Ele é Will

20 Agora ou nunca


Aquele final de tarde tinha sido o melhor de todos. As pernas de Bill estavam cansadas de tanto andar, mas ele estava se sentindo bem e relaxado. Já tinha tomado banho e estava deitado no sofá assistindo TV com a Mabel. Ao invés de assistir, porém, ele recordava todos os acontecimentos daquela tarde e sentia seu coração mais quente.

O primeiro beijo acabara se estendendo mais que o previsto. Quando os garotos voltaram para a barraca da pilha de latas que Dipper deveria estar tomando conta, a encontraram completamente vazia. Não sobrou um único prêmio, e nem mesmo o Stanbô conseguiu evitar este furto. Não é preciso dizer que Stanley não ficou nada feliz, mas até a bronca mais furiosa não ia conseguir abalar o bom humor daqueles dois.

Depois que ficou escuro, todos tinham recolhido seus materiais e estavam voltando para seus respectivos lares. Bill aproveitou a deixa e puxou Dipper de lado para continuar a pegação. Escondidos do lado mais oculto da cabana, eles não precisavam ser discretos.

Bill não saberia explicar o que estava acontecendo, muito menos por que aquilo era tão viciante. Ele apenas se sentia incrível e não queria deixar as preocupações futuras arruinarem o momento.

— Você é tão bonito, chega a ser ridículo — Dipper confessou, em uma pausa em meio aos beijos. "De quem foi a ideia de dar um corpo tão atraente a um demônio?"

Apoiado na parede de troncos de pinheiros, a visão de Dipper era limitada, mas ainda assim dava pra ver a luz refletida nos olhos de Bill e o contorno de seu rosto. Passou os dedos pela sua bochecha suave e mandíbula levemente áspera. De perto dava para notar algumas imperfeições na pele, pequenos cortes e alguns pelos de barba crescendo.

— Com o que você anda se barbeando? — Ele franziu as sobrancelhas.

— Ah, esses pelos? Quando eles começam a incomodar, eu pego uma tesoura e corto.

— Pff. Tá bom — Dipper riu —, depois eu te mostro como se barbear de verdade.

— Ei, o meu método tem funcionado super bem — Bill protestou.

— Não, claramente não tem.

Os dois fitaram um ao outro por um segundo.

De surpresa, o demônio beijou o pescoço de Dipper logo abaixo da orelha e trouxe seu corpo para mais perto de si. Diferente da primeira vez que o tivera em seus braços, desta vez parecia que o humano se desmanchava e se moldava aos seus toques. Não havia sensação melhor do que essa.

Os beijos de Bill foram descendo pelo pescoço, onde ele deu uma mordida, acompanhada de um gemido surpreso de Dipper. Era tudo tão novo e incrivelmente excitante. Parecia que Bill nunca podia ter o suficiente de Dipper.

Terminado o beijo, os dois estavam mais calmos, mas continuavam abraçados junto à parede.

— Seu doido, essa mordida vai deixar uma marca!

Apesar das palavras, o tom de sua voz denunciava que ele tinha gostado. Muito. Os dois riram. Bill ficou pensativo.

— Eu devia ter sido sincero com você desde o começo. A gente perdeu muito tempo.

— Não tem importância. Foram só alguns dias. — Dipper deu de ombros.

O garoto falava como se tivessem muitos outros dias por vir. Ele não tinha ideia de como, para Bill, aqueles dias teriam feito toda a diferença.

— Ainda assim… — insistiu o demônio. — Eu queria poder voltar e fazer diferente. Desculpe.

Sua cabeça estava baixa. Dipper não entendeu, mas logo teve a impressão de que o parceiro estava chorando e preocupou-se. Passou as mãos do lado de seu pescoço, tentando animá-lo.

— Ei, ei, não fica assim. Tá tudo bem, okay?

Bill apenas sorriu e assentiu. Dipper ficava muito fofo quando estava preocupado com ele.

Então se abraçaram e ficaram assim por um bom tempo, expostos à brisa suave e ao frio enquanto a lua subia.

Por isso que, depois, recolhido na cabana, Bill ainda se sentia aéreo. Sem aviso, ele esgueirou-se no sofá e colocou a cabeça no colo de Mabel. Ela ficou surpresa, mas pareceu gostar, pois logo começou a fazer carinho em seus cabelos.

— Ó, Jack, não me abandone! — dizia a atriz na TV, vendo seu amado partir em uma cena dramática.

— Mabel — chamou Bill.

— Que foi?

— Vocês ficariam com saudade de mim se eu sumisse?

