Cameron acordou completamente desorientado. Sua cabeça estava prestes a explodir e ele não fazia ideia de onde se encontrava, nem que horas eram e em que dia da semana estavam. O pior de tudo era não se lembrar absolutamente nada sobre quem ele era. Quantos anos ele tinha? Ele tinha pais? Irmãos? Onde ele morava e por que ele sentia como se cada respiração exigisse um esforço incomum que enviava pontadas agonizantes em seu cérebro?

Ele abriu os olhos e tentou mover o pescoço. Nenhum membro ou músculo parecia querer cooperar o que só alavancou seu desespero para um nível perto da insanidade. O que diabos estava acontecendo? Por que ele não conseguia se mexer?

Seus olhos esquadrinharam o local até onde sua visão periférica permitia. Estava escuro, muito escuro, e consideravelmente úmido. Apesar do breu que cobria sua visão ele sentiu alívio assim que seus olhos se adaptaram um pouco a bruma negra e ele conseguiu perceber que estava muito perto do teto. Ele tentou gritar e pedir por ajuda, mas seus lábios estavam tão mortos quanto o resto do corpo.

Cameron esperou. Ele contava os minutos a partir da sua respiração entrecortada, segundo após segundo que logo se transformaram em minutos. Quando ele chegou perto das 2700 respirações ele sentiu os músculos relaxarem e conseguiu movimentar o pulso ligeiramente. A sensação se espalhou até chegar aos cotovelos e depois aos ombros. Seu corpo voltou ao seu controle enquanto Cameron se controlava para domar o desespero que não abrandava nem um milímetro sequer.

- Olá? – Sua voz era estranha aos seus ouvidos. Como era possível alguém não se lembrar da própria voz?

Foi então que ele percebeu, com um estalo assustador e mórbido. Ele não se lembrava nem da própria aparência.

- Tem alguém aí? – Ele perguntou ainda mais alto. Suas mãos avançaram em direção ao teto e ele deslizou os dedos pela superfície áspera de madeira. Ele tentou se mexer, mas estava confinado em algum tipo de caixa de madeira. Agora ele podia ver frestas minúsculas por onde feixes quase inexistentes de luz penetravam. – Alguém pode me ajudar?

Seus ouvidos captaram o som de passos sorrateiros sobre o concreto e todos os seus sentidos entraram e alerta máximo. Por entre as frestas das tábuas de madeira ele viu sombras se espalharem ao redor da caixa onde ele estava. Cameron ouvia sussurros apressados, mas não conseguia entender as palavras, o que o deixou frustrado.

Alguém chutou a caixa e Cameron controlou o impulso de gritar. Ele continuou calado, desejando ser salvo e temendo que aqueles não fossem seus salvadores.

- Abra. – A voz se projetou mais alta do que os sussurros e de repente tudo ficou em silêncio.

Cameron ouviu o deslizar dos pregos pela madeira, todos sendo retirados ao mesmo tempo. Ele se encolheu como pode e se preparou para dar o golpe final na tampa da caixa.

Os pregos caíram no chão com um tilintar ecoante e Cameron propeliu as perna direita para frente com toda sua força. A tampa da caixa voou para trás e ele se colocou de pé de forma desajeitada, sentindo-se meio letárgico.

Na penumbra ele pode ver que estava cercado por mais ou menos uma dúzia de garotos e garotas com idades variando entre os treze e dezoito anos. Ele conseguiu ver o rosto dos mais próximos, mas alguns, a maioria deles, estava oculta pela penumbra mórbida.

Aparentemente a tampa voadora havia atingido alguém porque um garoto de aproximadamente quatorze anos esfregava o nariz compulsivamente, soltando um palavrão vez ou outra.

Todos se vestiam exatamente da mesma forma, o que era ao mesmo tempo engraçado e assustador. Eles vestiam moletom preto, jeans preto e alguns até gorros e luvas.

- Quanta agressividade. – Cameron se virou na direção da voz e uma centelha serpenteou pelo seu cérebro, desaparecendo logo em seguida. Ele conhecia o dono daquela voz. – Qual é o seu nome?

A boca de Cameron parecia se recusar a cooperar, quase como se não achasse prudente dizer qualquer coisa para aquele bando de esquisitos. Ele não conseguia ver quem fizera a pergunta, mas conseguia acompanhar sua silhueta com os olhos.

