dela. Aparentemente ele não era o único que dispensava altas emoções.

– Eu e Bryan deveríamos ter ficado aqui para tomar conta de você, mas ele e Scott eram próximos então eu entendo por que ele insistiu em ir. – Os olhos dela eram misteriosamente azuis, contrastando com a pele escura. Os cabelos eram lisos e estavam presos em um rabo de cavalo apertado. Debbie era uma contradição ambulante. – Você é exatamente como Scarlet me contou.

Aquilo o pegou desprevenido. Ele sabia que tivera um relacionamento com Scarlet, mas aquele ainda era um assunto delicado para ele. Ela havia acreditado que Cameron estava morto, mas agora ele estava ali. Se o que ela sentia por ele fosse tão forte quanto ele achava que era, Cameron não podia se odiar mais por, infelizmente, não se lembrar daquilo.

– Eu me juntei ao grupo recentemente, por isso não lancei flores ao céu quando você apareceu por aquela porta. Desculpe, mas você é tão desconhecido pra mim quanto eu devo ser para você.

Cameron concordou com a cabeça, sem poder conter o sorriso.

– Realmente, todos aqui são estranhos pra mim. – Aquilo era uma verdade perturbadora. Ele sabia que as lembranças estavam ali, mas eram tão inatingíveis quanto podiam ser. Ele confia em Joe, sabia que podia contar com ele para o que precisasse. Mas era uma confiança cega e imprudente.

Os olhos de Debbie foram para o céu extremamente azul e depois voltaram para Cameron.

– Eles saíram já tem duas horas. Já devem estar voltando, então eu sugiro que você me ajude a preparar tudo para o almoço.

Jogando conversa fora, Cameron descobriu que o portal os despejou na Quinta Avenida faltando algumas horas para amanhecer. Ele havia dormido até o meio dia e Debbie havia cuidado do sangue de cachorro nos seus braços. Ela também explicou que o câncer radioativo havia se misturado com várias outras doenças e que cada pessoa infectada reagia de uma maneira diferente. Havia os infectados que simplesmente adoeciam e morriam, mas também havia os que contraiam outros tipos de doença e simplesmente se transformavam em bestas sem humanidade.

Os animais se infectados se tornavam agressivos e sofriam com a mutação genética, tornando-se completamente diferentes na composição do seu DNA. As pessoas e animais que sofriam essa mutação, tornando-se ferras irracionais eram chamadas de Quimeras e eram extremamente perigosas.

Meia hora depois, Joe passou pela porta com uma expressão derrotada. Ele lançou um sorriso exausto para Cam enquanto todos os outros garotos e garotas entravam carregando sacolas de supermercado. Debbie e ele não precisaram perguntar para saber que não haviam encontrado nem sinal de Scott.

Eles eram cerca de vinte garotos e garotas com a idade variando entre quatorze e dezoito anos. Todos com a mesma expressão condolente e fúnebre.

Cameron e Debbie preparam o almoço em um silêncio quase cúmplice. Ele tentou recriar o muro de concreto imaginário envolta do próprio cérebro, temendo que Joe pudesse ver o flashback que ele vivenciara enquanto estava dormindo. Claro que ele contaria, mas aquela estava longe de ser a hora certa para envolver Joe em uma teoria infundada, baseada apenas em um surto de memórias não confiáveis. Eram memórias, mas Cameron não queria ter que compartilhar aquilo tão cedo.

O bloqueio imaginário devia estar dando certo já que, durante toda a refeição, Joe olhava para Cameron como soubesse que ele tinha algo a esconder.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.