[...] Um homem sem braço, um anão, alguns lenhadores, algumas garotas e um policial compunham nosso cenário. Estávamos sentados ali havia algumas horas, mas parecíamos não chegar a lugar algum. Estava ficando tarde, e eu precisava voltar para casa. Mas eu não podia. Eu precisava compreender o que havia acontecido. Nada fazia muito sentido.


— Mais café?


A voz da garçonete quebrara o silêncio que há pouco se instaurou em nossa mesa. Jovem, loira e visivelmente irritada com seu trabalho atual, ela permaneceu ali parada por alguns instantes, mascando seu chiclete. Nada. Jeffries, que permanecia com os cotovelos sobre a mesa e as mãos tapando a boca, apenas a olhou. A moça virou seu olhar pra ele e ergueu suas sobrancelhas, esperando alguma resposta.

- Não, estamos bem. Obrigado.


Eu tinha que dizer algo. Quer dizer, o clima estava ficando tenso. Meu caro amigo estava impaciente demais e acabaria descontando tudo na pobre garota. Pra quê? Só causaria mais confusão. Então, ela se virou e dirigiu-se para outras mesas, repetir esta mesma pergunta inúmeras vezes.


— Está ficando tarde. O que vai ser?


Como se eu já não soubesse disso. Obrigado, P. Jeffries, por dizer o óbvio. Eu já não aguentava aquilo mais. De cabeça baixa, coçava a nuca e mexia a perna em impaciencia. Novamente, total silêncio. Era como se não tivesse ninguém ali. Claro, podia ser coisa da minha cabeça. Quarenta e oito horas à base de cafeína estava surtindo seus efeitos no meu corpo, com toda a certeza. Estava bem claro. Ergui a cabeça, e junto veio a vertigem.


— Olha, cara, eu sei lá... Eu realmente não sei. Mas quem poderia imaginar? Sabe, foi algo completamente inespe-


Deus, o que diabos estava acontecendo? Não podíamos ter um minuto de paz. Uma mulher desesperada apareceu do nada, colocando um panfleto da forma mais indelicada e barulhenta possível. Ela tremia, e balbuciava algumas coisas. Quando eu paro pra pensar, aquilo foi realmente esquisito. A garota ao seu lado segurava seu braço e a puxava.


— Vamos, mãe. Não incomode os rapazes. Por favor...
— VOCÊ! EU CONHEÇO VOCÊ!


Ela gritava com Jeffries, gritava veemente. Ele se afastou e a encarou, fingindo não estar entendendo muita coisa. Filho da puta dissimulado. A pobre coitada sabia bem quem era aquele diabo de terno branco. Bem, a pobre garota, envergonhada, puxava a mãe, implorando para ela parar de gritar e que fossem embora.


Por um instante, P. e a senhora se fitaram, e foi como se o tempo parasse. Ela se calou, enquanto meu amigo deu um sorriso com o canto da boca e me olhou. A moça aproveitou esta oportunidade para puxar a mãe e acabar com o escândalo. As duas sumiram na escuridão da rua ao saírem da cafeteria.
O local inteiro se silenciou e todos olhavam para nossa mesa. Eu, que sentia uma grande vontade de estar no outro lado do globo neste momento, escondia meu rosto com minhas mãos, enquanto o maldito se sentava como se nada tivesse acontecido, de pernas cruzadas e com aquele sorrisinho irônico. Olhou para a garçonete, que, assim como todos, olhava para a mesa assustada.

- Eu vou querer aquele café agora.

O quê?! Filho da puta! Há dois minutos atrás o desgraçado estava quase me matando e agora, depois do escândalo do ano o infeliz FICA FELIZ?! Eu desisto. Nem sei o que tô fazendo sentado aqui com ele. Desperdício de tempo. É isso. Desperdício de tempo. Nada mais que isso.
Deus, como era irritante encarar praquele panfleto da garota desaparecida. Me dava uma sensação estranha. Ela parecia muito com a garota que eu tinha visto mais cedo, só parecia um pouco mais corada nessa foto. Engraçado. Será que Jeffries tinha alg.... Nah. Ele não faria.
Bem, aos poucos o local ia voltando ao normal. Os lenhadores voltavam a conversar alto, aquele anão esquisito voltava a rir alto, tudo em seu devido lugar.


- Jeffries, cansei. Nós estamos aqui há o que? Três horas? Nada, cara, nada. Nós sentamos aqui e não resolvemos absolutamente nada. E eu tenho que voltar pra Philadelphia amanhã. Você tem noção do quão fodido eu vou estar quando chegar? Eu-eu nem quero pensar nisso. Já deu pra mim.


- Ir embora? Pra onde você pensa que vai? Não tem saída, meu caríssimo amigo. Não tem saída. Agora, me faça um favor e se sente. Aproveite e beba um pouco de café. Vai te fazer bem, acredite.


Me sentei novamente. Não estava feliz, é claro, mas não tinha o que fazer. Ele estava certo. Não havia saída. O único jeito era resolver. Deus, como aquilo estava me incomodando. Eu não consigo nem começar a descrever o ódio que eu estava sentindo. E eu simplesmente não conseguia entender o que diabos estava acontecendo. Tudo aquilo parecia surreal demais.
Pensando bem, até me lembrava de um dia, em um hotel em Buenos Aires. Na verdade, me lembrava de umas coisas que eu havia visto escritas no banheiro de um bar perto do hotel. Longa história, mas encurtando, era como se tudo que tivesse descrito naquele texto estivesse acontecendo. Engraçado. Nem sei porque aquilo me marcou tanto. "A carta de Jesus", era o título. Algo assim. Era um texto bem perturbador, e o final... Ugh. Não gosto nem de pensar.
Então, a garçonete se aproximou de nossa mesa novamente e encheu as nossas xícaras. Ela me parecia um pouco assustada demais. O ar estava pesado, e a maldita luz estava falhando e fazendo um barulho de choques infernal. E aquela porra de barulho de sapateado. E Jeffries ficava lá, com aquele maldito sorriso irritante no rosto, com aquela ridícula blusa floral quase toda desabotoada e aquele cordão de ouro. O que era aquele cheiro de queimado? Aquele gordo infeliz do cozinheiro tinha deixado a carne queimar de novo? Incrível. A pior parte disso tudo é pensar que é como se eu já tivesse vivido essa merda. Como se eu já tivesse visto isso em algum lugar, sabe? Isso realmente me lembra algo.

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