1.

Eu e minha mãe guardamos a ultima caixa no caminhão de mudança da Haul-s, esperando o fechar da porta, para entrarmos nessa nova etapa de nossas vidas. Espero que seja uma boa etapa, pra recompensar 8 meses de tristeza e luto pelo meu irmão.

A morte foi inesperada, um dia de chuva, curvas, alta velocidade, e uma ligação da policia no meio da noite avisando que ele estava dando entrada no hospital do centro de Livingston,NJ. Ele não era um dos mais responsáveis nos volantes, participava de racha nas estradas em que frequentava. O que poderíamos ter feito? Nada. Mas as saudades dos dias em que ele acordava e ia direto ao meu quarto para aproveitarmos o dia ensolarado, sempre passaram por minha cabeça. A porta se fecha enquanto minha mãe da à primeira parcela do frete de mudança para o Brooklyn,NY.

Ela esta dentro do carro quando percebo que esta me chamando.

- Ei, Ravi. Deixa de ser pessimista, vamos... Entre logo no carro — Alias você vai adorar o Brooklyn.

Ela nunca me chama pelo nome na minha certidão de nascimento, ela e meu irmão sempre discutiam com esse pequeno tabu de nomes Ravi ou Ravier.

- Ravier é um nome de classe – dizia meu irmão – sempre vou gostar mais de Ravier.

Ela me pede pra que antes de entrar no carro eu olhe no correio da nossa casa, se tem alguma coisa, verifiquei mais cedo, então entro no carro desobedecendo à ordem, digo que já olhei mais cedo, dou de ombros pras próximas palavras sobre nossa mudança e, como será essa nova experiência ou como vou me enturmar rapidinho nesse ultimo ano do ensino médio. Se o Patrick estivesse aqui o que ele diria? Diria pra ela que isso esta sendo um saco? Ou teria coragem de se recusar a viver essa “nova experiência”? — Ele certamente estaria desligado do mundo ouvindo aqueles barulhos que são chamados de rap-nigga.

Minha mãe liga o carro, puxa a marcha engatando a primeira, à medida que nos vamos descendo a rua reparo que todos esses anos morando e estudando aqui só conheço cinco famílias na vizinhança, penso que deve ser muito bizarro estar morando por dezessete anos em um lugar e não conhecer ou ser conhecido por ninguém, com exceção de algumas famílias.

Passamos pela Ponte de Manhattan, com uma paisagem de se invejar. O Sol radiando nas águas do Rio East, o vento fresco tocando meu rosto. Ligo o radio e fico com os olhos grudados na janela, a musica que esta tocando ajuda a refletir e imaginar se realmente a nossa louca mudança ajudara em alguma coisa, revejo meus argumentos e viro para minha mãe rapidamente, pois ela esta abaixando o volume de uma das melhores musicas que já ouvi passando por cima de uma ponte que divide o meu passado com um novo futuro.

- Filho esse será o nosso recomeço, vamos tentar fazer com que tudo de certo dessa vez.

Será que alguma vez deu errado? Ou ela esta se referindo aos oitos meses de depressão? Aumento o volume de novo e fico quieto porque não quero que nada estrague essa visão privilegiada. A musica acaba e o locutor afirma que a tarde será ensolarada em toda Manhattan, fico com a esperança de que ele fale quem estava cantando aquela musica maravilhosa, mas não sai nada.

Após chegarmos, deparo-me com uma casa simples e clássica, típica do Brooklyn. Saímos do carro e vejo-a atravessando a rua para pode pagar a ultima parcela do frete, nunca a tinha visto tão radiante e entusiasmada.

– Gostou? Ravi? — Diz ela com a voz tremula.

Logicamente temendo o que sairá da minha boca.

– Maravilhosa, a senhora me surpreende a cada minuto.

Digo a verdade, mesmo querendo colocar algum defeito, já que ainda não me acostumei com essa ideia.

Quando menos percebo estamos desempacotando as ultimas caixas, uma tia que há muito tempo não a via, veio ajudar com a mudança e matar a saudades da minha mãe, ela mora a algumas quadras daqui. Da cozinha vejo pela janela uma rua pouco movimentada, uma mulher empurrando um carrinho de bebe atravessava a rua falando ao telefone, um grupo de crianças brincava por perto com seus patins nos pés. Caminho ate a sala e encontro minha mãe se preparando para sair.

