Electric Heart
3 Nascimento
Notas iniciais
POV- Thalia
Acordei com um Nico me balançando de leve, abri os olhos com dificuldade, o vendo sentado, devidamente vestido com trajes dignos de um rei.
— O que houve? – Perguntei, notando a falta de iluminação da luz do dia, identificando que ainda era noite.
— Recebi uma carta, o bebê da Silena não vai demorar a nascer, temos que partir hoje para chegarmos a tempo do nascimento da criança. – Ele explicou colocando meu cabelo para trás da orelha. – Coloquei uma roupa para você no banheiro, passe uma água rápida no corpo, está quase tudo pronto para sairmos.
Assenti, me levantando da cama, sentindo o vento gelado bater no meu corpo desprovido de roupas, se Nico não estivesse claramente apressado, ele teria enrolado bastante tempo naquela cama, como ele fazia em muitas manhãs. Suspirei, caminhando até o banheiro me deparando de imediato com o vestido elegante, que eu deveria usar.
Entrei debaixo do cano, que de imediato fez com que a água gélida jorrasse dali, entrando em contato com a minha pele, mas não podia ficar muito tempo, nem conseguiria, me agoniava ouvir os passos do Di Ângelo, subindo e descendo, indo e vindo, ouvi a porta bater algumas vezes por insistência do vento, mas logo a ouvia ranger indicando que ele a abrira mais uma vez.
Respirei fundo me vestindo e indo na direção que eu ouvi os últimos passos do Nico indo logo vendo ele acariciar um dos cavalos dele, que tinha, agora, uma aparência normal, sem ser completo de osso e fogo.
— Estou pronta. – Disse, fazendo que seus olhos desviassem do olho do animal para mim, assentindo.
— Vamos. – Respondeu ele, esticando a mão em minha direção com calma, indicando que era para eu ir até lá.
Segurei sua mão, e ele sorriu, me puxando para perto do cavalo, segurando minha cintura e em um movimento rápido me colocando sentada no bicho, subindo logo em seguida. Seus braços, cada um de um lado do meu corpo, seguraram a guia, guiando-o para fora da proteção mágica do chalé.
O vento gelado começou a bater contra nossa pele e mesmo que a neve tenha ido embora a vários meses, ainda tinha deixado seu rastro por ali, o clima sombrio e tenso, naquele bosque, que o cavalo passava, correndo por entre as árvores com facilidade, ora saltando galhos que me faziam pensar que ele não conseguiria, mas era óbvio que conseguiria.
A luz da lua era a única que iluminava nosso caminho, deixando que dificultasse nossa visão ao longe, mesmo sentindo que Nico não prestava apenas atenção em comandar o cavalo em direção ao nascimento de uma criança, mas também prestava atenção em tudo ao seu redor, como um possível ataque ou quem sabe se fossemos seguidos.
— O que foi? – Nico quebrou o silêncio, que antes era preenchido com o uivar do vento e as galopadas do cavalo.
— Eu sinto, que desde que houve a guerra e você foi para o chalé, conseguimos nos dar melhor. – Comentei e ele assentiu, fazendo o cavalo pular um galho alto.
— Ainda estamos em Guerra, Thalia. – Ele disse sem desviar os olhos do caminho que seguíamos. – Mas sim, podemos dizer que desde que minha irmã assumiu o trono, tirou um peso enorme das minhas costas e você sabe a verdade da sua família, outra coisa que me alivia muito. – Continuou a falar, me fazendo respirar fundo. – Porém, era apenas nós dois naquele chalé, não tinha porque eu exercer o papel de líder ali, muito menos de um assassino.
— Agora estamos fora do chalé, as coisas vão mudar. – Comentei e pude senti-lo respirar fundo, já que tinha meu corpo encostado ao dele.
— Meu modo de agir pode sim ter que mudar. – Ele disse fazendo uma pausa. – Não eu.
Não consegui conter o sorriso surgindo em meus lábios, e mesmo com ele olhando fixamente para o caminho, sabia que ele estava prestando atenção em tudo ao seu redor, inclusive nisso.
— Se quiser dormir, fique à vontade. – Nico disse parecendo perceber meu cansaço, tinha passado o dia treinando com ele e a noite não tinha sido tão longa na parte do descanso.
— Não vai te atrapalhar? – Questionei olhando para cima.
Ele tinha mudado bastante, ele parecia ter amadurecido alguns anos com o tempo que passamos ali, seu cabelo estava um pouco maior e mais desleixado, como se ele simplesmente não se importasse mais de manter a aparência de sou tão foda que nem meu cabelo sai do lugar, sua barba estava para fazer, o que eu pessoalmente gostava como ficava nele, seus olhos tinham as vezes a expressão levemente cansada, mesmo não estando direto no campo de frente da batalha, ele sentia que tudo estava acontecendo e ele não tinha certeza de como iria acontecer.
— Claro que não. – Disse dando de ombros e eu assenti me aconchegando ali, deixando que o cansaço me vencesse e ali adormeci.