Em um ímpeto, Cameron saltou a beirada da caixa e tentou correr em direção a pequena fresta de luz que passava por uma abertura na parede. Um tijolo deslizou pelo chão de concreto e atingiu o pé do garoto em meio a uma passada, fazendo-o tropeçar e rolar pelo chão molhado.

- Eu não tentaria correr. – A voz ligeiramente conhecida falou de novo, havia a presença inegável de deboche por trás do tom coloquial. – Bryan.

Duas mãos fortes o agarraram pelas axilas antes que ele pudesse cogitar a possibilidade de se defender. Cameron foi posto de pé sem muita delicadeza e seus braços foram dolorosamente presos às costas, impedindo-o de usar as mãos.

- Hã... Joe, eu acho que ele... – Bryan encarou Cameron e o garoto pode perceber os detalhes do rosto do seu agressor. Bryan era mais alto e visivelmente mais forte que ele, tinha um nariz levemente adunco e traços grosseiramente esculpidos. Seria um cara bonitão se não fosse tão agressivo.

- Qual é o seu nome? – O garoto, Joe, estava quase invisível na penumbra. Sua voz extremamente autoritária não permitia que houvesse duvidas sobre quem estava no comando. Por algum motivo que Cameron desconhecia, ele ficou irritado pelo garoto usar esse tom com ele. – Se fizer me perguntar de novo, Bryan vai ser um pouco menos delicado.

- Cameron. – Cuspiu o garoto, detestando a humilhação. Ele viu a silhueta de todos se agitarem nas sombras, quase como se seu nome (a única coisa que ele se lembrava até então) pudesse desencadear o fim do mundo. – O que querem comigo?

Uma explosão de luz fez os olhos de Cameron arderem. A luminosidade foi reduzida com a mesma velocidade com a qual surgiu até Cameron conseguir ver um garoto de estatura mediana e de porte físico atlético segurando um isqueiro. Joe era loiro e carrancudo. Seu maxilar estava projetado para frente, aparentemente tentando parecer desafiador. Seus olhos eram negros, impossível de se separar a pupila da íris mesmo com o isqueiro tão perto do rosto.

Joe avançou alguns passos na direção de Cameron e os músculos do garoto se retesaram assim que seus olhos se encontraram. Eles se conheciam.

- Cam? Isso é impossível.

Cameron tentou não demonstrar o alívio que sentia por alguém finalmente parecer conhecê-lo. Ele se concentrou em perscrutar o rosto de Joe, tentando encontrar qualquer traço de familiaridade em que pudesse se agarrar.

Apesar da sensação esmagadora de que eles já se conheciam, Cameron não conseguia nem mesmo imaginar quem era aquele garoto.

- Eu te conheço?

A expressão de Joe oscilou sutilmente e de forma quase imperceptível entre surpresa, mágoa, choque e ligeira irritação.

- Que palhaçada é essa? Quem e você? – Com a mão livre, Joe agarrou a gola da camiseta de Cameron e o puxou para mais perto do que o garoto julgava necessário. O aperto de Bryan que mantinha os braços de Cameron sob controle simplesmente sumiu.

- Eu já falei, meu nome é Cameron.

- Eu perguntei quem é você, não qual é o seu nome. – O hálito de Joe banhou a face de Cameron tamanha era a proximidade entre os dois. O garoto quase podia contar quantos cílios Joe possuía em ambas as pálpebras. – Que tipo de joguinho vocês pensam que estão jogando?

Cameron empurrou Joe sem muita força para trás, livrando-se do garoto sem nenhum problema.

- Eu não faço ideia de quem eu sou, tudo bem? – Ele bufou de frustração e deslizou a mão pelos cabelos. Estavam duros por causa do suor. Quando fora a última vez que tivera um encontro com o sabonete? – Eu acordei nessa maldita caixa sem saber nada além do meu nome! Eu fiquei um bom tempo trancado sem conseguir me mexer, completamente entorpecido. Eu não sei quem são vocês, não sei quem eu sou, não sei quantos anos eu tenho e não faço a menor ideia de qual é o meu sobrenome!

- Montgomery. – Resmungou Joe, baixando o isqueiro.

- O quê? – Cameron o encarou, completamente confuso.

- Seu sobrenome é Montgomery. – Joe ergueu o isqueiro novamente e deu as costas para Cameron, impedindo o garoto de ver o seu rosto. Ele se virou para os outros garotos e garotas enquanto Bryan puxava a tampa do caixote. – Vamos levá-lo conosco, ele não esta seguro aqui. Não quero uma palavra sobre isso quando chegarmos, pelo menos até eu entender o que diabos está acontecendo.