— Claro que sim! Por quê? — Riu Mabel. — Você já sumiu, esqueceu? A gente foi te procurar na mesma hora.

— Eu lembro, mas sei lá — disse Bill, se ajeitando no sofá. — Podia ser por obrigação. Seus tios não gostam de mim… Sinceramente, acho que ficariam melhor se eu fosse embora.

— Bem… Eles, eu não sei, mas EU ia sentir sua falta.

— Sim. Sou inesquecível.

Mabel parou de massagear os cabelos do amigo e colocou as mãos na cintura.

— E você? Ia ficar com saudade de mim?

O garoto sorriu.

— Não sei… Você vai continuar a massagem?

— Will!

— Tô enchendo o saco. — Ele riu. — Sim, eu ia, sim.

A lua estava cheia e a cabana estava silenciosa como uma caverna. Todos dormiam, portanto era a hora ideal para a partida de Bill.

Com cuidado, ele jogou os cobertores de lado e se levantou, arrumando-os logo em seguida. Olhou para a janela, a única fonte de luz, e para o casal de irmãos que dormia tranquilamente em suas camas. Eles tinham sido seus melhores amigos durante aquele período e era triste ter que deixá-los assim. Infelizmente, desta vez, Bill não tinha opção.

Já vestido com as roupas para sair, o demônio olhou mais uma vez para trás. Sabia que não devia deixar pistas de que tinha ido embora, mas precisava deixar alguma coisa como lembrança para eles, para mostrar que se importava. Então colocou o suéter que Mabel tinha feito para ele na mesa de cabeceira, do lado dela. Para Dipper, colocou o cubo mágico com que costumava brincar nas incontáveis horas no ferro-velho. Com sorte, eles entenderiam a mensagem.

Bill suspirou. Não havia tempo. Virou-se e partiu para completar sua jornada.

Dipper revirou-se na cama. Murmurava alguma coisa incompreensível. Do nada, acordou assustado. Ele arquejou, suando frio, e tentou acalmar a respiração.

Estava no meio de um sonho perfeito, um passeio pela praça, quando de repente tudo começou a derreter ao seu redor, e ele caiu em um vazio infinito.

Ainda ofegante, Dipper olhou para o colchão de Bill, vazio, e, no mesmo instante, soube que algo estava errado.

As cobertas estavam cuidadosamente arrumadas. Isso não era do feitio do demônio, muito menos para apenas uma saída rápida. Teria ele saído da cabana?

Sobre a mesa de cabeceira havia outras pistas. O casaco amarelo fora colocado do lado de Mabel, e um cubo mágico do lado de Dipper.

Ele estava com um pressentimento muito ruim.

Will foi embora, Will foi embora…”, sua mente dizia repetidamente.

Seus últimos momentos com Bill repassaram em sua cabeça e, se não tinha certeza antes, agora suas suspeitas estavam confirmadas. Na hora não tinha parecido nada demais, mas a forma que Bill tinha falado com ele naquela tarde tinha sido muito estranha.

A gente perdeu muito tempo. Eu queria voltar e fazer diferente. Desculpe.”

Parecia melancólico, quase como… Como se estivesse se despedindo.

— Não… O que foi que você fez?

Seu primeiro instinto era seria entrar em pânico, mas ele tinha que resolver aquele problema sozinho, então não podia se dar a esse luxo. Ele examinou o cubo e a mesa de cabeceira, mas não havia pistas, então se pôs a pensar.

Para onde eu iria se precisasse construir um portal?

As possibilidades não eram muitas, já que Bill não era capaz de deixar Gravity Falls.

Dipper vasculharia cada canto daquela cidade se fosse preciso, mas não seria necessário, porque só havia um lugar em que Bill poderia estar.

Se você estiver onde eu penso que está…”

No ferro-velho, Bill terminava de configurar a máquina para viajar à sua dimensão. Os gatos de rua estavam fazendo o maior barulho, mas ele já não se importava. Pressionado o último botão, o demônio respirou fundo e observou enquanto o círculo refletor iluminava-se e formava o portal.

O miar dos gatos cessou. Tudo o que Bill conseguia sentir era a vibração do portal e a luz azul incandescente invadindo seus olhos. A tensão era tão forte que ele podia sentir seu interior entrando em colapso, tremendo, como se pudesse ser arrebatado a qualquer momento.

Finalmente a passagem estava ativada, bem ali na sua frente.

E mesmo que ele tivesse trabalhado todos os dias para aquilo, mesmo que fosse tudo o que ele queria, a única saída… bem dentro de si, havia uma ponta de incerteza.