***
O cavalo parou e eu olhei ao redor, simplesmente estávamos no meio do nada, uma mulher estava em pé, ela usava uma capa que tampava seu rosto, ainda era noite, mas em pouco tempo o dia nasceria.
— Dimitte me iam. — Nico disse olhando a mulher que assentiu.
O chão começou a se mover, e o cavalo começou a descer, fazendo um barulho irritantemente alto de alguma máquina se movendo. Quando estávamos baixos o suficiente, uma placa de metal subiu por cima de nossa cabeça, ocupando o lugar que a que estávamos em cima estavamos segundos antes.
Logo, o Charles, marido da vampira, apareceu.
— Adoraria uma conversa melhor, mas ela já entrou em trabalho de parto. – O homem disse olhando Nico, me ajudando a descer do cavalo.
— Então vamos logo. – Di Ângelo falou me puxando pela mão, seguindo o moreno por entre os corredores.
Entramos em uma sala toda branca, algumas velas estavam espalhadas por todo o lugar, tinham alguns corpos espalhados por todo o chão, um círculo de sangue cercando a cama aonde a vampira estava deitada.
— Fique aqui, não ultrapasse o círculo de modo algum. – Nico disse para mim, olhando logo em seguida para o pai da criança que assentiu.
O moreno caminhou até a cama, se sentando nela, segurando a mão da Silena, que pareceu só perceber tal presença quando ele o fez.
— Graças aos Deuses você está aqui, filho da puta. – Ela disse reconhecendo o amigo, arrancando um sorriso do Nico que assentiu.
Ele se abaixou, puxando duas bacias de debaixo da cama, sem soltar a mão dela. Tirando da primeira uma faca branca, com o cabo de um vidro grosso; ele usou tal instrumento para rasgar a roupa que a grávida usava, mas ainda assim não deixando que seu corpo ficasse completamente exposto.
Uma mulher, que estava inteiramente suja de sangue, atravessou o círculo, colocando uma toalha cobrindo as pernas dela e a posicionando para que nenhuma parte da mulher ficasse exposta a não ser sua barriga, retirando a calcinha que ela usava colocando de lado.
Nico molhou sua mão no sangue que a outra bacia estava cheia, desenhando sobre a barriga da vampira, pegando então as duas mãos da mulher, que começou a fazer força para tentar expulsar o bebê de dentro de si.
Eu já tinha visto rituais como aquele, eram bem comuns, mas não obrigatórios, existiam diversos tipos de rituais, alguns até mais violentos do que uma parteira repleta de sangue e um círculo sagrado de proteção com sangue e sacrifícios humanos.
Os gritos e gemidos de dor da vampira eram os únicos sons até que foi cortado pelo choro insistente de um bebê e o suspiro de alivio de Silena, que respirava fundo.
Ela se sentou, com ajuda do Nico, pegando a pequena menina no colo, que se debatia ali, exibindo seus olhos vampíricos vermelhos. Di Ângelo pegou novamente a faca, cortando o cordão umbilical.
Silena entregou o bebê ao moreno, que espalhou o sangue da bacia pelo rosto da criança, se levantando e caminhando até Charles, entregando o bebê, que agora chupava o sangue que tinha em suas mãos mostrando que tinha fome, mesmo seus olhos estarem de tonalidade azul.
O pai da criança caminhou com o bebê no colo, com cuidado, admirado com a criança ali, indo até a mãe, se sentando aonde Nico estava pouco antes.
— O que achou? – Ele perguntou, me olhando.
— Lindo. – Comentei, não pelo ritual estranho, mas o cuidado dele e a vida da criança vindo ao mundo.
— Thalia, venha conhecer a Allegra. – Silena disse da cama e eu assenti, caminhando até lá, de mãos dadas ao Nico, ignorando o sangue.
A pequena parecia agora começar a se acalmar e ser levada pelo cansaço de vir ao mundo, seus olhos tinham a tonalidade azul e mesmo por debaixo de todo o sangue dava para ver a pele branca e os cabelos negros que possuía.
— Ela é linda! – Disse sincera e Silena assentiu olhando para a filha em seu colo.
— Porquê Allegra? – Nico questionou olhando o bebê que adormecera.
— Estamos entrando em uma guerra, Nico, e ela é uma pequena alegria no meio de tudo isso. – Explicou Charles, já que a mãe da criança mal degrudava o olhar da pequena vampira dorminhoca.
A porta se abriu, chamando a atenção de todos ali. Di Ângelo se levantou assumindo uma postura de desafio, indicando que não deixaria a mulher em pune.
Os olhos dela foram para as mãos de Nico, analisando a postura protetora do homem perante a Silena e a criança e sobre mim. Um suspiro calmo saiu da boca da menina que levantou as mãos em sinal de rendição.
— Di Ângelo, precisamos conversar. – Ela anunciou, fazendo Nico desconfiado ir até ela.
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