– Ravi, eu vou ate o supermercado com sua tia, por favor, acabe de arrumar o seu quarto e depois organize as coisas aqui na sala de estar. — diz ela

Afirmo com a cabeça.

– Mãe traga pizza e uma caixa de sorvete, por favor?

– Ok! — Diz ela com pressa, pois sua irmã já buzinava do lado de fora.

Havia três andares na casa, em baixo ficava a sala de estar, cozinha e um banheiro, no segundo, a suíte da minha mãe, corredor, um banheiro e o meu quarto, e por ultimo no terceiro a um andar vago, totalmente vago. Chegava ser inspirador, aposto que os antigos donos pintavam quadros e colocavam por ali, poderia ser uma grande sala de artes.

Quando finalmente acordo já são 11h56m do outro dia, Minha mãe já havia chegado do supermercado, e junto acabamos de arrumar tudo, finalizando com a maravilhosa pizza de frango, e fomos dormir aproximadamente por volta das três da manhã.

No dia seguinte, levanto da cama e a procuro, desço ate a cozinha e vejo um bilhete em cima do balcão.

Ravi, bom dia, não comentei com você, mas hoje eu terei uma entrevista pra vaga no departamento de jurisdição, desculpa não passar a manha com você, por volta das 19:00 eu já estarei em casa. Não se preocupe levarei o nosso jantar.

PS: saia e explore o bairro novo, deixei o cartão pra você comer.

PPS: existe um Subway a dois quarteirões de nossa casa, isso não é maravilhoso?!

Com amor

Mamãe.

Acabo por descartar a opção de fazer um almoço, e começo a me arrumar pra poder sair e comer. Já estou pronto quando o relógio da sala marca 12h25m, abro a porta e desço os degraus de frente, reparando em uma coisa na qual ontem não tinha se quer notado: as casas da vizinhança são padronizadas. Estou com uma bolsa de couro estilo carteiro, meu cabelo marrom estava levemente bagunçado, vestia uma calça preta dobrada na barra e um moletom vermelho que era do meu irmão, escrito Fun Fun, e um tênis completamente preto de uma marca de skatista. Apesar de ontem ter feito bastante sol, hoje ele se escondia em meio às nuvens, deixando um clima frio, um dia extremamente bonito para o Brooklyn.

Mesmo nesse clima ainda há crianças brincando do outro lado da rua. Se Patrick estivesse do meu lado estaria pensando em chamar a atenção delas, sei que seria assim, lembro-me das vezes em que ele parava em frente a um grupo de crianças e logo oferecia chocolate, pode ser muito estranho, mas ele não fazia por mal e sim porque sempre gostava de delas.

Já estou próximo ao subway quando já começo a sentir um cheiro bem agradável, ousaria chutar que seja frango grelhado, mais posso estar me referindo a um delicioso pedaço de carne. Esse cheiro faz com que eu pare em frente à entrada do local, só reparo que estou ali parado quando sinto uma grande mão e uma voz dizendo fanhamente:

- Queridinho, me de licença, não tenho a tarde toda.

Olho para trás como se estivesse me certificando que a voz estava falando comigo. A dona da voz com certeza não esta morrendo de fome. Penso que ela pode estar em horário de almoço então digo ligeiramente:

- Me desculpe, não foi por intenção – digo. A grande mulher de voz fanha da de ombros e entra no local, com um olhar estressado.

O meu pedido não satisfez a minha fome, pedi um sanduíche de frango grelhado com salada e molho, eu tenho necessidades em comer frango, amo a carne macia e branca. Levanto da mesa, pego o resto do meu refrigerante e caminho entre as mesas até chegar à porta. Do lado de fora na calçada, tento pensar pra onde ir, e conhecer mais um pouco desse lugar, pego no bolso direito meu celular, tento ver no GPS por aonde começar. Estou tão concentrado que nem reparo de primeira, quando a fumaça entra no meu campo de visão, olho para o lado e lá esta o produtor da fumaça, menos de três metros de distancia, ela esta olhando para mim com aqueles olhos acinzentados.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.