Isso é estúpido”, dizia o lado racional de Bill, “Você sabe o que vai acontecer se não passar por este portal. Lembre-se da profecia: Se falhar, dirá adeus a toda realidade.”.

Mas o lado emocional repassava em sua mente todos os momentos que tinha vivido como humano, principalmente nas últimas semanas.

Bill tinha realmente subestimado o poder transformador que aquela realidade poderia surtir nele. Não eram simples truques mentais tentando confundi-lo; ele sentia que, realmente, tinha adquirido uma outra identidade. Tinha entrado ali de um jeito e estava saindo de outro completamente diferente.

Sua vida na outra dimensão, que nunca fez sentido, agora fazia muito menos. Ele realmente queria voltar para a mesma coisa de antes?

Falando sério, agora. Você é infeliz aqui?”, tinha dito Dipper naquela noite, no telhado.

Não. Não sou infeliz.”, Bill diria, “Mas voltar é minha única escolha. Pare de deixar isso mais difícil!”

A luz do portal estava deixando Bill tonto. Ele engoliu em seco, fechou os olhos e tentou se concentrar. Respirou fundo e reteu-se aos fatos.

Dali a algumas horas começaria a amanhecer, e então estaria tudo perdido. Não teria Dipper, não teria Mabel, não teria cabana, nem sequer uma dimensão para a qual voltar.

É agora ou nunca.”

Este era o passo final para sua dimensão de origem.

— WILL!

Bill parou o movimento e olhou para trás, perplexo com a interrupção. Um garoto estava de pé, suado e ofegante, como se tivesse corrido uma maratona. Ainda vestia a blusa do pijama.

— Dipper?

BEEEP. BEEEP. BEEEP. BEEEP.

Uma sirene soava em volume ensurdecedor. Stanford Pines, que dormia no porão, acordou de supetão e dirigiu-se imediatamente para a fonte do som. O localizador de anomalias sinalizava uma grande atividade naquele exato momento, perto do ferro-velho.

Ford começou a suar frio.

— Droga. Isso não é o que eu previ. É um milhão de vezes pior.

— O que tá fazendo aqui? — Bill perguntou para Dipper, no ferro-velho.

— Eu que pergunto! — Dipper berrou em resposta. — O que tá fazendo? Achei que a gente tinha um acordo!

Ele se aproximou mais.

— Não, não! — gritou Bill. — Se você der mais um passo, eu juro, eu entro no portal!

Com o desestabilizador quântico em mãos, Ford pegou o elevador e subiu as escadas para o andar térreo.

Ainda não conseguia entender como aquele demônio tinha construído um portal dimensional sem testá-lo nenhuma vez. Durante a construção do portal, geralmente se fazia vários testes, pois, até mesmo com cientistas experientes, ocorriam muitas falhas. Stanford planejava pegá-lo durante um desses testes. No entanto, os níveis de anomalia detectados pela máquina eram o suficiente para indicar que não era teste, o portal estava aberto e funcionando naquele mesmo instante.

Havia duas opções. A primeira era que o detector estava com defeito, o que era improvável. A segunda é que o demônio conseguiu fazer a máquina funcionar de primeira, o que apenas confirmava que a criatura com que estavam lidando era mesmo de outro mundo.

Stanford seguiu até a porta da frente a passos largos, mas foi detido por uma garra.

— Bip. Bop. Devolva o que roubou, ladrãozinho de meia tigela.

O robô soltava laser vermelho pelos olhos, mirando o desestabilizador de partículas.

— Stanbô? — Ford o encarou, perplexo.

Antes que pudesse fazer alguma coisa, o robô mirou um soco em seu rosto. Ford teve que se atirar no chão para escapar e viu a porta ser partida em pedaços pelo braço mecânico.

Dipper parou e negou com a cabeça, em descrença. Não queria acreditar no que estava vendo.

— Você nunca teve a intenção de cumprir a promessa, não é?

Bill odiava ter seus planos revelados desse jeito. Dentre todas as possibilidades, de todos os cenários, esta era pior.

— Dipper, acredite… Eu não tive escolha.

— Como assim você não teve escolha? — ele gritou. — Eu te dei uma chance de ter uma vida aqui, droga! Eu não te denunciei, cuidei de você quando você estava doente, tudo pra você jogar sua chance no lixo.

Silêncio.

— Então tudo o que você falou pra mim… Foi um plano? Se aproximou de mim pra poder escapar?

Os olhos de Dipper eram duros, mas atrás deles havia mágoa. Bill não suportava ver isso.