- Joe. – Bryan o chamou. O líder se aproximou de Bryan e deixou um palavrão escapar. Como se isso fosse uma deixa para saírem das sombras, todos os garotos e garotas se aproximaram da tampa da caixa e Cameron não resistiu, aproximando-se também. – Devia estar na parte de dentro da tampa... O que isso quer dizer?

- Eu não sei. Juro que não faço ideia.

Ele aproximou o isqueiro da tampa e a palavra surgiu aos olhos de Cameron. Havia sido escrita com tinta spray vermelha, às pressas. Algo revirou as entranhas de Cameron e ele pode perceber que o mesmo acontecia com os outros garotos.

Acabou

- Vamos sair daqui, agora.

. . .

Cameron não tinha ideia do motivo pelo qual havia concordado em seguir aquele bando de lunáticos, principalmente depois de Joe içou a tampa de um bueiro e o grupo não hesitou em pular para a escuridão, um por um. Quando todos haviam ido, Joe olhou para Cameron e o garoto se moveu, saltando atrás dos desconhecidos com Joe logo atrás.

Seus pés afundaram no que ele esperava ser lama e ele ouviu os passos chapinhando na escuridão à frente. O cheiro de esgoto fez seu estômago se revirar violentamente e seus olhos lacrimejaram.

- Vai ficar parado aproveitando a brisa? – A mão de Joe pousou casualmente no ombro de Cameron, fazendo o garoto começar a andar.

Eles andaram em silêncio absoluto enquanto Joe os guiava através de várias bifurcações entre os canais subterrâneos. Ao longe Cameron ouvia as vozes baixas dos outros garotos, espalhando água lamacenta enquanto andavam. O ar era tão rançoso e fétido que Cameron tinha que se esforçar muito para não respirar pela boca.

O que ele mais achou estranho era a quietude quase sepulcral que só era quebrada pelos paços do grupo. Vez ou outra, eles passavam por um bueiro e a luz noturna entrava pela fresta, mas a rua estava ainda mais silenciosa do que o interior do esgoto. Aquilo o incomodava, incomodava muito.

- Então, Joe, onde estamos? – Ele queria parecer o mais casual possível. Apesar da sensação estranha de conforto Cameron não se sentia muito seguro andando por aí com um garoto estranho, ainda mais dentro de um bueiro.

- No esgoto.

Ele conteve o impulso de revirar os olhos e socar o garoto. O que custava ser honesto pelo menos uma vez?

- Você entendeu o que eu quis dizer, certo? – Os olhos de Cameron se dirigiram até Joe, alguns passos à frente. A luz do luar banhou o corpo de Joe mais uma vez enquanto passavam pelo décimo bueiro.

- É difícil saber. – A voz do garoto era extremamente calculada, o que fez os nervos de Cameron estalarem de irritação. Se ele realmente conhecia Joe, não estava acostumado com o garoto usando aquele tom com ele. – Eu diria que estamos sob Nova York, nos Estados Unidos. Depois da Guerra as fronteiras ficaram um pouco inúteis, então não posso afirmar com tanta certeza.

Alguma coisa estava terrivelmente errada. Cameron podia não se lembrar de absolutamente nada, mas sabia que Nova York era uma metrópole agitada. As ruas dessa cidade nunca estariam silenciosas como estavam agora.

- O que você quer dizer com Guerra? – Algo naquela palavra fez os cabelos na nuca de Cameron se eriçarem.

Joe não respondeu. Ele continuou andando e Cameron teve que se apressar para acompanhar os passos do garoto.

- Joe?

Ele viu os ombros do garoto ficarem tensos e se arrependeu de tê-lo pressionado. Joe continuou andando, mas dessa vez se dispôs a falar.

- Tem quase cinquenta anos desde que a Guerra aconteceu. – Sua voz austera causou calafrios por todo o corpo de Cameron. O vento fedorento que soprava vez ou outra ficou morbidamente frio e seco. Já não era possível ouvir os passos dos garotos andando mais à frente. – Eu, obviamente, não estava aqui quando aconteceu. Tudo o que sei é que o Aquecimento Global levou a melhor sobre todos nós. Quando o mundo começou a morrer e os chefões perceberam que não havia como reverter o inevitável, tudo começou a sair dos trilhos. Um país atacou o outro em busca de recursos para sobreviver. Foi assim que começou.

