Electric Heart
13 Família
Notas iniciais
POV- Nico
— O que foi? — a voz de Annabeth era baixa e suave, mas se fez a ouvir ao meu lado.
Era noite, já tínhamos voltado a andar em direção ao castelo e começado a seguir o plano do Jason Grace e apesar de tudo que estava na minha mente o que mais me incomodava naquele momento era os irmãos conversando a alguns passos de distância a frente.
— Não tinha pensado que eles iriam socializar? — Anne continuou quando não obteve resposta, mas ela me conhecia o bem o suficiente para que eu não precisasse falar nada. — Ela pode gostar de você o quanto for Nico, mas ele é o irmão dela, sem falar que eles têm os mesmos poderes, ele vai conseguir ensina-la bem mais facilmente do que você.
— Isso não é uma regra, eu tinha poderes de fogo quando criança e você foi minha melhor professora — rebati, colocando a mão no bolso do casaco analisando os dois.
Jason estava falando bem mais do que Thalia, que as vezes abria a boca para concordar com algo que ele falava ou lhe fazer mais uma pergunta que geraria mais uma longa palestra do príncipe, que tentava falar baixo para não chamar a atenção de animais ou até pessoas que poderiam estar na floresta aquele horário.
— Eu apenas te ensinei o que sabia sobre controlar o ar, coisa que você também faz, Nico, querendo ou não seus poderes ao dela são opostos, o Grace pode ensina-la melhor do que você e eles são irmãos...
Ela deixou que a frase morresse em seus lábios. Não sabíamos se realmente poderíamos confiar em Jason, mas ele tinha nos mostrado um plano, que supondo que ele estivesse realmente falando a verdade seria melhor do que o grande nada que a gente tinha, afinal a parte de recrutar pessoas para nos ajudar falhou miseravelmente.
Eu não havia conseguido encontrar um soldado sequer rebelde, todos fugiam apenas com a ameaça da minha presença rondando pelo reino. Mesmo Annabeth tendo reconquistado o antigo reino dela, lutar com pessoas que não tem fé em você é impossível e incrivelmente arriscado, mesmo ganhando um exército grande, eles se recusavam a lutar por ela, por uma causa que eles não acreditavam pertence-los.
Então tínhamos o plano do Grace. Que de acordo com o que ele tinha dito o Rei Zeus era incrivelmente paranoico com traições, principalmente após diversos anos no poder, mudou drasticamente do Rei amado por todos, do herói para um homem cruel e sem escrúpulos, que fazia o que queria, quando queria, vivendo com medo de sofrer outra perda tão dolorosa quanto foi perder sua primogênita.
Com a guerra ele se trancaria em uma torre no centro do castelo, ninguém circularia pelos corredores, nem empregados, nem guardas, seus soldados protegeriam apenas do lado de fora, cercando cada pequena entrada e perímetro do castelo para garantir que ninguém nem ousasse chegar perto dele e pudesse ferir sua segurança.
Todavia tinha um acesso secreto a torre pela floresta, uma saída caso o castelo fosse invadido e Zeus achasse mais prudente fugir do que ficar para lutar em toda a sua paranoia de ter uma morte parecida com aquele que ele matou e seria por essa entrada que teríamos acesso ao castelo.
Sem soldados, sem batalhas desnecessárias, simples e rápido. Lá dentro, Jason nos guiaria até a torre passando pelas armadilhas e ficaríamos frente a frente a Zeus para a batalha.
Mas tinha o grande detalhe. Aquilo poderia ser um blefe, um caminho direto para morrer. E Thalia estava gostando da ideia de ter um irmão.
Ela já tinha dito que nunca pensou em sua família, que nunca sentiu a necessidade de ter uma e que ficaria a meu lado, entretanto era inegável, seus olhos se iluminavam ao falar com o até então inimigo.
— Não pode culpa-la por querer uma família — Annabeth retomou a fala, colocando as mãos atrás da cabeça, como se estivesse extremamente relaxada.
— Deveria sair da minha mente — impliquei, eu não a culpava.
— É meio difícil quando já passei tantos anos ao seu lado — o anjo da morte deu de ombros, bocejando — se fosse você no lugar dela provavelmente estaria tão empolgado quanto...
— Podemos não falar sobre isso? — inqueri, a encarando por alguns segundos, vendo os olhos azuis acinzentados brilhando em divertimento, me fazendo revirar os olhos e apenas continuar a andar. — O problema é que se ele estiver usando a gente, ela vai ficar do lado dele, ou do nosso?
— Acha que ela te trairia? — questionou confusa, abaixando os braços.
— No lugar dela eu o faria — suspirei cansado — querendo ou não o irmão nunca fez nada contra ela, nem o pai, já eu... arranquei ela da vida dela a escravizei de novo, torturei ela física e psicologicamente e tudo que ela desenvolveu comigo foi com o pensamento de sobreviver, ela mesmo já disse pra mim que faria o necessário para tal.
— Você deu a opção dela ir embora — a Chase lembrou e eu dei de ombros.
— Uma guerra, um local que ela nunca explorou, sem conhecer uma pessoa sequer, eu já não a estava tratando como uma escrava, entre ficar ao relento correndo um perigo constante e em um castelo com pessoas lhe protegendo e a liberdade de ir em vir, qual o melhor?
— Então é melhor parar de agir como um babaca, pelo menos se não quer que ela vá embora — a loira retorquiu.
Revirei os olhos. É claro que eu tinha um motivo para fazer minhas coisas, mas tenho plena noção que fiz coisas por impulso e por simplesmente querer, e o tempo que passamos no chalé foi bom, mas continuaria assim depois da guerra, ela não tinha mais medo de mim e eu não queria que tivesse, mas e agora?
Thalia riu alto, fazendo com que meus olhos fossem para ela. Sua mão esticada, ela mordia o lábio inferior e uma bola d’água se mexia flutuando a poucos centímetros da palma virada para cima.
Seus olhos vieram para nós atrás deles, o azul elétrico me fitou e um sorriso mínimo foi dirigido para mim antes dela voltar a olhar para a bolinha que estourou respingando água e arrancando um sorriso travesso no príncipe ao lado dela.
— Mas também acho que deveria parar de esperar o pior de todos — Anne chamou minha atenção, fazendo com que eu a olhasse confuso.
— Não acha que ele vai tentar algo? — questionei e ela suspirou.
— Não, não acho, mas não era dele que eu estava falando — a loira respondeu, me fazendo olhar novamente para Thalia que pulou um tronco caído sorrindo.
Era a primeira vez que ela estava livre na vida inteira dela, estava ao lado da família que ela nunca conheceu, indo matar um pai que nunca fez nada de errado para ela, mas mesmo assim estava ali, ao meu lado, talvez eu novamente fosse o errado de a estar levando, errado de ainda querer que ela continuasse ali e que não me traísse, afinal eu nunca questionei o que ela queria.
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