— Nós, aquilo… Como eu poderia ter planejado? Se eu estivesse pensando direito, acha que eu… Não! Não foi planejado.

Dipper simplesmente não conseguia acreditar naquilo. Sua expressão ficou mais séria.

— Se isso que está dizendo é verdade, então prove. Fique aqui comigo, você ainda pode.

Bill manteve a expressão impassível, mas por dentro seu coração estava sendo despedaçado.

— Não é tão simples assim.

— Por que não? Você viveu conosco o verão inteiro. A gente podia continuar junto, você poderia arranjar um emprego, sei lá, ser independente!

— Por favor… Isso é difícil pra mim também! — O demônio se sentia à beira das lágrimas. — Eu não queria ter que partir assim. Por que você não pode só aceitar e se despedir de mim?

Stanford sacou seu soco inglês e mirou um golpe, mas a máquina foi mais ágil do que previa. O robô segurou seu punho com a mão fria e dura como aço, então o atirou para o outro lado da sala.

Stanford caiu em cima de uma cômoda, que foi derrubada e estilhaçou o abajur que a decorava. Quadros nas paredes balançaram e caíram. O barulho poderia ser ouvido de toda a cabana.

Com a cabeça girando, Stanford conseguiu se virar e ficar de pé, cambaleando. Foi quando ele viu o Stanbô indo atrás do desestabilizador quântico, que tinha caído no chão.

— Ah, não, nem pensar!

Enquanto o robô estava se abaixando para pegar a arma, o velho foi voando para cima dele e lhe meteu um chute na cabeça, que girou no pescoço e fez o robô perder o equilíbrio.

— Fim da linha pra você.

Ford estava prestes a dar um golpe final no robô, mas percebeu uma luz piscando no peito dele. Rapidamente, rolou no chão para se proteger.

CABUM!

Metade da sala estava em chamas. O robô se reduzia a pedaços de metal atirados pelo recinto. O desestabilizador quântico, ainda segurado pela implacável garra decepada, tinha sido carbonizado.

Ford se levantou e engoliu a saliva amargamente, lamentando-se por perder sua arma em um momento tão crucial. Um código de auto destruição. Essa tinha sido uma boa jogada. Ford sentiu-se estúpido por não ter previsto nada do tipo, mas não era hora de ficar pensando. Era hora de pegar o jipe e tentar impedir uma tragédia.

— Bill… — Dipper implorava, tentando chegar mais perto do amigo. — Não estou me despedindo porque ainda não acabou! Você ainda tem escolha!

O demônio sacudiu a cabeça e soltou uma risada dolorida.

— Você não entende… Meu tempo aqui acabou, Dip. Se eu ficar mais, corro o risco de desaparecer.

— Você tá de brincadeira.

— Não estou.

— E só agora que você me diz??

Bill aproximou-se mais do portal.

— Espero que me perdoe um dia.

— Não, você não… — O humano balbuciou, seu rosto pálido e olhos arregalados. — Por favor, vamos conversar.

— Adeus, Dipper. Foi bom te conhecer.

— Não!

Era como se a cena tivesse congelado. Enquanto Bill consumava o último passo, Dipper saltava para impedí-lo e sentia o coração desmoronar. Sabia que estava longe demais para segurá-lo.

Será que era assim que tudo terminava?

Ele não estava pronto para se despedir.

Então, como em um passe de mágica, a cena descongelou. Dipper desabou em cima de Bill e o derrubou. Quando menos esperava, tinha conseguido impedi-lo de passar e o portal estava desativado. A vibração se dissipava pelo ar, e o som de desligamento invadia seus ouvidos. O que aconteceu?

Quando se deu conta, Stanford tinha aparecido e levantado Bill do chão pelo colarinho com força brutal. Estava vestindo suas botas grosseiras habituais e um casaco longo. Tinha um grande fuzil nas costas e um brilho assassino no olhar.

Com um só movimento, ele arrancou o tapa-olho de Bill, deixando seu olho amarelo reptiliano exposto.

— Eu disse que você não ia escapar.

O demônio suava e rangia os dentes, Dipper olhava para a cena embasbacado.

— Bom trabalho, Dipper — disse o tio-avô, sem tirar os olhos do demônio.

Notas finais
Lamento dizer que agora eu entendo a vontade de alguns leitores de que tivesse cena +18. Infelizmente, porque não cabe na história ahahahahahahaha (além disso, não sei se teria problemas por eles serem adolescentes) Mas, na minha cabeça, eu poderia ter continuado algumas cenas.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.