Definitivamente, Cameron estava ficando nervoso. Como era possível que ele não se lembrasse de nada sobre isso? Era até aceitável alguém esquecer quem é, mas esquecer uma guerra?

- O que aconteceu depois disso? – Sussurrou Cameron, temendo que sua própria voz.

Joe olhou por cima do ombro e encarou Cameron por alguns segundos antes de voltar os olhos negros para o caminho pelo qual seguiam.

- Algum país teve a brilhante ideia de bombardear a Europa com bombas nucleares. As doenças se espalharam e todo o oriente foi devastado. Agora, mesmo com a fiscalização militar dos Estados Unidos, a América do Sul está sendo toda contaminada pela radiação, o México foi completamente dizimado por um terremoto e parte da América do Norte já esta sendo contaminada também. Todos os que sobreviveram estão no Canadá, protegidos pelas bases militares, completamente isolados de todos os outros.

Algo naquela história simplesmente não se encaixava com a realidade. Se todos os que estavam bem estavam no Canadá, o que diabos eles estavam fazendo em Nova York?

- Três anos depois da Guerra, os cientistas se uniram e criaram um vírus ainda mais potente que o câncer provocado pela radiação. Pessoas começaram a desaparecer, foram usadas como cobaias para o experimento. O gene criado já estava sendo desenvolvido desde muito antes do Aquecimento Global atingir níveis preocupantes. O teste final foi um sucesso. As crianças usadas desenvolveram imunidade ao vírus cancerígeno, mas eles não contavam com uma variável.

Eles já haviam parado de andar. Joe se virou para Cameron, ambos banhados pela luz do luar que atravessava o asfalto. O maxilar de Joe estava tenso, como se ele não gostasse de contar aquela história em voz alta.

- As Cobaias desenvolveram poderes que iam além da compreensão dos cientistas. Poderes sobrenaturais e mutagênicos. – Joe deu de ombros, como se aquilo não fosse absolutamente nada demais. Cameron sabia que aquilo era impossível. Mesmo que o vírus combatesse o câncer provocado pela radiação, nada seria capaz de atribuir dons às pessoas. – Então eles cancelaram o projeto. Todas as Cobaias seriam mortas se não tivesse conseguido fugir. Éramos mais de oitocentas crianças. Duzentas foram mortas na fuga e mais e mais vem morrendo. Eles nos caçam há quase dez anos.

- Nós? – Cameron já estava com o estômago embrulhado e aquela afirmação de Joe só o fez sentir mais vontade de vomitar.

- Eu e o meu pessoal. – Os olhos de Joe se semicerraram, analisando Cameron dos pés à cabeça. – A célula mutante que eles colocaram nas Cobaias desacelera o envelhecimento.

Cameron desejou que tivesse onde sentar. Sua cabeça girava com tantas informações novas. Aquilo era demais para um dia só.

- Por que eu sinto que conheço você, Joe? – A pergunta simplesmente saiu. Cameron nem sequer havia cogitado a possibilidade de perguntar aquilo, mas as palavras saíram atropeladas e estranguladas.

A expressão de Joe oscilou novamente. Raiva, confusão, mágoa, mais raiva e até mesmo medo.

- Eu não sei do que você se lembra...

- Eu não me lembro de nada.

- ... mas nós éramos melhores amigos, Cam.

Cameron precisou se segurar. O cheiro podre do esgoto e a água lamacenta em que pisava ampliaram mil vezes a sua vontade de colocar tudo para fora.

Ele olhou ao redor e ouviu um rato guinchar baixinho enquanto corria atrás de comida. Aquela declaração de Joe o fez sentir como se suas pernas fossem feito de um material completamente molenga e incapaz de se sustentar sozinho. Ele buscou Joe com o olhar, mas o garoto não parecia muito melhor que ele. Parecia que admitir aquilo em voz alta havia exigido um esforço descomunal o garoto.

Cameron sentia a enxaqueca voltar bruscamente, dando pontadas violentas na sua cabeça. Ele imaginou um muro de concreto envolta do cérebro, tentando protegê-lo da agressividade desumana de sua dor.

- Você me bloqueou. – A voz de Joe não passava de um múrmuro.

- O quê? – Cameron não fazia ideia do que aquilo queria dizer.

- Não consigo mais ler a sua mente, Cam. – Aquilo foi o bastante para fazer Cameron surtar. Ele apontou o indicador para Joe e tentou não descontar toda a sua frustração e raiva no suposto melhor amigo.

- Fique bem longe da minha cabeça, você está me ouvindo? Fique longe! – Um trovão estourou violentamente do lado de fora do esgoto, assim que as palavras de Cameron foram grosseiramente cuspidas contra Joe.

Os olhos de Joe ascenderam em direção ao céu, e mesmo sem poder vê-lo, ambos sabiam que uma tempestade violenta estava se formando, ameaçando liberar toda sua fúria sobre as ruas silenciosas de Nova York.

- Isso é impossível. – Joe estava completamente atordoado. Seus olhos estavam extremamente arregalados. – Cameron, se acalme!

Cameron não fazia ideia de onde o vento vinha, mas eles foram engolfados por uma brisa forte e indócil. Ele tentava controlar a respiração para não perder o controle de suas emoções enquanto Joe olhava para ele, completamente aterrorizado.

- Isso é impossível, não pode ser verdade. – Joe repetia isso como um carma, aparentemente tentando fazer as palavras entrarem em sua cabeça.

Cameron se acalmou depois de alguns minutos e o ventou cessou completamente, deixando-os no mais completo silêncio.

- O-o quê é impossível? – Ele teve coragem de perguntar depois de um tempo. Sentia-se envergonhado por ter perdido o controle com tanta rapidez.

- Você. Você não deveria ser capaz de fazer o que fez. – A expressão de Joe ainda era desesperadamente confusa. – Você definitivamente não é um de nós...

Aquilo doeu em Cameron como se Joe tivesse lhe acertado um soco no estômago. Ele não entendeu o motivo daquela afirmação doer tanto, mas doeu.

- Do que você está falando, Joe?

O garoto deu as costas para Cameron e continuou andando, sem olhar por cima dos ombros para ver se estava sendo seguido.

- Joe? O que diabos está havendo? Do que eu não deveria ser capaz? — Cameron chapinhou atrás de Joe, vendo ratos passarem ao redor deles nas partes onde a água fétida não conseguia alcançar. – Fale comigo!

Joe se virou para trás abruptamente e Cameron quase trombou com ele. Os olhos do garoto estavam friamente calculados, exatamente como a sua expressão.

- Você não foi uma Cobaia, Cam. – A voz sibilada do garoto fez Cameron recuar um passo. – Você sempre foi normal. Você nos encontrou quando fugimos e nos deu abrigo em sua casa. Você não era um de nós.

Ele fez menção de se virar e continuar andando, mas Cameron agarrou seu pulso e o obrigou a olhá-lo nos olhos.

- Se você é mesmo meu melhor amigo, como diz ser... – Ele não gostou de dar um ultimato, mas precisava de informações. – Conte-me o que diabos está acontecendo aqui!

- Nós éramos melhores amigos, Cameron! – Aquilo doeu demais. Cameron não sabia de onde conhecia Joe, mas sentia que eles tinham uma ligação. As palavras cuspidas pelo garoto e assemelhavam a receber uma facada nas entranhas, uma faca serrilhada, girada lentamente dentro do seu corpo. – Você nem deveria estar aqui!

- E onde eu deveria estar, Joe?

- E-eu não quero falar sobre isso...

Certamente aquele comentário havia sido a gota d’água. Cameron clonou o movimento outrora feito por Joe e agarrou-o pela gola da camiseta preta.

- Você não quer falar sobre isso? – Cameron beirava a fúria. Como aquele cara tinha a audácia de saber algo sobre o seu passado e não querer contar? – É melhor você me contar direitinho o que está escondendo de mim.

Joe riu. Era uma risada amarga, mas ainda era uma risada. Cameron ergueu o punho cerrado e preparou o primeiro soco. Antes que ele pudesse acertar Joe, uma mão invisível segurou e punho o puxou bruscamente para trás, fazendo-o soltar o outro garoto.

Ele olhou ao redor, mas não havia ninguém com quem lutar.

- Que droga, Cam!

- Eu quero saber o que aconteceu comigo! – Cameron não era uma pessoa agressiva, mas ele queria respostas e o voto de silêncio de Joe estava definitivamente o tirando do sério. – Por que eu não deveria estar aqui?

Joe o olhou nos olhos. Aquelas íris negras parecendo emanar todos os sentimentos negativos que alguém era capaz de suportar. Eles transmitiam tanta dor e tristeza que por um segundo a raiva de Cameron vacilou.

- Por que você deveria estar morto.

Notas finais
Eu sei que se você está lendo isso porque você leu o capítulo inteiro então faça o favor de comentar ou seu futuro vai ser ainda pior que o deles. Praga de autor pega, amores.